• Sonuç bulunamadı

Com base no que vimos anteriormente, podemos concluir que há duas questões em jogo quando pensamos sobre o livre-arbítrio: 1. a questão de delimitar o conceito de livre- arbítrio e 2. a questão de examinar a compatibilidade entre a existência do livre-arbítrio e a noção de um universo determinado, que é propriamente o problema do livre-arbítrio. Usaremos a classificação de Bobzien, que expus na terceira seção deste capítulo, a saber, as noções de livre-arbítrio que se referem aos tipos de liberdades indeterminada e não- predeterminista, para identificar os tipos de livre-arbítrio que encontramos nos autores

tratados. A partir desta classificação encontramos dois tipos diferentes de liberdade: a liberdade não-predeterminista e a liberdade para fazer de outro modo. Já o problema do livre- arbítrio que encontramos sempre parte do mesmo conflito: como justificar a liberdade humana em uma realidade determinada? Tendo isso em mente, propus responder seis questões que pretendem deixar mais claro o que cada tese defende. As questões são as seguintes: I. Qual é o conflito envolvido? II. Qual a origem do conflito? III. Qual é a solução? IV. Qual é a definição para o livre-arbítrio que encontramos aqui? V. Qual tipo de liberdade está em questão? E, por último, VI. Qual é a questão central investigada ao se buscar a origem do livre-arbítrio? As respostas encontradas são estas:

I. Qual é o conflito envolvido?

Epicuro de Samos IV/III a.C.: Determinismo X Livre-arbítrio60.

Epiteto séc. I d.C.: Determinismo X Livre-arbítrio.

Alexandre de Afrodísias séc. II d.C.: Determinismo X Livre-arbítrio. Agostinho de Hipona séc. III/IV d.C.: Determinismo X Livre-arbítrio.

II. Qual a origem do conflito?

Epicuro: Quando Epicuro nota um conflito entre a tese determinista democritiana e a ideia de

que somos agentes causadores de determinados eventos no mundo.

Epiteto: Quando se percebe a incompatibilidade entre a teoria estoica de que tudo o que

acontece no mundo acontece de acordo com a ordem providencial divina com a tese de que as escolhas humanas são moralmente responsáveis.

Alexandre de Afrodísias: O problema de compatibilizar a liberdade de escolha de viés

aristotélico com as doutrinas deterministas estoicas.

Agostinho de Hipona: Deve-se ao conflito entre as diversas teses sobre uma realidade

determinada e, principalmente, da crença em uma presciência divina, versus a crença religiosa e bíblica em uma liberdade humana.

60 Se aceitamos o determinismo definido da seguinte forma, o que acontece em um determinado momento é completamente determinado por eventos antecedentes, então parece que Epicuro, Epiteto e Alexandre não só tinham ciência deste conceito como também estavam comprometidos em compatilizá-lo com a nossa liberdade. E se levarmos em conta que Agostinho também tinha a procupação de explicar a vontade frente a diversas determinações externas, então ele também pode ser enquadrado neste ponto (MENDELSON, 2014). Agora, é claro, haviam outros tipos de constrangimentos que comprometiam a liberdade humana e que preocupavam estes filósofos, como o predeterminismo, seja ele teológico ou não, o determinismo causal, o determinismo físico, e o determinismo religioso ou teológico (Agostinho). Para ver a definição de cada um destes termos e outros mais basta cf. DOYLE, 2011, pp.146-150.

III. Qual é a solução?

Epicuro: Criação do Clinâmen.

Epiteto: A criação de um conceito de livre-arbítrio, enquanto uma habilidade potencialmente

livre para fazer escolhas e tomar decisões, em particular, aquelas em que o sujeito quer fazer algo.

Alexandre de Afrodísias: Formulação de um tipo de liberdade para fazer de outro modo

indeterminista como uma condição para alguém ser avaliado como moralmente responsável por suas ações.

Agostinho de Hipona: A criação de um conceito de livre-arbítrio, que compatibiliza as ideias

bíblicas com as teses filosóficas, a partir de um conceito de vontade inspirado no conceito de vontade (voluntas) jurídico-romano, uma vez que tal conceito romano não levava em conta se a vontade era originada na cognição ou na emoção.

