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Até meados da década de 1970, as intervenções realizadas pela Psicologia incidiam, principalmente, sobre três grandes áreas: a clínica, da qual usufruíam as camadas mais abastadas da população, a organizacional e a educacional. Mais importante do que isso é o fato de que o conhecimento e as práticas psicológicas desenvolvidas para e nessas instituições dirigiam-se a favor dos interesses da classe dominante.

De acordo com Bock (1999), a Psicologia se instituiu na sociedade como uma profissão corretiva, utilizada para tratar dos desvios, dos desajustes, das patologias, dos desequilíbrios e dos conflitos. Práticas estruturadas em uma concepção de homem derivada do positivismo, aplicando-se em estudos experimentais de fenômenos observáveis e comprováveis; do determinismo, reduzindo a compreensão dos eventos em termos de causa e efeito; do naturalismo, enfatizando a determinação

médico-biológica dos comportamentos; e do individualismo, focalizando o indivíduo em detrimento da comunidade. O resultado foi uma prática que acabou isolando o fenômeno psicológico na intimidade dos sujeitos, dissociando-o de um todo social. Esses aspectos serão mais bem detalhados a seguir.

Os primeiros sinais desse funcionamento podem ser conferidos a partir da Primeira República (1889-1930), na relação estabelecida entre a Psicologia e as intervenções “sociais”.

Nesse período pós-abolição, o clima social era marcado pelo medo da classe dominante diante de uma possível insurreição de ex-escravos e de imigrantes que, gradualmente, convergiam para os centros urbanos. Essa expansão demográfica, associada ao desenvolvimento precário e desordenado das cidades, provocou o aumento da miséria, de adultos, crianças e adolescentes vivendo nas ruas, da “loucura”, da prostituição, bem como de doenças decorrentes das péssimas condições de saneamento. A visibilidade dessas situações tornou-as alvo de preocupação dos governantes (ANTUNES, 2012; BOCK, 2009).

Infelizmente, assim como ocorria na Idade Média europeia, no Brasil, esses modos de vida eram concebidos pelo prisma da imoralidade, da degenerescência e do racismo e não como produto de uma ordem social desigual.

De acordo com Antunes (2012, p. 50), as ideias racistas desse período eram fortemente elaboradas não apenas para garantir a supremacia étnica de base europeia, mas, também, para “segregar ou eliminar a presença de outras origens étnicas e raciais na formação social brasileira”.

Diante disso, as estratégias de administração das “questões sociais”, adotadas em prol da manutenção da ordem e do progresso da nação, apresentavam um caráter violentamente repressor, fundado na criminalização da pobreza, no racismo, no saneamento e na higienização material e moral. Por conseguinte, muitos dos “desajustados” eram reclusos para tratamento moral em hospícios que funcionavam como asilos higiênicos.

É importante salientar que essas estratégias de intervenção foram elaboradas por intelectuais, juristas, literatos e médicos, geralmente filhos de grandes latifundiários ou estrangeiros radicados no país, que possuíam algum tipo de formação na Europa e, sobretudo, na França. Nesse contexto europeu, fervilhavam teorias como a evolucionista, o materialismo, o positivismo e o liberalismo. No campo da Psicologia, estavam sendo difundidas as teorias de Wundt, Fechner, Charcot e da Escola de Nancy. Essas eram frequentemente citadas nas teses defendidas nas Faculdades de Medicina no Brasil, nas quais também apareciam as teorias de Lombroso e a da degenerescência, de Morel.

Assim, poder-se-ia dizer que a forma de apropriação dessas teorias importadas constitui-se em consonância com as características da sociedade brasileira de matriz escravagista, conservadora,

religiosa, agrária, hierarquizada e defensora da superioridade da raça branca (ANTUNES, 2012; VILELA, 2012).

Além disso, estava em voga a proposta de uma reforma do Estado de modo a torná-lo tão civilizado quanto as nações europeias, e o sanitarismo foi considerado como um dos meios para atingir esse fim. Segundo Antunes (2012) e Vilela (2012), inicialmente, esse movimento representado pela Liga Brasileira de Higiene Mental, fundada em 1923, apresentava um caráter progressista e missionário que visava a melhoria das condições de vida das pessoas em situação de pobreza. Nessa instituição, foi criado um dos primeiros laboratórios de Psicologia, oferecendo importantes contribuições para a produção e disseminação dessa ciência, principalmente em relação aos testes psicológicos.

