2. KAVRAMSAL ÇERÇEVE
2.5. Çalışma Yaprakları
Nesse momento da pesquisa, lançaremos mão das contribuições da Teoria Semiolinguística (TS) de Patrick Charaudeau, vertente teórica que traz apontamentos relevantes para o entendimento da noção de gênero. Assim, damos continuidade à compreensão do artigo de opinião enquanto gênero discursivo, agora a partir da relação estabelecida com o seu suporte em seu espaço de divulgação.
Concordamos com Charaudeau (2004) acerca da complexidade que a noção de gênero impõe, devido às diferentes facetas e abordagens que podem ser desdobradas. Não obstante, optamos por admitir essa tarefa, certos de que quaisquer incompletudes podem abrir caminhos para pesquisas futuras, notadamente no campo da Linguística Aplicada, que se dediquem a um olhar mais aprofundado acerca das especificidades dos gêneros discursivos a partir de seu suporte.
Assim, consideramos que o linguista Patrick Charaudeau, em trabalhos que abordam a questão dos gêneros discursivos, traz nova luz aos estudos genéricos na esteira bakhtiniana, por meio de uma abordagem que leva em conta a ancoragem social que atravessa os gêneros, com o auxílio de sua TS. Devem-se, então, à aproximação que esse autor propõe entre a AD e os estudos sobre gêneros na perspectiva de Bakhtin as considerações que faremos a seguir.
Segundo o estudioso francês, a questão dos gêneros não literários foi, ou ainda é, abordada a partir dos seguintes elementos: suas características formais; a definição dos tipos de organização discursiva; as funções da atividade linguageira ou, ainda, por meio da determinação de situações de comunicação, que definem o gênero com base em sua ancoragem social (CHARAUDEAU, 2010). É sobre essa perspectiva, da ancoragem social,
14 Os 14 artigos que compõem o nosso corpus foram retirados da versão online do Boletim UFMG, na seção
que continuaremos nossos esforços para trabalhar a noção de gênero discursivo nessa dissertação.
Charaudeau (2004) define que a ancoragem social funda os gêneros e os une a práticas sociais diversas na sociedade. Sobre tais práticas, o autor afirma que podem assumir o papel de ponto de referência para a troca verbal ou, ainda,
[...] podemos chegar a considerá-las como um campo estruturado (no sentido de Bourdieu), onde se instauram relações de forças simbólicas entre os atores, relações de forças mais ou menos hierarquizadas e institucionalizadas segundo o campo concernido (CHARAUDEAU, 2004 p. 1).
Segundo o linguista francês, a partir de conceitos desenvolvidos pelo sociólogo Pierre Bourdieu, é no domínio dos campos, ou da “prática linguageira”, que a identidade dos atores e os papéis que representam fazem com que as significações discursivas circulantes sejam dependentes da posição dos sujeitos enunciadores. Ou seja:
Radicalizando este ponto de vista, poderíamos dizer que é o estatuto do ator social e o papel que ele representa que são determinantes para julgar a conformidade de um discurso em relação ao domínio no qual ele é produzido. Assim, todo discurso seria
marcado por uma certa “performatividade”, desde que o ator social, que está na
origem enunciativa, fosse reconhecido em seu estatuto : não é mais o que é dito que conta, mas a origem enunciativa externa do que é dito (CHARAUDEAU, 2004, p. 2)
Por essa óptica, a significação dos discursos seria dependente do estatuto legitimado do produtor do ato de linguagem, mais do que de seu papel de sujeito enunciador. Nesse contexto, Charaudeau (2004) completa que, qualquer que fosse a maneira de falar, seria produzido um discurso típico do domínio em que se encontra. Vejamos o exemplo apresentado pelo linguista:
[…] o padre que batiza poderia também dizer “Eu te condecoro” no lugar de “Eu te batizo”, o que quer dizer que não existiria características discursivas próprias a um
domínio: pertenceria ao gênero político todo discurso produzido no domínio de prática política, ao gênero midiático todo discurso produzido no domínio de prática das mídias, ao gênero científico, todo discurso produzido no domínio de prática das ciências, etc. (CHARAUDEAU, 2004, p. 2).
No que diz respeito à situação de comunicação, podemos afirmar com Charaudeau (2010), que ela determina o lugar da troca linguajeira e as condições de produção; é o ambiente de realização do ato de linguagem. Dessa forma, é a situação de comunicação que funda a legitimidade dos falantes, firmando, assim, o contrato de comunicação da Teoria
Semiolinguística; e também na situação de comunicação que se instituem restrições que vão determinar a expectativa de troca. Assim, Charaudeau (2004) afirma que tais restrições são ligadas à identidade dos parceiros, ao lugar que ocupam na troca, à finalidade discursiva, no sentido de visadas, ao propósito convocado e às circunstâncias materiais de realização da troca linguageira. Nesse sentido, é pertinente pensar que situações que partilhem características predominantemente semelhantes terão o mesmo domínio de comunicação.
É oportuno destacar, ainda, outros elementos relacionados por Charaudeau e Maingueneau (2008) acerca da situação de comunicação. Referimo-nos aos implícitos que permeiam os atos de fala e os sentidos de um enunciado em relação ao posicionamento ideológico de quem o pronuncia. Tais elementos tornam a interpretação dos enunciados sujeita a dados que são como instruções situacionais, favorecendo a compreensão (CHARAUDEAU; MAINGUENEAU, 2008).
