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Para Agostinho, o homem foi criado com a capacidade59 de distinguir o bem e o mal e escolher o melhor. No entanto, a queda de Adão perverteu a vontade humana e obrigou os homens a escolherem o pior, embora soubessem o que era o melhor. Aqui nem as ações virtuosas escapam, pois o objetivo da ação virtuosa pervertida é apenas a própria virtude do sujeito e não uma contribuição para as outras pessoas. Entretanto, a graça de Deus, e apenas ela, pode renovar e reestabelecer a liberdade de escolha original da vontade dos homens. Sendo anterior a qualquer ato ou esforço intelectual moral e prático (cf. Ibidem, pp.130-131).

58 Dihle também argumenta que os gregos não tinham um termo filosófico para a noção de vontade pura porque as palavras mais próximas à noção moderna de vontade como, Boúlesis e Phroaíresis, possuíam uma conotação intelectualista muito forte, enquanto que o termo da jurisprudência romana, voluntas, poderia oferecer um termo inequívoco para significar a vontade pura devido ao seu forte caráter não intelectual. Sem falar que este termo era fluido, por causa de seu uso geral e social, permitindo o uso do termo em outros campos de estudo.

59 Dihle argumenta que essa capacidade é a consciência. Ela é o conhecimento inato do bem e do mal que todos os homens têm. Ela é anterior à cognição, que resulta da atividade intencional intelectual, e por isso, não pode ser refutado por argumentos racionais (cf. Ibidem, p.129). Leitor, se pararmos um pouco para pensar, veremos que essa função aqui atribuída à consciência, é atribuída por Lossl ao intelecto. Temos, portanto, um função que é atribuída a duas faculdades diferentes. Mas qual faculdade será, de fato, responsável por tal função? Tendo a concordar com Lessl, uma vez que é próprio do intelecto, e não da consciência, o conhecer e analisar a realidade.

E, dado que a graça de Deus mudou a natureza humana e curou a vontade, então tornou-se possível para os homens quererem escolher aquelas ações que estão de acordo com a virtude e os comandos de Deus. O amor de Deus pode, por sua vez, ser revelado na vida e vontade de Cristo que tornou-se o modelo de vontade renovada do eleito. Assim, a ação que passa a ser motivada exclusivamente pelo amor a seus irmãos ou a Deus torna-se sempre virtuosa e de acordo com os mandamentos de Deus.

Até agora vimos como Agostinho define e utiliza sua noção de vontade, mas ainda não temos clareza sobre a origem terminológica desta noção. Albrecht Dihle argumenta que esta noção tem sua origem na Jurisprudência Romana. Vamos ver como isso ocorreu:

De acordo com Dihle, havia na língua latina um grupo de palavras para identificar o impulso e intenção para agir de modo independente de sua possível origem na parte racional ou irracional da alma (cf. Ibidem, p.133). Essa ploriferação de palavras se deve, segundo ele, a falta de uma psicologia refinada no vocabulário latino.

Os termos velle (querer/desejar) e voluntas (vontade), por exemplo, contribuíram para o tom voluntarista no pensamento romano. Segundo Dihle, Marco Túlio Cícero (106 a.C. – 46 a.C.) usou tais termos para traduzir alguns termos gregos que expressavam uma intenção deliberada e consciente, em contraste com um impulso puramente irracional. Entretanto, Cícero não usava o termo voluntas para traduzir phroaíresis e boúlesis apenas, mas também como significando desejo ou vontade espontânea (cf. Ibidem, p.133-134). Cito:

Assim, ele [Cícero] não parece ter visto qualquer dificuldade na identificação da β ύ ησι "intelectualista" com a voluntas "voluntarista", já que ele pressupunha a sua identidade, mesmo fora de discussões filosóficas. O fato de que π αί εσι já havia se tornado o termo para designar a atitude moral geral de um indivíduo aparentemente facilitou ele ser traduzido por voluntas, especialmente onde a prática moral e sua fundação estavam estabelecidas em contraste com a erudição na teoria moral (Ibidem, p.134. Tradução nossa).

