saber por que, e desde aí perde o poder de continuação – porque a vida é mutirão de todos, por todos remexida e temperada”. (João Guimarães Rosa) 124
Além disso, à medida em que o ambientalismo afirma-se como
fenômeno jurídico, social, econômico e político global, surgem diferenciadas visões
jurídico-ideológicas da proteção ambiental, que, a rigor, não são antagônicas, mas
complementares entre si. Nesse sentido, Consuelo Yoshida
125anota:
Essas diversificadas visões devem ser adaptadas à realidade
brasileira, aos fundamentos e objetivos da República Federativa
do Brasil, estampados nos arts. 1º e 3º da Constituição Federal
de 1988, que têm como um de seus pilares básicos a dignidade
da pessoa humana; que reconhece que somos um país em
desenvolvimento, de estrutura federativa, com contrastes
regionais, gritantes diferenças culturais e sociais, características
que muitas vezes nos distanciam das potências mundiais e de
seus interesses e posicionamentos em matéria de proteção
ambiental.
Nesse contexto, antropocentrismo, ecocentrismo e biocentrismo são
concepções genéricas atribuídas pelos cientistas em face da posição do homem no meio
ambiente.
Conforme lembra Miguel Reale
126, “o valor da vida humana é
exemplo, por excelência, de uma visão antropocêntrica que coloca a pessoa humana
como o valor-fonte de todos os valores”.
123 “Quando todos os rios secarem e a Terra já estiver desertificada é que o ser humano vai aprender que
não se come dinheiro. Evitar isso é mudar toda a nossa cultura competitiva (baseada na lei do mais forte) e transformá-la numa cultura solidária e cooperativa (baseada no bem de todos). É muito, muito difícil mas teremos que fazê-lo, e rapidamente, se quisermos sobreviver como espécie humana, salienta a física e economista Muraro” (MURARO, Rose Marie. “Não se come dinheiro”, Folha de São Paulo, Tendências/Debates, Opinião A3, São Paulo, 21/02/2007).
124 ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas, 10. ed., Rio de Janeiro: José Olympo, 1978, p. 55. 125 YOSHIDA, Consuelo Yatsuda Moromizato. Tutela dos interesses difusos e coletivos, Op. cit., p. 132. 126 GOLDENBERG, José. “Proteger o homem ou a natureza?”, O Estado de São Paulo, Espaço Aberto
59
A visão antropocêntrica consagra o ser humano como superior aos
demais seres da natureza por seus dotes racionais. A razão é considerada como atributo
exclusivo do homem e constitui-se no valor maior e determinante da finalidade das
coisas. Defende a supremacia do ser humano sobre todos os demais seres.
Segundo Édis Milaré e José de Ávila Coimbra
127, antropocêntrico:
Vem a ser o pensamento ou a organização que faz do homem o
centro de um determinado universo, ou do Universo todo, em
cujo redor gravitam os demais seres, em papel meramente
subalterno e condicionado. É a consideração do homem como
eixo principal de um determinado sistema, ou ainda, do mundo
conhecido. Tanto a concepção quanto o termo provêm da
Filosofia.
A consideração aprofundada do sentido e do valor da vida sacudiu o
jugo do antropocentrismo. Sendo a vida considerada o valor mais expressivo do
ecossistema planetário, concentrou-se grande ênfase no seu valor. Por isso, nas duas
últimas décadas a bioética estruturou-se para responder a questões práticas, ligadas a
valores, principalmente em face das questões suscitadas pela biotecnologia
128.
Com o foco voltado para a vida e todos os aspectos a ela inerentes,
surgiu o biocentrismo, no qual o valor vida passou a ser um referencial inovador para as
intervenções do homem no mundo natural. No ecocentrismo, portanto, as preocupações
científicas, políticas, econômicas e culturais voltam-se para a oikos, ou seja, para a
Terra considerada casa comum e, mais do que isto, um sistema vivo, constituindo, ela
mesma, um organismo vivo, conforme a Teoria de Gaia
129. A propósito, Fritjof Capra
130ensina que “a Terra é, pois, um sistema vivo; ela funciona não apenas como um
organismo, mas, na realidade, parece ser um organismo Gaia, um ser planetário vivo.
