2. RİSK KAVRAMI, RİSK YÖNETİM SÜRECİ, KURUMSAL RİSK YÖNETİMİ KAVRAMI, SİSTEMİ,
2.6. KRY’ nin Bileşenleri (Boyutları) ve Güncellemeler
2.6.2. COSO Kurumsal Risk Yönetimi-Riskin Strateji ve Performansla Uyumlaştırılması
2.6.2.1. Yeni Bir Düzenleme Neden Gerekli?
2.6.2.1.1. Yönetişim ve Kültür
Guilhermino é, entre os verdes de Cataguases, o de coração mais suave. (...) Teria Guilhermino Cesar mudado feitio como se muda de alfaiate? Parece que o poeta esta se buscando, inquieto neste mundo que é o Brasil. Esta se buscando ou se perdendo.
- Enquete com escritores mineiros, Diário de Minas, 7/4/1929.
Aderir: erro perigoso Eu nunca aderi: sempre fui.
- “Versos do coletor estadoal de briquite’s”, de Fidelis Florencio, leite criôlo Nº 2, 9/6/1929. (...)
Bôa noite, Doutor... até a vista...
Vou “cavar” meu logar de “modernista” - “Do Flirt, do Footing, da Semana”, Semana Ilustrada, Nº 81. 2/3/1929.
Da duração estendida dos processos de sedimentação cultural de valores literários passamos agora ao tempo medido das tomadas de posição que definem a política literária. Mais especificamente, trata-se de mapear a interação do grupo de leite criôlo com os outros grupos também envolvidos no que denominamos rede modernista nacional.
Interessa-nos aqui a figura do escritor modernista. Tal ênfase no escritor – em oposição ao autor, suposta instância da “intencionalidade” textual – se dá no sentido da crítica biográfica proposta por Eneida Maria de Souza (2002). Segundo ela
Esta personagem [o escritor], construída tanto pelo escritor como pelos leitores, desempenha vários papéis de acordo com as imagens, as poses e as representações coletivas que cada época propõe aos seus intérpretes de literatura. (SOUZA, 2002, p. 116)
Dessa forma trataremos aqui do que a autora denomina “protocolos de inserção cultural na vida literária” e descreve como parte da construção canônica do escritor (SOUZA, 2002, p. 112).
Propõe-se que no caso em questão tais protocolos de inserção na vida literária passam pela forma como o grupo de leite criôlo se relaciona com o que chamamos rede modernista nacional. Entendemos tal rede como o conjunto de relações estabelecidas entre escritores e aspirantes a escritores de todo o país – e, em alguns casos, do exterior – em torno da ideia da adesão ao modernismo. Trata-se de compreender o modernismo dos anos 1920 como uma configuração social, em relação à qual se realiza a produção cultural de diversos indivíduos e grupos espalhados pelo país. Integrada nacionalmente por uma intensa troca de correspondências e publicações – cuja dramatização textual eram os periódicos modernistas, reunindo contribuições de diversas origens – e localmente em círculos de sociabilidade, tal configuração não se caracteriza por um conjunto homogêneo de ideais artísticos, intelectuais e/ou políticos ou a adesão a um programa explícito. Pelo contrário, durante todo o período a rede modernista esteve cindida em grupos e facções cuja oposição e concorrência variavam da discordância respeitosa à ruptura total, sendo que o fracionamento e a intensidade das disputas se tornam mais intensos no final da década de 1920, culminando na segunda “dentição” 7 da Revista de Antropofagia. A afinidade eletiva que reunia os modernistas brasileiros – luta contra o “passadismo”, ou seja, a cultura “velha”, acadêmica e estabelecida – era vaga o bastante para abrigar as diversas tendências. Na verdade, o que caracteriza a rede é que todas as publicações, todas as obras, tinham como interlocutor implícito a própria rede. Positivamente tal interlocução se dava na forma de influência e “inspiração”, assim como na de público leitor privilegiado, capaz de compreender o que era visto
7 A publicação modernista paulista Revista de Antropofagia denominou suas fases de dentições, em
pelos leitores em geral como absurdo, ultrajante e incompreensível. Constituía também a única instância de reconhecimento considerada pelos modernistas como verdadeiramente legítima. A interlocução se realizava também negativamente, por exemplo, através das polêmicas que permitiam aos modernistas demarcar suas posições dentro do movimento. A noção de rede nos parece interessante na medida em que descreve um espaço intermediário entre o conceito abrangente de campo literário – tal como definido por Pierre Bourdieu (2005, p. 243-311), ou seja, o conjunto de todos os produtores de literatura que compõem a “República das Letras”, lugar das disputas sobre a legitimidade em matéria de literatura, na medida em que ali produzam efeitos – e o conceito mais palpável, porém mais restrito, de grupos de sociabilidade.
