Diferente do que povoa o imaginário popular, a Independência brasileira não foi um acontecimento pacífico. Houve conflitos armados contra a emancipação em quase todas as províncias, afinal, havia muitos portugueses erradicados, que perderiam dinheiro com o fim do Pacto Colonial. Apesar disso, os interesses em comum a favor existiam em maior quantidade, como, por exemplo, o status de ser uma monarquia de padrões europeus, com imperador, palácios e galas, e até as nobres intrigas dessa vida palaciana. Havia também os desejos pelas novidades da Revolução Francesa e da Independência Estadunidense:
propagava-se a participação política popular (mesmo que não fosse completa, como no voto censitário) e também a autonomia das províncias em relação ao governo central (mesmo que fossem apenas na questão econômica, a exemplo do Liberalismo).
Entre 1530 e 1808, a elite brasileira30 estabeleceu seus próprios padrões de poder e autonomia: concomitantes aos questionamentos constantes contra a autoridade local imposta pelo governo central, contra os altos impostos cobrados e contra a limitada participação política controlada por essa autoridade, interesses econômicos e sociais da burguesia em ascendência na colônia era, via de regra, respeitados pelos interesses metropolitanos. De maneira geral, à parte o pagamento dos impostos, os produtores, senhores de terra e comerciantes decidiam o destino de seus investimentos sem muita fiscalização. A sociedade também tinha padrões muito específicos da brasilidade, quase à parte da influência europeia. Havia, é claro, o desejo de ser como os europeus, mas, na prática, os costumes locais iam se firmando, principalmente, ao que concerne o poder dos grandes proprietários de terra.
A instalação da Corte em solo colonial, onde o soberano tinha sua residência, trouxe algumas mudanças para esses padrões. D. João VI e D. Pedro I representaram centralização de poder e absolutismo, que duraram enquanto eles governavam. As limitações e os tolhimentos dos governos de ambos os monarcas foram questionados ao extremo pela elite quando eles se foram: desejava-se o retorno da influência política e a restauração da autonomia econômica de suas províncias, que dispunham antes de 1808. Havia urgência em reestabelecer esses padrões porque o Imperador Menino poderia assumir a qualquer momento, retomar e retornar a centralização do poder, quebrando a descentralização, em nome do sistema Liberal e Capitalista que se instalava no país em busca de se consolidar como Estado- Nação.
Hobsbawm apontou que a instalação do sistema Liberal-Capistalista estava, afinal, ligada à própria formação do Estado-Nação, que deveria atender aos seguintes critérios,
[...] ser um Estado territorial mais ou menos homogêneo, internacionalmente soberano, com extensão suficiente para proporcionar a base de um desenvolvimento econômico nacional; deveria dispor de um corpo único de instituições políticas e jurídicas de tipo amplamente liberal e representativo (isto é, deveria contar com uma constituição única e ser um Estado de direita), mas também, a nível mais baixo, garantir autonomia e iniciativa locais. Deveria ser composto de ―cidadãos‖, isto é, da totalidade dos habitantes individuais de seu território que desfrutavam de certos direitos jurídicos e políticos básicos, antes que, digamos, de associações ou outros tipos de grupos e comunidades. As relações dos cidadãos com o governo nacional seriam diretas e não mediadas por tais grupos. (HOBSBAWM, n/d, p.9)
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Um modelo de estado-nação liberal-constitucional difundido na América Latina com base no modelo federalista americano e no político francês engatinhava pelo recém criado Império Brasileiro. As condições reais de formação desse modelo de Estado-Nação, no Brasil, se dará a partir da década de 1840. Até lá, havia o receio real, por parte dos vizinhos latinos, contra o sistema monárquico que permanecia no Brasil, e, em solo brasileiro, havia o receio ainda mais palpável com relação à Revolta de São Domingos no Haiti31. D. Pedro I personificou a união de todos os desejos de manutenção da unidade territorial, mas também representou a continuação de um ponto de discórdia nacional, ao calar-se diante da escravidão.
