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VI. 2. 2002 YILI KÂRI VE DAĞITIMI
As ciências normativas são especificadas como tal, em textos de maturidade de Peirce, escritos após 1900. Para os pré-socráticos, a resposta ética sobre a correção das normas ou modos de conduta deveria ser apresentada de forma quase imediata. Mesmo ao se introduzir a mediação, as éticas da virtude traziam, como fio condutor da mediação, uma metafísica dos fins ou uma conformidade a ser deduzida de um ser criador e indicador da correção normativa, fontes das quais, logicamente, extrair-se-ia a ética. Por outro lado, a experiência sobre as éticas da tradição ou de contexto mostra que elas dispõem de proposições de correção normativa para atos de conduta moral conflitantes entre si e fora da experiência possível, que é condição para a hipótese cognitiva e deontológica. Por tudo, pretensamente fundado na ética e moral, o aprendizado humano é tolhido por crenças fixadas de cunho autoritário ou dogmático, verdadeira fonte de terror e sofrimento humano.
Peirce, infelizmente, em suas reflexões de maturidade não chegou a formular uma ética, entendida como um ramo ou braço da filosofia, mas, como se pretende indicar nesta tese, ele mostra os elementos fundamentais, dentro do seu realismo lógico baseado na alteridade que possibilita a tríade semiótica, para a estruturação da ética contemporânea. Tais elementos estão presentes na Ética do Discurso e serão analisados tanto na filosofia de Apel quanto na de Habermas.
Peirce, mesmo que de forma oblíqua, não foge à questão da precedência da ética sobre a lógica ou vice-versa. Para ele, como se verá, a ética precede a lógica no sentido de ser a ciência da escolha dos fins, mas, por não ser dedutível de uma metafísica pré-existente, a ética por si só não dá conta do dizer sobre a correção normativa dos atos de conduta, o que só é possível com a semiótica que, como realismo lógico, possibilita a avaliação por pressupostos pragmáticos inseridos no mundo vivido. Na forma de expressão pela categoria fenomenológica da primeiridade, o homem tem dentro de si uma estética do admirável, daquilo que, de um modo ou de outro, viabiliza ou viabilizou-o diante do complexo, diverso e
livre mundo da alteridade. Dessa maneira, entre tantas outras inovações, como a de deixar de ver a lógica como um ramo da matemática, para tratá-la como a própria expressão do real – a semiótica -, Peirce também deixa o alerta para a diferença no trato da condução dos dois tipos de lógica, a utens e a docens240. Na sua divisão de ciências, ele afirma:
A Ciência normativa distingue o que deveria e o que não deveria ser e realiza divisões e disposições endereçadas para a sua principal distinção dualista. A Metafísica procura dar conta do universo da mente e da matéria. A Ciência normativa baseia-se em grande parte na fenomenologia e na matemática. A metafísica, na fenomenologia e na ciência normativa241.
As três grandes divisões das ciências normativas são a Estética, a Ética e a Lógica. Além de se referirem à conduta, já que, em Peirce, não se pode falar em essência dos seres do mundo, às ciências normativas é atribuído um fim, ou algo a se impor no continuum das ideias. Ao se estudar a ética em Peirce, necessário se faz lembrar que, em abordagem diferente da de Kant, para ele, o mundo inteligível, local onde prosperam os signos em diálogo semiótico, já está dado no mundo vivencial e coabitado por ideias e objetos. Portanto, em Peirce, para fins de estar no momento ético, é ociosa a estrutura kantiana de entrada, por um ato de vontade da liberdade, no mundo inteligível no qual exala, pelo princípio formal emanado da razão pura, a capacidade de dizer do certo e do errado e, assim, reconhecer a correção normativa contida nos pronunciamentos eternos do imperativo categórico e, por eles, saber do supremo bem fundante da necessidade lógica da ideia de Deus. Para Peirce, a ordem da Natureza não deve ser considerada em relação à existência de um Deus e dele deduzir essa mesma ordem, já que mentes finitas não podem provar, no sentido de experiência possível, a existência de uma mente infinita242.
