“A história do esforço do homem para submeter a natureza é também a história da submissão do homem pelo homem: essa dupla história se reflete na evolução do conceito de eu”. (Max Horkheimer)160
Em 1908, Theodore Roosevelt
161, o Vigésimo Sexto Presidente dos
Estados Unidos da América (1901-1909), iniciou a Conferência sobre a Conservação
dos Recursos Naturais, salientando:
Enriquecemo-nos pela utilização pródiga dos nossos recursos
naturais e podemos, com razão, nos orgulhar do nosso
progresso. Chegou, porém, o momento de refletir seriamente
sobre o que acontecerá quando nossas florestas tiverem
desaparecido, quando o carvão, o ferro e o petróleo se
esgotarem, quando o solo estiver mais empobrecido, ainda
levado para os rios, poluindo suas águas, desnudando os
campos e dificultando a navegação.
158 “Aquilo que chamamos de crise ambiental não se reduz a ameaças aos sistemas ecológicos como água,
ar, florestas. Trata-se de uma concomitante, e também daquela decorrente, ameaça às condições sociais de existência. A expressão ‘crise ambiental` remete ao perigo as bases de sustentação do sistema produtivo vigente” (DERANI, Cristiane. Direito ambiental econômico, Op. cit., p. 80-81).
159 “No Brasil, sabe-se que desde os tempos coloniais já se devastava o território, em razão do sistema
produtivo, baseado na agricultura destrutiva, sem o mínimo cuidado com a manutenção dos recursos naturais. Mas já naquela época se tem notícia de denúncias da destruição das florestas e da degradação ambiental. A preocupação ambiental já vigorava com a atuação de um grupo de pioneiros da ecologia política formados em Lisboa e liderados pelo professor italiano Domingos Vandelli. Dentre eles, José Bonifácio de Andrada e Silva, o qual, além da discussão ecológica, também militava contra a escravidão, estabelecendo, junto com Joaquim Nabuco e André Rebouças, um nexo entre escravidão e depredação ambiental, em razão da agricultura escravagista” (PÁDUA, José Augusto. Um sopro de destruição:
pensamento político e crítica ambiental no Brasil escravista, 2. ed. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004,
p. 23). “Na contramão dos compromissos assumidos pelo Brasil para a Conferência de Paris, sua emissão de gases do efeito estufa para obter energia aumentou em 2014. Recuperar pastagens é a medida de maior potencial de redução de gases do efeito estufa no cenário brasileiro. Há um potencial enorme ali, em conjunto com a intensificação da produção de forma sustentável. É necessário restaurar as áreas degradadas e e implementar as medidas de agricultura de baixo carbono” (LEITE, Marcelo. “Emissões ligadas à energia sobem 6% no país em 2014”, Folha de São Paulo, Ciência+Saúde B5, São Paulo, 20/11/2015).
160 HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos, Rio de Janeiro: Zahar,
1985, p. 217.
161 Disponível em <http://nc-
moodle.fgv.br/cursos/gestao_amb_desenv_sustentavel_moodle_0807/pag_modulo1/1_2_2.htm>. Acesso em: 19/06/2014.
69
A preocupação mundial concernente à proteção ambiental teve seus
primeiros passos, conforme o entendimento de José Juste Ruiz
162, nos anos anteriores à
Primeira Guerra Mundial. Referido autor denomina este período como sendo aquele
correspondente à pré-história do direito à proteção ambiental, tratando a proteção
ambiental apenas dos elementos do ecossistema que possuíssem utilidade para a
produção ou representasse valor econômico por ser objeto de utilização comercial.
Entre as décadas de 1920 e de 1940, concretizou-se no mundo a
expansão tecnológica e industrial, a massificação da produção e a expansão dos
suprimentos de energia, o que resultou numa maior concentração nos centros urbanos,
assim como no prosseguimento do modelo de desperdícios dos recursos naturais. Para
José Juste Ruiz
163, o período compreendido entre o início dos anos 1930 e a Segunda
Grande Guerra pode ser denominado como “natureza virgem”, haja vista a intervenção
do homem sobre espaços naturais e riquezas biológicas de territórios virgens
submetidos à colonização.