IV. Qual é a definição para livre-arbítrio que encontramos aqui?

Epicuro: Não é apresentado uma definição inequívoca para o termo “livre-arbítrio”, apenas a

ideia de que somos agentes autônomos causalmente responsáveis por algumas ações e que esta tese é conflitante com a tese democritiana de que o mundo é determinado. Isto é, temos uma menção ao “problema livre-arbítrio”, enquanto um conflito determinismo versus livre- arbítrio.

Epiteto: Uma habilidade, potencialmente livre, para fazer escolhas racionais e sábias.

Alexandre de Afrodísias: Aqui não há uma preocupação final em dar uma definição para o

termo “livre-arbítrio”, embora Alexandre também tente apresentar um conceito indeterminista de liberdade. O que encontramos aqui é apenas uma interpretação errônea da filosofia de Aristóteles sobre a escolha e ação deliberativa que conflita com a teoria estoica de determinismo e responsabilidade moral. Sendo que a exposição desse conflito é caracterizada como sendo a origem do problema do livre-arbítrio: determinismo versus livre-arbítrio.

Agostinho de Hipona: O livre-arbítrio é definido como uma capacidade humana que atua de

modo independente da cognição ou emoção, a chamada vontade (voluntas). Entretanto, a vontade é livre de constrangimentos externos e internos apenas para escolher o que é bom61.

61 Cf. DIHLE, 1982, p.131.

V. Qual tipo liberdade está em questão? Epicuro: Liberdade não-predeterminista. Epiteto: Liberdade não-predeterminista.

Alexandre de Afrodísias: Liberdade indeterminista para fazer de outro modo. Agostinho de Hipona: Liberdade não-predeterminista.

VI. Qual é a questão central investigada ao se buscar a origem do livre-arbítrio? Epicuro: É investigado o problema do livre-arbítrio.

Epiteto: É investigada a noção de livre-arbítrio.

Alexandre de Afrodísias: É investigado o problema do livre-arbítrio. Agostinho de Hipona: É investigada a noção de livre-arbítrio.

As respostas dadas à primeira questão, “qual é o conflito envolvido?”, são, em essência, iguais. Os quatro conflitos partem da hipótese de que a realidade é determinada, seja um determinismo físico (principalmente Epicuro), ou um determinismo causal (todos), isto é, um tipo de pré-determinismo (todos), além de uma preocupação muito particular com a presciência divina, no caso de Agostinho. A segunda questão, “qual a origem do conflito?”, obteve respostas distintas. Porém, todas elas derivam de um pano de fundo conflitante entre hipóteses deterministas sobre a realidade com uma segunda hipótese “particular” sobre as escolhas e ações humanas no mundo. Já a terceira questão, “qual é a solução?”, auferiu soluções bem mais diferentes. Embora todas visassem o mesmo fim, a saber, solucionar o problema do livre-arbítrio, uma se distinguiu mais nitidamente das demais. Enquanto as outras não se preocuparam em buscar a solução por meio da análise da concepção de realidade determinada, mas antes, buscaram entender, reformular e até fundir as noções originárias do conceito de livre-arbítrio, a solução encontrada por Epicuro para resolver o problema foi reformular o conceito de determinismo introduzindo nesta tese o conceito de

clinâmen. Este conceito, consequentemente, impactou de tal modo a concepção de realidade que hoje em dia ele é visto como o precursor da hipótese moderna de indeterminismo quântico. A quarta questão, “qual é a definição para o livre-arbítrio que encontramos aqui?”, também pode ser vista como uma exposição de teses particulares. Em cada uma delas, o autor tenta explicar ou a existência de uma capacidade humana que atua livremente (Epiteto e Agostinho), ou a existência de um conflito ao se tentar explicar algumas ações humanas em

um mundo determinado (Epicuro e Alexandre). Na quinta questão, “qual tipo de liberdade está em questão?”, temos dois tipos de liberdades: “liberdade não-predeterminista” (Epicuro, Epiteto e Agostinho) e “liberdade para fazer de outro modo” (Alexandre). A sexta questão, “qual é a questão central investigada ao se buscar a origem do livre-arbítrio?”, nos traz dois tipos de problemas investigados, o “problema do livre-arbítrio” (Epicuro e Alexandre) e a “noção de livre-arbítrio” (Epiteto e Agostinho). Aqui é bom notar que estamos preocupados em destacar a motivação inicial que levou cada autor a discutir o livre-arbítrio, o que não significa que eles se limitaram a esta questão inicial.