Tal definição da rede modernista padece, porém, de um defeito de ordem linguística. As formas verbais que necessariamente devem ser utilizadas criam a impressão de uma estrutura estática com regras predeterminadas, quando na verdade se trata de, através da pesquisa, compreender o funcionamento dinâmico e, para os agentes, imprevisível, de uma configuração altamente instável de curta duração. Entre o primeiro momento de expansão do modernismo a partir de São Paulo e Rio de Janeiro em meados dos anos 1920 e a transformação da rede modernista e do próprio modernismo na virada da década se passam apenas alguns poucos anos. Depois desse período, cujo marco final coincide com a Revolução de 1930, muitas características da difusão original do movimento se alteram, um exemplo entre muitos seria o fato de que o gênero literário de preferência do modernismo dos anos 1920, a poesia, perde espaço para os “ensaios sobre os problemas brasileiros” e para o romance – em especial, e não por coincidência, o romance de “caráter social”. Outro exemplo seria que neste momento parte fundamental dos antigos modernistas ingressa na alta esfera do funcionalismo público ou então em ativa militância dentro de partidos políticos, o que
acaba por eliminar o caráter relativamente descompromissado dos engajamentos intelectuais da década anterior.
A expansão nacional da rede modernista a partir do eixo Rio–São Paulo – que, na ausência de uma referência melhor para seu início, poderia ser datada do encontro do grupo modernista paulista com suas futuras contrapartes mineiras em 1924 – é contemporânea do processo pelo qual, segundo Eduardo Jardim de Moraes (1978), ocorre a adoção por parte do modernismo de um ideário nacionalista.
Temos por hipótese que o nacionalismo literário, que se tornou então um dos pontos fundamentais de movimento que inicialmente havia se definido em torno da questão da introdução dos procedimentos estéticos das vanguardas europeias no país, era um dos principais atrativos de toda uma nova geração de conversos ao modernismo, cuja emergência na rede modernista nacional se dará em torno dos anos de 1925-1928. Ao cabo deste processo, em 1929, a rede modernista abarcava núcleos em quase todos os estados da federação e servia de aglutinadora de toda uma parcela da juventude de elite – muitos do quais trocavam naquele momento suas bases nas cidades do interior por uma temporada de estudos secundários e superiores nas capitais de seus respectivos estados.
O grupo de modernistas de Belo Horizonte que iremos analisar aqui, responsável pela publicação em 1929 de leite criôlo, constitui um destes núcleos de novos adeptos. Dirigido por João Dornas Filho, Guilhermino César e Achilles Vivacqua, leite criôlo só pode ser descrito como uma “revista” na mesma medida que a segunda “dentição” da
Revista de Antropofagia: ambas as publicações eram seções semanais de jornais diários de perfil comercial – Estado de Minas, no caso da publicação mineira, e Diário de São
Paulo, no caso da publicação paulista. Apesar de, por um lado, leite criôlo ter tido a sua primeira edição em forma de um tablóide, lançado em 13 de maio de 1929, não muito
diferente nas suas características editoriais de outras revistas modernistas – como Verde, publicada pelo núcleo modernista de Cataguases de 1927 a 1929, e a primeira “dentição” da Revista de Antropofagia, publicada pelos modernistas paulistas entre meados de 1928 e começo de 1929 – por outro lado, a publicação belorizontina é marcada pelo desejo, ainda que contraditório, de se comunicar com um público mais amplo que o da rede modernista, de ir além da literatura estrito senso em nome dos ideais nacionalistas, impulso expresso não apenas pela sua presença em um jornal de grande circulação, mas também pela distribuição gratuita da única edição avulsa em praça pública.
