3.5. Deneysel İşlem Basamakları
3.5.4. Deney ve Kontrol Gruplarının Oluşturulması
O objetivo desta seção é problematizar a construção e uso das formas de mensuração do crime pelas agências de controle social e discorrer sobre os dados estatísticos que serão utilizados nesse trabalho
Em vez de tomar a criminalidade como uma pressuposição não problematizada, procuramos discuti-la como resultado do embate de processos políticos e burocráticos que se constitui a partir da agenda e objetivos das instituições de controle do crime. Dois objetivos orientaram essa análise, comparar a prática das organizações do campo sociojudiciário da delinquência juvenil, através das detenções, sentenças judiciais e prisões dos menores infratores com as concepções da delinquência juvenil na legislação e, como desdobramento, mostrar que as diversas fontes de estatísticas sobre a delinquência juvenil convergem na construção do perfil dos imputados pelo cometimento do ato infracional a um padrão determinado.
As estatísticas são parte dos mecanismos e da tecnologia de poder do Estado moderno e são utilizadas no processo de controle da população (Foucault, 1987). Esse novo modelo de Estado transforma a população em fim e instrumento de governo e preocupa-se em geri-la em profundidade, minuciosamente; preocupa-se com dispositivos de vigilância e disciplina da população. Novos campos de saber são, então, estruturados para responder às demandas postas. Não por acaso, Renneville (2006, p. 25) afirma que as estatísticas criminais tenham, nos séculos XVIII e XIX, permitido, senão contribuído, para o nascimento da criminologia na França e na Europa de uma forma geral.
Quando se trata de fazer uma análise quantitativa da delinquência juvenil, deparamo-nos com dois questionamentos: existe um número elevado de eventos que não ingressam no sistema, e há uma seletividade nos casos que são reportados (Kitsuse; Cicourel, 1963; Cicourel, 1968). As críticas aos dados oficiais produzidos pelas instituições de controle do crime são vastas e bem conhecidas. No caso brasileiro, ao contrário da França, elas adquirem um caráter especial, devido à ausência de um sistema nacional de estatísticas judiciais e criminais e de indicadores de “transparência” nestas instituições (Coelho, 1978; Paixão, 1983; FJP, 1988; Paixão; Beato 1997).
As estatísticas oficiais de criminalidade são usadas regularmente para retratar os níveis de violência e de regulação da ordem pública. As interpretações e discursos de senso comum referentes às estatísticas, muitas vezes, tomam os números por representações exatas e absolutas da realidade, contribuindo, desse modo, para consolidar a noção de que se trata de dados objetivos, científicos, desinteressados e neutros. Assim, as estatísticas oficiais dão suporte às análises que estabelecem nexo causal entre marginalidade social e criminalidade, pois obscurecem o fato de que existem diversos fatores sociais que se encontram presentes no processo de reação social ao crime. Entretanto, tal como analisado por Kitsuse e Cicourel (1963), a produção de um relatório estatístico não se refere a todos
os fatos acontecidos, mas responde a categorias escolhidas: “o que as estatísticas refletem
são as contingências organizacionais que condicionam a aplicação de determinadas leis a determinadas condutas por meio da interpretação, das decisões e atuações do pessoal
encarregado de aplicar a lei” (Kitsuse e Cicourel, 1963, p. 137). Com isto, mostraram que
não só influem os critérios legais nos registros dos crimes, como também critérios ideológicos, organizacionais e políticos. As estatísticas oficiais de criminalidade estão sujeitas a uma série de limites de validade e confiabilidade, pois refletem o processo social de notificação de crimes, o que traz vieses e distorções para o universo dos crimes conhecidos oficialmente (Coelho, 1978; Paixão, 1983).
Dessa maneira, ao discutirmos a forma como se produz a estatística oficial, a primeira preocupação que deve ser tomada diz respeito ao que estes dados podem nos informar e o que eles omitem. Os dados não devem ser analisados como se representassem um retrato fiel da criminalidade, mas apenas um retrato da criminalidade oficialmente detectada. Os padrões e tendências detectados do comportamento criminoso a partir dos registros oficiais de crimes são o resultado de um processo que implica a atribuição de vieses e significados próprios das organizações (sujeitas a limites operacionais, pressões políticas e cruzadas morais, podendo dirigir sua ação repressiva mais sobre alguns grupos do que outros) que compõem a justiça criminal, retratando não só a criminalidade mas também as etapas de funcionamento dessas organizações (Paixão, 1983).
Conforme observou Edmundo Coelho:
“Também os estereótipos que os policiais têm do criminoso ou infrator contumaz das leis constituem referências importantes para a sua atuação; e como indivíduos de status socioeconômico baixo são aqueles que mais se ajustam a estes estereótipos, são eles que constituem os alvos por excelência da ação policial, seja esta o mero uso da violência ou detenção.” (Coelho, 1978, p. 153).
“Dados relativos às etapas subsequentes do funcionamento do sistema criminal padecem dos mesmos vícios… Inúmeras pesquisas têm produzido evidências de que as probabilidades de um indivíduo receber tratamento discriminatório mais severo em qualquer destas etapas não são distribuídas aleatoriamente.” (Coelho, 1978, p. 154).
Segundo o autor, o tratamento discriminatório aos portadores de atributos de marginalidade social ocorre também nas outras etapas do tratamento judicial do crime. O processo de criminalização que se reflete nas estatísticas oficiais encobre o fenômeno das cifras negras e também o fato de que indivíduos de classe média e alta possuem
“imunidades institucionais”, ou seja, a eles, muitas vezes não se aplica o rótulo de
criminoso.
