Tendo por base a semelhança entre homem e Deus, a teoria da vontade agostiniana poderia ser aplicada tanto ao campo moral da psicologia humana quando o da teologia bíblico-cristã. Cito:
O papel fundamental atribuído à vontade (voluntas) nos sistemas correspondentes de psicologia e teologia de Santo Agostinho resulta principalmente de auto-exame. Não é derivado de doutrinas anteriores no campo da psicologia ou antropologia filosófica, e parece marcar um ponto de desvio na história do raciocínio teológico. Pela primeira vez, a mesma noção de vontade poderia ser aplicada ao mesmo tempo nos contextos teológico e antropológico. Isso correspondeu exatamente ao voluntarismo indistinto, embora persistente, que permeia a tradição bíblica [...]. A partir das reflexões de Santo Agostinho surgiu o conceito de uma vontade humana, anterior e independente do ato de cognição intelectual, ainda que fundamentalmente
diferente da emoção sensual e irracional, pelo qual o homem pode dar a sua resposta às declarações inexplicáveis da vontade divina (DIHLE, 1982, p.127. Tradução nossa).
Entrementes, para entender essa questão precisamos voltar no tempo e entender primeiro algumas distinções entre as teses de Agostinho e da filosofia clássica grega, como também das concepções de vontade e obediência bíblicas.
Segundo Dihle, há algumas distinções básicas entre as teorias éticas de Agostinho e as teorias gregas. De início temos que, ao contrário dos gregos, Agostinho distingue vontade tanto da cognição potencial (quando você tem uma função cognitiva, mas você não está exercendo no momento) quanto da cognição efetivada (quando você exerce essa função cognitiva). Ele baseia esta tese em um argumento estritamente psicológico, um argumento introspectivo, no qual ele tentou aplicar o que tinha percebido em si mesmo por meio da introspecção à imagem de Deus. E enquanto os gregos se preocuparam em apresentar uma abordagem racional e externa da questão, ao tentar explicar a ação através da ordem do ser (realidade externa) compreendida intelectualmente, Agostinho buscou entender o problema por meio de uma abordagem interna ao explicar o que acontece na mente durante o próprio ato de cognição e da vontade. Outro ponto é que nas teorias gregas era necessário que a faculdade da compreensão fosse explicada com base na mesma explicação racional que explicava a ordem da natureza para que, assim, houvesse uma efetiva apreensão da vida intelectual – para entender uma parte da realidade era preciso entender racionalmente o todo da realidade. Já em Agostinho, a matéria prima da cognição e o caminho da compreensão podem ser encontrados na alma, sem qualquer referência a um ponto essencial no mundo externo (cf. Ibidem, p.125).
Além dessas distinções, Dihle também tenta nos mostrar que a tese do caráter imaterial da realidade e as disputas entre platonistas e estoicos, em particular, sobre uma verdadeira teoria ética da vida virtuosa, fez renascer no séc I a.C. a necessidade de se explicar a imortalidade da alma. Dihle desenvolve esta questão porque, segundo ele, ela também acarreta necessariamente a obrigação de se explicar a realidade do todo e, consequentemente, o Ser Supremo (aquele que criou e mantém tudo que há). Não obstante, para se obter o conhecimento do todo e, por conseguinte, do Ser Supremo, temos que seguir entre estes dois
caminhos: 1, pela compreensão racional, que pode ser transmitida pela linguagem; e 2, pela iluminação divina, que pode ser falado apenas em termos de negação57.
Segundo Dihle, a partir do momento em que este problema foi detectado surgiram diversas tentativas de dissolvê-lo, e é na segunda via de explicação que encontramos o que buscamos (a via que Dihle interpreta como sendo a adotada por Agostinho). Isto é, se adotarmos a segunda via de explicação, a via da iluminação, vemos que o primeiro passo em direção ao conhecimento do todo é dado através do ato de aceitar a mensagem divina – o que significa a liberdade do eu verdadeiro de tudo que é material. E este ato de aceitação apenas poderia ser completamente descrito em termos de uma teoria da vontade.
Assim, levando em conta a segunda via como curso a ser adotado para explicação do problema e o fato de que a filosofia grega tradicional (aristotélica e platônica) afirmava que a felicidade e a virtude só são alcançadas quando nós nos adequamos à natureza (adequação alcançada unicamente pela atividade intelectual), então é mister deixar qualquer explicação filosófica baseada na ontologia intelectual de fora de uma tentativa de explicar as ações humanas. Pois, como foi exposto no argumento acima, uma abordagem intelectualista da questão apenas nos paralisará.
A filosofia de Agostinho sustentava uma visão diferente da tradição ao defender a visão de que primeiro temos que aceitar a mensagem/revelação divina para, então, obtermos uma regra de conduta moral. Este ato é a principal realização individual de uma pessoa (cf. Ibidem, p.13). Na visão grega, era necessário uma compreensão racional da realidade e, além disso, a aplicação desse conhecimento nas ações diárias para tornar as ações humanas virtuosas. Diferentemente da tradição grega, a vida e os valores éticos e morais para os judeus e cristãos eram avaliados em termos de obediência e desobediência, isto é, em termos da vontade do sujeito, antes do que de seu conhecimento e ignorância ou erro (cf. Ibidem, p.126, nota 18).
A partir desse contraste, podemos entender a distinção entre as ideias grega e agostiniana no que se refere à vontade. Por um lado, há a ideia grega de uma vontade ou intenção como um subproduto da cognição, o que os conduz a uma ontologia da
57 Enquanto o conhecimento adquirido por meio da compreensão racional pode ser compartilhado através da linguagem aos outros seres humanos racionais, o que foi revelado por meio da iluminação só poder ser falado em termos negativos, uma vez que o Absoluto está acima de qualquer ser, mas já a linguagem, enquanto um reflexo do pensamento, apenas é apontado em um ser (ser limitado, ser determinado). Por exemplo, o Absoluto não é limitando (não ser limitado) e nem é determinado por nada além dele mesmo (não ser determinado) (cf. DIHLE, 1982, p.11).
predestinação divina, uma vez que a cognição necessita de uma referência àquilo que existe de modo objetivo e independente do sujeito que percebe. Por outro, há a doutrina da graça de Agostinho que é fundamentada na relação direta entre Deus e a alma dos homens, esta vista como algo anterior e independente de qualquer ordem natural da natureza. Sendo que, para Agostinho, ambas as vontades podem ser verificadas (suponho que seja a divina por revelação e a humana por introspecção)58.
É importante notar que, ao contrário da tradição grega, para Agostinho a direção da vontade independe do conhecimento do melhor e do pior. Ela é independente da parte racional da alma, visto ser anterior à cognição. E, segundo Agostinho, podemos constatar essa anterioridade a partir de um exemplo: a vontade é uma atividade pura que não é causada para realizar um resultado diferente dela, enquanto que o ato de cognição produz algo diferente, o conhecimento (cf. Ibidem, p.126, nota 22). Deste modo, não são mais as afecções um mal em si que fazem o homem pecar. É a vontade humana, que por si mesma se rende às afecções, a verdadeira causa do pecado e do mal moral. Isto é, tudo agora vai depender de qual direção a vontade decide tomar, a carne ou o espírito.