Sobre a noção de contrato, vemos que ele valida o ato de comunicação e regula as condições da troca comunicativa. Assim, nas palavras de Charaudeau e Maingueneau (2008, p. 132), o contrato de comunicação seria definido como
[...] o conjunto das condições nas quais se realiza qualquer ato de comunicação (qualquer que seja sua forma, oral ou escrita, monolocutiva ou interlocutiva) é o que permite aos parceiros de uma troca linguageira reconhecerem um ao outro com os traços identitários que os definem como sujeitos desse ato (identidade), reconhecerem o objetivo do ato que os sobretermina (finalidade), entenderem-se sobre o que constitui o objeto temático da troca (propósito) e considerarem a relevância das coerções materiais que determinam esse ato (circunstâncias).
Para que o contrato de comunicação ocorra, é necessário atender a quatro princípios: de interação, de pertinência, de influência e de regulação. Charaudeau (2012) aponta que o princípio de interação define o ato de comunicação entre dois parceiros que se situam em relação não simétrica de troca. Essa relação é assimétrica porque os parceiros possuem objetivos diferenciados na relação: enquanto um produz e emite a palavra, o outro tem a função de recebê-la e interpretá-la. A ligação entre esses dois parceiros se dá por um reconhecimento desses papéis, que coexistem quando o interlocutor engaja-se no processo de interpretação, tornando-se, por conseguinte, um parceiro-interlocutor (ou destinatário-leitor), situando o emissor como seu parceiro-locutor.
No princípio de pertinência, há necessidade de que o interlocutor, ou mesmo o destinatário, seja capaz de presumir a existência de uma intenção do locutor por meio de um projeto de palavra, pois é ele que confere motivação ao ato de linguagem. Outro fato importante é que locutor e interlocutor tenham em comum um mínimo dos dados acerca desse
ato para que ele possa se realizar, ou seja, é imperioso que os parceiros reconheçam a existência de saberes, valores e normas sobre o mundo – saberes compartilhados – que acabam por regular comportamentos sociais por meio de rituais linguageiros. Sem tais saberes, não haveria como estabelecer compreensão mútua e a pertinência do ato de comunicação. No caso da argumentação presente no artigo de opinião, é necessário que os parceiros reconheçam o gênero a partir de suas características de estrutura mais ou menos estáveis, além de outros elementos de organização textual.
O princípio de influência leva em consideração que a motivação do sujeito falante é determinada por uma finalidade acional, o que torna importante que o falante tenha em
mente um “como falar” para agir sobre o outro. Por conseguinte, o locutor irá estabelecer
estratégias que dependerão das imagens que ele fará sobre seu parceiro de comunicação. Tais imagens levarão em conta, por exemplo, se o parceiro é favorável, desfavorável ou mesmo indiferente ao seu projeto de influência. Destarte, o locutor procurará estratégias para deter o controle dos objetivos da comunicação.
Por último, Charaudeau (2012) chama a atenção para o princípio de regulação, as condições para que os parceiros entrem em contato e se reconheçam como legitimados, bem como as condições para que a troca ocorra, dado que o princípio de influência estabelece uma relação de luta discursiva. É, portanto, o princípio de regulação que permite ao comunicante compor estratégias para assegurar a continuidade ou a ruptura da troca discursiva. No caso dos artigos de opinião, há dois parceiros: o articulista e o leitor. Este é múltiplo em suas características e identidades, e irá regular as trocas num processo de identificação (ou não identificação) com o posicionamento trazido pelo locutor (o articulista).
Outra importante consideração acerca do contrato de comunicação, presente em Charaudeau e Maingueneau (2008), diz respeito ao fato de que ele constitui uma chamada
“memória coletiva” nos seres de linguagem, ancorada “sócio-historicamente”, que faculta,
ainda que parcialmente, que um ato de comunicação possa ser compreendido pelo sujeito interpretante. Por essa razão, ao se deparar com um artigo de opinião, ainda que não saiba exatamente a temática em jogo no texto, o sujeito interpretante que esteja minimamente habituado a textos da esfera jornalística torna-se capaz de reconhecer o gênero, sabendo que naquele texto um especialista trará seu ponto de vista sobre determinado assunto. Esse reconhecimento pode se fazer por meio de recorrências formais, como o estilo, titulação, a extensão do texto, conectores, nome do articulista que assina a publicação, entre outros elementos.
Nessa noção de “memória coletiva”, encontramos correspondência com o
conceito de enunciado em Bakhtin, capaz de consolidar um conjunto de componentes mais ou menos estáveis - os gêneros discursivos. Dessa forma, concordamos mais uma vez com Charaudeau e Maingueneau (2008) ao dizerem que a teoria do contrato vai ao encontro de
uma teoria do gênero, “[…] pois pode-se dizer que o conjunto de coerções trazido pelo contrato é que define um gênero de discurso” (p. 132). Em posição semelhante, Maingueneau
(2002) aponta elementos importantes para a concepção de um gênero discursivo: a finalidade reconhecida, o estatuto de parceiros legítimos, momento e lugar legítimos, o suporte material e também a organização textual. Vemos, então, que para a compreensão do artigo de opinião na perspectiva da TS é imperioso relembrar a situação de comunicação na perspectiva charaudiana, espaço em que o contrato é supostamente partilhado.
1.2.4 O artigo de opinião como gênero discursivo no contexto jornalístico: delineando outros