Em se tratando de sua evolução histórica no Brasil, a família teve seus primeiros resquícios dispostos nos textos do Código Civil de 1916, onde se pressupunha um modelo único e padrão que excluía da proteção legal quaisquer outras formas familiares. Neste período, para que uma família fosse de fato família os principais padrões exigidos eram a presença de um matrimônio e da harmonia conjugal, além da hierarquia e do patriarcalismo. A mulher, considerada incapaz pelas próprias regras civis, devia obediência e submissão ao cônjuge, e os filhos entregavam, involuntariamente, ao pai o poder decisório sobre suas vontades (PAULO, 2009).
As organizações humanas, contudo, nem sempre foram patriarcais. Estudos antropológicos como os de Engels (1964) e Muraro (1997), por exemplo, indicam que, nos primórdios da humanidade, as sociedades eram coletivistas, tribais, nômades e matrilineares; ou seja, organizavam-se, predominantemente, em torno da figura da mãe a partir da descendência feminina e, consequentemente, possuíam um entendimento completamente diferente acerca da estrutura familiar, suas funções e o papel social deste núcleo (NARVAZ; KOLLER, 2006, p.50). Vale salientar que, para o contexto da pesquisa, este modelo de socialização de crianças criadas, predominantemente, de acordo com os padrões de consumo e comportamento materno nos leva a indagar: de quais formas estarão sujeitas às mudanças e lacunas (ou, quem sabe, benefícios) comportamentais, emocionais e psicológicas oriundas da ausência da figura paterna, e do aspecto “mãe” como chefe da família?
Diante disso, é importante questionarmos determinados princípios do tradicional patriarcalismo que ainda rege os principais costumes sociais11, em busca de uma compreensão mais assertiva acerca dos novos desafios do sistema familiar contemporâneo, e dos próprios parâmetros jurídicos ou culturais que definem as diretrizes para o comportamento deste núcleo (NARVAZ; KOLLER, 2006); já que a estrutura das famílias tem o poder para determinar os tipos de gastos de cada unidade familiar, e a composição destes arranjos pode influenciar o uso do tempo e dos recursos monetários entre seus membros (CARVALHO; ALVES, 2012).
A família, apesar de parecer uma instituição cujo significado é bastante subjetivo, representa um espaço de socialização e busca coletiva por estratégias de sobrevivência. Este núcleo pode ser considerado um local propício para o aprendizado da cidadania e o desenvolvimento individual ou grupal de seus membros, independentemente dos arranjos ou das novas estruturas que vem se formando nos últimos anos. Além disso, é um espaço propício para o desenvolvimento da cultura familiar, definida como um conjunto próprio de símbolos, significados, saberes e práticas (moldadas internamente pelos seus membros e pela influência de terceiros) que determinam o relacionamento das experiências da família com os estímulos externos (SIMIONATO; OLIVEIRA, 2003), bem como repercutem, significativamente, nas opções de consumo (CARVALHO; ALVES, 2012).
Este núcleo encontra-se sujeito a um complexo sistema organizado por meio de crenças, valores e práticas ligadas diretamente às mudanças da sociedade. Mudanças estas que podem exercer pressões sobre os seus membros para que se adaptem à realidade ao seu redor e fortaleçam o grupo. Mas, em contrapartida, também exigem novas regras sociais de amparo às novidades na ordem familiar (MINUCHIN, 1988; FACO; MELCHIORI, 2009).
