Fui à boate Vegas no dia 11 de junho, uma sexta feira e véspera do dia dos namorados. A entrada era 35 reais sem consumação ou 60 reais com consumação e a programação da noite era de música eletrônica com DJ’s renomados. Cheguei à boate a uma e meia da manhã e diferentemente do relatado no Studio Sp, não pude notar o público num primeiro contato na fila de entrada embora fosse possível deduzir a presença de público jovem, se observássemos a faixa etária das pessoas que fumavam na área externa da boate.
O próprio perfil da Rua Augusta nos finais de semana, descreve uma prevalência de um público adolescente, a ponto de algumas casas noturnas oferecerem matinês aos domingos.
A fila, que inexistia do lado de fora, mas era substancial no interior da boate, desenhava no chão um “caracol” que chegava até ao caixa, onde se podia fazer um rápido cadastramento, momento em que o frequentador recebia um cartão de controle. Ali pude ver que o ambiente – mesmo já sendo madrugada estava completamente lotado e que o público era composto de jovens e adolescentes. Tanto é que a minha
presença e de meus amigos destoavam dos demais frequentadores quando pensamos em uma perspectiva etária, o que permite novamente resignificar de acordo com a mudança de ambiente, as conotações possíveis da palavra “menina” distinguindo seu uso no contexto, no ambiente e na relação descrita. Se na experiência da “casa de massagem” eu era vista como “menina”, no Vegas, era nitidamente mais velha, não cabendo tal designação.
Acredito que tal público era o típico do dia semana e da festa organizada, uma vez que o Vegas é uma referência na Augusta entre o público que gosta de música eletrônica (cuja criação ou produção é realizada por meio de equipamentos eletrônicos) e que é bem eclético e de várias faixas etárias diversas. Nota se ainda de forma clara como o perfil da rua impacta na organização e configuração do lugar.
Feito o cadastro, procurei ir ao banheiro, pois sabia que em um ambiente tão cheio e com um público de faixa etária distinta da nossa, a permanência poderia ser mais curta que o desejado. Após passar por um “mar de gente” consegui com algum custo chegar a ele.
Não sei se por conta do excesso de pessoas daquele dia ou se era uma configuração do ambiente, os banheiros da “parte de cima” não se dividiam em masculinos e femininos. Como em ambientes privados, se assemelhavam a um lavabo: uma porta, um vaso sanitário, uma pia e um pequeno espelho. Havia uma funcionária que organizava a entrada e saída dos usuários dos banheiros e que indicava em que porta cada um deveria entrar. A fila não se dava de frente as portas, mas num ambiente externo a este corredor. Assim, só ouviam se as instruções da funcionária na sua vez de utilizá los, que gritava e apontava: “você ali”, “você acolá”. Tentei puxar algum assunto com ela na minha vez, mas o som alto, a necessidade de andamento da fila, e a pouca predisposição da funcionária, só permitiram ouvir dela qual banheiro eu tinha que entrar.
Imagem 17: Banheiro Vegas Club Fonte: Arquivo pessoal
Entrei no banheiro e fechei a porta. Parecia outro mundo!
O banheiro pequeno e escuro (com iluminação fraca e ladrilhos escuros) não possuía muitos escritos visíveis, e tive então que usar o flash da câmera para captar detalhes do lugar.
O fato de fechar a porta e me isolar daquela confusão, da música eletrônica que tornava o ambiente ainda mais agitado, da funcionária que gritava e parecia ansiosa tentando impor uma ordem, me trouxe um alivio. Sensação provavelmente distinta daqueles adolescentes que ali estavam e que “curtiam” o local.
Imagino que o banheiro era controlado e vigiado por conta do contingente, mas também para minimizar os excessos que este público poderia dar “vazão”, lembrando que este dia em especifico tínhamos a combinação: adolescentes, curtição, música eletrônica e bebida.
Ao contrário do que poderia se esperar de um lugar com uma entrada cara (para os parâmetros da Augusta), que possui, portanto um público com um bom poder aquisitivo, e que poderia ter um grau de exigência com relação ao espaço (uma vez que o banheiro é parte integrante daquele espaço) numa perspectiva de custo – benefício, o banheiro não trazia nada de especial, e esteticamente era neutro – suas paredes cobertas por tinta preta basicamente.
O fato de o banheiro também ter acessórios pretos, ser escuro e mal iluminado, inibia a presença de grafitos neste local, pois afetava tanto na produção (já que possuíam menor visibilidade) como na interação destes.
Esta tendência de pintar portas e optar por acessórios escuros é recorrente em outros banheiros de bares, fato que inibe a presença de escritos e desenhos facilitando a manutenção e limpeza destes locais – até porque acessórios escuros não denunciam tão
facilmente a “sujeira” – seja em forma de dejetos, de poeira, ou de grafitos que podem ser assim julgados. Sobre a noção de sujeira associada à desordem, Mary Douglas ressalta:
A higiene, ao contrário, mostra se como um excelente caminho, desde que o sigamos com algum conhecimento de nós próprios. Tal como a conhecemos, a impureza é essencialmente desordem. A impureza absoluta só existe aos olhos do observador. Se nos esquivamos dela, não é por causa de um medo cobarde nem de um receio ou de um terror sagrado que sintamos. As idéias que temos da doença também não dão conta da variedade das nossas reacções de purificação ou de evitamento da impureza. A impureza é uma ofensa contra a ordem. Eliminando a, não fazemos um gesto negativo; pelo contrário, esforçamo nos positivamente por organizar o nosso meio. (DOUGLAS, 1976, p. 7).
Passou se um tempo e tive que abandonar o meu retiro, pois temia que a “organizadora” do banheiro fosse pessoalmente fazê lo. Ao sair menti para funcionária dizendo que esqueci meu batom e voltei para buscá lo entrando num banheiro distinto do que havia conhecido, mas com características semelhantes. Desta vez tive que ser bem rápida, registrei o que pude do banheiro e saí (com a máquina na mão).
Voltando à boate, vi que havia uma escada que levava a outro ambiente, uma espécie de pista inferior. Ao descê las, pude notar que a pista era menor estava bem cheia, mas com menos pessoas do que o ambiente anterior. Os banheiros ali eram “convencionais”, ou seja, possuíam uma divisão de gênero e no interior destes havia divisórias para os sanitários. Estes também eram pintados de preto e não havia nenhuma pessoa que cuidasse do acesso. Não havia grafitos. Registrei a diferença e pedi para um amigo tirar fotos do banheiro masculino. Saímos da boate sob a impaciência dos demais presentes que me acompanhavam neste trabalho e registro de campo, e quando fui verificar a câmera vi que ele não havia tirado foto alguma. Questionei e ele disse que o banheiro não tinha “nada demais” e não havia nenhum grafito, por isso não fez nenhum registro. Aqui ficou patente a distinção dos olhares e acessos. O que significava não “ter nada demais”? Imagino que seja a não presença de escritos, desenhos ou equipamentos diferenciados naquele ambiente. Mas e o preto tão significante? E os espelhos? Acessar ou não banheiros masculinos em certos ambientes trazia as escolhas e percepções do outro colaborador da pesquisa que não necessariamente coincidiam com aquilo que me revelavam como sendo relevantes à minha pesquisa.