Tal interesse por uma aproximação do universo público, que antecipa a postura de muitos membros da geração modernista a partir dos anos 1930, não deixa de ser, como já dissemos, contraditória considerando-se que o conteúdo publicado em leite criôlo se vinculava necessariamente às questões e às tomadas de posição colocadas no âmbito da rede modernista nacional e, em especial, pelas várias revistas modernistas, que eram a principal forma de manifestação do movimento, dado que muito pouco daquela produção literária chegava ao formato de livro.
No Brasil, a publicação de revistas literárias remonta ao século XIX (DOYLE, 1976). No contexto, porém, da aparição das revistas literárias modernistas nos anos 1920, a literatura era principalmente veiculada em revistas ilustradas e de variedades, disputando espaço com caricaturas, fotografias, textos humorísticos etc. O paradigma deste tipo de publicação é a longeva revista carioca Fon-fon, fundada em 1907 e ainda em circulação na década de 1920, à qual se somam inúmeras revistas na então capital do Brasil como Careta, Don Quixote, Paratodos e várias outras (VELLOSO, 2003, p. 360). Também em outros locais foram publicadas revistas nos mesmos moldes e neste
capítulo trataremos de duas delas, publicadas em Belo Horizonte nos anos 1920 e em estreita conexão com a trajetória do grupo que publicou leite criôlo.
Símbolos da relativa profissionalização dos literatos nas trincheiras da imprensa que caracterizou as três primeiras décadas republicanas, as revistas de variedade, na medida em que implicavam uma relativa submissão da produção literária ao gosto de um público mais amplo, não satisfaziam o desejo dos escritores de produzir “literatura pura” nos padrões vigentes então no campo literário francês, referência hegemônica em termos de produção cultural naquele momento. Dessa forma, no mesmo período foram publicadas várias revistas focadas principalmente em questões literárias, do conjunto das quais se destaca o ciclo das revistas simbolistas na década de 1900 (DE LUCA, 1999, p. 58). O problema básico do ponto de vista editorial destas revistas – e a principal razão pela qual deixavam, via de regra, de circular rapidamente – era o fato de não se sustentarem economicamente: não conseguiam cativar o relativamente restrito público leitor de então da mesma forma que as revistas de variedades, o que significava, além de vendas baixas, pouco interesse dos anunciantes. Segundo Tania de Luca (1999, p. 56-59), a primeira revista comercialmente bem sucedida a romper com o modelo das “variedades” naquele contexto foi a Revista do Brasil, publicada em São Paulo a partir de 1916, que poderia ser definida como uma revista de cultura, e na qual a literatura estrito senso ocupava uma posição relativamente secundária.
Pode-se afirmar que neste quadro as publicações modernistas foram empreendimentos quase sempre deficitários, posto que circulavam em uma conjuntura na qual o “futurismo” era, para o público leitor mais amplo, sinônimo de absurdo e ultraje. Assim, tais revistas, feitas muito mais de crença na literatura do que de tino comercial, recorriam muitas vezes ao mecenato – é o caso da primeira “dentição” da
modernismo paulista –, à cotização entre os escritores – o caso da revista Festa do Rio de Janeiro (Cf. GOMES, 1999) –, ou mesmo a publicação enquanto suplemento no interior de um jornal de circulação garantida – o caso de leite criôlo e da segunda “dentição” da Revista de Antropofagia, o que implicava no beneplácito das pessoas responsáveis por tal órgão de imprensa.
