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Diversas rebeliões civis foram registradas, insatisfeitas com a política regencial da época, dentre elas tivemos Cabanada, Balaiada, Sabinada e Guerra dos Farrapos. Houveram outros, mas esses se destacam pela duração, pela violência da repressão e pela forma de mobilização dos revoltosos. Em seus lugares de origem seria necessário controlar, principalmente, a massa da população e o momento imprimiu a força e a repressão, levando à morte milhares. O momento posterior se dará pela coerção através do processo de escolarização, mas antes vamos traçar um breve panorama desses conflitos situando seus lugares no contexto nacional.

32Ver José Murilo de CARVALHO. A Construção da Ordem: a elite imperial e Teatro de Sombras: a política

Assim, a Cabanagem foi uma revolução política e social que envolveu as províncias do Norte, inicialmente no Grão-Pará entre 1835 e 1840. Foi uma revolta de caráter eminentemente popular contra a centralização da Regência. Pará e Maranhão tinham ligação direta com a Metrópole, essa proximidade garantia considerável independência do governo central no Rio de Janeiro. A economia das drogas do sertão (algodão, cacau, arroz, gengibre, madeira, café, couros, cravos, canela, salsaparrilha, anil, copaíba, urucum, castanha e ouros) e o cultivo da cana eram tratados direto com Portugal, isso colocava a província no campo das exportações com grande expressividade econômica, o que não garantia, no entanto, o mesmo nível de participação política. A elite produtora e comerciante uniu-se à população ribeirinha de cabanos, aos índios, negros e mestiços em revoltas contra os líderes locais que apoiavam o novo regime. Para Schwarcz e Starling (2015, p.252), a camada popular, no caso, os cabanos ―[...] lutavam contra o que diziam ser a falta de religião dos usurpadores portugueses de Belém, os quais, segundo eles, seguiam apenas as ordens da corte carioca. Também criticavam o presidente de província, considerado estrangeiro e maçom.‖

Cada grupo envolvido tinha um propósito: negros e mestiços queriam o fim da escravidão, a elite queria manter seus negócios, de todos os lados o governo precisou estudar acordos. Acordos que nem sempre eram respeitados por aqueles que estavam no poder e que, normalmente, tinham seus interesses garantidos. Lopez e Mota (2008, p.439) mostram que a camada popular foi traída ao depor as armas, sendo ―caçados como animais, supliciados de modo bárbaro.‖ Reprimida violentamente, a Cabanagem apresentou seguintes números, conforme Schwarcz e Starling (2015, p.253), ―O saldo no número de mortes é dos mais cruéis: estima-se que de 30% a 40% de uma população de 100 mil habitantes. Milhares também foram os prisioneiros, mantidos nas corvetas imperiais – em especial a Defensora -, transformada em navios-prisões.‖, calculava-se em media 2.326 mortos. Somente em 1836, a província foi pacificada.

Quanto à Sabinada, revolta que aconteceu na Bahia entre 1837 e 1838, diferenciava-se da Cabanagem somente por ter mais duas categorias com reivindicações além daquelas da revolta nortista: os militares envolvidos reclamavam contra os atrasos em seus pagamentos, assim como estavam insatisfeitos com o recrutamento militar obrigatório para serviço no Rio Grande do Sul; e os funcionários públicos achavam-se insatisfeitos com suas condições de trabalho. Havia um sentimento contra os portugueses, além da própria crise econômica que envolvia a todos. O nome da revolta foi uma referência a Francisco Sabino que, juntamente com alguns oficiais do exército, ocuparam militarmente as redondezas de Salvador e declararam emancipação em relação ao Rio de Janeiro, nomeando como presidente

da província Inocêncio da Rocha Galvão, que não pode assumir, ficando no cargo Fernando Sabino. Com o apoio dos grandes proprietários rurais, o governo regencial mobilizou a Guarda Nacional e repreendeu violentamente o movimento, que contabilizou ―Segundo dados oficias, morreram em combate 1.258 rebeldes e 594 soldados. Prenderam-se 2.989 rebeldes, sendo muitos aprisionados em navios. Foram deportados 1.520 homens para o Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul [...]‖ (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p.259), o que se caracterizava uma forma de controle político e social.

