O fim do século XVIII foi marcado, no ocidente, pela quebra do paradigma absolutista. A Independência Americana, em 1776, e a Revolução Francesa, em 1789, inauguraram os ideais liberais e a perspectiva republicana e federalista. Economicamente, o mundo vivia a efervescência da 1ª Revolução Industrial e a quebra do paradigma manufatureiro. A máquina a vapor e as ferramentas de ferro e aço inauguraram a produção em larga escala e criaram uma nova classe social: o proletariado (a classe popular assalariada). Entrava-se no desenvolvimento não só econômico, mas também científico: entrava-se na idade das luzes ou Iluminismo, mas isso no velho mundo.
A colonização impedia o Brasil de participar dessas mudanças; a Independência e a formação do Império, tardiamente, no entanto, abriam portas para o progresso, e a consolidação da política de modernização, durante o Segundo Reinado, possibilitando a apropriação desse progresso. Mas, somente a partir de 1840, pode-se falar na perspectiva de desenvolvimento do processo de modernização no Brasil.
Durante o Primeiro Reinado e o Período Regencial, a preocupação do governo era manter a unidade nacional a fim de constituir um império íntegro, uma nação, um Estado- Nação. Para Hobsbawm, Nação, Estado-Nação e Nacionalidade seriam uma construção social, que envolve mudanças de paradigmas, criadas para atender ao novo modelo imposto pelo novo sistema econômico e político. Hobsbawm afirma, ainda, que,
Na era da construção de nações, acreditava-se que isso implicava a transformação desejada, lógica e necessária de ―nações‖ em estado-nações soberanos, com um território coerente, definido pela área ocupada pelos membros da nação, que por sua vez era definida por sua história, cultura comum, composição étnica e, com crescente importância, a língua [...] (HOBSBAWM, n.d, p. 97 – 112)
O processo na construção de nação envolvia uma complexidade de fatores (história, cultura, etnia, valores, costumes, língua), que exigia uma nova estruturação por parte dos governantes, principalmente, para formação do súdito em cidadão, do trabalho escravo em trabalho assalariado. Essa construção de nação e mudanças de paradigmas se daria pela formação da elite brasileira moldada nos bancos da universidade de Coimbra, como propôs Murilo de Carvalho.
O Brasil do Segundo Reinado transitava entre a herança colonial da economia agrária e as expectativas do processo de modernização das atividades fabris manufatureiras e da urbanização do capitalismo liberal, enquanto as potências europeias encontravam-se na 2ª fase da Revolução Industrial, diversificando negócios: estradas de ferro nos transporte, telégrafo na comunicação, navios a vapor na construção naval, indústrias de fertilizantes na agricultura, dentre outros.
Hobsbawm enfatizou que para montar a estrutura fabril, os donos dos meios de produção recorreram ao modelo de gerenciamento militar e burocrático, hierárquico, disciplinado, rígido com regras de segurança, muito populares entre os primeiros executivos inglês,
As companhias de estradas de ferro, com suas pirâmides de trabalhadores uniformizados e disciplinados, possuindo segurança de trabalho, promoção por antiguidade e até mesmo pensões, são exemplo extremo. O apelo exercido pelos títulos militares, que ocorria livremente entre os primeiros executivos ingleses de estradas de ferro e os executivos dos grandes portos, não era apenas devido ao orgulho em relação à hierarquias de soldados e oficiais (como era o caso dos alemães), mas à habilidade da iniciativa privada em determinar uma forma específica de gerência para os grandes negócios. (HOBSBAWM, n.d, p. 224-225) (grifo nosso)
Gerenciar grandes negócios, conduzir milhares para o trabalho coletivo, para um só fim, o mercado produtivo promovido pelo sistema liberal capitalista apoiava-se no disciplinamento militar, especialmente para conduzir e introduzir a camada popular nesse processo.