A citada renúncia a atender as demandas da ampla maioria do público leitor disponível é expressa na ideia corrente no período de que não existe público para a literatura no Brasil, ou seja, não existe um público “à altura” da produção de vanguarda veiculada pelos modernistas. Se o público tal como ele se apresenta deseja o formato das revistas de variedade, a literatura “para mulheres” de Julio Dantas8 ou mesmo a poesia parnasiana, ele deve ser ignorado até que se forme um novo público “à altura” da produção modernista. É neste sentido que a rede nacional modernista é a referência de público, o universo do leitor modelo, que se manifesta implicitamente nas publicações modernistas. As próprias publicações encenam a rede, seus fios, seus nós: quem publica o que onde, o que diz a resenha de fulano da obra de sicrano na revista X etc. Revistas se resenham umas às outras, definem suas posições, suas afinidades, diferenças e divergências. No terreno volátil da vanguarda literária é ali que se define, no calor da hora, publicação a publicação, número a número, o quem-é-quem da província rebelde da “República das Letras” brasileira. Concretamente, as revistas são distribuídas nacionalmente através de redes de correspondência9 e seus exemplares ou recortes
8 Em leite criôlo foi publicado um texto ridicularizando este escritor português, autor de títulos como “O
Eterno Feminino”, “O que morreu de amor” e “O primeiro beijo”, que é descrito no texto como um produtor de literatura “açucarada” para o público feminino. Cf. “Julio Dantas, o Brumel” de Oswaldo Abrita em LEITE CRIÔLO Nº VIII, 21 de julho de 1929.
9 Como comprovação podemos citar trechos da carta de Antônio de Alcântara Machado a Tristão de
Athayde, na qual ele diz que a função de Raul Bopp como secretário da primeira “dentição” da Revista de Antropofagia “se limitava a enviar pelo correio 70% da tiragem” (apud SANTIAGO, 2003, p. 107); da carta de Carlos Drummond de Andrade a Oswald de Andrade de maio de 1929 a respeito da segunda “dentição” da Revista de Antropofagia – “estou ciente da revista, que leio sempre no ‘Diário de São Paulo’ (a propósito: obrigado pela remessa do jornal, que só posso atribuir a V.)” (apud DORNAS FILHO, 1959, p. 88.); e da carta de Ascenso Ferreira a Achilles Vivacqua, datada de 5 de dezembro de
deles10 são colecionados por membros dos múltiplos núcleos modernistas espalhados pelo país.
A expansão máxima da rede modernista se dá até 1929 e tem por símbolo maior a primeira “dentição” da Revista de Antropofagia que circulou entre meados de 1928 e início de 1929. As desavenças que puseram fim à primeira fase da revista paulista e presidiram o surgimento da sua segunda “dentição”, processo que será analisado neste capítulo, marcam o começo da fragmentação e das transformações da rede, que se recomporia sobre bases bastante diferentes na década seguinte. Paradoxalmente, é neste momento que as articulações da rede quase chegam a ser nomeadas enquanto tal por seus próprios integrantes: na segunda “dentição” da Revista de Antropofagia, os núcleos modernistas espalhados pelo país que se correspondem com a publicação paulista são denominados “clubes de antropofagia” e são descritos em artigos apropriadamente denominados “Expansão Antropofágica”11 e “desde o Rio Grande até o Pará”12. Nestes textos não se trata da geografia da rede modernista, mas da geografia de uma facção desta, dado o conflito que a segunda encarnação da publicação antropofágica estabelece com a maior parte dos escritores e tendências estabelecidos do modernismo de então. Mas, como veremos em maior minúcia, tal facção não possui a solidez de que se arroga: o grupo de leite criôlo, descrito na publicação paulista como “clube de antropofagia de Minas Gerais”, não pode ser compreendido como uma filial da antropofagia, ele 1929, na qual aquele reclama com este que não tem recebido “o Estado de Minas, nem Leite Crioulo, nem Montanha [revista modernista de Ubá], nem nada” e atribui tal fato à desorganização dos Correios – na verdade, leite criôlo havia publicado sua última edição em 29 de setembro daquele ano (Carta de Ascenso Ferreira a Achilles Vivacqua (5/12/1929). Série correspondência. Caixa 1 [Classificação provisória]. Fundo Achilles Vivacqua. Acervo de Escritores Mineiros, UFMG). A remessa de publicações como a segunda “dentição” da Revista de Antropofagia e leite criôlo, publicados em jornais comerciais de circulação local, para integrantes da rede modernista nacional de outros estados demonstra a relativa continuidade das formas de circulação em relação às revistas modernistas avulsas, nestes casos somada à circulação normal daqueles diários.
10 Os arquivos pessoais de escritores modernistas, como aquele de Achilles Vivacqua depositado
atualmente no Acervo de Escritores Mineiros da UFMG, muitas vezes incluem este tipo de material nos seus acervos.