No decorrer da Segunda Guerra Mundial houve a conversão do polo
industrial para a produção de produtos bélicos, configurando-se uma escassez de bens
de consumo e uma pesquisa de alternativas para matérias-primas em falta, surgindo
novas tecnologias e materiais, conforme João Antonio de Paula
164. Já no entender de
José Juste Ruiz
165, a preocupação da escassez de matérias-primas levou a comunidade
mundial a celebrar convênios e convenções com o intuito de proteger, dentre outros, a
água do mar e as águas doces.
As atitudes e ações presentes nesse período eram regidas pela
corrente do Desenvolvimentismo, pensamento filosófico que subordinava a capacidade
humana de conservação dos recursos naturais às exigências do desenvolvimento
econômico. No afã de propiciar o crescimento da economia, sem, contudo, preservar
determinados valores éticos, o homem estabeleceu um relacionamento predatório intra e
extra-sociedade, que se traduziu em exclusão social e degradação da natureza. O
desenvolvimentismo perdurou até a década de 1960, no hemisfério norte, e até a década
de 1970, no hemisfério sul, passando a vigorar uma “era ecológica”. Esse período é
162 RUIZ, José Juste. Derecho internacional del medio ambiente, 3. ed., Madrid: McGreaw-Hill, 1999, p.
17.
163 RUIZ, José Juste. Derecho internacional del medio ambiente, Op. cit., p. 17.
164 PAULA, João Antônio de (coord.). Biodiversidade, população e economia, 2. ed., Belo Horizonte:
UFMG, 1997, p. 15.
70
decorrente de uma crise
166de valores da sociedade de consumo, o que produziu um
“fermento ecológico” gerado pelo alarme lançado pelos cientistas em virtude dos
numerosos acidentes de contaminação ambiental, nascendo um novo pensamento
ecológico de preservação do ambiente: o “verde”.
167No período compreendido entre as décadas de 1970 e 1980, surgiu a
preocupação com a finitude dos recursos em decorrência das crises do setor petrolífero;
houve um início de esforços para a redução dos desperdícios nos meios de produção, o
que fez aumentar a conscientização ambiental da população. Indicou um período de
surgimento do protesto ecológico como forma de manifestação política, assim como da
introdução de temas ecológicos no processo de discussão legislativa. Foi, também, o
período de emergência das primeiras Organizações Não-Governamentais (ONGs),
representantes ativos do terceiro setor da sociedade e indicativas de uma outra forma de
operar no processo político, incluindo nele, de forma direta ou representativa, os atores
envolvidos nas cenas sociais.
A corrente que imperou nesse período foi a do Conservacionismo,
que subordina o desenvolvimento socioeconômico à capacidade humana de conservação
dos recursos naturais, procurando equacionar as necessidades da sociedade à
conservação do meio ambiente. Grandes desastres ambientais ocorreram, com uma
escassez real dos recursos naturais, o que acentuou a degradação da qualidade de vida
dos grandes centros urbanos. Em decorrência desses desastres ecológicos, uma revisão
de atitudes começa a esboçar-se por parte dos cidadãos, dos legisladores, do Executivo,
em suas diversas esferas e níveis, dos representantes do corpo judiciário com relação à
sustentabilidade e ao rebatimento da ideia de intercorrência nas ações-reações em um
determinado local, nas ingerências e implicações em locais completamente distintos e
distantes.
A partir do final da década de 1980 e do início dos anos 1990,
emerge a figura do Desenvolvimento Sustentável, corrente do pensamento que domina a
economia mundial. Essa corrente, explica Fernanda Luiza Fontoura de Medeiros
168que,
visando à proteção do Meio Ambiente, busca a qualidade do processo de
166 “É um período de crises, uma crise ecológica que na realidade representa uma crise do homem com
sua humanidade. Trata-se de uma crise de paradigma: a crise do vínculo e a crise do limite. Crise do vínculo: já não conseguimos discernir o que nos liga ao animal, ao que tem vida, à natureza; crise do limite: já não conseguimos discernir o que deles nos distingue” (OST, François. A natureza à margem da
lei, Lisboa: Instituto Piaget, 1997, p. 09).
167 RUIZ, José Juste. Derecho internacional del medio ambiente, Op. cit., p. 17.
168 MEDEIROS, Fernanda Luiza Fontoura de. Meio ambiente: direito e dever fundamental, 3. ed.,