2. ĠLGĠLĠ ARAġTIRMALAR
2.2. Yurt DıĢında Yapılan AraĢtırmalar
Dona Ana, nasceu no Acre no ano de 1944. Seus pais de origem nordestina, haviam ido aquele Estado “tentar a vida” anos antes de seu nascimento. Ela e seus irmãos cresceram no seringal, trabalhando junto com seus pais para uma família de turcos. A pobreza segundo ela era a característica mais marcante de sua vida naquela época. Dona Ana costumava, ainda quando criança, passar temporadas na casa da família para quem seus pais trabalhavam, lá servia nos serviços domésticos da casa, e lembra que era tratada como filha. Aprendeu a costurar, a cozinhar, a ter boas maneiras, com a esposa e as filhas do Sr. Mamede, o dono do seringal. De acordo com dona Ana o tempo mais proveitoso de sua infância e adolescência era aquele em que ela convivia com a família mencionada. A separação de seus pais, quando ela ainda era bem pequena, por volta dos 8 e 10 anos de idade, é lembrada como um evento muito marcante, pois repercutiu profundamente em sua vida no sentido da perda dos laços de família.
Dona Ana: Cada um foi pra um lado, e eu e meus irmãos ficamos
perdidos. Minha sorte era meu irmão mais velho que cuidava de mim, e a família de pai Mamede, que me tratava como uma princesa.
Por volta de seus 14, 15 anos, dona Ana foi morar em Rio Branco, com um de seus irmãos, essa mudança lhe afastou por completo da família de Turcos. Ali começou a trabalhar na roça e a estudar a noite. Dona Ana estudou até a oitava série. Era uma rotina muito cansativa e de pouco proveito para o estudo. Dona Ana lembra que até tirava boas notas mas compreende que o ensino era muito “fraco”. O trabalho pesado da roça, logo foi substituído pelo trabalho em uma fábrica de
guaraná naquela cidade. Nesta fábrica dona Ana trabalhava da seis da manhã às seis da tarde, eram doze horas de trabalho e a remuneração correspondia a apenas as oito horas contratadas. Ali também conheceu um senhor, com quem “fugiu”, aos 19 anos e que pouco depois veio a ser seu esposo. Após o casamento na Bolívia, dona Ana foi morar em Porto Velho, Rondônia, onde seu esposo tinha uma fazenda. Segundo ela, o casamento não foi apoiado pelo irmão com o qual morava, mas ela decidiu casar-se para mudar de vida. O projeto do casamento associava-se segundo ela a um projeto de vida mais tranquila e financeiramente segura. O casamento se apresentava como caminho que traria mudança absoluta em seus padrões sócio econômicos. Seu esposo bem mais maduro que ela, “era um homem de posses”, já organizado financeiramente. Demonstrava ter todos os pré-requisitos para ser um bom marido, segundo ela, ainda que contrariamente aos padrões tradicionais vigentes naquele tempo e naquele lugar. Dona Ana comenta ter sido muito discriminada por se empenhar num relacionamento com um homem desquitado. O casamento na Bolívia se deu porque ele ainda não havia se divorciado. A vida conjugal exigiu que dona Ana renunciasse os estudos e o trabalho, e vivesse exclusivamente para a família. A nova vida em Rondônia lhe afastou de seus irmãos, os únicos parentes com os quais tinha contato desde que saiu do seringal.
O casamento lhe trouxe “uma vida boa”, seu esposo que era, bancário e fazendeiro lhe provia “tudo do bom e do melhor”, mas por outro lado, lhe privava de muita coisa, ela não se sentia livre, devido ao ciúme dele. Segundo ela, o fato de ele ser mais velho do que ela conferia insegurança na relação conjugal. Devido a isso ele regulava sua vida, interferindo em suas roupas, no corte de seus cabelos, coordenando seus passos. Dona Ana observa que sua vida quando casada “era vida de madame”, não preocupava-se com despesas, nem tampouco com questões domésticas, mas era uma vida limitada, sua rotina consistia no cuidado com os filhos. O primeiro filho chegou quando dona Ana ainda tinha 20 anos, antes disso, aos 19 anos, realizou um aborto sob a ordem do marido. Segundo ela isso lhe machucou profundamente, e até hoje se sente culpada por ter cumprido algo que para ela foi uma crueldade. A maternidade marcou profundamente sua vida. Ela se voltou exclusivamente para o cuidado dos quatro filhos, dois homens e duas mulheres. Apesar de possuir empregados na fazenda, os cuidados com os filhos ela fazia pessoalmente, os banhos, acompanhamentos nas enfermidades, a educação infantil, tudo era acompanhado de perto.