Conforme Peirce, “Estética é a ciência dos ideais, ou daquilo que é objetivamente admirável sem qualquer razão ulterior”243. Embora Peirce, em duas oportunidades, revele a ausência de um estudo completo da Estética244, ele a confirma como uma ciência normativa do dever ser e fundada na fenomenologia, notadamente na categoria da experiência da
240Habermas, ao que parece, compreendeu essas questões em Peirce e afasta a segundidade não representável, assim como aquelas de cunho privado, não acessíveis a todos como experiência possível de análise de suas concebíveis consequências e trata o momento ético, no viés pragmático, em uma análise triádica das ações, as instrumentais, as estratégicas e as comunicativas, de maneira que quaisquer delas possam ser abordadas cognitivamente, deontológicamente e proceduralmente, respeitando-se a sua gênese.
241PEIRCE. CP. 1.186. “Normative science distinguishes what ought to be from what ought not to be, and makes many other divisions and arrangements subservient to its primary dualistic distinction. Metaphysics seeks to give an account of the universe of mind and matter. Normative science rests largely on phenomenology and on mathematics; metaphysics on phenomenology and on normative science”.
242PEIRCE. CP. 6.407.
243PEIRCE. CP. 1. 191. “Esthetics is the science of ideals, or of that which is objectively admirable without any ulterior reason.”
primeiridade. Conforme menção do próprio Peirce, somente em escritos de maturidade, ele estava preparado para dizer que a ética seria a ciência normativa245 das escolhas ou condutas deliberadas para o fim lógico da significação.
A Ética, ou a ciência do certo e do errado, deve recorrer à estética para auxílio na determinação da “summum bonum”. É a teoria do autocontrole ou da conduta deliberada. A lógica é a teoria do autocontrole ou do deliberado, pensamento e, como tal, deve recorrer à ética para os seus princípios. Ela também depende da fenomenologia e da matemática246.
Peirce deixa entendido que o homem, esteticamente e na qualidade de sentimento, ou qualisigno, tem potencial de representação e determinação do supremo bem. Todavia a sua determinação depende do deliberado, da escolha de conduta no mundo real, o que mantém o supremo bem fora de um mundo transcendente, estando dentro da totalidade do admirável. O deliberado só é pensamento mediante signos. A inovação de Peirce, na sua visão do funcionamento da mente, é que a fenomenologia, ou a experiência possível e real, embora inter-relacionada, precede a entrada no mundo lógico. A estética notadamente funda-se na categoria da primeiridade e, como qualidade pura, não está, ainda, no plano das sínteses de sujeito e predicado, não admitindo deduções, mas somente composições sígnicas ou pensamento, enquanto hipóteses passíveis de avaliação à luz da alteridade. Na primeiridade, ainda com outro nome, conforme Peirce demonstrou desde os seus primeiros escritos, há a possibilidade da extensibilidade das ideias tanto para o sujeito quanto para o predicado “embutidos” na percepção. Na percepção, fora do tempo, de algo como uma rosa vermelha, a extensividade ideal está aberta tanto à rosacidade quanto à vermelhidão.
Peirce admite algum teísmo que estaria manifestado de forma similar àquele de Schelling, ou seja, de maneira panteísta, pois a diversificação do universo estaria ligada à manifestação de liberdade do uno, de maneira que o supremo bem estaria ligado à criação ou restauração do harmônico (ágape) para a moral, mas como papel do pensamento lógico ou semiótico que, do caos, extrai o cosmo, e que se harmoniza com uma abordagem procedural, deontológica e cognitiva.
Complementando a teoria sobre a lógica, Peirce afirma:
Todo pensamento é realizado mediante signos, de maneira que a lógica pode ser considerada como a ciência das leis gerais dos sinais. Ela tem três ramos: 1, gramática especulativa, ou a teoria geral da natureza e do significado dos signos, se são ícones, índices ou símbolos. 2, Crítica, que classifica os argumentos e determina a validade e o grau de força de cada tipo. 3, Metodêutica, que estuda os métodos que
245PEIRCE. CP. 5.121.