Assim, pode-se observar que o novo império era uma contradição desde seu nascimento: suas intenções estavam na contemporaneidade do liberalismo econômico e no sistema político francês, mas suas bases eram eminentemente coloniais. Como disse Schwarcz e Starling (2015, p.232),
Não se tocava na escravidão, na monocultura ou na grande propriedade. Restavam também intocáveis as diferenças políticas internas e a questão fundamental da distribuição do poder entre a autoridade nacional, localizada no Rio de Janeiro, e os demais governos provinciais.
O quadro nacional e as perspectivas sociais não mudaram com a emancipação. Partidos foram formados (conservadores para defender a monarquia, liberais moderados para tentar restringir o poder do imperador e liberais exaltados para defender a república, o federalismo e o laicismo), mas a autoridade imperial impunha a centralização política e acirrava os conflitos internos (Poder Moderador da Constituição de 1824 foi o ícone da contradição que nossa Independência representava: enquanto se instaurava os três poderes e permitia-se a formação partidária e a participação popular, o imperador matinha em suas mãos a capacidade de limitar tudo isso à sua vontade). Com isso, a crise interna crescia junto com os anseios pelo fim da escravidão e ameaçava dividir o império.
Apesar do descontentamento com a centralização, a falta de uma figura central também não era muito interessante. Foi o que se percebeu quando D. Pedro I voltou a Portugal, deixando um herdeiro que não podia assumir o trono. Entre 1831 e 1840, o Brasil foi assolado por conflitos populares contrários à intervenção do governo regencial na política
31Ver SCHWARCZ e STARLING, capítulo 9. HABEMUS INDEPENDÊNCIA: instabilidade combina com
primeiro reinado, p.p. 223- 242. O Haiti era considerado a Pérola das Antilhas para os franceses, entre 1754 a 1804, passou por diversas revoltas escravas. A Revolta de São Domingos (1791-1804) liderada por Jean-Jacques Dessalines levou à libertação dos escravos em 01 de janeiro de1804. Essa revolução causou pânico nos países escravistas. Todos temiam uma revolta, neles incluímos o Brasil, que também possuía um grande contingente de escravos.
local. A Regência governou de forma contraditória e autoritária. A população se indispunha contra a desorganização governista e começou a ansiar por um Imperador Brasileiro, como cita Schwarcz e Starling (2015, p.244): ―É certo que quase nenhuma dessas vozes se opunha exatamente à monarquia. A ideia geral parecia ser esperar por d. Pedro II.‖
Caio Prado Júnior (1987, p.9) aponta que a ―A Menoridade é a fase de ebulição, em que as diferentes classes e grupos sociais se disputam a direção do novo estado nacional brasileiro.‖ Uma classe e grupos sociais a serviço do imperador. Foi mantido o caráter centralizador de poder sem que houvesse consenso sobre a figura que poderia se investir desse poder, tendo-se vários regentes sem autonomia concreta e de direito.
Apesar disso, a Regência foi um período de efervescência política em que muitas mudanças foram efetivadas, como citam Schwarcz e Starling (2015, p.247): ―Começaram com medidas mais brandas, reformando as Escolas de Medicina e Cirurgia do Rio e de Salvador, convertendo-as em faculdades e conferindo-lhes mais autonomia.‖, atendendo assim, no campo educacional e social, os anseios da classe média por formação e um lugar no quadro do Estado. José Murilo de Carvalho (2008)32 afirmou que justamente a unidade pela educação permitiu a unidade territorial. As mudanças políticas envolveram os três poderes e suspenderam o Poder Moderador. Foi criada a Guarda Nacional, cujos membros eram escolhidos dentre membros da elite, para garantir a ordem, assim como status social dos que já estavam no poder, e no caso reprimir e controlar manifestações populares contrárias ao novo regime. As manifestações populares eclodiram por toda a recém nação brasileira.