Na primeira entrevista, sobre a aprendizagem da leitura e da escrita, Paulo respondeu que não sabia ler e, depois, acrescentou que havia em casa apenas os três livros didáticos que usa na escola, mas, em seguida informou que:
P: Certo... e tem outras coisas pra ler em casa além dos três livros da escola? Paulo: Eu tenho um monte de livros...
P: É::: quais são os livros? Quais são as histórias?
Paulo: Tenho a história do Lobo... do menino e do carneirinho... P: Onde foi que você conseguiu esses livros? Quem foi que lhe deu? Paulo: Foi minha tia...
P: Ah::: sua tia... Sua tia faz o que? Paulo: Faz tarefa...
P: Eu sei... mas ela trabalha em que?
Paulo: No colégio ... deixa o filho dela lá na escola...
Sobre a aprendizagem da linguagem escrita disse não saber escrever ainda. No ambiente doméstico, o pai e a mãe sabem ler, de acordo com a criança entrevistada, e a ajudam nas tarefas escolares.
P: E na sua casa quem é que sabe ler? Paulo: Meu pai...
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Paulo: Minha mãe...
P: Sua mãe... Sua mãe trabalha em quê?
Paulo: Lavar louça, lavar roupa, lavar panela do café que meu pai faz pra trabalhar, ele faz tapioca.... eu merendo lá na minha casa e eu merendo na escola
P: E seu pai trabalha em quê?
Paulo: Na carroça e faz café com leite (Entrevista Individual em 05 /01 /2010 - Corresponde a 2009).
Na segunda entrevista, no ano de 2010, o sujeito em questão afirmou que já sabia ler e que aprendera com os pais:
P: foi...com o seu pai também? como foi que eles ensinaram você?
Paulo: ele pegou aquela historinha lá...aquela lá do lobisomem...então...eu li todinho...e fui pra escola...
P: hum rum...certo...e o quê que você lê?
Paulo: tarefa...que a minha mãe ta me ensinado... P: quem é que passa tarefa?
Paulo: minha mãe... P: sua mãe? hum rum...
Paulo: passa tarefa (pra mim fazer)...
Acentuou também, que gosta de “ler... terminar a tarefa... brincar... escrever...
ler...” Essa criança responde à maioria das questões, demonstrando, apontando, com
movimento de cabeça. Assim, mostra os livros de atividades, os de Literatura Infantil expostos na sala.39 Diz que tem livros em casa comprados pela mãe, que coincidem com os que estão expostos na sala. Assim, não é possível saber se não se trata apenas de um desejo da criança de ter livros em casa e de poder levar livros da escola para casa:
Paulo: historinhas... P: quais são as historinhas? Paulo: o Lobisomem... P: hum rum... o que mais? Paulo: Chapeuzinho Vermelho... P: hum rum...
Paulo: Mula sem Cabeça...
P: hum rum... e onde é que você consegue esses livros pra casa? Paulo: minha mãe que compra...
P: (...) e aqui da escola? você costumar levar livro pra casa pra ler? Paulo: (( afirma com um gesto de cabeça))
P: é::...quais são os livros que você leva?
Paulo: o do lobo... o daquele livro ali que eu te mostrei... P: aquele livro é o livro de atividade do colégio, não é? Paulo: hum rum... que eu estudava aqui...
P: e todas as crianças têm, não é? Paulo: hum rum...
Sobre a aprendizagem da escrita, diferentemente do que havia respondido em 2009, agora diz saber ler e escrever:
P: e você sabe escrever? Paulo: sei...
39Em todas as salas, a partir do Jardim II, havia um kit de livros expostos na sala como parte do Programa de
120 P: sabe?...como é que você aprendeu a escrever?
Paulo: na minha casa... P: na sua casa?
Paulo: com o meu pai... (...)
P: ta certo...pois ta bem (...) ...e na escola ...o que foi que você aprendeu? Paulo: a ler... a escrever...
P: fala um pouquinho sobre isso...como foi que a escola lhe ensinou isso? Paulo: ((a minha tia que ))...ela me ensinou também...
P: é...como é que ela faz pra ensinar?
Paulo: eu tenho o livro do (palco) e eu tenho que escrever que ela vai fazer uma coisa igual... (ENTREVISTA Individual em 13 /09 /2010).
A concepção dessa família acerca do acesso aos livros somente após a criança aprender a ler ou quando estiver em idade escolar é a expressão exata do que Stanovich (1986 in TEBEROSKY E COLOMER, 2003) denominou de “efeito Mateus”. Essa ideia, presente em algumas famílias das crianças investigadas, é compartilhada pela escola. As professoras e a coordenadora de uma das escolas investigadas, que dispunha de biblioteca, relataram que somente as crianças do Ensino Fundamental poderiam se beneficiar do empréstimo de livros e justificaram que era uma prática da Secretaria Municipal de Educação e, além disso, que as crianças jamais os havia solicitado. Em outras palavras, o acesso a leitura é para leitores formais. Essa prática desconsidera que a alfabetização inicial e o letramento acontecem mesmo antes de a criança frequentar a creche, sobretudo, quando esta convive em um ambiente familiar de leitores, onde a criança participa de práticas de leituras compartilhadas, presencia os familiares utilizando suportes textuais diversos. Assim, essas aprendizagens não devem ser demarcadas, como também não é suficiente apenas disponibilizar o material escrito para que a criança estabeleça suas aprendizagens, a mediação do sujeito mais experiente é indispensável na apropriação do conhecimento culturalmente elaborado (VIGOTSKI, 1998b).