246PEIRCE. CP. 1.191. “Ethics, or the science of right and wrong, must appeal to Esthetics for aid in determining the summum bonum. It is the theory of self-controlled, or deliberate, conduct. Logic is the theory of self- controlled, or deliberate, thought; and as such, must appeal to ethics for its principles. It also depends upon phenomenology and upon mathematics”.
devem ser adotados na investigação, na exposição e na aplicação da verdade. Cada divisão depende daquela que a precede247.
Peirce, com a sua teoria semiótica, baseada na ubiquidade das categorias fenomenológicas e na metodêutica, como se explanará mais detalhadamente à frente, concilia as formas lógicas de representação (proposição) e argumentos, ou formas de raciocínio (determinação). Faz em conaturalidade entre sujeito e objeto e entre particular (segundo) e universal (terceiro), dentro do mundo da vida (pragmático), abrindo as portas à conciliação da grande questão ética levantada por Aristóteles. Para este, quanto mais universal ou geral for uma norma moral, menor será sua aplicabilidade ao caso concreto, particular e, inversamente, quanto mais específica a norma moral, menor a sua chance de universalização248. Tal questão enfraquece tanto as éticas das virtudes como as da tradição. Contudo, em Peirce, a ética pode se afastar de questões transcendentes (como virtudes metafísicas e tradições – passado não aberto a todos) e, no mundo do concebível, avaliar a validade das normas morais pela medida das concebíveis consequências que o todo das ações de conduta provoca na vida dos envolvidos alcançados por essas mesmas ações. Pela filosofia de Peirce, nesse processo não se perde de vista o modo positivo e construtivista do aprendizado no continuum evolucionário, possibilidade de aperfeiçoamento da própria conduta humana, processo que decorre da semiótica, que é a própria lógica.
Tomando, como roteiro das ideias de maturidade de Peirce, o já referido ensaio The
Three Kinds of Goodness, na classificação das ciências, a filosofia, por seu todo, não se ocupa em juntar fatos, mas meramente em apreender o que pode ser aprendido da experiência diuturna. Apreender fatos gerais prescinde de uma doutrina metafísica ou transcendental, mas, para tanto, requer a cooperação de todas as divisões da filosofia, de maneira a sustentar a
247PEIRCE. CP. 1.191. “All thought being performed by means of signs, logic may be regarded as the science of the general laws of signs. It has three branches: 1, Speculative Grammar, or the general theory of the nature and meanings of signs, whether they be icons, indices, or symbols; 2, Critic, which classifies arguments and determines the validity and degree of force of each kind; 3, Methodeutic, which studies the methods that ought to be pursued in the investigation, in the exposition, and in the application of truth. Each division depends on that which precedes it”.
248Aristóteles deixa colocada a dificuldade, na ética, da relação entre universais e particulares na filosofia prática. Em trecho da Ética a Nicômaco afirma: "A sabedoria prática não tem como objeto somente os universais, mas requer que se conheçam também os particulares, já que se refere à ação e a ação relaciona-se às situações particulares. É por esta razão que alguns homens, apesar de não conhecer os universais, são, na ação, mais capazes que outros que os conhecem e isso vale também em outros campos. São aqueles que têm experiência...A sabedoria prática, pois, relaciona-se à ação: de forma que deve possuir ambos os tipos de conhecimento, ou, de preferência, aqueles dos particulares. Mas também será, neste caso, uma ciência arquitetônica". ARISTOTELE. 2003. Op. Cit. VI, 7-8, 1141a 33 – 1141b 31.“La Saggezza non ha come oggetto [15] solo gli universali, ma bisognha che essa conosca anche I particolari, giacché essa concerne l’azione, e l’azione riguarda le situazioni particolari. È per questa ragione che alcuni uomini, pur non conoscendo gli universali, sono, nell’azione, piu abili di altri che li conoscono, e questo vale anche negli altri campi: sono coloro che hanno esperienza...La saggezza, poi, riguarda l’azione: cosicché deve possedere entrambi i tipi di conoscenza, o di preferenza quella dei particolari. Ma ci sará anche qui una scienza archittonica”.
teoria pragmaticista e afastar o mau uso do conceito de terceiridade (constituição dos gerais sobre o real), ou seja, o uso meramente psicológico, sem âncora fática no real, externo à consciência. A lei ativa, ancorada no real, é razoabilidade eficiente. O razoável, por si, deve estar contido em um conceito mais amplo ou em um continente de razoabilidade. Dessa maneira, o razoável no continente da razoabilidade é terceiridade como terceiridade249.