Dessa forma, os termos velle e voluntas continuaram a ser utilizados tanto em contextos filosóficos quanto em contextos não-filosóficos para designar uma vontade pura, independente da cognição e emoção. Mas, aí surge outra questão: se

[...] este fenômeno deve ser explicado no contexto das muitas características arcaicas do Latim, ou se uma noção de vontade que poderia influenciar o uso geral foi talvez desenvolvido além da tradição filosófica no mundo da língua latina (Ibidem, p.135. Tradução nossa).

Uma resposta possível, segundo Dihle, é obtida através de uma análise terminológica do próprio termo voluntas, usado por muito tempo na linguagem jurídica romana. Dihle argumenta que a jurisprudência foi a única criação romana que se desenvolveu de forma quase independente dos modelos gregos. Segundo ele, ela estava impregnada em todas as camadas da sociedade e isso foi um dos principais fatores que garantiu ao termo

voluntas um valor terminológico fora do esquema jurídico. Antes de adquirir seu famoso valor conceitual para a teoria da vontade agostiniana, na jurisprudência este termo já significava uma mera vontade independente de sua origem na cognição ou emoção, embora ainda não possuísse as conotações éticas e psicológicas que tem em Agostinho. O termo "vontade", era apenas usado como uma ferramenta de análise jurídica. Por exemplo, crianças e pessoas vistas como “idiotas” não possuíam vontade no sentido jurídico, visto possuírem capacidades racionais limitadas. Além do mais, em nenhum texto jurídico era questionado de onde era originada esta vontade, pois tal fato era irrelevante para o processo jurídico.

E como o termo original tinha sido criado para captar a intenção subjacente às palavras ou ações formalizadas, ele não pretendia explicar as ações morais. Daí porque não era necessário no uso legal a investigação de sua origem na alma. Se fazia necessário para a solução de um determinado caso apenas a interpretação do advogado e do juiz das palavras e ações que envolviam a voluntas. Por causa dessa ausência de psicologia no termo técnico, Dihle argumenta que a introdução do aspecto psicológico e ético do termo veio apenas da análise introspectiva e da autoanálise feitas por Agostinho. Nas palavras de Dihle:

A palavra voluntas designava um conceito hermenêutico, ao invés de um conceito antropológico na jurisprudência romana e, podemos suspeitar, que algumas vezes também no uso geral latino. Santo Agostinho transferiu este conceito para o campo da psicologia, criando assim uma ferramenta para interpretar e classificar observações psicológicas independentemente dos padrões tradicionais da psicologia filosófica. Ele foi capaz de conectar seus próprios insights psicológicos à palavra voluntas, uma vez que as conotações psicológicas tinham estado ausentes de seu uso terminológico anterior. Juntamente com as suas novas conotações psicológicas a palavra para o novo conceito poderia ser facilmente aplicada à soteriologia, ética e gnoseologia, a fim de descrever com precisão o voluntarismo que está na base da tradição bíblica (Ibidem, p.143-144. Traduçao nossa).

Em resumo, temos que Agostinho reinterpretou o termo jurídico e hermenêutico

clarificar as dimensões psicológicas de modo independente da forma tradicional da filosofia psicológica grega. Sem esquecer que o termo voluntas já havia sido usado para traduzir o termo que representava a vontade de Deus na teologia grega dos séculos II e IV, então é no mínimo razoável imaginar que Agostinho pudesse adotar o termo para identificar a faculdade da vontade que ele precisava para caracterizar a noção de livre-arbítrio (cf. Ibidem, p. 143).

O esquema argumentativo seguido por Dihle pode ser resumido nos seguintes passos:

1. Agostinho originou seu conceito de vontade a partir do conceito de vontade jurídica.

2. O conceito de vontade grego tinha sua origem na razão/intelecto. O conceito de vontade jurídico romano não levava em conta a origem da vontade, seja na cognição ou na emoção, este fato era irrelevante para o conceito.

3. Auto-análise + introspecção + ontologia neoplatônica + o conceito de vontade da jurisprudência romana → o conceito de vontade como algo independente da cognição ou emoção.