2. TÜRKİYE’DE KADIN HAKLARIYLA İLGİLİ YAPILAN ÇEŞİTLİ
2.3. Çalışma Hayatında Kadın
Com essa imagem de poeta em mente (a breve e leve imagem que Horácio, de modo nada gratuito, construiu de si no fim do livro primeiro das Epístolas e que encontra eco na Ep. 1, 8), vejamos a, no mínimo, intrigante forma como, na AP, é construído o caráter da criança, pensada, no caso, mais como elemento de composição de personagens na poesia dramática, tendo, de qualquer modo, como horizonte a ideia de decoro (decens) poético (AP, 158-160):
Reddere qui uoces iam scit puer et pede certo signat humum, gestit paribus conludere et iram
colligit ac ponit temere et mutatur in horas. 160 Criança que entoar a voz já sabe e, pé seguro,
marca o chão quer com pares jogar e se ira
à toa e se acalma e se transforma a toda a hora. 160
É realmente notável a semelhança entre essa e a passagem da Ep. 1, 20 em que Horácio diz de “si próprio” e com cuja análise encerramos o item anterior. C. O. Brink (1971, p. 234) e F. Citti (2000, p. 51-2) já haviam chamado a atenção para o ponto de contato que se pode estabelecer entre esses dois trechos. É algo, de fato, evidente. Em ambos os autores, contudo, nenhuma consequência, do ponto de vista da produção ou geração de sentidos, foi vislumbrada. Eles simplesmente apontam a semelhança, sem mais. Para nós, no entanto, a semelhança é apenas o ponto de partida. Produtivo e fecundo.
O trecho da AP, de fato, é um curto excerto de uma passagem um pouco maior que, em uma das tradicionais divisões temáticas que se costumam propor para o poema, trata, de modo geral, do teatro. Horácio passa a oferecer aos Pisões uma série mais ou menos longa de preceitos ou “lições” sobre como, num sentido mais estrito, ser um bom escritor de poesia dramática. Isso acontece a partir do v. 153 e se estende até o v. 294, quando então o assunto é trocado. Um dos temas do drama que mereceu mais destaque, ainda segundo esse ponto de
176 vista evidentemente, é a necessidade de conveniência dos papéis.378 Uma questão não só de decoro poético, como havíamos adiantado, mas também de consciência da passagem do tempo, reminiscência do carpe diem, como bem notou K. Reckford (2002, p. 10-2). A tipologia horaciana das idades, quadripartida (puer, iuuenes, uir e senex) é, nesse aspecto específico, um pouco diferente do tripartite esquema aristotélico (“juventude”, “maturidade” e “velhice”), a que temos acesso por meio da Poética e da Retórica.379 A pequena diferença, na
verdade, mais individualiza nosso poeta do que, efetivamente, o distancia de Aristóteles, cuja obra, pelo que normalmente se costuma dizer, é uma das “fontes” da AP.380
Nesse contexto, o caráter da criança é sempre considerado obviamente de um ponto de vista da possibilidade de reconhecimento pelo público de uma personagem como criança, um critério de qualidade da peça, uma questão de conveniência. Na passagem, isso é construído linguisticamente de um modo particular. O grande traço do caráter infantil parece ser a volubilidade, e o polissíndeto do período (et... et... ac... et...) é muito eficaz para produzir a forte sensação de inconstância da criança, e contribui para o efeito a quase excessiva quantidade de verbos (são oito, no total, em apenas três versos!), reproduzindo ações que se seguem uma à outra de um modo atropelado e incontrolável. É, aliás, esse traço, sobretudo, que, numa primeira leitura, erige o elemento de conexão entre o Horácio do fim da Ep. 1, 20 e o caráter da criança: a volubilidade.