No entanto, na década de 1930, a Liga assumiu uma posição explicitamente excludente, defendendo a reclusão dos que eram considerados socialmente indesejáveis pela elite dominante; o que provocou a saída de muitos profissionais cujas ideias se contrapunham a essa. Alguns desses foram exonerados, outros, incompreendidos e outros, ainda, abriram seus próprios institutos educacionais para atuar de acordo com suas perspectivas, como é o caso de Abílio César Borges, que deixa a Liga, bem como a Medicina e funda o Gymnasio Bahiano.

É possível perceber que as ideias e práticas psicológicas, nesse período, se dão no interior de outras áreas do conhecimento e que eram difundidas e praticadas por intelectuais das camadas médias da sociedade brasileira. Por isso, não é de se surpreender que a Psicologia estivesse a serviço dos projetos de intervenção social dessa classe.

Neste cenário, a educação tinha a incumbência de formar cidadãos exemplares e adequados ao projeto de modernização do Brasil, ou seja, que trabalhassem e obedecessem à ordem estabelecida. Essas características vão compor o conceito de normalidade elaborado por médicos e educadores na época, embasado nos conceitos da Psicologia e da Biologia. Assim, tudo o que estivesse fora deste padrão era considerado como desvio ou doença. Essa articulação explicita, mais uma vez, a íntima relação entre ciência e poder e a implicação da ciência em relação ao contexto onde se desenvolve (PATTO, 2009).

No sistema regular de ensino, a Pedagogia encontrou na Psicologia sua mais importante fundamentação teórica. Os primeiros laboratórios de Psicologia foram instalados nas Escolas Normais e as pesquisas que ali desenvolvidas eram difundidas através de publicações, sendo que os estudos sobre esses testes favoreceram grandemente o reconhecimento da validade científica da Psicologia.

O primeiro deles foi instalado em 1906, no Pedagogium, e planejado por Binet, em Paris. Além dos laboratórios, nessas instituições também se desenvolvia o ensino de Psicologia para a

formação das professoras primárias. Foi nesse âmbito que o conhecimento psicológico se desenvolveu e alcançou o status de ciência autônoma, conquista fundamentada nas produções da Europa e dos EUA (ANTUNES, 2012; PATTO, 2009).

A década de 1920 foi marcada por intensas turbulências sociais, econômicas e culturais que impulsionaram a Revolução de 1930. Destacam-se o movimento modernista, a revolta tenentista, a resistência de Canudos, a fundação do partido comunista no Brasil e a crise na cafeicultura, que provocou uma grave crise econômica no país. Getúlio Vargas assumiu o governo e instaurou o processo de industrialização do Brasil com a criação de empresas estatais. Aliado à urbanização, esse processo foi ainda mais acelerado no Governo de Juscelino Kubitscheck, nos anos de 1950, e acentuou a desigualdade entre as regiões urbanas e rurais (VILELA, 2012)

Nessa direção, a Educação tornou-se o principal foco de atenção do Estado, vista como uma grande aliada ao seu projeto modernista. A ela caberia preparar o futuro trabalhador para responder às demandas do processo de industrialização, calcado na lógica de produção taylorista. Um modelo que valorizava padrões comportamentais voltados para a eficiência, a rapidez, a adaptação e a disciplina.

No âmbito científico, surgiam as primeiras teorias do Desenvolvimento Humano que frisavam a importância do fator biológico e da estimulação ambiental para o pleno desenvolvimento das aptidões naturais do ser humano, já dadas ao nascer. A pedagogia moderna baseia-se nos ideais da Escola Nova, que compreendia a infância como um período naturalmente puro, espontâneo e livre, que precisava ser conservado.

Conforme apontam Antunes (2012) e Patto (2009), diante desse panorama, nas instituições educacionais, os profissionais de Psicologia utilizavam diversas técnicas e instrumentos, tais como os testes psicométricos, para avaliar e selecionar os estudantes que seriam aceitos ou não, acarretando na destinação de um grande número de sujeitos para o trabalho servil e braçal. Nesse período, a prática também incorporou o atendimento clínico voltado para as crianças consideradas como portadoras de problemas extraescolares e para a realização de psicodiagnósticos e laudos que embasavam o encaminhamento de algumas delas às classes especiais.

