• Sonuç bulunamadı

1. BÖLÜM

3.3. Veri Toplama Araçları

O conto “fio após fio” é uma das produções em que Colasanti trabalha o mito das mulheres fiandeiras e seus poderes de mágicas, feiticeiras, fadas, bruxas, artistas, costureiras, enfim o texto estabelece uma interdiscursividade com muitos outros textos que versam sobre o descortinar da mulher na vida por meio de sua capacidade criativa. Duas irmãs, Gloxínia e Nemésia, são bordadeiras e têm como objetivo bordar um manto branco. Ressaltamos que uma das possíveis leituras do conto é o crescimento interior. Embora em momentos e fases distintas, ambas as irmãs evoluem e caminham ao encontro de si mesmas. Nemésia apresenta- se segura do que quer e traça seu caminho metafórico por meio da precisão com que escolhe as linhas e manuseia a agulha. Gloxínia, por sua vez, necessita de um tempo maior para a evolução de seu bordado, ou seja, de seu crescimento e amadurecimento. Colasanti seleciona palavras que desde o início expressam esses diferentes estágios de apreensão da realidade por partes das irmãs. Enquanto os dedos de uma sangram, denotando o estado de sofreguidão em que se encontra, a outra, de forma serena, borda o tecido branco. Dessa forma, a escolha dos léxicos que remetem ao vermelho do sangue, que vertem dos dedos de Gloxínia, e o branco, que “brota” dos dedos de Nemésia, constroem um contraponto entre o harmônico e o sofredor. Salientamos que, embora em ritmos diferentes, as duas irmãs buscam a construção de seu próprio eu. Num diálogo com Penélope, vemos que Gloxínia erra seguidamente – faz e

desmancha –, mas é para que se cumpra seu próprio prazo de amadurecimento em que estabelecerá o encontro consigo mesma, um dos enfoques da produção colasantiana no que se refere ao amor que engloba, o desencontro amoroso, o encontro com o outro e o encontro consigo mesma. Dentro da proposta da contista, os dedos “sangram” na busca interior e deixam “marcas” no tecido (“tecido” e “texto”, são léxicos que têm a mesma origem latina,

textum, que significa “juntar fios, entrelaçar partes menores e obter um todo harmônico”).

Desta forma, Colasanti seleciona e combina palavras que dentro da relação sintática estabelecida entre elas extrapolam seu significado usual, oferecendo uma conotação bem mais ampla do que parece a priori.

Feriam-se os dedos de Gloxínia de tanto desmanchar. Sujava-se o pano. Os dedos de Nemésia, tranquilos, brotavam o manto branco.

Faz e desmancha, na cesta de Gloxínia esgotava-se a linha. E, ao pegar a última meada, a fada percebeu que não havia avançado um raminho sequer. Caberia à irmã acabar o manto e ficar com ele, sem que ela a nada tivesse direito por seus esforços. (1979,p. 24)

Notamos na frase “Os dedos de Nemésia, tranquilos, brotavam o manto branco” que Colasanti usa o adjetivo “tranquilo” para caracterizar o trabalho de Nemésia como sendo algo mais suave do que já aparentava; o uso deste eufemismo irá fortalecer “a brotação do manto branco”. Tanto a adjetivação concedida ao substantivo “dedo” quanto o uso do verbo “brotar”, neste caso, são, do ponto de vista denotativo, próprios dos termos a que se referem, Colasanti alinha, pelo uso do eufemismo e da linguagem lírica que caracteriza a prosa poética, a medida que linha percorre o tecido nas mãos das fadas, palavras e frases que tecem o manto do texto.

Este círculo sugerido pelo texto Nemésia, que bordava com segurança, passa pelo processo de metamorfose, uma característica do conto maravilhoso, e transforma-se em “aranha” ao atingir o ponto máximo de sua arte. Sobra para Gloxínia todas as linhas deixadas pela irmã, com o primeiro fio já pronto. Deslumbrada com sua capacidade de tecer, acaba por esquecer-se do mundo. Em sua arte, todas as coisas eram contempladas, embora o texto apresente uma indeterminação temporal, tal como em “Havia linha, o bordado enriquecia, e Gloxínia trabalhava feliz no passar dos anos.” (1979, p. 24). A palavra “anos” sugere que o aprimoramento durou um tempo longo e o mesmo, consequentemente, se estende a Nemésia, agora não mais fada, mas aranha, tal como Aracne, personagem da mitologia grega, transformada em aranha por Athena. Pronto o manto, Colasanti constrói a frase: “a primavera desabrochava no manto e a seda desaparecia debaixo das ramagens”. Se alinhavarmos o percurso gerativo do sentido e comparamos o crescimento das irmãs, perceberemos nesta

frase que Gloxínia ainda não está amadurecida como “mulher”, mas encontra-se na primavera. Encontra-se, pois em fase de florescimento. Colasanti utiliza-se da sinestesia e sugere cores. A construção sintática “a primavera desabrochava” remete a sons de pássaros, verde de folhas, cores variadas de flores, cheiro de chão molhado de chuva, calor do sol, etc. O branco do manto, ou seja, a ausência de cor, de vida, agora é todo germinar, florescer.

Encantou-se com o trabalho. Já não dormia. Colhia o fio da teia mais próxima e logo mergulhava a agulha cantando na cadência dos pontos obedientes. Fio após fio esqueceu-se da irmã. Havia linha, o bordado enriquecia, e Gloxínia trabalhava feliz no passar dos anos.

Chegou o dia do último ponto. Gloxínia acabou uma pétala, arrematou um espinho, e percebeu num sorriso que nada mais havia para bordar; a primavera desabrochava no manto e a seda desaparecia debaixo das ramagens. (1979, p. 24)

7Salientamos que Gloxínia embora esquecida do prazo, passa pelo “caminho da individuação” e a mandala não está completa, falta última estação, a estação dos frutos, será mais uma etapa em seu caminho na direção de seu autoconhecimento. Tudo está pronto, resta apenas exibir o manto à corte, mas o inesperado a aguarda. Nemésia, com sua habilidade de tecer, havia fechado todos os caminhos possíveis. Agora, presa dentro de seu próprio casulo, esquecera-se da irmã, do castelo, de tudo. O casulo sugere o útero humano, o período de incubação da crisálida antes de tornar-se borboleta. Nemésia se prepara para recomeçar seu caminho de individuação, enquanto a irmã luta para imergir na última etapa.

Guardada a agulha, Gloxínia levantou-se. Usaria o manto, surpreenderia enfim a corte. Prendeu as fitas largas no pescoço, ajeitou a cauda e virou-se para a porta. Mas onde estava a porta? Ao redor de Gloxínia, as teias de Nemésia. Teia encostada em outra teia, que Gloxínia rasgava sem chegar a lugar algum, somente a outras e mais teias.

Onde estava a corte?

Ao redor da corte, ao redor das salas, ao redor do castelo e dos jardins, lá fora fiava e tecia a paciente Nemésia, esquecida da corte, esquecida da irmã para sempre prisioneira do seu casulo de prata. (1979, p. 25)

“A primeira só” conta a história de uma princesa que vivia na solidão e angústia por se sentir sozinh e perdida em seu próprio mundo, deixando transparecer a busca de viver com outro, a necessidade de ter amigos e ser feliz, e, por mais que seu pai fizesse, nada substituía o valor de ter alguém para conversar, trocar ideias e ser feliz. A atitude do rei era proteger sua filha dos perigos do mundo. Mandou fazer o espelho para encontrar a felicidade da filha e, por um momento, esta se satisfaz, mas, vendo que é ilusão, se angustia novamente.

7 Idem a nota anterior.