Por outro lado, quanto à criança especificamente, o elemento de sabedoria (scit, v. 158) dá um sabor especial ao trecho, pois contrapõe essa vacilante inconstância do puer a uma espécie de saber. Estamos, pois, diante de um puer qui scit (“criança que sabe”). Que sabe, porém, o quê? Essa é a primeira pergunta que nos ocorre. Poderia ter a criança, enquanto personagem dramática, alguma espécie de sabedoria ou seriedade, como o têm a puella ludens e os pueri ludentes? Vejamos. Com efeito, desde o princípio, o sintagma de abertura do trecho
reddere qui [...] scit nos remete ao início da seguinte passagem, ela também da AP: ludere qui nescit, campestribus abstinet armis, / indoctusque pilae disciue trochiue quiescit (v. 379- 80),381 abertura de um trecho que, diretamente endereçado ao filho mais velho da família dos
378 A questão da conveniência das personagens, na AP, é emoldurada por dois trechos que encerram preceitos
diretos a esse respeito: Aetatis cuiusque notandi sunt tibi mores, / mobilibusque decor naturis dandus et annis. “De cada idade, observes conveniente os hábitos, / aliando os papéis à passagem dos anos” (v. 156-7); no fecho,
Ne forte seniles / mandentur iuueni partes pueroque uiriles; / semper in adiunctis aeuoque morabitur aptis. “Não se incumbam / papéis de velho a jovens, nem de homem a crianças; / sempre se atentará ao caráter da idade.” (v. 176-8).
379 Cf. C. O. Brink (1971, p. 228 e ss.). 380 Cf. R. Glinatsis (2010, p. 176 e ss.).
177 Pisões, é encerrado com o verso qui nescit, uersus tamen audet fingere. Quidni? (v. 382, grifos nossos).382 Essa reminiscência literária, fruto da confluência de reddere qui scit (v. 158), ludere qui nescit (v. 379) e qui nescit fingere (v. 382), todos sintagmas em início de verso, para além das possibilidades que ela própria esgota em si, nos faz, pela conexão contrastiva entre os verbos scit e nescit e a afinidade temática das ações expressas pelos verbos ludere, fingere e reddere, desconfiar seriamente de outros três sintagmas do mesmo período: pede certo (AP, 158), signat humum e conludere paribus (AP, 159). Analisemos, então, um a um, para sentirmos as possibilidades de sentido que sugerem, individual e ainda conjuntamente. E, como vamos, mais uma vez, propor uma leitura em chave metapoética, para robustecer ainda mais a argumentação e amparar a interpretação da passagem a partir desse tipo de abordagem, passemos em revista algumas ocorrências deles nas Epístolas.
Comecemos por reddere uoces. A criança não detém, de fato, um tipo qualquer de saber. Ela sabe reddere uoces (v. 158), a significativa abertura do verso. Seria mesmo simplesmente uma criança que já sabe falar, como tradicionalmente se pensa?383 Será que nos é realmente suficiente o escólio do pseudo-Acrão segundo o qual seria uma criança qui iam
potest loqui (cf. BRINK, 1971, p. 233)? Ou o de Porfirião, que, por sua vez, nem sequer comenta a passagem – ou seja, estamos, para ele, diante de algo que, desde sempre claro e evidente, dispensa o aclaramento de um mínimo comentário. Pensamos que não. E é isso que defendemos aqui. Sob a capa do uso comum, escondem-se sentidos latentes, queridos ou não pelo autor, aí conscientemente existentes ou não. Sensíveis, no entanto, ao leitor atento. Pensamos mesmo que pode ser mais. Mas qual seria ou poderia ser, então, o sentido da expressão, segundo a nossa proposta?
Facilmente encontrado na própria AP em contextos diretamente metaliterários, o verbo reddeo, no seio de um enquadramento didático sobre poesia dramática e às vezes sobre poesia em geral, se faz presente em muitos momentos realmente cruciais para a chamada poética horaciana. As principais e mais eloquentes e, por essa razão, merecedoras de nossa referência e análise são três. Eis a primeira:
In uerbis etiam tenuis cautusque serendis dixeris egregie, notum si callida uerbum
reddiderit iunctura nouum. (AP, 46-8)
Nas palavras, sutil e esmerado ao tramá-las,
382 “Quem não sabe ousa forjar versos. Por que não?” 383 Cf. BRINK, 1971, p. 223 e RECKFORD, 2002, p. 11.