No entanto, o uso abusivo de testes gerou muitas críticas de educadores e psicólogos, que ressaltaram as consequências danosas dessa atuação para uma série de alunos relegados ao ensino incipiente de uma classe especial e estigmatizados com o rótulo de portador de deficiência mental. Uma dessas críticas dizia que, nesses moldes, as crianças e suas famílias eram culpabilizadas pelos chamados problemas de aprendizagem, ao passo que os determinantes intraescolares, que provocavam a maioria dos problemas, eram obstruídos.

É importante salientar que, nesse período, houve uma grande expansão do campo de atuação do psicólogo, também conhecido como psicologista ou psicotécnico. Nesse momento, as intervenções da Psicologia ultrapassaram os muros da escola e alcançaram outros âmbitos de atuação, como as organizações do trabalho, a seleção e orientação profissional e o atendimento clínico. Inicialmente, os testes psicológicos eram, ainda, os instrumentos privilegiados para o trabalho em todos esses campos.

A Psicologia clínica constituía-se da realização de psicodiagnósticos infanto-juvenis e da orientação de pais, sendo o Centro de Orientação Juvenil, a clínica pública mais importante de atendimento à população infanto-juvenil entre 1940-1970, no Rio de Janeiro. Nos anos 1950, essa clínica assumiu a abordagem Rogeriana (ANTUNES, 2012; VILELA, 2012).

Nesse processo, também foram criados os primeiros cursos de especialização em Psicologia, tais como o Instituto Sedes Sapientiae, de São Paulo, em 1940, e o Instituto de Seleção e Orientação Profissional da Fundação Getúlio Vargas (ISOP/FGV), em 1947, no Rio de Janeiro. Esses cursos propiciaram a expansão das atividades de pesquisa e as publicações em livros e periódicos. Ainda, foram fundadas as primeiras associações representativas da ciência psicológica.

Para Antunes (2012), essa ampliação foi um reflexo das concepções de muitas instâncias governamentais sobre as possibilidades da Psicologia em contribuir com seus projetos de desenvolvimento social, principalmente os relativos à indústria e às questões relacionadas à racionalização do trabalho. Passaremos, então, à atuação dos psicólogos nesse âmbito.

Na indústria, a Psicologia atuava ao lado de outras ciências, como a Economia, a Administração, a Biologia e a Sociologia, para estudar e intervir no desempenho humano no trabalho, promovendo uma “engenharia do trabalho”, baseada nos modelos taylorista e fordista de produção. Neste cenário, a racionalização e a hierarquização das atividades eram os meios que garantiam a aceleração da produtividade (MALVEZZI, 2000).

Segundo Malvezzi (2000) e Spink (1996), a empresa era vista como uma grande máquina. Nela, uma Psicologia de base conceitual experimental era aplicada a problemas específicos, tais como a seleção de funcionários e a organização das tarefas a fim de se controlar o fluxo de produção. Para garantir a melhoria da eficiência dos trabalhadores, os psicólogos realizavam diagnósticos e modelagens do comportamento e utilizavam a psicometria para medir, em escalas ou padrões, as diferenças individuais em relação ao desempenho.

A ideologia que sustentava essas práticas era a de alocar o indivíduo em um posto melhor condizente com suas habilidades e, assim, garantir sua satisfação no trabalho. Na maior parte das vezes, entretanto, os resultados alcançados apenas refletiam a prioridade das tarefas em detrimento

dos indivíduos que deveriam ajustar-se ao desenho industrial e sujeitar-se à relação de mando- obediência.

Além disso, essa Psicologia compreendia os conflitos industriais e, mesmo, a fadiga, como originados de fatores internos, biológicos-emocionais e/ou decorrentes de conceituações/percepções falsas por parte dos trabalhadores. Ou seja, desconsiderava-se o impacto da organização do trabalho na condição humana e a divergência de interesses entre os trabalhadores e os seus patrões.

Para Malvezzi (2000) e Spink (1996), nessa lógica, o desempenho era compreendido como um evento isolado, envolvendo apenas o trabalhador e a tarefa, de modo descontextualizado de suas implicações políticas e sociais.

Nas décadas de 1950 e 1960, embora se tenha reconhecido a importância dos sentimentos e dos conflitos no desempenho, a atuação dos psicólogos restringia-se à tentativa de harmonizar os funcionários por meio do aperfeiçoamento das suas habilidades de comunicação e de liderança (MALVEZZI, 2000). Ademais, de acordo com Spink (1996), muitos defendiam que os conflitos industriais originavam-se de distúrbios neuróticos, já que não havia nenhuma outra razão para sua existência e, por isso, deveriam ser tratados pela psiquiatria.