Assim, o pensamento só pode estar assentado no bem lógico, afastando-se conceitos extramundos, de dois mundos e ou com validação meramente sensorial. Isso não está invalidando a ubiquidade das categorias das experiências, pois surgem, a todo tempo, novas percepções. No universo lógico peirciano, às ciências normativas é atribuído um fim que também representa o seu bem, ou a gênese pela qual elas estão atuando no desenvolvimento e aprimoramento semiótico da apreensão das formas lógicas do universo, seja o da natureza ou o da relação entre os homens. A ética tem como fim indicar o bem lógico, pressuposto para que a experiência de mundo esteja, cognitivamente, aberta a todos.
Como já mencionado, as ciências normativas tratam das leis da relação dos fenômenos aos seus fins ou dos fenômenos em sua segundidade (alteridade). Peirce esclarece que elas não se confundem com outras ciências práticas de raciocínio e de investigação da conduta da vida ou mesmo de produção de obras de arte, ainda que possam ser auxiliadas pelas ciências normativas, porque elas são ciências especiais destinadas a descobrir novos fenômenos. Também, ressalva Peirce, o fato de que os homens, em sua maior parte, tenham disposição quase natural para aprovar os mesmos argumentos que a lógica aprova, as mesmas ações que a ética aprova e as mesmas obras de arte que a estética aprova, é um suporte absolutamente insignificante250. Ao se tratar de um caso específico, não há nada sólido do ponto de vista lógico, moral ou estético, à luz dessa propalada tendência natural dos homens, e, assim, como ressalta Peirce, ela pode ser tão perniciosa quanto uma falácia251.
Uma questão fundamental para a filosofia semiótica de Peirce é que as deduções das ciências normativas, diferentemente das da matemática, que são puramente ideais, pretendem dar conformidade à verdade positiva do fato e derivam quase que exclusivamente dessa circunstância. Mais ainda, os procedimentos das ciências normativas não são somente dedutivos, como o são na matemática, mas se pautam pelos fatos da fenomenologia e avaliam a conformidade dos fenômenos a fins, os quais não são imanentes aos fenômenos252. Com tais explanações, Peirce mostra que, enquanto ciência normativa, a lógica não é um ramo da
249PEIRCE. CP. 5.120 e 121.
250Ao contrário, a filosofia de Peirce seria meramente contextualista e coerentista. 251PEIRCE. CP. 5.123 e 125.
matemática e tampouco pode se falar de uma ética apriorística, pois a ética é escolha de significação que disponha, como seu fim, o bem lógico â avaliação da comunidade de pensadores, capaz de partilhar experiências pragmáticas em comum.
Ainda pontuando os seus conceitos sobre as ciências normativas, diz Peirce que elas não são ciências quantitativas no sentido de avaliar o que é bom ou mau, ou mesmo qual o grau de bem que uma descrição alcança. Vista em si mesma, a lógica classifica os argumentos e, ao fazê-lo, reconhece diferentes tipos de verdade. Igualmente, para a ética, são admitidas qualidades do bom e, para a estética, é difícil dizer que determinada aparência não é esteticamente boa. Dessa forma, embora seja difícil para um homem reconhecer que ele tem dúvidas onde ele sensivelmente não as tem, para o investigador, mesmo o bem negativo, seja estético, ético ou lógico, deve ser considerado, pois o que aparenta perfeito pode ser algo equivocado253.
Desse modo, Peirce qualifica que a ciência normativa, em geral, é a ciência das leis, no sentido de deve ser, de conformidade das coisas a seus fins; a estética considera as coisas cujos fins são incorporar qualidades de sentimento; a ética, aquelas casos cujos fins encontram-se na ação; e a lógica, as coisas cujo fim é representar algo, conceitos pelos quais, segundo Peirce, alguém se inicia no rastro do segredo do Pragmatismo254.