Suas propriedades e atividades não podem ser previstas com base na soma de suas
partes; cada um de seus tecidos está ligado aos demais, todos eles interdependentes;
suas muitas vias de comunicação são altamente complexas e não lineares; sua forma
evolui durante bilhões de anos e continua evoluindo”.
127 MILARÉ, Édis; COIMBRA, José de Ávila Aguiar. “Antropocentrismo x ecocentrismo na ciência
jurídica”, Revista de Direito Ambiental, n. 36, São Paulo: Revista dos Tribunais, dez. 2004, p. 09-41.
128 SANDEL, Michael J. Contra a perfeição – Ética na era da engenharia genética, tradução de Ana
Carolina Mesquita, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013.
129 LOVELOCK, James. As eras de gaia: a biografia de nossa terra viva, tradução de Beatriz Sidou, 3.
ed., Rio de Janeiro: Campus, 1991.
60
Tem-se, então, que o biocentrismo defende que o valor da vida passa
a ser um referencial inovador para as intervenções do Homem no mundo natural. A
ampliação da consciência sobre a situação do planeta Terra, somada às preocupações
criadas pelo processo de globalização, impulsionou a ideia de uma Ética Global ou Ética
Planetária.
Em síntese, o antropocentrismo coloca o homem no centro das
preocupações ambientais, ou seja, no centro do universo. O ecocentrismo, ao revés,
posiciona-se no extremo oposto, pondo a ecologia no centro do universo. O
biocentrismo, por sua vez, procura conciliar as duas posições extremas, colocando todas
as formas de vida no centro do universo. Assim
131:
Antropocentrismo e ecocentrismo, passando pelo biocentrismo,
são diferentes cosmovisões. Cientistas e pensadores
debruçaram-se sobre estes temas, não importa se direta ou
indiretamente. É instigante verificar como vários ilustres
cientistas (físicos, matemáticos, biólogos, antropólogos e vários
outros) buscaram na filosofia um complemento de que
necessitam para o avanço em suas respectivas áreas de saber.
Para José Goldenberg
132, “a Constituição de 1988 não “revoga” a
visão antropocêntrica do mundo, arraigada nas raízes bíblicas judaico-cristãs, de que o
homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Ao contrário, o artigo 225 inclui na
extensa declaração de direitos e deveres individuais e coletivos o direito de todos ao
meio ambiente ecologicamente equilibrado. Portanto, é o homem, o ser humano, não só
como indivíduo, mas como humanidade, o sujeito do direito ao meio ambiente sadio, o
que reafirma o conceito antropocêntrico”.
De outro lado, esclarece Gilberto Cotrim
133:
O biocentrismo inspira uma ética do equilíbrio, que tem como
certa a premissa que confere validade à preservação da
integridade, estabilidade e beleza da comunidade biótica.
Submete o individualismo ao bem geral. Posições não
antropocêntricas reconhecem intrínsecos valores na natureza,
valendo-se de paradigmas holísticos, reconhecendo, por
exemplo, os direitos dos animais.
131 MILARÉ, Édis. Direito do ambiente, Op. cit., p. 92.
132 GOLDENBERG, José. “Proteger o homem ou a natureza?”, O Estado de São Paulo, Espaço Aberto
A2, São Paulo, 23/03/2004.
61
Há a necessidade de construir uma nova base ética normativa da
proteção do meio ambiente. Todos os recursos naturais são considerados coisas e
apropriáveis do ponto de vista econômico, incluídas aí a flora, a fauna e os minérios
134.
Essa apropriação é possível pelo fato de o homem ser o centro das preocupações
ambientais – antropocentrismo. Cristiane Derani
135afirma que “o conceito de meio
ambiente deriva do homem e a ele está jungido, porém o homem não o integra.
Conquanto o tratamento legal destinado ao meio ambiente permanece necessariamente
numa visão antropocêntrica porque esta visão está no cerne do conceito de meio
ambiente”.