Prado Maia Júnior (1987, p.93) enfatizou que o processo de modernização brasileira foi mais expressiva entre as décadas de 1850 e 1870. O novo sistema tinha exigências próprias, como a urbanização e a formação de centros comerciais, implementação do transporte, administração pública de serviços e construção de pólos indústrias (no caso do Brasil, pólos manufatureiros). Mas para que isso se efetivasse, o Brasil precisava combater, de acordo com Hobsbawm (n/d, p. 193), três tipos de empreendimento ―a plantação escrava, o estado servil, e a economia camponesa tradicional não-capitalista.‖ Escravidão não combinava com liberalismo econômico; os trabalhadores deveriam poder negociar seu trabalho por um salário que lhes permitisse sobreviver minimamente (comer, vestir-se, morar, não mais que isso), o que não era fácil em um país eminentemente escravista.
Buscando adentrar à era industrial, dentro do processo de modernização, em 1854, foi inaugurada a primeira estrada de ferro brasileira entre o Porto Mauá e Fragoso. Em 1858, foi a vez da Estrada de Ferro D. Pedro II. O telégrafo foi inaugurado em 1857. Os avanços na comunicação e no transporte modernizavam o país. A economia cafeeira, de acordo com
Lopez e Mota (2008, p. 484-490), foi a principal responsável por essa modernização, pela necessidade de escoamento da produção. No Norte, o que fundamentou o processo de modernização na indústria manufatureira foi o ciclo da borracha. No Nordeste, o cacau, a cana, o algodão também tiveram suas parcelas nesse processo. Era um paradoxo: o processo de modernização na indústria manufatureira era devida às necessidades agrárias; enquanto o capitalismo necessitava de proletários; as monoculturas latifundiárias precisavam de escravos. A conciliação de interesses era sustentada e interligava as duas realidades: providenciar transporte e comunicação adequadas entre campo e cidade, assim como entre países industrializados e países que deveriam permanecer genuinamente agrário, os celeiros do mundo.
No Brasil, a construção civil e a construção de ferrovias foram os ícones do processo de modernização, tendo a década de 1860, a fase de desenvolvimento em que aparecem as grandes tecelagens, e, depois em 1880, quando se consolidou o sistema de mão de obra livre assalariada, principalmente, imigrante. Nesse processo, há ainda alusões, de acordo com Schwarcz e Starling (2015, p. 336), ao uso da mão de obra de crianças ―nas fábricas a partir de cinco anos de idade, sendo que menores chegavam a constituir metade do número total de operários empregados.‖
Corroborando com Schwarcz e Starling, Moura (2015, p.265) acrescenta que ―Em 1890, [...] os menores representavam aproximadamente um quarto da mão de obra empregada nesse setor na capital.‖ Prática que há muito se dava no Brasil, e que se intensificou com o processo de modernização, afinal o conceito de infância, ainda não era conhecido nas terras brasiles.
Os primórdios do processo de modernização brasileiro foi também conhecido como Era Mauá, por causa daquele que foi o primeiro grande industrial genuinamente brasileiro, Irineu Evangelista de Sousa, o Barão de Mauá, que iníciou no trabalho ainda menino, como cita Alberto de Farias (1933, p. 64-65),
Sabe-se que aos nove anos deixara, órfão de pai, a casa materna, nos confins do Brasil, em Arroio Grande, a alguns quilômetros do Uruguai, uma pequena propriedade rústica onde nascera em 28 de dezembro de 1813 e onde não lhe fora possível aprender as primeiras letras. Pouco tempo depois, mal tinha completado 11 [anos], já o encontramos atrás do balcão de uma casa de comércio da Capital do Império, das sete da manhã às dez da noite, à hora em que o sino da igreja mandava fechar as portas da loja e dormir, sobre o balcão ou no desvão da água-furtada, o tempo absolutamente indispensável para que o corpo pudesse resistir à fadiga do dia seguinte.
Não havia critérios para menores realizarem um trabalho na época. O próprio barão começou aos 11 anos de idade, imprimindo a ideia de que, pelo trabalho, o indivíduo
alcançaria o sucesso. Mauá chegou a ser dono de 17 empresas em 6 países e acumulou capital equivalente a quase o dobro da receita anual do Brasil, como frisou Caldeira (1995, p.252),
[...] Irineu aparece comandando empresas com um capital total de 15 750 contos de réis (10 mil contos do Banco do Brasil: 1,25 mil contos da Ponta da Areia; 1,2 mil, da Companhia de Iluminação a Gás. 1,3 mil, da Estação de Ferro de Petrópolis; e 2 mil, da Navegação do Amazonas).