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serás distinto se uma astuta união tornar nova a palavra usual. (grifos nossos).
A callida iunctura (“astuta união”) tornou essa passagem famosíssima. De fato, ela é um dos conceitos da poética de Horácio que mais despertou a atenção da crítica através dos tempos, talvez menos por sua real importância no contexto da própria poética horaciana do que pela sua obscuridade. Não foram poucos, de fato, os que se esforçaram em lhe aclarar os contornos, seja a partir de uma abordagem intertextual, seja a partir de um ponto de vista mais imanente.384 Isso, contudo, nos importa menos do que perceber que, na estrutura do período sintático da passagem acima, é exatamente ela que (não) curiosamente ocupa a posição de sujeito do verbo reddere (“tornar”, v. 48). Mas a sua quase personificação, enaltecedora e individualizadora sem dúvida, não esconde o papel decisivo do escritor que a maneja bem. Quem se distingue mesmo, nesse processo criativo, é – o trecho é claro – o destinatário da carta e candidato a poeta que pode (ou deve) instrumentalizá-la e explorá-la de um modo adequado à sua trama textual. Manejada ou não, personificada ou não, a iunctura, portanto, pensada como estratégia na lida com as palavras, tem, especialmente quando callida, o condão de tornar (reddere) nova uma palavra já desgastada pelo uso. A passagem ou mudança de estágio que se processa pelas mãos do poeta é marcada, notemos, pelo verbo reddere, que, nesse particular, ganha sensíveis cores literárias.
Outra ocorrência do verbo, não menos famosa e não menos presente na fortuna crítica da AP, está relacionada (ou é tradicional e reiteradamente lida assim) à tradução. Costuma-se invocá-la para defender pontos de vista a respeito da tradução entre os antigos ou, pelo menos, entre os romanos do período clássico (séc. I AEC).385 Mas não é só à tradução que podemos associar o trecho. Há, também, nele implicado, a noção de imitatio. De fato, sempre que se quis perscrutar o funcionamento da imitatio na obra horaciana, essa passagem foi invariavelmente citada e comentada.386 Eis a passagem:
Publica materies priuati iuris erit, si
non circa uilem patulumque moraberis orbem, nec uerbo uerbum curabis reddere fidus interpres nec desilies imitator in artum,
unde pedem proferre pudor uetet aut operis lex. (AP, 131-5)
384 A mais recente no Brasil é possivelmente a de G. Flores (2014, p. 59-88). A partir de um ponto de vista da
“poética do traduzir”, o autor apresenta interessantes nuanças de sentido que se podem atribuir à expressão.
385 Cf. a recente tese de G. Flores (2014, p. 175), que cita a expressão fidus interpres, tirada da AP, num
comentário sobre a tradução de Elpino Duriense das Odes.
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De direito privado será o tema público, se em ciclo vil aberto a todos não te tardas, cuidas de não tornar palavra por palavra qual tradutor fiel, nem imitador pules
no aperto onde pudor prenda o pé, ou lei de obra. (grifos nossos).
A ideia de que algo de pessoal (priuati), em clara oposição ao material que está à disposição de todos (publica), é preciso na composição poética é o que vem expresso aqui. Por isso, o cuidado de não “verter” palavra por palavra (v. 133). A fidelidade cega de um
fidus interpres ou o servilismo subserviente de um imitator são decisivamente rechaçados (como em Ep. 1, 19, 19-20). De qualquer modo, a despeito da exuberância semântica em que aqui nos imergimos, um aspecto nos parece mesmo relevante e é produtivo agora. Trata-se do verbo que representa o ato de “tornar”, “verter” ou “traduzir” (reddere, v. 133).