Aproximadamente após oito anos de casada, seu esposo adoeceu e depois de ter lutado mais oito anos, faleceu de câncer. Dona Ana enviuvou aos 36 anos. Segundo ela toda sua “pequena fortuna” – engenho, fazenda, barco, automóveis, dinheiro – fora empregada no tratamento de seu esposo nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro, para onde se deslocava junto com ele mensalmente no período do tratamento. A doença e a morte dele “deu um reviravolta” em sua vida. Restando apenas a casa que morava e uma pensão que mal dava para a alimentação da família, dona Ana sentiu-se desamparada. Sua realidade de inexperiência profissional associada a pouca habilidade em gerenciar a própria vida e a vida doméstica passou a ser alvo necessário de transformação. O modelo de mulher “dona de casa”, ainda era segundo ela o modelo padrão para as mulheres de sua idade naquele ambiente social de Rondônia dos anos 1970. Aquele modelo, no entanto, deveria ser superado a partir de então.
Dona Ana: Quando ele morreu eu fiquei sem chão, era ele que
resolvia tudo de casa, eu não sabia pagar uma conta no banco. Era totalmente dependente dele, pra tudo! Eu não sabia nada da vida, tive que aprender a viver mesmo daquele dia em diante, por que antes de me casar com ele, eu não tinha os meninos, também era muito nova, não tinha noção de nada não! Eu sabia que dali em diante eu tinha que me virar, sabe? Eu sabia que eu não tinha mais ninguém para tocar a vida pra mim, eu era agora uma mulher sozinha, mãe de quatro filhos, e tinha que decidir o que fazer da vida. Foi a parti daquele momento que eu cresci, que eu realmente passei tomei na mão a minha vida, antes sempre existia alguém que decidisse as coisas por mim.
A experiência da viuvez colocou dona Ana num cenário de incertezas e de fortes propensões de mudança. Podendo assim ser compreendida como uma das conjunturas vitais, nos termos de Johnson-Hanks (2002), que estimulou um processo de tomada “das rédeas da própria vida”. Foi aquele evento que marcou, segundo ela, seu crescimento, sua tomada de consciência da necessidade de uma vida auto gerenciada. O sustento da família e o cuidado dos filhos era a preocupação central de dona Ana naquele período. A saída encontrada por ela para sustentar a família a partir de então foi o trabalho com costura. Começou a trabalhar num ateliê e em seguida foi contratada por uma fábrica da região. Fez um curso de corte e costura e dedicou-se em se aperfeiçoar nessa profissão. Trabalhava como operária da fábrica de segunda a sexta e nos finais de semana costurava por conta
própria. Com o tempo a prática da costura lhe encaminhou para também trabalhar como sacoleira de confecções, dona Ana vendia as peças que ela mesma confeccionava.
Dona Ana: Vou dizer, eu sofri viu, sofri muito, porque eu era boba,
era bobona, fiquei um tempão, com os meninos passando dificuldade, e aí meu Deus o que eu vou fazer nessa vida? Foi quando apareceu um concurso de corte e costura, você acredita que eu me inscrevi, e ganhei primeiro lugar? Daí não parei mais, gostava muito do meu trabalho, quando dava sexta, sábado e domingo, eu costurava, dia e noite em casa, fazia de tudo. Aí botava tudo numa mala e ia na Mineradora de ouro que tinha lá. Vendia tudo fiado, no outro mês voltava lá pra receber, foi assim que a gente foi se virando. Tinha o dinheiro certo da pensão, tinha meu salário, e tinha esse dinheiro das vendas. Eu me realizava sabe, eu me divertia também, sofria, trabalhando em cima de uma máquina mas eu gostava muito! Eu sempre gostei muito de sair, de me relacionar com as pessoas, eu sempre gostei muito, sair pra vender pra mim era divertido, aliás era minha diversão porque naquele tempo eu não tinha lazer não, era trabalhando, cuidando dos meninos, da casa, eu me virava em mil!
O trabalho assalariado fora a porta de acesso de dona Ana a esfera pública. A partir do qual desenvolveu novas sociabilidades e novas habilidades, como a de ser vendedora, por exemplo. Dona Ana trabalhou 14 anos costurando em fábricas da cidade e por conta própria. Seus dois filhos mais velhos foram, nessa etapa de sua vida, seus parceiros fundamentais, trabalhavam juntos e dividiam as atividades domésticas.
Após ter superado a perda do esposo, ter se encontrado profissionalmente, dona Ana se envolveu afetivamente com outro homem. Com o qual morou junto 4 anos. Tal relacionamento, no entanto foi interrompido quando ela descobriu que seu companheiro envolvia-se com tráfico de drogas. O fim do relacionamento lhe causou sofrimento, mas sua escolha em separar-se se deu em função da proteção de seus filhos, e de sua própria proteção, tendo em vista os riscos que rodeiam a atividade ilegal empreendida com drogas.