No entanto, autores renomados, como Antônio Herman V. Benjamin,
Édis Milaré e Renato Nalini, entendem que a flora, a fauna e a biodiversidade também
134“A velocidade da ação humana na exploração dos recursos naturais provocou grande desequilíbrio
ambiental no vale do rio Doce. Um quadro agravado pela tragédia promovida pelo rompimento da barragem da Samarco em Mariana, com sério comprometimento na vida do rio doce e da população que vive em seu entorno. É um desastre ambiental sme precedentes, que revolta e nos deixa perplexos (...) O processo de reconstrução ambiental do vale será de longo prazo, e deve estar associado a outras inúmeras intervenções de resgate social e econômico, feitas por diferentes atores. Momentos como este devem ser encarados com uma visão mais ampla, pois permitem a reflexão profunda sobre o modo de vida atual e as saídas possíveis para um futuro de reconexão com a natureza” (SALGADO, Sebastião. “Recriano a vida no rio Doce”, Folha de São Paulo, Tendências/Debates, Opinião A3, São Paulo, 22/11/2015). “No dia 05 de novembro de 2015, um tsunami de 62 milhões de metros cúbicos de lama, causado pelo rompimento de uma barragem de rejeito, aniquilou o distrito de Bento Rodrigues, na cidade mineira de Mariana. O vilarejo de 600 habitantes fez parte da rota da Estrada Real no século XVII e abrigava igrejas e monumentos de relevância cultural. (...) Novas técnicas permitem tratar os resíduos de mineração. Seu uso poderia ter impedido a perda de vidas e de patrimônio histórico e ambiental em Minas Gerais” (GONÇALVES, Eduardo. “Tragédia evitável”, Revista Veja, Cidade, São Paulo, 18/11/2015, p. 70-71). “Ruptura das duas barragens da empresa Samarco em Mariana (MG) é o maior desatre ambiental provocado pela mineração no país. Parte dos impactos, como a extinção de espécies, é irreversível; reconstituição do solo poderá levar séculos. (...) Transformado em uma correnteza espessa de terra e areia, o rio Doce não pode ter sua água captada. A perda da biodiversidade pode demorar décadas para ser restabelecida. E isso ainda vai depender de programas executados para esse fim. Existe ainda a possibilidade de espécies endêmicas (que só existem naquela região) serem extintas” (GERAQUE, Eduardo. “Tragédia em MG deve secar rios e criar ´deserto de lama`”, Folha de São Paulo, Cotidiano B1, São Paulo, 15/11/2015). “Vale diz ao mundo que não é responsável pela Samarco, de onde saiu a torrente de lama mortífera” (FREIRE, Vinícius Torres. “Quem é o dono da lama?”, Folha de São Paulo, Mercado A24, São Paulo, 12/11/2015). “O impacto da enxurrada avança rumo ao oceano e deixa um rastro gigantesco de destruição” (LOUREIRO, Fred. “Lama tira vida dos ecossistemas em MG”, Correio
Popular, A19, Campinas, 15/11/2015). (GERAQUE, Eduardo. “Infratores ambientais pagam só 8,7% das multas do Ibama”, Folha de São Paulo, Cotidiano B7-9, São Paulo, 22/11/2015). (LUFT, Lya. “Rio de lama, rio de lágrimas, Revista Veja, São Paulo, 25/11/2015). (BEER, Raquel. “Lama exterminadora”,
Revista Veja, Ambiente, São Paulo, 25/11/2015). “Dependente da mineração, o quadrilátero ferrífero tem a geografia marcada pela atividade, que produzziu crateras e desativou bairros inteiros, fazendo sumir o pico da montanha louvado por Drummond” (FERRAZ, Lucas. “O rastro das minas”, Folha de São
Paulo, Cotidiano B3, São Paulo, 27/11/2015). (LUCENA, Eleonora de. “Mineradora e governo têm sido desastrosos na tragédia”, Folha de São Paulo, Citidiano B3, São Paulo, 28/11/2015). (DIAS, Marina. “Ação pedirá R$ 20 bi para reparar desastre”, Folha de São Paulo, Cotidiano B1, São Paulo, 28/11/2015). (FERRAZ, Lucas. “Museu da lama”, Folha de São Paulo, Cotidiano B11, São Paulo, 29/11/2015). (ZALIS, Pieter; RORIZ, Jonne. “O mapa da destruição”, Revista Veja, Especial, São Paulo, 02/12/2015, p. 84-92). (grifo nosso)
62
são sujeitos de direito, devendo ser protegidas pelo Direito – biocentrismo. Portanto,
“quem não for capaz de valorizar e preservar a vida de seus semelhantes está surdo à
voz da razão que grita pela proteção das outras formas de vida e das bases ecológicas de
que fazemos parte”
136.