Para tanto, Peirce rediscute o próprio conceito da lógica. Indica que, usualmente, o escopo da lógica é a crítica e a classificação dos argumentos, de maneira que esses residem em alguma classe especial, o que permite dizer que o ato de inferência consiste no pensamento de que a conclusão inferida é verdadeira, porque, num caso análogo, uma conclusão semelhante seria verdade, de modo que a lógica estaria alinhada ao raciocínio255. Ora, nesse caso, o tipo de requisição, por quem a usa, virtualmente incorpora uma doutrina lógica, a sua lógica “utens”, de maneira que a classificação do argumento realizada não é uma mera qualificação, pois, essencialmente, envolve uma aprovação dela, uma aprovação quantitativa256.
Nesse caso, a autoaprovação supõe autocontrole e como ela é, em si, um ato voluntário, implica que o ato de inferência aprovado também é de forma voluntária. Equivale a dizer que, se não se aprova, não se pode inferir, o que se liga ao movimento da ética rumo ao bem lógico. Como existem operações mentais que estão completamente fora do controle,
253PEIRCE. CP. 5.125 e 127. 254PEIRCE. CP. 5.129 e 130.
255O mesmo, acredita-se, aplica-se às questões de legitimidade moral, pois a base é o reconhecimento da alteridade como base para a base da constituição do bem lógico, enfim da aceitabilidade racional.
aprová-las ou não, é uma questão totalmente ociosa. Todavia, ao realizar um experimento para testar uma teoria, há atos voluntários, científicos ou naturais, que a lógica está aprovando. Então, conclui Peirce, que a aprovação de um ato voluntário é um ato moral, de sorte que a ética estuda quais fins das ações se está deliberadamente preparado para adotar, sejam eles de natureza científica ou mesmo de repercussão entre humanos. Em outras palavras, a ação correta é aquela que está em conformidade aos fins para os quais se está deliberadamente preparado para adotar257.
Nas palavras de Peirce, mesmo não sendo exatamente um aristotélico ou um kantiano ético, o princípio formal do mundo inteligível, o da deliberação racional, tem a capacidade de sobrepor-se ao princípio material, o dos desejos. O que vai diferenciá-lo é o “segredo” do Pragmatismo, a nova noção do que é verdadeiro e do que pode conter em si, pelo mundo vivido, a correção normativa moral, que imbrica o bem lógico ou aceitabilidade racional e alteridade: a pretensão de legitimidade reconhecida. Comentando a ação correta em conformidade a fins, para os quais se está deliberadamente preparado para adotar, diz Peirce:
Ao que me parece, isso é tudo o que pode ser na noção de retidão. O homem reto é o homem capaz de controlar suas paixões e o fazer em conformidade com os fins, deliberadamente preparado a adotá-los como fundamento. Se fosse da natureza do homem estar perfeitamente satisfeito em tornar seu conforto pessoal como seu objetivo último, nenhuma outra culpa seria cabível a ele senão aquela atribuível aos porcos.258
A referência aos porcos, como separação do homem como ser capaz de cognição e deontologia, ao que parece, remete à defesa feita por Mill da ética utilitarista. Tendo por princípio que o bem se realiza pela medida da fruição (felicidade) pelo maior número de pessoas, anulando as minorias e dando base aos privilégios materiais, Mill argumenta que, embora o critério utilitarista possa parecer desumano na aplicação dos casos particulares, pode haver atenuantes pois, enfim, não somos porcos. Como afirma Mill, “É melhor ser uma criatura humana insatisfeita do que um porco satisfeito”.259
Para Peirce, o pensador lógico é aquele que exerce grande controle sobre suas operações intelectuais, e, assim, o bem lógico é simplesmente uma espécie particular de bem moral. A genuína ciência normativa da ética é normativa por excelência na medida em que um fim, o objeto essencial da ciência normativa, é inerente a um ato voluntário e a nada mais.
257PEIRCE. CP. 5.130.
258PEIRCE. CP. 5.130. “That is all there can be in the notion of righteousness, as it seems to me. The righteous