Aos 50 anos, já com os filhos crescidos, casados e encaminhados profissionalmente, dona Ana deixou de costurar e passou a viver unicamente da pensão que recebe de seu ex marido. Nesta fase de sua vida dona Ana se voltou para os cuidados dos netos, para as obrigações domésticas, e para fazer artesanato em casa.
Acompanhando de perto o casamento de sua filha mais velha, tendo sido esta vítima constante de violência de seu ex marido, dona Ana incentivou-a a vir morar na Paraíba, juntamente com uma prima que aqui residia. Ivete abandonou Rondônia, com seus dois filhos, em 2002, quando veio morar em João Pessoa, no bairro do Bessa. No mesmo ano, dona Ana veio morar junto com a filha.
Dona Ana: Foi horrível morar no Bessa, lá eu não tinha liberdade,
também não tinha o que se fazer, não tinha amizade, tudo lá era difícil pra mim, era só dentro de casa. Eu ia pra praia, mas era muito assim cada um na sua. Uma senhora que eu conheci lá na praia foi que me falou de Bancários. Ela tava se mudando pra cá porque sabia que a vida aqui era melhor do que lá, e também pra quem é da minha idade. Era Rose o nome dela. Ela dizia: Mulher vai morar em Bancários, lá tem comunidade, aqui não tem nada pra gente fazer. Aí eu disse pra Ivete: Vamos pros Bancários. Ivete disse: Mãe lá é longe, todo mundo diz que lá só tem ladrão! E eu disse: Ladrão tem em todo canto! Foi quando eu vim aqui, conheci, gostei, aluguei um apartamento e trouxe ela e os meninos. [...] Aí quando eu cheguei passamos na praça, fazendo caminhada, e na praça você sabe que tem muita gente, assim como eu, não ? Conversando com uma, conversando com outra: Mulher vai lá na igreja tem uma comunidade aí, vai lá.. fui me inscrevi tou lá até agora...Foi a melhor coisa que eu fiz minha filha!
A nova vida no bairro de Bancários é citada inúmeras vezes nos relatos de dona Ana como evento transformador de sua vida. “Maior sensação de liberdade e de prazer em viver” são os elementos fundamentais dessa nova fase, segundo ela. Tais elementos puderam se desenvolver mediante suas condições particulares, a saber: condição de saúde, filhos e netos crescidos, a solteirice, estabilidade financeira. Mas ao mesmo tempo encontrou um campo propício, as sociabilidades, a vida comunitária desenvolvida em Bancários. E aqui endosso a observação de Cabral (2002) , quando ela afirma em seu estudo, que “recriar laços” através das sociabilidades intrageracionais permite aos idosos “novas realizações e um novo lugar no mundo” (CABRAL, 2002, p.137).
Dona Ana: Depois que eu vim pra cá pra Bancários, foi que eu
comecei a viver, a desfrutar das coisas boas da vida. A ter minha liberdade. Quando eu tinha marido, não tinha liberdade, quando eu tinha filho e neto pequeno, não tinha liberdade, quando eu vivia dentro de casa, lá no Bessa mesmo, também não tinha, agora é que eu estou tendo, vivo pra mim, pra fazer o que gosto, saio, vou pra onde eu quero, tenho companhia, tenho amigas que gostam das
mesmas coisas que eu gosto, que já viveu muito assim como eu, que me entende. Foi aqui que minha vida mudou da água pro vinho.
O trecho enfatiza a possibilidade de um tempo para si na velhice. De uma vida voltada para a satisfação própria. O que neste trabalho é compreendido como uma das dimensões do processo de individualização. A experiência de vida de dona Ana foi marcada especialmente por uma vida voltada para a família, após ter se casado, sua vida se concentrou nos cuidados com o esposo e filhos e em seguida com os netos. O tempo agora lhe aparece como uma outra possibilidade: a de viver para si. No entanto essa vida para si, não se separa de uma vida social, não diz respeito a uma vida de isolamento, antes ela foi possibilitada com a imersão na comunidade, se realiza no meio social, no grupo de amigas da mesma idade, daquelas que compartilham dos mesmos interesses e gostos.
O ambiente social de Bancários, as práticas ali desenvolvidas, favoreceu para que dona Ana desenvolvesse uma vida não mais voltada exclusivamente para “os outros”, em especial para a família, mas também lhe proporcionou um novo estilo de vida, baseado na realização dos próprios interesses ou como diria Beck e Beck- Gernsheim (2003) baseado na ética da realização pessoal. Isso pode ser verificado quando dona Ana, ao relatar sobre a convivência com suas amigas, fala sobre o que tem aprendido com elas, e o que se modificou após esses novos relacionamentos extra familiares.
