Buscamos na medida de nossa capacidade representar a pluralidade das vozes das distintas organizações que compõem o campo sociojudiciário da delinquência juvenil na cidade de Lille e e Belo Horizonte. Foram realizadas 58 entrevistas, distribuídas da seguinte forma: 32 entrevistas com profissionais do campo socioeducativo e 26 com profissionais do campo judiciário. Na cidade de Belo Horizonte foram : 16 entrevistas com profissionais do campo socioeducativo e 14 com profissionais do campo judiciário. Na cidade de Lille forma: 16 entrevistas com profissionais do campo socioeducativo e 12 com profissionais do campo judiciário. Como estratégia de pesquisa, tencionamos as narrativas dos profissionais das organizações de atendimento socioeducativo e de responsabilização penal com o que conhecíamos sobre o tema (relatórios de pesquisa, documentos oficiais e publicações científicas) e com as histórias que eles nos contavam. Contrapusemos narrativas a outras narrativas com o objetivo de compreender as críticas e as defesas das políticas públicas e as contradições que surgiram. As estratégias narrativas dos entrevistados foram heterogêneas e variaram em função das posições e funções exercidas: há aqueles com papéis mais políticos, gestores com funções administrativas e profissionais com conhecimentos mais técnicos. De todo modo, cada um deles tinha uma experiência a comunicar, uma opinião a enunciar, uma crítica as mudanças na legislação e nas políticas públicas destinadas a gestão e tratamento da delinquência juvenil nas suas cidades e nos seus países.
Desta forma, consideramos que essas narrativas são uma parte importante da ação desses profissionais. Elas não são apenas algo que nos contam, mas ações, estratégias de defesa e preservação de espaços de poder, justificativas, explicações, reivindicações, demandas e críticas aos gestores públicos, enfim elas expressam visões de mundo.
Foi sobre esse fundo potencialmente conflitivo e contraditório, que organizamos as falas em torno de algumas questões da pesquisa; a) o impacto das mudanças legislativas nas políticas públicas destinadas a gestão e tratamento da delinquência juvenil; b) a composição de forças entre os profissionais e as organizações do campo sociojudiciário.
Tornou-se evidente durante nosso período de observação das audiências no Tribunal de Lille que deveríamos expandir nossa pesquisa e nos debruçar sobre a Administração da Proteção Judiciária da Juventude (PJJ27). Uma pequena parcela dos profissionais da PJJ trabalha no Tribunal e desenvolvem parte substancial de suas tarefas em função das demandas do juiz e do julgamento. O Tribunal, como um lugar onde se expressa o Poder Judiciário, imprime um efeito coercitivo sobre os membros do PJJ. Desta forma, encontrar os profissionais da PJJ, fora do campo judiciário, foi fundamental para compreendermos a diversidade da sua atuação e os conflitos que marcam sua identidade.
Procuramos aproveitar as diversas oportunidades no Tribunal, por exemplo, as audiências no gabinete do juiz, as audiências no Tribunal, as reuniões com o Ministério Público, com os advogados de defesa, dentre outros atores acompanhando as propostas, debates e demandas formuladas pelos juízes sobre os casos dos menores infratores. Estas diversas observações no Tribunal nos proporcionaram um acúmulo de informações, especialmente, sobre as relações entre os juízes e os educadores. No entanto, elas pareciam ir contra as conversas informais que tivemos com os profissionais da PJJ fora do Tribunal.
Na verdade, durante nosso estágio de doutorado, também tivemos a oportunidade de acompanhar o curso ministrado pelo professor Dominique Duprez na Escola Nacional da Proteção Judiciária da Juventude do Ministério da Justiça na cidade de Roubaix. Esta foi a oportunidade para entrar em contato com os profissionais responsáveis pela gestão e execução dos programas e medidas socioeducativas destinadas aos menores infratores na França.
