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Destas exposições feitas até aqui podemos captar dois termos centrais para a tese de Bobzien: “liberdade da vontade” e “problema do livre-arbítrio”. A seu ver, “liberdade da vontade” se refere ao que comumente chamamos de livre-arbítrio. E o chamado “problema do livre-arbítrio” trata centralmente dos três problemas originados pela tríplice distinção das liberdades indeterministas com o determinismo41. Sendo que o primeiro, o problema da compatibilidade da liberdade para fazer de outro modo com o determinismo, é o que Bobzien quer demonstrar que Alexandre tentou resolver.

Para tanto, ela vai utilizar, principalmente, os tratados de Alexandre, Sobre o Destino e o Mantissa, além de uma bibliografia secundária que veremos no decorrer da exposição. Dentro do tratado Sobre o Destino, Bobzien vai tentar extrair no primeiro momento o cenário de debate filosófico em que Alexandre se encontrava. Do Mantissa (e na

41 Bobzien afirma que os filósofos modernos dificilmente se preocupam com o problema do livre-arbítrio que tenha como base a tentativa de explicar a compatibilidade entre uma faculdade da vontade livre com um determinismo causal ou físico universal. Para ela, o problema discutido, em geral, trata da compatibilidade entre um determinismo causal universal que contém um princípio do tipo “mesma causas, mesmos efeitos” e um tipo de liberdade indeterminista, como a liberdade de decisão ou a liberdade para fazer de outro modo. Assim, baseada em suas pesquisas e com essa pressuposição, ela defende que Alexandre de Afrodísias foi o primeiro a descobrir um tipo de problema que surgiu ao tentar conciliar uma liberdade para fazer de outro modo com o determinismo (cf. BOBZIEN, 1998b, p.136).

Ética a Nicômaco), ela vai inicialmente extrair o conceito potestativo bilateral42 de “depende de nós”.

No Sobre o Destino, Bobzien nos apresenta um tipo de impasse entre a posição determinista e compatibilista dos estoicos e a posição “libertariana” e peripatética de Alexandre. Ela explica que, por um lado, ambas as posições defendem que a avaliação moral de uma ação deve pressupor que uma ação dependa de nós. Mas, por outro, a característica principal de cada posição é dada pela visão que cada um tem sobre o determinismo causal e sobre o que “depende de nós”. Segundo Bobzien, os estoicos43 citados por Alexandre estão preocupados com a compatibilidade entre o determinismo causal universal com a responsabilidade moral tipo I.

Nesse tratado, Alexandre escreve que os estoicos44 tentam conciliar a teoria física com a responsabilidade moral através de seu conceito de “o que depende de nós”. Segundo Bobzien, os estoicos definem este termo como “o que acontece por meio de nós [...], isto é, o que é o resultado de impulso e assentimento, e no qual a natureza do agente se manifesta” (Ibidem, p.138. Tradução nossa). E isso garante que o agente seja o principal fator causal para as suas ações. E por essa razão pode ser considerado responsável por suas ações.

Já a tentativa peripatética de compatibilização que é proposta por Alexandre é, de acordo com Bobzien, menos clara. Pois ela é apresentada a partir de uma variedade de pontos de vistas. Entretanto, segundo ela, muito embora tal visão não seja muito clara, ainda podemos enxergar nela uma proposta de liberdade para fazer de outro modo que é muito próxima da noção moderna de liberdade de decisão. E para tentar comprovar esta tese, Bobzien apresenta dois trechos do tratado de Alexandre. No primeiro, Alexandre explica o que é a noção “depende de nós” e no outro ele deixa claro que essa noção deve ser independente de causas anteriores. E uma consequência dessa quebra causal é a rejeição do

42“Potestativo” é aquilo que é revestido de poder, assim por potestativo bilateral quer-se dizer que, neste caso, alguém tem o poder dual de fazer/escolher ou não algo.

43 Esses estoicos sofrem forte influência da tradição crisipiana, e por isso eles defendem que tudo está predestinado por um destino definido como uma rede de causas. De modo que nada pode mudar sem que haja uma causa anterior. Assim, temos a garantia do determinismo causal universal, uma vez que dadas as mesmas circunstâncias, as mesmas causas necessariamente acarretariam os mesmos efeitos. E assim, o sentido moderno de determinismo, onde causa e efeito são vistos como eventos, e o sentido estoico, onde coisas e objetos são causas, e eventos, movimentos e mudanças são vistos como efeitos, podem ser cobertos por essa definição (cf. Ibidem, p.138).

44 Na grande maioria das vezes, Bobzien não deixa claro de qual estoico, em particular, Alexandre está falando. O que parece é que ele está se referido à corrente estoica de um modo geral. Só quando é necessário é que é feito uma referência mais direta.

pré-determinismo causal universal – que vale tanto para os fatores causais externos quanto os internos. Segue a citação:

"Depender de nós" é predicado das coisas sobre as quais temos em nós o poder de escolher também o oposto. (Alex. Fat. 181,5)

[...]

Nós temos este poder de escolher o oposto e nem tudo o que nós escolhemos tem causas pré-determinantes, em razão das quais não nos é possível deixar de escolher isso. (Alex. Fat. 180,26-8) [...]

(On Fate de Alexandre de Afrodísias apud BOBZIEN, 1998b, p. 138. Tradução nossa).

Com essas passagens Bobzien quer, principalmente, deixar evidente que o conceito de “o que depende de nós” utilizado por Alexandre pressupõe dois pontos, a negação de um pré-determinismo e a existência de uma liberdade para escolher/fazer de outro modo pelo agente.