O barão investiu em todas as frentes importantes para o progresso nacional. Caldeira afirmou ainda que, em um ano, o barão fundou quatro das cinco empresas existentes no Brasil e era dono da sexta o Estaleiro de Niterói. A ideia de crianças trabalhando à época era aceito como uma prática normal, e, será nessa perspectiva que o Estado brasileiro vai direcioná-las para suas instituições públicas militares.
Trens, lampiões, vapores, tecidos, gêneros alimentícios e outros, circulavam pela Côrte dando ar de civilização e progresso. Dentro do processo de modernização, inicia-se a política de valorização do trabalho livre, através do pagamento de salários, sendo o barão, como enfatizou Caldeira (1995, p.256), um de seus maiores incentivadores, uma vez que ele acreditava ser ―[...] um ótimo gasto investir em salários mais altos, para ter melhor pessoal disponível a seu lado.‖ Era uma adaptação da visão do capitalismo inglês e do sistema liberal se integrando ao sistema econômico no Brasil, mas que não alcançou a camada popular estigmatizada pela escravidão.
Hobsbawm (n/d, p. 195) afirmou que ―A abolição da servidão iria portanto ser uma pré-condição necessário para a mobilidade de trabalho livre.‖ E o Brasil caminhava a passos lentos para abolir a escravidão. Estava em jogo, não apenas a questões econômicas, mas também a estabilidade política e social do país. Por haver uma variedade de etnias transitando pelo país, dentre eles negros e imigrantes, o país precisava de tempo para imprimir-lhes uma nacionalidade. O Ceará, nesse contexto, caminhava para o desenvolvimento do trabalho livre, com expressiva disponibilidade de mão de obra livre.
Como mencionado, Hobsbawm afirmou que nacionalidade é uma construção social, e sem nacionalidade não se pode falar de progresso da nação. O Segundo Reinado representou a concretização dessa construção social. Apesar da multiplicidade de gêneros e etnias, o Brasil conseguiu criar brasileiros (principalmente durante a Guerra do Paraguai) com história, identidade cultural, língua padrão e identificação com a pátria, mas, principalmente, pela unidade ideológica e política da elite moldada nos banco da academia de Coimbra como enfatizou Murilo de Carvalho.
Essa criação e posterior difusão de nacionalidade foi forjada, também, pela ideia de educação propagada pelo Liberalismo através da educação de massa (particularmente com a universalização do ensino primário direcionada para atingir a camada popular que se concretizará no Brasil no século XX). Hobsbawm afirmou que era uma forma de controle social, e o Brasil segregou a camada popular (analfabetos, tidos como ignorantes e perigosos) da elite, através do processo de escolarização cujo objetivo principal era, ―impor os valores da sociedade (moral, patriotismo) a seus alunos.‖ (HOBSBAWM, n/d, p.110).
Era necessário separar e definir os espaços de cada grupo social, em que se deveria dar a camada popular apenas o mínimo para obedecer as regras sociais vigentes de sua época. Analfabetismo era inadmissível a um país civilizado, mas a padronização da mão de obra era mais importante para o progresso de uma nação capitalista.
Na educação, a massificação, especialmente do ensino primário, aumentou a demanda por escolas e professores, assim como obrigou o poder público a se responsabilizar por ela, fazendo com que o progresso não se fizesse somente no campo industrial, como enfatizava os jornais locais sobre a reforma na educação. Apesar das reformas, o Brasil não assistiu à profundas mudanças no campo educacional, mas a semente fora planta.
Contudo, em meio a todas essas mudanças – pacificação das províncias, consolidação do projeto de nação, novas diretrizes no processo econômico com vias para o processo de modernização, difusão da educação e o processo de escolarização – sofreu rupturas. A Guerra do Paraguai vem frear todo esse processo, ao mesmo tempo em que fará parte dele. Momento em que será forjado o brasileiro.