Ressaltamos, entretanto, que a criança, nas duas entrevistas, diz que aprendeu a ler a e escrever em casa com os pais, que eles o incentivaram à leitura de livros e que a mãe faz tarefas e ainda que dispõe de muitos livros em casa, presenteados por uma tia.
A seguir está expressa a evolução da aprendizagem da criança na escrita nas três últimas etapas da pesquisa.
Na etapa 2, Paulo não se dispôs a realizar o teste, justificando que não sabia escrever. Apesar de o havermos incentivado para que escrevesse do seu jeito, ele não aceitou realizar a atividade.
Na etapa 3 ele realizou o teste. Escreveu no nível pré-silábico, grafando palavras que conhecia de memória, utilizando as letras do seu nome, tanto no teste quanto na escrita da história.
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Figura 3 - Etapa 3- Evolução da escrita - 05/01/2010 referente a 2009
Fonte: Produzida pela autora
Teste:
flor/jardim/tulipa/margarida
O jardim é colorido
Suas escritas mostram diferenciações, ou seja, a criança procura variar as letras, suas posições e quantidade de uma escrita para outra, a fim de garantir interpretações diferentes para cada sequência de letras escritas. Observemos que a palavra “margarida” é a que foi grafada com a maior quantidade de letras. Provavelmente a criança tenha relacionado com a extensão da palavra oralizada, já que o objeto, além de ser pequeno, talvez não seja de seu conhecimento. Todas as suas escritas exprimem mais de três letras e são grafadas variando quantidade e posições das letras. Assim, ela já estabeleceu os critérios intrafigurais e interfigurais que garantem diferenciações nos eixos quantitativos e qualitativos, para que suas escritas possam ser lidas e tenham significados diferentes, embora sejam alheias às propriedades sonoras (FERREIRO, 1990).
Na etapa 4, Paulo informou durante a entrevista que sabia escrever e, na produção textual escrita, indicou avanços significativos no processo de aprendizagem, grafando palavras alfabeticamente e, inclusive, utilizou sinais de acentuação e pontuação.
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Figura 4 - Etapa 4 - Evolução da escrita - 27/10/2010
Fonte: Produzida pela autora
P: lê (...) ...o que você escreveu... C1S3E3: chape-peo-pe::o…lo-bo-bo ( )
Os avanços relacionam-se ao fato de Paulo entender que a fala pode ser escrita e que a escrita pode ser oralizada, embora ainda não a utilize como instrumento para auxiliar a memória. Nessa produção, a criança grafa palavras soltas relacionadas à história A Guardadora de Gansos, mas, ao oralizar seu texto escrito, recorda a história de Chapeuzinho Vermelho.
Apesar de a criança haver grafado algumas palavras com caracteres aproximados ou iguais à escrita convencional, com base na leitura que a criança fez da sua produção escrita, parece que esse recurso ainda não adquiriu o significado simbólico. Ela grafa palavras que acabou de ouvir e ler elementos de outra história, o que pode ser efeito do fenômeno da perseveração no tema anterior, de acordo com Wallon (1981), além do fato de ainda não utilizar a escrita como ferramenta de auxílio à memória.
Apesar de o texto escrito pela criança não ser convencional, a consideramos produtora de texto, porque escreveu e atribuiu significado à sua produção. O fato de Paulo escrever 27 palavras seguidas, sem conexão aparente entre elas, nos faz pensar que sua produção resulta de uma prática pedagógica que incentiva as crianças a fazerem cópias e não a entender o processo do sistema escrito pela escrita espontânea e intervenção para que elas construam e reconstruam suas hipóteses.
Em relação à apropriação das convenções sociais da escrita, Paulo elaborou diversos saberes, dentre os quais, escreve da direita para a esquerda, grafa as palavras espaçando entre uma e outra, utiliza acentos e pontuação em sua produção textual.
123 Desse modo, não há possibilidade de avaliar a presença ou avanços dos aspectos narrativos em sua produção escrita, uma vez que o sujeito ainda se encontrava em fase de reelaboração do sistema da escrita como ferramenta de comunicação.
Paulo demonstrou dificuldades de compreensão e de expressão verbal mesmo na reelaboração dessa trama, uma vez que ele não reconstruiu a narrativa mas apenas alguns elementos, sem conexão, e sob a nossa mediação.