A entrada e o encontro com os profissionais da PJJ possibilitaram uma pesquisa complementar ao campo desenvolvido no Tribunal e foram muito gratificantes por duas razões. As aulas e os seminários mostraram-se bastante atribulados, pois emergiram inúmeros debates entre os alunos (futuros profissionais da PJJ) e os debatedores. Essas discussões, animadas e extensas, tinham como foco as disfunções institucionais da PJJ, em
27 No conjunto do campo sociojudiciário da delinquência juvenil francês, os profissionais da Proteção Judiciária da
Juventude, são quantitativamente (cerca de 9.000) o corpo profissional mais importante do campo. São 1.595 profissionais administrativos, 684 diretores, 414 psicólogos e 316 professores responsáveis pela formação profissional e 4.996 educadores e 1.995 profissionais de diversos cargos e funções. Fonte: Chiffres clés de la justice des mineurs (http://www.justice.gouv.fr/budget-et-statistiques-10054/chiffres-cles-de-la-justice-10303/chiffres-cles-de-la-justice-des- mineurs-18992.html).
especial as experiências conflituosas e problemáticas vivenciadas pelos alunos nos seus estágios no Tribunal de Menores, nos programas de Meio Aberto e nos Centros de Internação. Isso nos permitiu tomar conhecimento e dimensionar os problemas centrais debatidos na formação dos futuros profissionais da PJJ. Problemas e discussões postos durante seu aprendizado nas experiências vividas nos estágios desenvolvidos junto ao Tribunal, especialmente nas interações com os juízes.
A experiência na Escola Nacional de Roubaix foi uma importante fonte de informação, que nos permitiu esclarecer questões e dúvidas sobre as práticas e experiências da PJJ, sobre sua formação, mas principalmente sobre sua identidade profissional (este ponto será discutido detalhadamente na parte 4 do capítulo 3). O contato regular e as discussões com os alunos e os professores possibilitaram a criação de uma rede de profissioanis do campo socioeducativo, alunos, profissionais e os professores que integram o corpo docente de Roubaix.
Esse período nos possibilitou acompanhar e observar de dentro a formação desses futuros profissionais e constituir uma rede diversificada de contatos com representantes dos múltiplos serviços e programas executados pela PJJ. Esse contato específico fez com que os profissionais interrogados dos diversos setores da PJJ nos demandassem sobre o tema de tese, com o objetivo de compreender as questões centrais que guiaram a pesquisa.
O objetivo das entrevistas tanto com os educadores, quanto com juízes foi o de dissipar as dúvidas e de esclarecer as interações dentro do campo e os conflitos e disputas entre juízes e profissionais socioeducativos tanto no processo de elaboração da sentença quanto na implementação da medida de internação e no tratamento oferecido aos menores infratores. Necessitávamos igualmente de nos descentrar do caráter jurídico dos dossiês, indo além do campo específico do direito penal. Assim, os discursos dos diferentes profissionais do campo sociojudiciário poderia nos revelar os mecanismos interacionais e tranversais de sua configuração.
O quadro de ação em que observamos as interações entre os profissionais do campo socioeducativo e os juízes era altamente coercitivo, especialmente para os educadores, pois eles estavam submetidos ao poder judiciário durante a elaboração das sentenças nas audiências. Para superar essa armadilha, questionamos estas práticas de elaboração da sentença, em outro momento, a fim de desconstruí-las e complementá-las. Por outro lado, o
quadro de ação em que observamos as interações dentro do campo socioeducativo, ou seja, apenas entre seus profissionais, foi de grande autonomia em relação ao poder judiciário. Acompanhamos as interações destes profissionais e realizamos as entrevistas nos centros de internação durante a rotina de atendimento aos menores infratores.
