• Sonuç bulunamadı

O desejo no eixo imaginário corresponde ao desejo do outro, isto quer dizer que o sujeito não tem “uma identidade”, sendo assim necessário que ele se “apoie” em algo situado fora de si, modelando-se à imagem e semelhança de um pequeno outro. É a partir dessa relação que o sujeito poderá tirar uma orientação para sua conduta. O outro, tomado como uma imagem mais consistente e fascinante, então, será uma espécie de ponto de apoio, de que o sujeito precisará para saber como deve pensar, agir, sentir, etc. Portanto:

Ao afirmar que o desejo é o desejo do outro, a psicanálise ressalta que, mais do que qualquer objeto positivamente buscado na realidade, o que nos interessa é o objeto enquanto sendo alvo do querer do outro. “Eu quero o que o outro quer” querendo dizer “eu quero porque é o outro quem quer”. O que me faz falta é aquilo que falta ao outro (LUSTOZA, 2006, p.47).

No eixo simbólico, caberá ao Outro a função de oferecer as coordenadas a partir das quais o imaginário se estruturará. Isto é, cabe ao Outro simbólico homologar o valor das imagens. Diz Lustoza (2006, p.50):

Uma outra maneira de apreendermos a função do Outro simbólico é recorrendo às primeiras formulações lacanianas, em que o Outro é apresentado como prévio ao sujeito. O sujeito ao vir ao mundo já encontra o Outro como uma ordem dada, uma organização que preexiste ao seu nascimento. O Outro constitui uma ordem na medida em que circunscreve uma série de lugares, cabendo aos sujeitos ocupar este espaço no qual está previamente inscrito. Ao preencher tais lugares, os sujeitos assumirão características específicas. Ao Outro caberá então desempenhar um papel fundamental na constituição do sujeito.

Interessante pensar que a descrição dos alimentos (lembrando que o alimento aqui é representado pelo objeto a), objeto de desejo do faminto, é descrito / simbolizado pelo poderoso ancião de barbas brancas:

Que prazer tu me dás, ó senhor meu hóspede! Mas penso que não mereço esses elogios, senão que dirás tu das iguarias que estão à sua esquerda, este assado com recheio de arroz e amêndoas, este peixe em molho de gergelim, ou estas costelas de carneiro! E que dirás do aroma? (NASSAR, 2002, p.82).

Em princípio não há qualquer alimento, somente há sugestão e é a partir dessa sugestão, que a fome se transmuta em desejo.

Porém, o grande Outro é incompleto, trata-se de Outro a quem falta alguma coisa também. Nesse sentido, é possível entender o sentido simbólico da afirmação de que o desejo é, antes, o desejo do Outro. Por exemplo, no caso da descrição dos alimentos pelo ancião, o mendigo ou faminto começa a imaginar e a desejar a partir das indicações semânticas do barmecida, de forma que o desejo se constrói de acordo com as coordenadas (desejo) deste. As coordenadas, ou melhor, a estrutura, é, por isso, “herdada” ou incutida.

Dentro da perspectiva lacaniana, o desejo é uma falta, então, o objeto que falta ao sujeito é o desejo do Outro. Assim, o desejo do sujeito - ou seja, aquilo que falta ao sujeito - é de cavar a falta no Outro: “Aquilo que falta ao sujeito é que algo falte ao Outro. O que faz falta ao sujeito é que uma falha atravesse o Outro, e para produzir isso o sujeito se oferece como causa do desejo do Outro, como aquele que cava um buraco no Outro e o torna desejante” (LUSTOZA, 2006, p.51).

Foi preciso, por exemplo, que o mendigo aparecesse para que o ancião de barbas brancas pudesse propor sua “brincadeira”, isto é, pudesse, assim,vivenciar seu próprio desejo a partir de suscitar o desejo no outro, se pensarmos nesse trecho a partir dessa proposta.

Nesse sentido, de acordo com Lustoza (2006), é preciso, então, que o sujeito responda a pergunta sobre o que o grande Outro quer para poder, ai sim, constituir-se como desejante. Porém, o motivo do desejo do Outro não pode ser aquilo que o Outro pede ou quer, afinal o desejo do Outro não pode ser de fato atendido, ou melhor, não pode ser satisfeito completamente.

Por isso, quando o sujeito se oferece como o que falta ao Outro, isso não quer dizer que ele está ao alcance de satisfazê-lo. A satisfação é sempre parcial, fazendo com que um resto escape. Esse resto é fundamental para o relançamento do desejo. Então, a única forma do sujeito se ligar ao Outro é tentando coincidir com aquilo que escapa à sua satisfação. Portanto, quando o sujeito se oferece ao Outro, não é para preencher a falta no Outro totalmente, mas antes para cavar essa falta. Pois, é a reprodução da falta no Outro que assegura a reprodução da falta no sujeito. O sujeito procura, então, reavivar a falta no Outro.