Balaiada aconteceu no Maranhão entre 1833-1841 e deve seu nome à alcunha de seu líder, Manuel Francisco dos Anjos Ferreira, fabricante de balaios. Aos ―Balaios‖ uniram- se José Egito e Raimundo Gomes e instalaram o governo provisório. As reivindicações eram as mesmas dos levantes já comentados: muitos tributos, e, pouca representação junto ao governo central, como afirmou Caio Prado Júnior (1987, p.79),

Na origem deste levante, vamos encontrar as mesmas causas que indicamos para as demais insurreições da época: a luta das classes médias, especialmente urbanas, contra a política aristocrática e oligárquica das classes abastadas grandes proprietários rurais, senhores de engenho e fazendeiros, que se implantaram no país. A movimentação da massa sertaneja em bandos armados pelas grandes propriedades caracterizou, na concepção de Schwarcz e Starling (2015, p.264), o movimento popular, uma vez que ―Os grupos que mais sofriam com tal situação eram os trabalhadores livres, camponeses, vaqueiros e escravos – e foram esses grupos que se mobilizaram desde o início contra as injustiças que grassavam na região [...]‖. Profissionais liberais urbanos também se manifestaram por mudanças nas regras das eleições, defendendo princípios republicanos e federativos. E os escravos tiveram sua participação através do levante do quilombo de Cosme Bento independente dos balaios, mas ainda assim expressivo.

A falta dessa união é citada por Caio Prado Júnior (1987, p.80): ―Por outro lado, não souberam os balaios ligar seu movimento ao dos escravos, que aproveitando a agitação reinante tinham-se levantando em vários pontos da província.‖ Mais uma vez o conflito foi violentamente repreendido, como dispõe Schwarcz e Starling (2015, p. 265), ―A insurreição foi contida em 1841, deixando um saldo de 12 mil sertanejos e escravos mortos nos combates. Os revoltosos presos foram anistiados por d. Pedro II [...]‖

A Guerra dos Farrapos ou Farroupilha, acontecida na província do Rio Grande do Sul entre 1835 e 1849. Ao contrário das outras, esta tinha um caráter eminentemente elitista e, ao contrário do senso comum, não havia caráter separatista no movimento. Fernando Henrique Cardoso (1972, p. 473-505) afirma que o desejo dos revoltosos era antes de

retomada das relações com o poder central e com a regência do que criar um governo próprio. Schwarcz e Starling endossam a opinião de Cardoso quando afirma que ―[...] o movimento era de livre defesa contra as liberdades ameaçadas, mas reafirmava a lealdade á ordem monárquica ―sustentando o trono do nosso Jovem Monarca e a integridade do Império‖.‖ (SCHWARCZ; STARLING, 2015, p.262). Fernando Henrique Cardoso afirma também que o caráter era o de Federação, na busca de autonomia, onde

[...] o equilíbrio difícil entre autonomia local e política nacional de favorecimento da expansão dos mercados consumidores do charque na ideia de Federação o arquétipo que parecia conciliar a contradição entre um desejo de autonomia política e uma dependência econômica indisfarçável. (CARDOSO, 1972, p.503)

A província encontrava-se fragilizada pelas guerras na Região do Prata e havia uma grande concorrência pelo comércio do charque com Argentina e Uruguai. Os produtores esperavam medidas econômicas protecionistas e autonomia política. Insatisfeitos com a desordem administrativa da Regência, que depunha e nomeava presidentes da província e outros funcionários públicos, de acordo com o interesse dos novos gabinetes, a elite local constituída, em sua maioria, de grandes fazendeiros, depôs o presidente, se organizou em campanhas armadas – guerrilhas – e tomou o controle da região, nomeando presidente da província Bento Gonçalves.

Apesar da expressiva liderança elitista, a participação popular se fazia presente, e peões, agregados e despossuídos vestidos em farrapos eram numerosos, levando ao governo central de forma crítica denominar o movimento de Guerra dos Farrapos, uma alusão a que se referiu o italiano Guiseppe Garibaldi, contratado como corsário no Rio Grande do Sul, ao dar a seu navio o nome Farroupilha, e relacionar o nome ―[...] derivada de Farrapos, nome que no império do Brasil do Sul, assim como Felippe II chamava mendigos de terra ou de mar aos revoltosos dos Paizes Baixos.‖ (DUMAS, 1907, p.48).

Segundo Schwarcz & Starling (2015, p.261),

Entre os farrapos havia, pois, muitos segmentos irmanados: estancieeiros, estancieiros militares, abolicionistas, e até escravos que se aproximaram do grupo em busca de liberdade. De início, nem todos eram republicanos e federalistas; foi só a marcha dos acontecimentos que unificou perspectivas, a princípio distintas. Finalmente, em 1845, os revoltosos conseguiram conquistas, como o pagamento da dívida do conflito pelo Império, os oficiais do exército farroupilha foram incorporados ao exército imperial, os escravos que participaram do conflito receberiam sua liberdade, os prisioneiros de guerra seriam anistiados, as garantias e a segurança individual e de propriedade seriam respeitadas, e os revoltosos teriam o direito de escolher o presidente da

província. Dez anos de guerra e 47.829 mortos. Concomitante a esses acontecimentos, a revolução industrial adentrava ao país timidamente dentro de um processo de modernização por todas as províncias.