Essa patologização e aviltamento dos sujeitos também fazia parte do cotidiano do trabalho no campo da Assistência Social.

De acordo com Cruz e Guareschi (2012), a inserção do psicólogo nessa área se deu antes da constituição da Assistência Social como política pública. Em 1935, a Psicologia já contribuía com o campo jurídico, no Laboratório de Biologia Infantil, que ficava anexo ao Juizado de Menores. Tal órgão objetivava abrigar e distribuir as crianças que precisavam de proteção e assistência institucional.

Assim, por meio do uso de testes psicológicos, os profissionais procuravam determinar as causas dos desvios, investigar o nível intelectual das crianças e verificar a existência de distúrbios psíquicos. Os métodos de observação, classificação e estudo da criança eram derivados da psicotécnica e da psicoterapia. O intuito era o de resgatar aqueles que desviaram da rota da normalidade. No entanto, assim como nos demais âmbitos, nas instituições socioassistenciais a práxis da Psicologia favoreceu a legitimação de atitudes de desqualificação dos pobres, colocando sobre eles, e não sobre as condições sociais, a responsabilidade pelo “desvio”.

Cerca de duas décadas após esse período, em 1953, foi aberto o primeiro curso de Graduação em Psicologia, na PUC-Rio, e outros vieram em seguida. A partir de então, os profissionais que se intitulavam como psicólogos se filiaram às associações de Psicologia e iniciaram um movimento para o reconhecimento da profissão e dos cursos.

Assim, em 1962, em um cenário de intensa mobilização popular e crise política, a profissão foi regulamentada pela Lei Federal n.4.119/62, legalizando suas práticas e pesquisas nos âmbitos Educativo, Industrial, Clínico e Jurídico. Nesta época, a psicoterapia era a prática predominante, exercida pela maioria dos psicólogos brasileiros e voltada àqueles que podiam pagar, ou seja, a elite.

Em 1964, menos de dois anos depois da regulamentação da profissão, um golpe militar instaurou a ditadura no Brasil, situação política que perdurou até os anos 1980, instalando uma intensa repressão aos movimentos estudantis e docentes.

Nesse período, o governo abriu o ensino superior para a iniciativa privada, provocando a expansão dos cursos de Psicologia nessas instituições. Todavia, em nome da rentabilidade, muitas delas ofereciam cursos de má qualidade e reduzidos a um currículo mínimo. O campo da clínica expandiu-se, pois atraia um maior número de alunos e passou a ser privilegiado nos currículos. Consequentemente, com um número crescente de psicólogos formados inserindo-se em um mercado de trabalho cada vez mais retraído, a atuação clínica deixou de garantir a subsistência de muitos profissionais. Ao mesmo tempo, houve retração também na área industrial e a atuação de muitos profissionais ficou reduzida à tarefa de aplicar testes para a seleção de pessoal (ANTUNES, 2012).

Nesse mesmo ano, no campo jurídico-social, o psicólogo foi inserido como membro da equipe na Fundação Nacional do Bem-Estar do Menor (Funabem). Nessa instituição, ele elaborava laudos e estudos de caso buscando a etiologia da infração e as causas da suposta desagregação ou desestruturação familiar.

No entanto, de acordo com Cruz e Guareschi (2012), a ideia de família estruturada ou de vida ajustada baseava-se em concepções elitizadas que depreciavam os modos de vida determinados pelos desajustes socioeconômicos, classificando-os como “desestruturados” ou “desorganizados” e responsáveis por essa condição.

Além disso, o medo da “periculosidade” dos pobres embasou ações de reclusão para tratamento e recuperação. Desse modo, os métodos terapêuticos-pedagógicos construídos pela Funabem visavam à reeducação e reintegração à sociedade dos menores “doentes”, que apresentavam condutas antissociais. Ideologicamente, além de prevenir a entrada desses jovens em um processo de marginalidade, esse trabalho garantiria a ordem e a segurança da sociedade.

Até a promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), o psicólogo colaborou com esse projeto, realizando uma práxis que desqualificava a vida de inúmeras crianças em situação de pobreza, interferindo em seus destinos, através de estigmatizações, culpabilizações e difundindo a associação entre criminalidade e pobreza (CRUZ; GUARESCHI, 2012).

