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Na sua introdução, o documento deixa claro que o objetivo principal de uma proposta curricular é mapear informações relevantes, como a situação da aprendizagem nas escolas, subsidiar e nortear um currículo adequado aos tempos atuais e organizá-las em narrativas significativas, em cada território disciplinar, o que com a Matemática não deve ser diferente.

A elaboração da Proposta Curricular (2008) para o ensino da Matemática teve o apoio da CENP – Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas e a FDE – Fundação para o Desenvolvimento da Educação e foi coordenada por Nilson José Machado, Doutor em Educação, que atua na área de Formação de Professores de Matemática – e que também fez parte da equipe que elaborou a Proposta Curricular (1989). Teve como colaboradores os professores Carlos Eduardo de Souza Campos Granja, José Luiz Pastore Mello, Rogério Ferreira da Fonseca, Ruy César Pietropaolo – outro membro da Equipe elaboradora da Proposta Curricular (1988) e Walter Spinelli.

Tendo como referências as experiências bem sucedidas, as idéias propostas nos PCN(s) (1996) e nos indicadores do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM) - importante referência como instrumento de avaliação, a Equipe responsável pela área de Matemática, priorizando seu ensino no desenvolvimento das competências pessoais dos alunos, pensaram a Matemática sob três novos olhares:

I – O eixo expressão/ compreensão, que se refere a capacidade do aluno de se expressar em diferentes linguagens e que ao lado da Língua Materna, a Matemática compõe um par complementar como meio de expressão e de compreensão da realidade. Os objetos matemáticos – números, formas, relações – constituem instrumentos básicos para a compreensão da realidade, desde a leitura de um texto ou a interpretação de um gráfico, ou mesmo a apreensão quantitativa das grandezas e relações presentes em fenômenos naturais ou econômicos, entre outros, a expressão e compreensão quanto à Geometria. Segundo Thom (1971):

A Geometria é caracterizada como um intermediário único entre a linguagem ordinária e o formalismo matemático, sendo função primordial da linguagem ordinária descrever os processos espaços-temporais que nos circundam, cuja topologia se manifesta na sintaxe das frases que os

descrevem (THOM apud MACHADO, 2001, p.141).

Thom (1971), ressalta na sua fala que a Geometria favorece o desenvolvimento de capacidades intelectuais, como a percepção e a abstração. É também sobre uma dessas características fundamentais da Matemática – leia-se da Geometria - a abstração, que Wheeler argumenta:

Melhor que o estudo do espaço, a Geometria é a investigação do espaço intelectual, já que, embora comece com a visão, ela caminha em direção ao pensamento, indo do que pode ser percebido para o que pode ser concebido (WHEELER apud PAVANELLO, 1995, p.15)

Pensando que cada dia mais são exigidas competências leitoras e que cada vez mais a arte de argumentar e de se expressar bem amplia horizontes e potencializa habilidades, a Proposta Curricular (2008) reforça essa idéia quando contempla o ensino da Matemática sob a óptica da sua dualidade com a Língua Materna e, de certa maneira, resgata o embasamento para o processo de ensino- aprendizagem da Geometria, que consiste em representar, argumentar e construir, onde é fundamental saber articular a percepção, a concepção e a comunicação, que caracteriza o ensino da mesma.

II - Eixo argumentação/ decisão: a capacidade de argumentação, de análise e de articulação das informações e relações disponíveis, tendo em vista a construção dos consensos e a viabilização da comunicação, da ação comum, além da capacidade de decisão, de elaboração de sínteses dos resultados, faz com que o papel da Matemática como instrumento para o desenvolvimento do raciocínio lógico, e da análise racional, seja bastante evidente.

Seja o raciocínio lógico indutivo ou dedutivo, a Matemática e a Língua Materna dividem a função do desenvolvimento cognitivo do aluno.

Reconhecendo a Língua Materna como fonte primária e a Matemática como fonte secundária, as duas atuando na argumentação e decisão, definem o caminho para a Resolução de Problemas. É como se na Matemática ocorresse o processo inverso de aprendizagem: o “pensar” primeiro e depois o ”falar” comunicando as estratégias a serem usadas, frutos das atitudes tomadas cognitivamente.

Dentre os conteúdos matemáticos, a Geometria é um campo privilegiado tanto para a resolução de problemas, muitos dos quais relativos à realidade do sujeito, como também para o desenvolvimento na arte de argumentar, representar e

tomar decisões, ações contempladas nesse eixo.

III - No eixo contextualização/abstração, a capacidade de contextualizar ou seja, da capacidade de reconhecer os conteúdos estudados na realidade imediata, no universo das significações, sobretudo no mundo do trabalho, tem na Matemática o lugar certo para que aconteça a mediação concreto/abstrato. “Mesmo sendo considerados especialmente abstratos, os objetos matemáticos são os exemplos mais facilmente imagináveis para se compreender a permanente articulação entre as abstrações e a realidade concreta”. (PROPOSTA CURRICULAR, 2008, p. 43).

A Proposta Curricular de 2008 contempla a Geometria quanto à sua abstração e a idéia de que estudá-la sob esse ângulo nem sempre será de compreensão fácil, pois embora a Geometria derive do mundo físico, suas ligações com esse mundo nem sempre são consideradas na grande maioria dos textos escolares elementares.

A Proposta Curricular (2008), principalmente a voltada para o ensino da Matemática teve uma repercussão não muito positiva dentre os professores de Matemática da Rede Estadual.

Inseridas num conjunto de novas orientações didático-administrativas da Secretaria da Educação do Estado, como as mudanças pedagógicas urgentes e necessárias para acompanhar as estratégias exigidas pelas atividades a serem desenvolvidas pelos professores junto aos alunos, além do estudo teórico exigido para tal ação, a apresentação do documento surpreendeu grande parcela da classe docente.

O fato de não se ter mais em mãos somente o livro didático deixou muitos professores de Matemática apreensivos. É possível que as orientações contidas no novo Documento, possam contribuir para a superação da inércia que domina muitos professores em relação a abordagem da Geometria.