11 REVISTA DE ANTROPOFAGIA Segunda Dentição Nº 10, 12 de junho de 1929. 12 REVISTA DE ANTROPOFAGIA Segunda Dentição Nº 13, 4 de julho de 1929.
constitui, na verdade, mais um núcleo relativamente independente no interior da rede modernista, chegando em determinado ponto a romper com a publicação paulista.
A dimensão das tomadas de posição literárias explícitas – aquilo que poderia ser denominado como “política literária” ou, para usar a expressão de Fernando Correa Dias (1968, p. 93), trajetória exterior – será aqui o foco principal: as tomadas de posição que se materializam estilística e tematicamente nos próprios textos publicados no suplemento serão tratadas de maneira mais pormenorizada nos próximos capítulos. As epígrafes acima – a primeira de um poema satírico modernista publicado em leite criôlo e a segunda de uma crônica em versos publicada na revista de variedades Semana
Ilustrada, analisada mais adiante – servem de pontos de referência para as múltiplas tomadas de posição que serão analisadas aqui. A fórmula “cavar um lugar”, no contexto do trecho citado se referindo à proximidade de alguns modernistas mineiros com o governo estadual, ressalta a dimensão do interesse presente nas tomadas de posição analisadas. Já a expressão “aderir”, que no poema citado se refere à dignidade e à abertura que implicaria assumir um novo ponto de vista no contexto da vida política, conota a dimensão da crença, também fundamental para compreender a trajetória das tomadas de posição. Associada a primeira à baixeza da mesquinhez e a segunda à elevação dos ideais, ambas constituem implicitamente formas de julgar as tomadas de posição – acusar as crenças do inimigo de serem nada mais que formas de mascarar seus interesses é uma das mais clássicas estratégias discursivas presente em todas as formas de política, incluída aí a luta política propriamente literária que se desenvolve no interior da “república das letras”. Pretendemos, na presente análise, fugir à tentação dupla do eufemismo idealizante e da denúncia reducionista, atentando à necessária e, por vezes, tensa simbiose entre crenças e interesses.
Quanto à forma, nossa análise se estruturará em termos de narrativa, assinalando que, no decorrer da exposição, a ordem estritamente cronológica da documentação cede por vezes lugar à ordem lógica da argumentação. Tal opção pela narrativa se dá em função da transitoriedade do objeto em questão: pensadas sincronicamente determinadas tomadas de posição analisadas se tornam incompreensíveis. Acreditamos ser este o caso da análise de Antônio Sérgio Bueno (1982, p. 167-177) das relações entre leite criôlo e a Revista de Antropofagia – posto que este autor, ao tentar compreender como e porque as duas publicações modernistas são referidas alternadamente como vinculadas ou como opostas, acaba por não encontrar uma solução satisfatória devido ao caráter sincrônico da sua análise. A seguir tentaremos propor uma resposta à mesma indagação básica a partir da análise da trajetória das adesões e rupturas do grupo de escritores de leite
criôlo e de sua publicação no interior da rede modernista nacional.
O consórcio do velho lirismo com s poesis moderns
A análise da trajetória das tomadas de posição de qualquer grupo literário dentro do movimento modernista nos anos 1920 precisa partir da tomada de posição que constitui a própria adesão ao movimento. Ao contrário de outras “escolas literárias” constituídas retrospectivamente a partir do trabalho da crítica literária, a pertença ao modernismo enquanto movimento, na década de 1920, envolvia uma declaração desta pertença. Implicava também a vinculação à rede modernista nacional através da troca de correspondência com figuras centrais do movimento e, em especial, da publicação de textos ou resenhas de seus trabalhos nos periódicos modernistas de maior prestígio. A publicação de um periódico próprio possibilitava aos grupos novatos publicar trabalhos dos escritores modernistas mais estabelecidos, cimentando a mútua vinculação literária, além de possibilitar a publicação dos próprios trabalhos e dos de outros aspirantes a escritor. Outro ponto a ser considerado é que muitos dos que aderiam ao modernismo já
haviam se lançado como escritores, através de poemas estilisticamente assimiláveis ao parnasianismo e ao simbolismo ou então de trabalhos em outros gêneros que seriam igualmente classificados como “passadistas” dentro da lógica modernista. Nessas