Esse caráter foi muito bem ilustrado no filme “O Contador de Histórias” (2009), dirigido por Luiz Villaça. Esse filme biográfico retrata a trajetória de Roberto Carlos Ramos que fugiu mais de cem vezes da FEBEM, na década de 1970, em Minas Gerais. Ele e sua família, composta por sua mãe e nove irmãos, viviam em um casebre situado em uma favela, com pouco acesso a recursos como alimento, moradia digna e informação. Essa situação fez com que a mãe de Roberto acreditasse, ingenuamente, em uma propaganda que vira na televisão sobre as virtudes da FEBEM em propiciar um “futuro melhor” para os meninos que ali eram educados. Em busca dessa realidade, ela o internou ali.

Em um trecho do filme, Roberto conta como se deu o atendimento realizado pelas psicólogas da instituição:

[...] de vez em quando, na FEBEM, apareciam umas mulheres com uns óculos esquisitos, eram as psicólogas. Tinha uma coisa que eu gostava nelas, é que toda vez que eu errava um teste elas ficavam com medo de mim e me davam um biscoito recheado, aí que eu errava mesmo. (O CONTADOR de histórias, 2009).

Na cena, depois de aplicar os tais testes, as psicólogas atribuíram a Roberto o seguinte diagnóstico: “problema de dislalia avançada, apresentando sinais de dislexia e discalculia” (O CONTADOR de histórias, 2009). Depois de sucessivas fugas, inúmeros testes e várias entrevistas psicológicas aos quais foi submetido, Roberto foi classificado como irrecuperável pela instituição, destino carimbado em seu prontuário e em sua autoimagem.

A sequência de três diagnósticos com o prefixo dýs chamou-me a atenção. Em grego, esse prefixo etimológico significa: mal, dificuldade, mau estado, desgraça, contrariedade, privação e, em latim, separação, negação, dispersão, contrário. Isso mostra que o diagnóstico continha todos os atributos negativos que eram dispensados aos indivíduos marginalizados.

Conforme coloca Patto (2009), as aptidões biológicas e psicológicas serviam como justificativas para a qualificação e a desqualificação dos indivíduos. Assim como a patologização dos comportamentos indesejáveis funcionava como um instrumento poderoso à reprodução de uma sociedade hierarquizada e injusta. Portanto, a Psicologia perpetuava a desigualdade no acesso aos direitos sociais e políticos.

Nesse mesmo sentido, Bock (1999) e Fontenele (2008) expressam que as técnicas empreendidas pela Psicologia, voltadas para a seleção, a adaptação, o controle, a classificação, a medição e a disciplinarização dos menos favorecidos, constituía-se como uma prática marcada pela despolitização e pela estigmatização dos sujeitos que sofriam os impactos da desigualdade social, favorecendo a manutenção de ordem social excludente.

Historicamente, de acordo com Bock (1999), pode-se dizer que a Psicologia teve uma prática voltada para o controle, no período colonial, a higienização, no século XIX e a diferenciação, no século XX.

Entretanto, como afirma Antunes (2012), a história não é linear e unilateral, de modo que, paralelamente, havia nesse meio intelectuais progressistas e críticos que não concordavam com o pensamento hegemônico. Dentre eles, ela cita os exemplos de Manoel Bomfim e Ulysses Pernambucano. O primeiro foi diretor do primeiro laboratório de Psicologia no País, no

Pedagogium e também professor de Psicologia e Pedagogia na Escola Normal do Rio de Janeiro.

Naquela época, ele já realizava estudos, pesquisas e utilizava métodos orientados por visão histórica e social do psiquismo, bem diferente do racismo científico e do pensamento aristocrático vigentes no período. Por isso, foi alvo de duras críticas durante toda a sua vida. Já Ulysses Pernambucano foi diretor do Hospital de Doenças Nervosas Mentais do Recife e aboliu as camisas de força e os calabouços, implantando o tratamento em hospitais abertos e em ambulatórios numa antecipação do movimento antipsiquiátrico. Ele foi preso mais de uma vez defendendo os trabalhadores dos canaviais de sua cidade.

Antunes (2012), Bock (1999) e Campos (2009) também fazem referência a Abílio César Borges e Helena Antipoff. O primeiro fora exonerado por conta das suas ideias diferenciadas em relação à educação; pois considerava importante a valorização dos professores e contrapunha-se aos castigos físicos na escola. Helena Antipoff, no início de 1930, defendeu que o uso de testes não