É muito interessante, nesse particular, que todas as “lições” expressas nessa curta passagem tenham uma expressão negativa (non... nec... nec...), voltadas, então, exatamente para o que não se deve ou não se pode fazer. Nunca para o que fazer. O viés didático se ressente de taxatividade. O que, de modo geral, parece um pouco diferente das específicas promessas de ensino que o ego loquens da AP faz, num trecho em que reddere também comparece e cumpre um importante papel. Ei-lo:
Ergo fungar uice cotis, acutum
reddere quae ferrum ualet exsors ipsa secandi; 305
munus et officium, nil scribens ipse, docebo, unde parentur opes, quid alat formetque poetam,
quid deceat, quid non, quo uirtus, quo ferat error. (AP, 304-8) Eu serei como o esmeril,
que, embora sem corte, torna o ferro afiado. 305 Ensinarei, nada escrevendo, ofício e múnus,
dos recursos a fonte, o que forma o poeta,
o que é decente, a via da virtude, a via do erro. (grifos nossos).
A atividade de ensino de Horácio ganha, nessa passagem, um estatuto especial. Transforma-se no ofício do poeta. A negatividade que preponderava na passagem anterior dá lugar nesta para a afirmação positiva do ofício e do múnus (munus et officium, v. 306), da fonte dos recursos poéticos (opes, v. 307), da formação do poeta, do decorum e dos caminhos certos e errados (v. 306-8). Comparece aqui também o mote irônico da recusatio. Em nihil
scribens (v. 306), podemos mesmo sentir um leve sabor de desfaçatez irônica, de nuanças claramente dissimuladoras. E o verbo reddere é mais uma vez utilizado em uma ação, ligada diretamente ao poeta, que importa uma efetiva transposição: reddere ferrum acutum.
180 Vimos que, em todos os três trechos acima,387 o verbo reddere é invariavelmente utilizado para expressar ações típicas daquilo que podemos chamar de escritor (scriptor) ou poeta (poeta), segundo obviamente a concepção de Horácio, ou, no mínimo, ações com estrita vinculação à prática literária em geral: a escrita. Seja, metonimicamente, como callida
iunctura, seja como fidus interpres, seja como o exsors, no símile do último trecho, o poeta é sempre sujeito (não sintático, obviamente) de reddere, exatamente como o é a imagem da criança que sabe (puer qui scit, AP, 158). É um significativo ponto de encontro entre o poeta e a criança. Pensando nesses termos, é realmente impossível não considerarmos que, no trecho sobre o caráter da criança, a carga semântica do verbo reddere está ou pode estar repleta de elementos metaliterários.
Com efeito, em todas as ações expressas pelo verbo, há uma clara exigência de ativa atitude. O exercício de uma certa liberdade. Sempre há, em relação ao material sobre o qual se trabalha, seja ele qual for, a necessária passagem de um estado para outro. Uma genuína transformação. Nunca uma travessia pela qual o objeto (nem o sujeito!) passa ileso. O verbo não é simplesmente de ligação. A palavra “usual” se torna “nova” (notum e nouum), o ferro, antes rombudo, se torna afiado (acutum). A transposição “tradutória” não pode ser “palavra por palavra” (uerbo uerbum). Eis o corte da ironia, a incisão da palavra. A criança, segundo a imagem que se constrói no trecho, não simplesmente sabe, de um modo passivo, “‘devolver’ as vozes que ouviu” ou “falar” ou “reproduzir sons de fala”. Não. A criança, de fato, se expressa. Já tem capacidade de fazê-lo. Sabe. É a isso que somos levados na continuação da leitura do trecho. Assim, mais do que simplesmente “comunicar-se” (reddere uoces, “a voz entoar”, v. 158), a criança tem já condições de exercer alguma liberdade. De dizer algo próprio, capaz até mesmo de singularizá-la. E podemos ir além: pode se expressar com segurança. É exatamente isso que nos sugere também a ambígua expressão pede certo (v. 158), o pé seguro e endireitado, que encerra o verso e lida com algo do reino do passo medido e calculado. Do metro. O pé certo, que é, não tenhamos dúvida, ao mesmo tempo, o pé concreto e o pé métrico, ambos jovens, segundo a leitura que estamos a propor. É, de fato, isso que faz com que a criança atinja ela própria o patamar necessário para desejar brincar com os iguais (paribus conludere, v. 159, grifos nossos), parceiros no jogo, outras crianças também, pueri ludentes, como ela. Amigos. É como na epístola a Torquato, convite ao
387 Outras produtivas passagens, ainda no âmbito das Epístolas, poderiam ter sido invocadas. Por um imperativo
de concisão, contudo, preferimos apenas citá-las aqui: Ep. 1, 17, 25-7; Ep. 1, 14, 1; Ep. 1, 18, 13-4; Ep. 1, 18, 101; Ep. 2, 1, 34-5 (cf. p. 49 e ss., onde o trecho foi analisado); Ep. 2, 2, 155-6; AP, 9; AP, 316; e AP, 441.