Vê-se, pois, que todos os seres vivos têm o direito de viver. Partindo-
se de uma visão moderna do meio ambiente, faz-se necessário analisar a natureza do
ponto de vista filosófico, econômico e jurídico.
Do ponto de vista filosófico, a natureza possui valor inerente que
independe da apreciação utilitarista de caráter homocêntrico.
Do ponto de vista econômico, a natureza constitui valores de uso
econômico direto ou indireto, servindo de paradigma ao antropocentrismo das gerações
futuras.
Do ponto de vista jurídico, a natureza tem sido considerada ora como
objeto ora como sujeito. Afirma Herman Benjamin
137que:
Nestes últimos anos vem ganhando força a tese
138de que um
dos objetivos do direito ambiental é a proteção da
biodiversidade (fauna, flora e ecossistemas), sob uma diferente
perspectiva: a natureza como titular de valor jurídico per se ou
próprio, vale dizer, exigindo, por força de profundos
argumentos éticos e ecológicos, proteção independentemente
de sua utilidade econômico-sanitária direta para o homem.
Observa Luís Paulo Sirvinskas
139que “a natureza deve ser protegida
para as presentes e futuras gerações por ser sujeito de direito (biocentrismo ou não-
antropocentrismo) ou para a utilização humana (antropocentrismo puro, intergeracional,
mitigado ou reformado)”.
Assim, no dizer de Antonio Herman V. Benjamin
140, “do ponto de
vista do direito, antropocentrismo e não-antropocentrismo não são excludentes, podendo
atuar de maneira complementar”.
136 BENJAMIN, Antônio Herman V. “A natureza no direito brasileiro: coisa, sujeito ou nada disso”,
Caderno Jurídico da Escola Superior do Ministério Público, n. 2, jul. 2001, p. 153.
137 BENJAMIN, Antônio Herman V. A natureza no direito brasileiro: coisa, sujeito ou nada disso, Op. cit., p. 169.
138 A respeito, vide artigo de minha autoria “O direito constitucional internacional e os animais: a tutela os
animais como sujeitos de direito”, In: GARCIA, Maria (coord. e outros). Direito constitucional
internacional: o direito da coexistência e da paz, Curitiba: Juruá, 2012, p. 357-392.
139 SIRVINSKAS, Luís Paulo. Tutela constitucional do meio ambiente, Op. cit., p. 30-31.
140 BENJAMIN, Antônio Herman V. “A natureza no direito brasileiro: coisa, sujeito ou nada disso”, Op. cit., p. 171.
63
E conforme sublinha Hans-Georg Gadamer
141:
Não podemos continuar a ver a Natureza como um simples
objeto de exploração; devemos considerá-la como parceira em
todas as manifestações, a saber, compreendê-la como Outro
com quem convivemos. (...) Viver com o Outro, viver como
Outro do Outro, eis a tarefa fundamental que se impõe tanto à
escala grande como à menor.
Como as ciências jurídicas não podem se isolar do processo
evolutivo do saber e da abordagem do meio ambiente, impõe-se um diálogo com outros
saberes, a fim de que o direito seja guardião do planeta vivo. Como todos os seres que
compõem o ecossistema planetário têm a sua dignidade
142própria devido ao papel que
desempenham e à função que lhes cabe no equilíbrio ecológico, o ecocentrismo revela-
se mais condizente e adequado à proteção do meio ambiente e do planeta. No
ecocentrismo, os sistemas vivos partilham do respeito que se dá e se deve à vida,
porquanto o fenômeno da vida, tal qual a conhecemos no Universo, é prerrogativa da
Terra.
Os incisos do § 1º, art. 225, da Magna Carta de 1988, indicam que a
Constituição adota tanto a visão antropocêntrica quanto a ecocêntrica, de modo que é
possível dizer que no Direito Brasileiro convivem as duas visões.
“A natureza carece de proteção pelos valores que ela representa em
si mesma”, observa Édis Milaré
143, parafraseando Diogo de Freitas do Amaral.
Esclarece Celso Antônio Pacheco Fiorillo
144, em relação ao art. 3º da
Lei de Política Nacional do Meio Ambiente, “a sociedade organizada é o destinatário de
toda e qualquer norma, logo, o direito ambiental possui, afirma o autor, uma necessária
visão antropocêntrica, porquanto o único animal racional é o homem, cabendo a este a
preservação das espécies, incluindo a sua própria”.