A dança gestual entre barmecida e faminto com a falsa comida parece metaforizar essa relação. Os dois parecem fazer um contrato entre si de que satisfazendo o desejo do Outro (barmecida) de topar a brincadeira, o sujeito terá o seu desejo

(suporte: alimento / fome) satisfeito. Mas isso não ocorre de fato, como afirma André por meio de sua versão da história.

É a partir do grande Outro que o mundo passa a ter sentido para o sujeito, a partir de uma espécie de sistema de pensamento graças ao qual o sujeito pode entender a realidade. Mas, como se sabe, não há um sistema de pensamento totalmente acabado, sem lacunas, completamente coerente. Assim, dentro das coordenadas de avaliação fornecidas pelo Outro, circularão pontos de incompreensão.

Essa incompreensão ou mesmo impasse na simbolização é o que Lacan entende como objeto a, isto é, o resto que colocará o desejo em movimento:

O objeto a é, ao mesmo tempo, a areia que emperra o funcionamento azeitado da máquina simbólica, e também o que impele a máquina a se movimentar. O objeto a é simultaneamente o que constitui um obstáculo para o pensamento, e o que aciona o trabalho psíquico de tentar dar conta dele (LUSTOZA, 2006, p.).

Nas palavras de Lacan: “quanto mais o homem se aproxima, cerne, afaga isso que ele acredita ser o objeto de seu desejo, mais ele se desvia, se extravia dele” (Lacan, 2004, p. 52).

Entretanto, o papel desempenhado pelo objeto a mobiliza uma nova dimensão do desejo do Outro, para além do simbólico, ou seja, o desejo do Outro entendido agora como real (LACAN, 2004). No momento em que a emergência do desejo do Outro é entendida como real, a angústia se faz presente como afeto preponderante.

Mas o que isso quer dizer de fato? Ao contrário do que se pensa a angústia não é o encontro com algo que constitui uma exceção à norma. A anomalia poderia até, além de causar a angústia, suscitar o próprio desejo. Para Lacan (2004), se justamente a norma falta – o que faz tanto a anomalia como o que faz a falta - a angústia aparece. A angústia é, portanto, suscitada, não quando a norma é violada, e sim quando a própria norma vem a faltar, quando não existe a própria regra que permitiria que os objetos fossem distribuídos em normais ou anômalos.

Assim, a angústia ocorre quando o Outro se apresenta como desregrado, quando ele não obedece ou simboliza uma norma concebível ou representável. Isso tudo terá como resultado o fato de que aquilo que antes era claro e distinto se tornará obscuro e confuso; de acordo com Lustoza (2006), em termos freudianos, unheimlich (estranho familiar)74.

      

74 Diz Freud: “O estranho é aquela categoria do assustador que remete ao que é conhecido, de velho, e há

Então, a angústia acontece quando somem as coordenadas simbólicas que possibilitavam o sujeito:

[...] situar-se, apreender-se como algo cuja existência pode ser testemunhada por um ponto de vista qualquer. É como se o sujeito estivesse dentro do campo visual do Outro, sem que saiba de que ponto de vista é olhado. O olhar vazio e fixo de um morto ilustra esse Outro irrepresentável: a perspectiva do Outro se opacifica, e essa impossibilidade de representar o Outro será vivida, conseqüentemente, como uma abolição de si mesmo. É como se a estrutura da doação retroativa de sentido operada pelo Outro ficasse momentaneamente interrompida, como se fôssemos objeto de um olhar que não retorna para nós qualquer mensagem, acarretando, por conseguinte, o desaparecimento do sujeito enquanto entidade simbólica. O problema é que na angústia ocorre uma modificação do papel desempenhado pelo Outro, de tal forma que, enquanto o Outro simbólico seria incompleto, o Outro real seria inconsistente. A inconsistência aparece quando o Outro se apresenta como contraditório, incoerente, paradoxal.

Se traçássemos um paralelo entre a teoria e o trecho estudado da obra, poderíamos pensar que a angústia é desvelada por André em relação à parábola do pai. Ele, de alguma forma, entende que há inconsistência nos sermões proferidos pelo pai. Entretanto o jogo entre “desejos” (o desejo tomado pelo senso comum) é mais facilmente visualizado pelo mendigo e ancião de barbas brancas, que estamos tomando como metáforas do pai e do filho, como facetas da mesma relação.