“A comparação das informações através destas entrevistas com os prontuários dos policiais e os resultados das amostras nacionais têm produzido descobertas surpreendentes quando confrontadas com as de estudos convencionais. Como era de se esperar, revelam que a extensão da delinquência encoberta infrações cometidas e não detectadas pela polícia – é considerável, mas sobretudo, que são jovens de status socioeconômico mais alto que violam as leis mais frequentemente e com maior gravidade; na pior das hipóteses, os resultados dessas investigações mostram que não existem diferenças significativas entre as classes no que diz respeito à incidência na delinquência. O que ocorre, e está refletido nas estatísticas oficiais, é que as pessoas de classe mais baixa não possuem imunidades institucionais das classes média e alta, e por isso têm mais probabilidades de serem detectadas, detidas, processadas e condenadas .” (Coelho, 1978, p. 155).
Segundo Paixão (1983), seria ingenuidade tomar a estatística criminal como um retraro fiel e confiável, tanto pela natureza do fenômeno criminoso quanto por eles distorcerem a distribuição social do crime, superestimando a participação das classes
populares. Por estas razões, ele atenta para o fato de que as “estatísticas oficiais de
criminalidade devem ser vistas não como indicadores do comportamento criminoso e de sua distribuição social, mas como produtos organizacionais, refletindo condições
operacionais, ideológicas e políticas” (Paixão, 1983, p. 35).
Cicourel (1968), estudando a delinquência juvenil em duas cidades da California, examina o processo cujo estágio final é a produção das estatísticas oficiais. Ele demonstra como as estatísticas oficiais são divorciadas do contexto social no qual os rótulos e a rotina dos atores ocorrem. Elas constituem-se em informações reconstruídas, visando atender imperativos de ordem legal e institucional. Nos encontros face a face, os policiais utilizam- se de tipificações oriundas do senso comum e do estoque de conhecimento adquirido ao longo de suas carreiras. Os dados oficiais mascaram o caráter de negociação e barganha presentes nos encontros policiais-cidadãos e a lógica em uso dos policiais. Os dados oficiais são uma descrição formal. Somente uma investigação sobre como eles foram produzidos é que poderia nos informar sobre a ideologia das organizações de controle.
No nosso trabalho não abordamos as estatísticas oficiais nestes termos, mas nos aproximaremos destas questões por outros caminhos. Os delitos, sentenças e as punições (encarceramento) dos adolescentes serão analisados aqui por meio dos registros realizados pelas organizações do campo sociojudiciário da delinquência juvenil. A despeito de todos os problemas identificados na produção das estatísticas oficiais, elas informam como as agêncais públicas de controle respondem à delinquência juvenil. Assim, trata-se de informações que refletem a atuação das agências de controle, sua forma particular de tratar o fenômeno, expressando limites que refletem, entre outras questões, seu próprio campo de atuação. As estatísticas oficiais são reveladoras das práticas e interpretações dos agentes estatais sobre distintas moralidades e os usos da legislação penal.
Essas reflexões resultam do trabalho que buscamos realizar movidos pelo interesse de contar com dados, provenientes de fontes policiais, judiciais e prisionais, sobre a delinquência juvenil para os casos referentes ao Brasil e à França. A opção por trabalhar com dados referentes à delinquência juvenil a partir de uma análise quantitativa
possibilitaria uma percepção acerca das formas de resposta das organizações à delinquência juvenil à luz das mudanças legislativas nos dois países.
As estatísticas disponíveis do campo sociojudiciário da delinquência juvenil no caso brasileiro se resumem aos registros nacionais dos atendimentos das medidas socioeducativas em meio fechado e meio aberto. Essas estatísticas não cobrem uma extensão temporal significativa, tendo informações para os anos de 2002 a 2010 para Unidades da Federação do país. Elas nos informam o movimento e as tendências dos atendimentos dos adolescentes infratores segundo o regime (meio fechado e meio aberto) e o tipo de medida socioeducativa nos estados. Os dados permitem comparar a evolução da população geral de presos e de adolescentes encarcerados no país. Seria valioso se pudéssemos contar com registros nacionais das decisões judiciais sobre a apuração do ato infracional, a aplicação das sentenças e a execução das medidas socioeducativas, mas não existem esses dados. O alcance territorial dos dados judiciais analisados (modo de apuração do ato infracional e natureza das sentenças) referem-se aos registros computados pelo CIA- BH, que atende os casos de adolescentes acusados de ato infracional nos municípios da região metropolitana de Belo Horizonte. Esses dados posibilitam conhecer a distribuição dos adolescentes acusados de ato infracional processados na justiça juvenil por tipo de crime e natureza da medida sancionada.
Quanto aos registros estatísticos do campo sociojudiciário da delinquência juvenil na França, foram analisados apenas dados nacionais, que correspondem a períodos temporais mais extensos e distintos dos dados analisados para Belo Horizonte e para o Brasil. Foram examinados registros policiais que informam sobre a natureza e a evolução dos crimes atribuídos aos menores pela polícia. Os registros judiciais (forma de tratamento, tipo de sentença e de sanção) informam sobre o número de casos de menores tratados diretamente pelo Parquet e pelos juízes especializados, além dos processamento dos prazos dos julgamentos e o modo de encaminhamento dos casos (julgamento com prazo delimitado, apresentação imediata e convocação pela polícia judiciária).
Dessa forma, não foi possível gerar uma base de dados comparáveis, devido às diferenças dos registros quanto à sua natureza, a seu alcance territorial (exclusivamente nacional para o caso francês) e à sua extensão temporal. Não foi possível considerar áreas relativamente semelhantes para efetuarmos comparações.
Após a apresentação da nossa reflexão teórica e metodológica, vamos agora abordar o percurso da legislação do campo sociojudiciário no Brasil e na França até o quadro legal penal vigente e as organizações e profissionais deste campo nos dois países.