181 banquete, convite à escrita (rescribe, Ep. 1, 5, 30), em cujo seio um dos horizontes, seja ele filosófico, seja poético, é cada qual dos convivas se unir a um par (ut coeat par / iungaturque pari, Ep. 1, 5, 25-6, grifos nossos). Ou como na fraterna reciprocidade da escrita e da lealdade na Ep. 1, 15, a Vala (scribere te nobis, tibi nos adcredere par est, v. 25). Estabelecer o laço de amizade: isso faz parte do jogo, de uma poética da amizade, como a horaciana.
Além disso, a segurança do “saber se expressar” e do “pé firme” vai encontrar seguro amparo ainda no instigante signat humum (“marca o chão”), sintagma privilegiado na abertura do v. 159 que nos faz lembrar de uma passagem manifestamente “literária” da AP, dirigida aos aspirantes a poeta e que trata da cunhagem de “nomes” com a marca do presente: licuit
semperque licebit / signatum praesente nota producere nomen (grifos nossos).388 Aqui, a expressão signatum nomen (“nome marcado”, “nome selado”) aponta para a produção de palavras, algo próximo do neologismo e, embora algo diverso na origem, também da callida
iunctura. Algo que tem, enfim, uma marca própria. Nesse mesmo sentido, M. Putnam (2006), apesar de o contexto ser um pouco diferente, chama a atenção para o verbo dissigno (Ep. 1, 5, 16), tradicionalmente associado ao “desselamento” de ânforas ou cartas (cf. CITTI, 1994, p. 184), e para as nuanças de sentido que se lhe podem estar vinculadas e, de algum modo, nos são inacessíveis. O estudioso americano se mostra bastante desconfiado (com razão!) a respeito do potencial semântico do termo,389 sobretudo pelas reverberações que se mantêm latentes. De fato, os verbos das Epístolas que nos conduzem à raiz de signo / signum (“marca”, “selo”) sempre estão a nos causar algum incômodo. Além dos exemplos trazidos por M. Putnam (testamenta resignat, Ep. 1, 7, 9; dissignator, Ep. 1, 7, 6; e cuncta resigno, Ep. 1, 7, 34), podemos, por não estarmos adstritos somente ao livro primeiro (vantagem da nossa leitura), incluir um bastante significativo. Trata-se do verbo adsigno, que, na Ep. 2, 1, a Augusto, ocorre em um contexto muito especial. No v. 8 do poema, ainda bem no seu início, quando Horácio, num contexto de tom algo elogioso, estabelece figuras como Rômulo e Líber Pai, Cástor e Pólux, como o padrão de comparação com o próprio princeps, os verbos que caracterizam as ações desses semideuses e heróis lendários são significativamente condo,
compono e adsigno. Sobre as reverberações metapoéticas dos dois primeiros, cf. o capítulo primeiro (cf. p. 50 e ss.), onde tratamos um pouco disso. Agora, um eventual caráter
388 “Pode e poder-se-á / sempre cunhar nomes com a marca do presente” (grifos nossos).