Dona Ana: eu era muito tímida, com minhas amigas aprendi a ser
mais solta. Eu tinha medo de falar, tinha medo de errar, tinha medo de muita coisa, mas agora não, eu enfrento meus medos, aliás quem é que não tem medo? Eu enfrento, e assumo meus erros numa boa, não é porque você está ficando velha, que você não pode errar, essa coisa de pensar que quem tem experiência sabe tudo não existe! Agente tá aqui é pra aprender, a vida toda, a gente aprende na velhice também. Tem tanta coisa que eu ainda queria aprender, fazer cursos, dança, teatro!
Dona Ana traz em sua fala, uma discussão relativa as representações da velhice. A ideia de que ser velho é ser experiente e detentor do conhecimento da vida, é por ela contestada. Antes dona Ana entende a velhice também como uma fase da vida em que cabe novos aprendizados, novas realizações, ser experiente para ela não significa que não tenha nada a mais para aprender.
Tratando ainda sobre as relações atualmente desenvolvidas na comunidade, dona Ana faz referências as mudanças que isso causou em sua vida pessoal, em seu modo de vida.
Dona Ana: Eu fui a vida toda habituada a ser ... a estar sempre em
casa atendendo aos meninos, quando não estava trabalhando né. Antes atendia ao esposo, quando ele era vivo...isso era de mim...eu era uma pessoa presa mesmo...mas era de mim, da minha criação sabe? Com a convivência com minhas amigas aqui da comunidade aprendi a mudar isso. Aqui eu mudei, mudei meu jeito de ser, eu passei a ser mais alegre, mais extrovertida, eu mudei meu jeito de ver as coisas, relaxei mais, e minha vida mudou, hoje faço minhas caminhadas, saio, converso, farro com minhas amigas, não faço nada de errado.
Em seu relato dona Ana evidencia as transformações em seu modo de vida. Tendo sido socializada, e habituada as regras de comportamentos tradicionais - a partir das quais, caberia as mulheres o saber cozinhar, costurar, cuidar da casa e ter boas maneiras – dona Ana demonstra ter investido na adoção de novos hábitos cujos espaços de atuação não se reduzem tão somente ao ambiente doméstico. Tais hábitos desenvolvidos pelo grupo de amigas de dona Ana e por ela em Bancários, ou seja, principalmente através da convivência com a comunidade de idosas do bairro, muito se aproximam com aqueles descritos por Scott (2006), quando ele discute a inversão de gênero – homens de casa, mulheres da rua - entre os idosas pertencentes as camadas populares de Recife.
Tais transformações no modo de viver, e no modo de ser atual de dona Ana podem ser compreendidas como um processo de construção de si. O que confirma a ideia de que a afirmação de si é um processo infindável, também realizável na velhice. Esse processo, no caso de dona Ana, resulta das múltiplas relações de interdependência, das relações afetivas e pessoais, por ela empreendidas, com seus “outros significativos”, especialmente suas amigas da comunidade. (PEIXOTO; SINGLY e CICCHELLI, 2000).
Estas mudanças também podem ser analisadas sob o viés de seus impactos sobre as relações familiares de dona Ana. O trecho a seguir confirma as afirmações de Singly (2001), para quem na atualidade a relação entre pais e filhos, passa a ser baseada cada vez mais na negociação. A educação familiar se transformou, no sentido da depreciação da obediência e na valorização da iniciativa, da criatividade, da autonomia, e satisfação pessoal.
Dona Ana: Em relação aos meus filhos eu ficava presa a eles e tinha
que levantar cedo, fazer almoço, passava o dia todo em casa, lavando roupa e etc, etc, etc. sempre moraram comigo, depois que o pai deles morreu, o mais novo dormia comigo. Aí quando a gente veio pra cá e eu comecei a sair com minhas amigas... na comunidade, tem um bocado de gente que é advogada, dentista, psicóloga, pessoas que tem compreensão das coisas né, até o médico mesmo quando eu vou ele diz: Deixa esse filho! Ele já está velho!. Eu fui me abrindo, largando aqui em casa, hoje quando ele chega, ele mesmo vai no fogão frita um ovo, passa manteiga no pão e come, e vai dormir sem falar nada, porque antes eu me levantava, e ia preparar tudo pra ele. Agora todo mundo ajuda aqui, as coisas não são como antigamente mais não, agora todo mundo ajuda! Porque eu achava que tinha que fazer tudo em casa, sozinha...eu abria mão da minha vida pra fazer tudo pra meus filhos...e olhe que muitas vezes ninguém reconhece, hoje não, eu faço primeiro minhas coisas, depois o tempo que sobra eu cuido das coisas de casa.