Nosso objetivo foi o de obter, pelas entrevistas, um ponto de vista reflexivo sobre as práticas profissionais, revelando seu sentido através da desconstrução analítica. Isto nos permitiu "controlar " nossos resultados e "verificar" a validade de nossa hipótese, além de reorientar nossa reflexão sobre pontos específicos, que tínhamos subestimado inicialmente, ou sobre os quais não tínhamos percebido significados e implicações. Neste sentido, confrontar os discursos dos profissionais a sua produção concreta nos possibilitou minimizar o efeito, na pesquisa, do discurso pré-construído dos atores, como ocorria nas discussões informais iniciais, tanto no Tribunal como no Centro de Internação, onde frequentemente os profissionais se esforçavam para dar ao pesquisador o que era suposto que ele tinha vindo pesquisar. Assim, graças às entrevistas e também às observações fomos além "das respostas prontas” que não apresentam incoerências nem sofrem de inconsistência lógica. Em outras palavras, buscou-se evitar respostas estereotipadas ou evasivas sobre os menores infratores que expressam noções convencionalmente aceitas em relação ao nosso tema de pesquisa (Becker, 2007). As entrevistas reorientaram nossa compreensão do funcionamento do Tribunal e do Centro de Internação, do quadro de ação destes profissionais assim como da lógica subjacente à construção das peças que compõem o processo judicial.
Entrevista com os técnicos socioeducativos
Nossa pesquisa, tanto no Tribunal quanto no Centro de Internação, permitiu-nos entrar em contato com um número significativo de profissionais do campo socioeducativo tanto no Brasil quanto na França. A fim de dispor de um olhar que levasse em conta as várias facetas do trabalho socioeducativo, optamos por colher informações de profissionais com experiências diversificadas em vários domínios deste campo.
Foram entrevistados profissionais que trabalham no Tribunal produzindo diagnósticos e relatórios para a elaboração da sentença do juiz, que fazem o acompanhamento e avaliam o desempenho dos menores infratores nos centros de internação, além dos profissionais responsáveis pelo acompanhamento dos menores no meio aberto. Ao assumirmos que as práticas e as percepções diferem segundo os tipos de atuação, os profissionais com experiências diversificadas nos domínios do campo socioeducativo foram o público alvo para a realização da coleta de dados através da observação e das entrevistas.
Os profissionais responsáveis pelas medidas de meio aberto, ou que trabalham nos centros educativos de semiliberdade, nos centros de internação, ou ainda nas equipes socioeducativas do Tribunal, são confrontados com diferentes problemáticas. Graças à diversidade e heterogeneidade do trabalho desenvolvido junto aos menores infratores no campo sociojudiciário, os profissionais desenvolveram uma reflexão comparativa sobre as "lacunas" e as articulações do campo socioeducativo. Esta circulação no campo sociojudiciário e o acompanhamento de toda a trajetória institucional dos menores infratores fazem destes profissionais interlocutores privilegiados para compreendermos as estratégias e as intervenções para a execução da resposta institucional sobre os menores infratores.
Buscamos refletir sobre as concepções e os discursos que orientam a construção dos diagnósticos e relatórios tanto aqueles que têm como finalidade a elaboração da resposta institucional, construído pelos profissionais socioeducativos que atuam no Tribunal de justiça, quanto aqueles responsáveis pelo acompanhamento dos menores nos centros de internação. Nosso objeto de análise consistiu nos diagnósticos e relatórios elaborados pelas equipes interdisciplinares que atuam no Tribunal e nos discursos dos profissionais que trabalham nos centros de internação, os quais definem a situação dos menores infratores
processados no campo sociojudiciário. A tarefa desempenhada pelos profissionais do campo socioeducativo é central na dinâmica do atendimento dos centros de internação, uma vez que ela ajuda a definir a trajetória institucional dos menores infratores.
Os diversos profissionais (psicólogos, assistentes sociais, pedagogos, entre outros), além de se ocuparem dos serviços rotineiros e das ações educativas nos centros de internação, desempenham uma tarefa central, a confecção de diagnósticos e relatórios onde os internos são classificados e rotulados, definindo assim a sua situação na instituição e sua trajetória institucional. Visando compreender os aspectos subjacentes ou implícitos à elaboração dos diagnósticos, recorremos à fundamentação teórica que privilegia o enfoque microssocial dentro de uma perspectiva sociológica.
