Agora o último passo de Bobzien é mostrar que na época de Alexandre não havia um conceito de liberdade para fazer de outro modo que fosse claro e bem definido, talvez, apenas fragmentos desse conceito. Segundo ela, a formulação do conceito de liberdade para fazer de outro modo em Alexandre foi um tipo de “fenômeno marginal sem um contexto filosófico claro” (Ibidem, p.167-170).
De acordo com Bobzien, nos livros Sobre o Destino e Mantissa, fica evidente o quão ambíguo e sem fundamentação era o conceito de liberdade para fazer de outro modo
antes de Alexandre. Ela aponta que quando Alexandre fala do conceito “depende de nós”, ele fala algumas vezes ora defendendo a liberdade para fazer de outro modo, ora implicando apenas a ausência de qualquer predeterminação por fatores causais internos e/ou externos. Mas também há momentos em que ele trata o conceito como sendo claramente compatível com o determinismo (cf. BOBZIEN, 1998b, pp.169-170).
Como já foi exposto, embora a expressão de Alexandre “ter o poder para escolher/ fazer opostos” seja inicialmente interpretada como podendo implicar o determinismo, indeterminismo e pré-determinismo, Susanne Bobzien afirma que a maneira de desambiguizar essa frase é enxergá-la dentro do contexto no qual ela está inserida. Isto é, precisamos introduzir essa frase dentro de um contexto no qual Alexandre está constantemente discutindo com a teoria estoica sobre o destino. Só aí poderemos ver o conceito potestativo bilateral de depende de nós em oposição ao princípio estoico de causalidade, segundo o qual nas mesmas circunstâncias as mesmas causas necessariamente geram os mesmos efeitos. E, consequentemente, também veremos que Alexandre tenderá a considerar que é possível que uma mesma pessoa sob as mesmas circunstâncias possa escolher/agir de modo diferente do qual tenha escolhido/agido. O que implica que a expressão “ter o poder para fazer/escolher opostos” tem apenas um significado indeterminista, deixando, assim, a ambiguidade de lado (cf. Ibidem, p.170).
Ela cita passagens dos escritos de Alexandre como fundamento para sua tese. Em uma passagem, por exemplo, Alexandre fala hipoteticamente de uma pessoa que age contra seu caráter ou contra suas melhores razões com o intuito de frisar a falibilidade do determinismo. Em outra, ele afirma que o sentimento de arrependimento mostra que temos o poder de escolher opostos. E essas afirmações são interpretadas por Bobzien como indicando um conceito de liberdade para fazer de outro modo. Por último, ela mostra que no Mantissa e no Sobre o Destino encontramos passagens onde Alexandre fala que “as mesmas circunstâncias, não conduzem necessariamente o mesmo agente às mesmas ações/escolhas, pois existem vários - incomensuráveis - fins em vista dos quais decidimos e escolhemos” (On Fate, Cap. 15 e Mantissa, 174.17-24 apud Bobzien, 1998b, p.170. Tradução nossa).
Contudo, apesar de toda essa argumentação de Bobzien para tentar mostrar que o conceito de Alexandre implica um indeterminismo, ela precisa deixar claro que Alexandre não é inequívoco e totalmente consistente quanto a esta questão. Ela supõe que isso ocorra,
em parte, pelo fato de ele não ter a noção de uma faculdade da vontade plenamente desenvolvida.
De todo modo, ainda podemos encontrar nos escritos de Alexandre, principalmente quando ele fala que o agente possui um poder bilateral de tomar decisões, todos os ingredientes que, segundo Bobzien, são necessários para formar uma noção de livre- arbítrio. Cito:
* Não é determinado por fatores de influência externa ou interna; * É exercido como o resultado de um processo de deliberação; * É considerado como separável do caráter, disposição, ou natureza do agente;
* É considerado - parece - como separável da razão do agente: podemos decidir contra o que nos aparece como o curso de ação mais razoável; * Leva a decisões que não são causalmente predeterminadas por fatores internos ou externos, de modo que é possível que o mesmo agente, com os mesmos desejos e crenças, nas mesmas circunstâncias, escolha diferentemente (Ibidem, p.171 Tradução nossa).
Por fim, uma questão chave que impede Alexandre de ter definitivamente uma noção de livre-arbítrio é a sua concepção de alma, uma vez que nesta concepção a alma é vista como inseparável do corpo e também está sujeita aos impactos causais (ao menos em princípio). Por consequência, se uma decisão não for necessária, predeterminada ou externamente determinada, ainda assim a constituição da alma parece não deixar espaço para uma faculdade independente tomar algum tipo de decisão realmente independente. Alexandre também não explica muito bem o que era exatamente essa faculdade independente que tem o poder para fazer escolhas opostas: a parte racional da alma ou apenas uma parte dela, por exemplo? Seja qual for a resposta, ainda ficamos com o problema de conciliar as escolhas dessa faculdade com a razão, visto que ela pode contrariá-la.
Mas se não encontramos de forma inequívoca em Alexandre o problema do livre- arbítrio – o problema de compatibilizar o determinismo causal com a liberdade para fazer de outro modo – como então surge o problema do livre-arbítrio? Segundo Bobzien, ele surge “apenas no confronto dos dois sistemas filosóficos, quando o determinismo causal estoico tardio encontra a liberdade para fazer de outro modo peripatética posterior - com tal liberdade entendida como uma condição necessária para a responsabilidade moral” (Ibidem, p.172. Tradução nossa).
Segundo Bobzien, Alexandre algumas vezes parece falar de um tipo de liberdade para fazer de outro modo como condição para alguém ser avaliado moralmente responsável por suas ações. O que, consequentemente, implica em negar que as ações humanas são predeterminadas. Desse modo, sua descrença em uma providência divina universal e seus embates com as doutrinas estoicas deterministas (mas também com algumas doutrinas platônicas e talvez uma ou outra peripatética) deram origem ao conflito característico do problema geral do livre-arbítrio: determinismo versus liberdade de decisão. O que me parece razoável, se você entende a proposta de Bobzien como sendo uma proposta que visa encontrar a primeira exposição do problema (seja ou não com falhas e problemas) a partir de um determinado filófoso, no caso, Alexandre de Afrodísias.
Vemos, portanto, que Bobzien fecha sua hipótese, mas deixa claro que essa hipótese não é inquestionável. Pois, o que tudo indica, e eu tendo a concordar, é que, de fato, Alexandre não possuía uma noção inequívoca para o termo livre-arbítrio. Contudo, e é no mínimo plausível, realmente parece que ele vislumbrou uma disputa entre duas correntes filosóficas que levariam ao questionamento do problema para conciliar duas coisas que unidas gerariam um grande problema, o problema do livre-arbítrio. Ele tentou sem sucesso solucionar o problema, mas o que conta para a tese de Bobzien é a exposição do problema do livre-arbítrio, e não necessariamente a solução definitiva para o mesmo. E isto ela parece ter demonstrado.