389 M. Putnam (2006, p. 394), depois de apresentar possibilidades interpretativas de cunho eminentemente
filosófico, desconfia do significado de dissignat (Ep. 1, 5, 16): “There may be a still richer meaning to dissignat” (“Deve existir um significado mais rico para dissignat.”), desconfiança, a propósito, à qual aderimos e que nos serviu de mote aqui.
182 metapoético para adsigno (“demarcar”) nos é até agora uma grata novidade. Ou melhor, era. A razoável desconfiança de M. Putnam parece, de fato, encontrar enfático e fecundo eco aqui. Não só no verbo ligado às figuras histórico-mitológicas, como também no sintagma signat
humum (“marca o chão”), que se refere à criança. Ou mais rigorosamente, à imagem de
criança que se constrói na AP. O menino não só pisa o chão, às vezes em vacilantes passos que calham à tenra infância, como se pode pensar numa primeira leitura, como também (e sobretudo) deixa e apõe a sua marca na terra. Tem um lugar. Existe. Já detém um saber. É, de fato, um puer qui scit. É essa mesma singularidade, aliás, que encontramos na Ep. 1, 13, onde vimos que os expressivos e ambivalentes signata uolumina (“os volumes selados”)390 podem
ser tanto as Odes, quanto as Epístolas. O selado (signatum), nessa ocorrência, pode ser, por um lado, o que recebeu lacre e está cerrado, ou seja, virou um produto (estético, no caso) e, por outro, a marca, a estampa do autor. É, enfim, a obra terminada e já assinada, como o são, mais explicitamente, a Ode 3, 30 ou a Ep. 1, 20. Como qualquer poema. Como as Odes. Como as próprias Epístolas.
Como o vinho. É também por isso que o nobre de Argos (Ep. 2, 2, 128-35),391 aquele que assistia a trágicos admiráveis num teatro completamente vazio, embora considerado “louco” pelos próximos (que, sem cautela, se apressaram a “curá-lo”), não se enlouqueceria (non insanire) com o selo rompido (signo laeso, Ep. 2, 2, 134). O rompimento da bilha, aliás, é o que pode dar acesso ao vinho. A inspiração, o vinho-poema.
Em todos os casos, ressaltemos, o que mais nos interessa é a ideia de que nisso está implicada a noção de individualidade. De direito privado (priuati iuris, AP, 131), se nos for possível e quisermos empregar um termo estritamente horaciano. O pé que, medido e vindo de alguém que sabe, pisa com segurança (pede certo) e, ao mesmo tempo, reverberando ritmicamente, marca o chão (signat humum), terreno poético, terreno do ludus, dá um lugar ao poeta. Torna-o sujeito. Distingue-o na cadeia tradicional, seja poética, seja filosófica, em que se insere. E, por meio de um simples raciocínio analógico, se os lendários heróis de outrora “demarcaram os campos e fundaram cidades” (agros adsignant, oppida condunt, Ep. 2, 1, 8), o puer poeta funda “terrenos” e abre caminhos todos eles poéticos, ação civilizatória que o
390 Cf. cap. 1, p. 68-75.
391 Fuit haud ignobilis Argis, / qui se credebat miros audire tragoedos / in uacuo laetus sessor plausorque
theatro, / cetera qui uitae seruaret munia recto / more, bonus sane uicinus, amabilis hospes, / comis in uxorem,
posset qui ignoscere seruis / et signo laeso non insanire lagoenae, / posset qui rupem et puteum uitare patentem. “Um nobre havia em Argos / que alegre cria ouvir trágicos admiráveis / sentado a bater palmas num teatro vazio; / ele faria bem as tarefas cotidianas, / seria ótimo vizinho, anfitrião amável, / delicado à esposa, escravos perdoaria, / não enlouqueceria com o selo rompido / da bilha, evitaria penhasco e poço aberto.” (grifos nossos).
183 torna ilustre. É nesse sentido, aliás, que lemos o trecho da Ep. 1, 19, que clara e frontalmente