141 GADAMER, Hans-Georg. Herança e futuro da Europa, Lisboa: Edições 70, 1998, p. 24.
142 O art. 3º da Constituição Federal de 1988 dispõe que constituem objetivos fundamentais da República
Federativa do Brasil: “I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; II - garantir o desenvolvimento nacional; III - erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e regionais; IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação”. Não basta que a CF/88 proteja a vida, mas é indispensável que o Poder Público coloque à disposição do cidadão os equipamentos necessários para que ele tenha também uma vida digna. Para que o cidadão possa ter uma vida digna e uma sadia qualidade de vida (art. 225, caput, da CF/88) é necessário garantir a ele o direito à educação, à saúde, à alimentação, ao trabalho, à moradia, ao transporte, ao lazer, à segurança, dentre outros (art. 6º, caput, da CF/88). Assim, o Poder Público procurando incentivar a educação ambiental, enfatizando a necessidade de proteger os recursos naturais, poderá atingir a tão propalada justiça social.
143 MILARÉ, Édis. Direito do ambiente, Op. cit., p. 79.
64
Não se pode olvidar que a Lei nº 9.795/1999, que instituiu a Política
Nacional de Educação Ambiental, prestigia expressamente a visão humanista, holística
e integrada de todos os aspectos do meio ambiente, atentando, ademais, para as
diversidades regionais, culturais e sociais da realidade brasileira. Ela enuncia como
princípio básico da educação ambiental, logo no início, o enfoque humanista, holístico,
democrático e participativo (art. 4º, I).
Com efeito, a proteção ambiental é voltada, em última análise, para
propiciar o desenvolvimento humano
145e a dignidade da pessoa humana
146.
É que, como ressalta também José Afonso da Silva
147, “a proteção
ambiental, abrangendo a preservação da natureza em todos os elementos essenciais à
vida humana e à manutenção do equilíbrio ecológico, visa a tutelar a qualidade do meio
ambiente em função da qualidade de vida, como uma forma de direito fundamental da
pessoa humana, em cuja nova projeção do direito à vida se há de inserir.
Na lição de Gotor, “o direito à vida inclui a manutenção daquelas
condições ambientais que são suportes da própria vida – e o ordenamento jurídico, a
quem compete tutelar o interesse público, há que dar resposta coerente e eficaz a essa
nova realidade social”.
De acordo com Consuelo Yoshida
148: “a concepção holística do meio
ambiente vem detalhada no princípio enunciado logo a seguir: a concepção do meio
ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, o
sócio-econômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade (art. 4º, II). O meio
ambiente, enquanto conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem
145“É o conceito de desenvolvimento humano, ou, de forma mais completa, desenvolvimento humano sustentável, que apresenta quatro dimensões complementares e integrais: 1) pressupõe que o crescimento econômico, por ampliar a oferta de bens e serviços à disposição da população, é uma condição necessária, mas não suficiente para o desenvolvimento humano; 2) que este não ocorre num contexto de exclusão social, pois tem de se processar em benefício das pessoas; 3) que estas têm de ter acesso a informações, conhecimento e bens culturais para a sua própria promoção; 4) que a forma de crescimento econômico atual não venha a comprometer a gama das oportunidades das gerações futuras, ou seja, o desenvolvimento humano pressupõe a sua sustentabilidade” (HADDAD, Paulo R. “O desenvolvimento humano”, Jornal da Tarde, São Paulo, 31/08/1998, p. 02).
146 Dignidade corresponde, entre outros significados, a autoridade moral, respeitabilidade, respeito a si
mesmo. Derivado do latim dignitas (virtude, honra, consideração), em regra entende-se a qualidade moral que, possuída por uma pessoa, serve de base ao próprio respeito em que é tida. Refere Maria Garcia, parafraseando Alexandre de Moraes, que “a dignidade da pessoa humana corresponde à compreensão do ser humano na sua integridade física e psíquica, como autodeterminação consciente, garantida moral e juridicamente” (GARCIA. Maria. Limites da ciência: a dignidade da pessoa humana, a ética da
responsabilidade, São Paulo: Revista dos Tribunais, 2004, p. 207).
147 SILVA, José Afonso da. Direito ambiental constitucional, Op. cit., p. 243.
148 YOSHIDA, Consuelo Yatsuda Moromizato. Tutela dos interesses difusos e coletivos, Op. cit., p. 132-