As contemporâneas ordens familiares têm se tornado frequentes na sociedade. Porém, a imagem do grupo formado por um casal e seus filhos ainda é muito forte para a construção do senso comum. O que promove, em muitos casos, rejeição e aversão ao diálogo introdutório de outros vínculos porventura formados entre pessoas que não estejam categorizadas na classificação tradicional (PAULO, 2009). A fixação por esse modelo clássico no qual os pais biológicos (heterossexuais) possuem um papel
11 Basta observamos, por exemplo, o montante de sujeitos que na enquete sobre a procedência do “Estatuto da Família” concordam que o modelo tradicional tem maior validade sobre os alternativos. Disponível em http://goo.gl/9wjPt0
predominante e indiscutível na representação da família dificulta a observação das tendências estruturais deste sistema. E fazem surgir resistência, por exemplo, à possível evolução de políticas públicas que desmistificam a percepção da responsabilidade feminina pela esfera doméstica e pela maternidade, aproximando os homens das responsabilidades paternais12.
Esta nova realidade no quadro estrutural das famílias coloca em cheque a universalização do seu conceito, indicando que este núcleo é uma abstração indeterminada e capaz de ultrapassar a relação com a definição biológica (PAULO, 2009). Além disso, sem a evolução deste conceito, as famílias monoparentais femininas podem sofrer muito com a vulnerabilidade não somente no consumo, mas também no próprio convívio social, cultural, religioso ou educacional, motivada pelo preconceito e/ou pelas brechas legais no amparo aos seus direitos.
A evolução da compreensão de família, deste modo, não pode ser tratada de forma dogmática, já que os novos padrões presenciados, hoje, não decorrem da natureza (LOUZADA, 2011). “A família não é algo biológico, algo natural ou dado, mas produto de formas históricas de organização entre os humanos” (NARVAZ; KOLLER, 2006, p. 49). Sendo assim, é perfeitamente possível que uma sociedade possa existir não necessariamente seguindo o formato tradicional da família e, sim, com a manutenção de uma identidade legal, econômica e sentimental mesmo quando estruturada de modo adverso (PAULO, 2009).
No caso desta pesquisa, o núcleo formado por uma mulher divorciada e os filhos desta relação, ou seja, a família monoparental feminina será a base para o tratamento dos aspectos da vulnerabilidade no consumo. Esta escolha evidencia o impacto dessa estrutura específica no modelo de pesquisa pretendido, pois a falta de um pai (a figura masculina) provocada pela sua morte possui, até mesmo, menos impactos negativos para a vida da criança (e da família como um todo) do que a falta provocada pelo divórcio (BIBLARZ; GOTTAINER, 2000; CORAK, 2001; LANG; ZAGORSKY, 2001; GINTER; POLLAK 2004).
12 Neste trecho, há referência à lei sancionada em 2014 pela presidência da república que determina obrigatoriamente a guarda compartilhada para casais que se divorciam e não chegam a um consenso sobre quem deve ficar com a criança.
Além disso, a maioria das famílias chefiadas somente por mulheres, mais especificamente no Brasil, encontra-se em situação de vulnerabilidade social13 (GOMES; PEREIRA, 2005; CARVALHO; ALVES, 2012) e, com isso, tendem a experimentar níveis maiores de restrições financeiras que, consequentemente, perpetuam um estado de pobreza nas próximas gerações por meio dos níveis de acesso à educação e lições de consumo mais escassos direcionados aos seus filhos. Sem falar na alta possibilidade de que, se estes filhos forem do sexo feminino, também acabem se tornando mães solteiras ou mulheres divorciadas (CORMAN; KAESTNER, 1992).
Acrescido a estes aspectos, como o cuidado com as crianças é majoritariamente atrelado à figura materna, o relacionamento em questão se torna sensitivo às pressões e adversidades que, porventura, desestabilizem o seu estado emocional (da mãe); justamente durante uma fase da vida da criança em que os efeitos da ruptura familiar poderão ser sentidos até mesmo anos após o seu início (CROSNOE et al., 2014).
Em 2002, com o novo Código Civil, o Brasil até vivenciou uma evolução no conceito de família, quando a pluralidade deste núcleo foi representada no cenário jurídico (perceba que essa concepção evoluída possui apenas 13 anos de vigência, por isso, ainda existem resquícios do preconceito atrelado ao debate sobre o conceito de família). A nova concepção parecia enxergar não somente uma, mas diversas famílias, com várias configurações possíveis, dentre elas as monoparentais e aquelas advindas da união estável.