Dessa maneira, optou-se pelas teorias interacionistas do desvio, seguindo os trabalhos de Becker (1985). Para esse autor, “é de maneira seletiva que os representantes da lei, respondendo às pressões da própria situação de trabalho, aplicam a lei e criam as
categorias de pessoas estranhas à coletividade” (Becker, 1985, p.185). O autor considera o desvio “como o produto de uma transação efetuada entre um grupo social e um indivíduo que, aos olhos do grupo, transgrediu uma norma” (Becker, 1985, p.185). Becker se interessa “menos pelas características pessoais e sociais dos desviantes do que pelo
processo através do qual eles são considerados estranhos ao grupo, assim como à reação
deles a esse julgamento” (Becker, 1985, p.33). Tais ideias fundamentaram as análises dos
diagnósticos elaborados nos centros de internação pesquisados, onde há um julgamento sobre o interno baseado na maneira que eles são vistos pelos profissionais que os avaliam. Na perspectiva interacionista, o caráter desviante ou não de um ato depende da forma como os outros pensam e reagem. Nosso interesse é explicitar as concepções dos profissionais sobre sua atividade e sobre o grupo de internos, que são o alvo de suas intervenções.
Entrevista com os atores da esfera judiciária
A consulta e a coleta de dados dos dossiês nos obrigaram a realizar uma tradução da linguagem e do significado jurídico de várias peças legais. Isso ocorreu, por exemplo, com alguns procedimentos e requerimentos que nos pareceram inicialmente complicados (aplicação de sanções sob condição de suspensão), ou com a combinação de interrupção da ação penal com medidas socioeducativas. Para compreendermos todas as informações e
lógicas dispersas nas peças dos processos judiciais as conversas informais e as entrevistas com os promotores, juízes e defensores públicos foram fundamentais.
Nosso objetivo era fazer com que estes profissionais descrevessem suas percepções e representações das atividades desenvolvidas, revelando os diferentes tempos destinados à cada atividade e explicitar as númerosas decisões e os elementos processuais que nos pareciam opacos e ininteligíveis. Os atores da esfera judiciária, tanto no Brasil quanto na França, reconhecem as dificuldades, controvérsias e mesmo o dissenso como característica da elaboração, enunciação e execução da sanção destinada aos menores infratores. Durante a realização das entrevistas com estes profissionais, assumimos as normas jurídicas nas nossas discussões não como objetos per si, autônomos e autoexplicativos, mas como ferramentas estratégicas de análise. Apesar de compreendermos o significado global das regras jurídicas do direito mobilizados na justiça penal juvenil nos dois países, questionamos os profissionais da esfera judiciária de uma maneira ingênua e trivial. Esta postura foi concebida estrategicamente com o objetivo de interrogar as práticas, as ações realizadas por esses profissionais, descentrando sua essência jurídica, uma vez que "as regras são armas e estratégias mobilizadas para orientar as ações dos agentes" (Ocqueteau, 1996, p.9-26, passim). Essa abordagem ajudou a compreender o emprego de vários recursos e procedimentos que escapam a uma perspectiva internalista do direito. A observação participante nas audiências e as entrevistas realizadas foram fundamentadas em quatro dimensões-chaves:
Trajetória profissional dos profissionais da esfera judiciária (experiência profissional anterior, especificidades do trabalho com os menores infratores e a rotina de trabalho); relação e conflitos com os parceiros da justiça penal juvenil: profissionais da esfera socioeducativa, representantes do Ministério Público, do Juízo, da Defensoria Pública, da polícia; a função dos diagnósticos técnicos na construção da sentença, na aplicação e execução da sanção, e a relação de interdependência e conflitos com os profissionais da esfera socioeduativa); dilemas e controvérsias sobre os impactos e os efeitos da sanção (medida socioeducativa) sobre os menores acusados de crime (ato infracional).