Se prestarmos um pouco de atenção veremos que dois problemas surgem aqui. Por um lado, há um conflito entre o determinismo causal (toda mudança no mundo é causalmente determinada por causas anteriores), defendido pelos estoicos, e o indeterminismo parcial peripatético (há algumas mudanças no mundo que são causalmente indeterminadas). Por outro, parece haver um problema entre liberdade e determinismo.

Bobzien, contudo, assinala que a dificuldade para solucionar esses problemas está

em saber qual é a noção correta de “o que depende de nós”. Pois com essa noção podemos encontrar uma condição suficiente para a possibilidade de avaliação moral, visto ser esta a questão central destes dois problemas, isto é, como e por que nossas ações podem ser moralmente responsáveis? Assim, já sabendo qual conceito é central neste momento, ela vai começar a analisá-lo.

Ao analisar o termo “depender de nós” ela afirma que ele pode denotar dois conceitos: um conceito causativo unilateral (one-sided causative) e um conceito potestativo bilateral (two-sided potestative) (e aqui entra o Mantissa e a Ética a Nicômaco).

A versão potestativo bilateral se refere a “um poder para tipos alternativos de comportamento; depende de mim se algo acontece (ou acontecerá)” (Ibidem, p.139. Tradução nossa). Por exemplo, se depende de mim caminhar, então eu também posso escolher/decidir não caminhar, e se depende de mim não caminhar, então eu também posso escolher/decidir caminhar. O que devemos ter em mente aqui é que, nesta versão, é forçoso deixar em aberto a

possibilidade não realizada. Outro ponto é que esta versão pode ser lida tanto como sendo compatível com o determinismo quanto com o indeterminismo. Cito:

Uma leitura compatível com o determinismo (e indeterminismo) é esta: caminhar depende de mim em um determinado momento, se nesse momento eu tenho a capacidade dual geral para caminhar - mesmo se na situação específica esteja total e causalmente determinado que eu caminharei (ou não).

[...] O ἐφ 'ἡ ῖ potestativo bilateral também pode ser entendido como indeterminista da seguinte maneira: em um determinado momento caminhar depende de mim, se, nesse momento, é causalmente indeterminado se eu caminho (caminharei) ou não, e depende de minha livre decisão se eu caminho (caminharei) ou não (Ibidem, p. 140. Tradução nossa).

Como podemos ver, Bobzien oferece duas leituras para o conceito potestativo bilateral de depende de nós, uma compatível com o determinismo (e indeterminismo) e outra compatível apenas com o indeterminismo. A leitura compatível com o determinismo deixa ao agente apenas um tipo de capacidade geral em um dado momento que o permite decidir/escolher entre A e não-A. Enquanto na leitura compatível com o indeterminismo o agente tem um tipo de capacidade que lhe dá o poder de decisão não determinada para escolher entre cursos de ação ou o poder para iniciar um curso de ação, o que implica que nesta leitura há um tipo de liberdade indeterminista para fazer ou não algo. Levando em conta as influências aristotélicas e as obras do próprio Alexandre, Bobzien afirma que esta última é a versão adotada por ele (o que, a meu ver, parece razoável).

Ao analisar o conceito causativo unilateral de “depende de nós”, Bobzien afirma que: “quando eu apelo para o termo “unilateral”, eu entendo que isso implica que, se algum x depende de nós, então não-x não depende de nós” (Ibidem, p.140. Tradução nossa). Assim ao dizer que “x depende de y” Bobzien quer dizer que y tem a responsabilidade causal para com a coisa ou o fato em questão. Isto é, se em uma dada situação eu digo que sua ação de caminhar é dependente de você, eu quero dizer que você é causalmente responsável por seu caminhar. Embora, é claro, o seu não caminhar não dependa em absoluto de você, pois, por exemplo, você pode sentir uma fraqueza nas pernas que lhe impossibilite de caminhar. Aqui o “você” expressa a causa daquilo que acontece e depende de você mesmo.

Segundo Bobzien, o conceito causativo unilateral é o conceito abraçado pelos estoicos e ele vai do séc. III a.C. ao séc. III d.C (sofrendo ou não algumas variações, é claro). Ela também afirma que os primeiros estoicos não tinham um conceito dual e indeterminista

do que depende de nós. E a principal razão para isso é que, para os estoicos, a mente era vista como corpórea e unitária. Uma pessoa/agente era identificada/o com a sua mente, o que incluía caráter, disposições, volições, e tudo o mais que compusesse a mente. Assim, não poderia haver espaço para uma faculdade da vontade que agisse independentemente do restante da mente45. Ao contrário, a ação é vista como causada por alguém, se ela é o resultado da mente assentindo às impressões impulsivas. E é a natureza individual da mente de cada pessoa que determina o que ela vai assentir ou não. Logo, a responsabilidade moral é atribuída a um agente quando ele é a causa de uma ação (cf. Ibidem, pp.142-143).

Por fim, Bobzien afirma que o conceito de responsabilidade moral também irá depender de qual concepção de “depende de nós” for adotada. Com a concepção causativa unilateral – a que é atribuída aos estoicos nos escritos de Alexandre –, a responsabilidade moral é imputada a alguém se ele for o principal originador causal e se for autônomo (MR1). E com a concepção potestativa bilateral indeterminista – a que Bobzien imputa a Alexandre –, atribuímos responsabilidade moral a alguém quando ele é livre para fazer de outro modo (MR2), isto é, se sua decisão entre cursos alternativos de ação não é totalmente determinada. Com isso Bobzien mostra que a relação entre a responsabilidade moral e o que depende de nós nos estoicos deve ser vista como uma tentativa de capturar uma concepção de responsabilidade causal46, na qual a ação de um agente é dita depender dele apenas quando ela acontece através dele – quando a ação está de acordo com a natureza individual do agente (cf. Ibidem, pp.141-143).