O matrimônio deixava de ser essencial e indissolúvel, sendo aceito o encerramento de uma sociedade conjugal e a constituição de outras em seu lugar, sem limites para o número de descasamentos e recasamentos. A hierarquia, o patriarcalismo e a desigualdade cederam lugar à democracia e à isonomia entre os cônjuges e os filhos, não havendo, portanto, mais um “chefe de família”. No novo código, este núcleo “não seria mais regido pelo pátrio poder, ou seja, pelo poder do pai, como na época feudal. Mas, pelo pater familiae, que pressupõe a igualdade de poder entre os membros do casal” (PAULO, 2009).
13 Gomes e Pereira (2005) afirmam que à medida que a família encontra dificuldades para cumprir satisfatoriamente suas tarefas básicas de socialização e de amparo/serviços aos seus membros, criam-se situações de vulnerabilidade social. A vida familiar para ser efetiva e eficaz depende de condições para sua sustentação e manutenção de seus vínculos.
Alguns termos que constavam no código anterior (de 1916) foram alterados a fim de diminuir a linguagem androcêntrica nele contido, entre eles os termos “todo homem”, que foi substituído por “toda pessoa”; e a própria Constituição Federal (1988) representou um marco na evolução do conceito de família ao validar a tendência que este núcleo possui de se tornar um grupo cada vez menos organizado e hierarquizado e cada vez mais fundado na afeição mútua (SIMIONATO; OLIVEIRA, 2003; LOUZADA, 2011).
Entretanto, mesmo com o avanço na concepção de igualdade entre homens e mulheres, o papel da mãe permanece atrelado à imagem de provedora de cuidado aos filhos, enquanto o papel do pai, além de proporcionar o sustento, envolve questões de disciplina e de autoridade. Sendo assim, as mulheres ainda possuem uma posição de trabalhadoras complementares, e estão sujeitas a maior vulnerabilidade diante do senso comum, embora, atualmente, sejam elas muitas vezes as reais provedoras da casa (FLECK; WAGNER, 2003).
Em casos de divórcio, essa situação se agrava. A ideia de que as mães devem dedicar-se, integralmente, aos filhos e maridos expõem-nas a uma dupla culpa (e consequentemente, vulnerabilidade), ao afastar-se dos “deveres que lhes são naturais” para promover o sustento da casa, educação aos filhos, e ainda cuidados com aparência, bem-estar e sucesso profissional (FLECK; WAGNER, 2003). Agregado a isso, a mídia atual também reforça estas informações aumentado a culpa das mulheres que não se limitam à esfera doméstica e aos papéis patriarcais normativos de esposa e mãe dedicada (NARVAZ; KOLLER, 2006, p.52).
Estes fatores que dificultam o exercício da monoparentalidade, tais como a restrição financeira e a falta de suporte conjugal ou comunitário, em especial às mulheres responsáveis por uma família, remetem a um desequilíbrio na conjuntura social. Ou seja, nas condições externas que podem originar traços de vulnerabilidades em seu comportamento, e consequente influência sobre as decisões relacionadas ao consumo dos filhos.
Uma vez que, estas condições fragilizam os laços sociais e dificultam o acesso a recursos de apoio para sua sobrevivência, agora como representante da família, a efetividade das políticas públicas, o esforço de comunicação empresarial, e a flexibilidade da opinião social são fundamentais à superação de sua condição de vulnerabilidade. Vale, contudo, salientar que existem casos em que a mulher é o sujeito pivô da separação e os filhos permanecem com o pai, havendo, portanto, necessidade de
estudos que averiguem as características da vulnerabilidade inerentes a esta estrutura familiar, onde o homem assume total responsabilidade também pelos filhos (DESSEN; LEWIS, 1998).