1. BÖLÜM
2.3. Denetim
2.3.1. Eğitim denetimi
Depois da abordagem sobre os livros não literários e neles se embasando, o pesquisador se propõe analisar os contos. São eles: “Verdadeira história de um amor ardente”; “A mulher ramada”; “Para que ninguém a quisesse”; “Bela como uma paisagem”, “Amor de duas às quatro” e “A moça tecelã”, que não será abordado agora, pois será analisado em outros capítulos desta tese. Dentro desta abordagem, Gomes pretende resgatar a representação feminina por meio do diálogo que estes textos estabelecem com as leitoras de Colasanti. Gomes ressalta ainda que, embora o público a que se dirigem seja o adulto, poderá usar textos que, supostamente, atendam ao público infanto-juvenil, devido à polissemia e à plurissignificação deles.
Ressaltamos que, embora alguns contos tenham sido abordados mais de uma vez no corpo desta tese, o enfoque será sempre diferente, visto que nossa proposta é abordar as quatro questões apontadas na introdução. Desta forma, embora a obra apareça mais de uma vez no corpus do nosso trabalho, os objetivos serão díspares, o que não ocasionará em redundância.
1.6.1 A verdadeira história de um amor ardente: a volta às fogueiras
O primeiro conto abordado, “Verdadeira história de um amor ardente”, reflete o contexto histórico no qual foi escrito. O título é ambíguo, pois sugere um caso de amor baseado em forte sexualidade, na entrega total dos amantes, no entanto o desfecho mostra que a ardência não provém do ato sexual, mas do sentido denotativo do termo “arder em chamas”. O pesquisador aponta em sua pesquisa os livros que a autora organiza – a partir das dúvidas, das ansiedades das mulheres que nos 80, durante a abertura para o questionamento destas ansiedades que “torturam” o universo feminino pudessem ser discutidas, porém ainda infringindo tabus acerca da emancipação feminina, principalmente quanto a sua sexualidade.
marido, da ideologia patriarcal, que sujeita o sexo feminino à condição de ser passivo sexualmente. A princípio, o narrador nos apresenta um modelo de homem que não se liga afetivamente às mulheres, o que constata com a dependência afetiva que as mulheres demonstram nas correspondências trocadas com Colasanti.
Nunca tivera namorada, esposa, amante. Desde jovem vivia só. Entretanto, passando os anos, sentia-se como se mais só ficasse, adensando-se ao redor aquele mesmo silêncio que antes lhe parecera apenas repousante. E, vindo por fim a tristeza instalar-se no seu cotidiano, decidiu providenciar uma companheira que, partilhando com ele o espaço, expulsasse a intrusa lamentosa. (1986,p. 24)
Tal como um “deus”, ou seja, dotado de comando e controle sobre a mulher, resolve construir “para si” uma mulher e a constrói de acordo com o seu desejo, não há nela vontade própria, tampouco uma atividade sexual ativa, o seu corpo se molda às necessidades do marido. Como não há diálogo, nem ele o deseja, pois dispõe de outras coisas que ocupem o seu tempo, resolve desmanchar a sua criação, ateando-lhe fogos nas tranças, para que iluminasse a sua leitura devido à falta de luz. Observamos que ao invés de energia Colasanti utiliza-se do vocábulo “luz”, pois o casamento havia perdido o brilho, cansado da sua mudez, resolve substituí-la por um livro, como os casamentos falidos são socorridos pela presença de uma amante, também submissa, muitas vezes de autoestima baixa a ponto de sujeitar-se a receber momentos de “companhia” que, segundo os pressupostos de Colasanti, muitas vezes derivam da dependência afetiva ou da obrigatoriedade da mulher em ter um homem que a sustente, ou sirva de simulacro de esposo, um faz de conta onde a mulher idealiza uma relação afetiva muitas vezes inexistente. Como podemos observar o trecho que se segue:
Já há algum tempo viviam juntos, quando uma noite a luz faltou. Começava ele a cansar-se de tanta docilidade. Começava ela a empoeirar-se, turvando em manchas acinzentadas os tons antes translúcidos. Um certo tédio havia-se infiltrado na vida do casal.
Que ele tentava justamente combater naquela noite empunhando um bom livro, no momento em que a lâmpada apagou.
Sentado na poltrona, com o livro nas mãos prometendo delícias, ainda hesitou. Depois levantou-se, e tateando, com o mesmo isqueiro com que há pouco acendera o cigarro, inflamou a trança da mulher, iluminando o aposento. (1986, p. 125)
1.6.2 Indo além do verbo “podar”
O segundo conto, “A mulher ramada”, abarca a situação de opressão sofrida pela mulher, situação esta, que logo no começo da narrativa é demonstrada pela ambiguidade do verbo “podar”. Rosamulher nasce da solidão de um jardineiro que é “invisível aos olhos das
pessoas, que circulam pelo espaço da corte. De sua solidão, nasce o desejo de construir, a partir de duas roseiras, uma mulher para si. Reitera-se que este conto também traz o poder do homem e que detém a capacidade de construir para si uma mulher. Como esta é idealizada pela mente do seu “criador”, encontra-se desprovida da liberdade de “florescer”, escolher os caminhos que deseja percorrer. Cada botão, nascido em local não desejado pelo homem, é podado, e, forçadamente, a Mulher roseira vai transformando-se naquilo que o “seu dono” deseja. Ressalta que as iniciativas femininas ainda são muito reprimidas e “castigadas”, de forma direta ou indireta, neste espaço de repressão, onde umas das poucas opções concedidas para a mulher era o desempenho dos papéis de mãe e esposa e, às vezes, de professora primária, que, de certa forma, estava intrínseca e ligada ao papel de mãe.
Durante meses trabalhou conduzindo os ramos de forma a preencher o desenho que só ele sabia, podando os espigões teimosos que escapavam à harmonia exigida. E aos poucos, entre suas mãos, o arbusto foi tomando feitio, fazendo surgir dos pés plantados no gramado duas lindas pernas, depois o ventre, os seios, os gentis braços da mulher que seria sua. Por último, cuidado maior, a cabeça, levemente inclinada para o lado. (1982,p. 32)
Entretanto, contrariamente ao texto anterior, o jardineiro adoece e é obrigado a ausentar-se de sua criação. Sozinha, seguindo “seu instinto e natureza”, a mulher roseira está livre para poder florescer, tomar suas verdadeiras formas. Ressalta que, ao voltar ao jardim, o jardineiro surpreende-se com o que vê e o medo da “floração” autônoma da mulher desaparece ante a beleza natural agora percebida por ele, que decide não mais podá-la. Dentro do contexto de emancipação da mulher, podemos afirmar que este conto reflete a “desautomatização” do sexo feminino frente à vontade do homem, que também se realiza com esta nova mulher independente. Ao final do conto, percebemos a realização amorosa, no entrelace dos corpos de ambos que se entregam ao amor:
De tanto contrariar a primavera, adoeceu porém o jardineiro. E ardendo de amor e febre na cama, inutilmente chamou por sua amada.
Muitos dias se passaram antes que pudesse voltar ao jardim. Quando afinal conseguiu se levantar para procurá-la, percebeu de longe a marca de sua ausência. Embaralhando-se aos cabelos, desfazendo a curva da testa, uma rosa embabadava suas pétalas entre os olhos da mulher. E já outra no seio despontava.
Parado diante dela, ele olhava e olhava. Perdida estava a perfeição do rosto, perdida a expressão do olhar. Mas do seu amor nada se perdia. Florida, pareceu-lhe ainda mais linda. Nunca Rosamulher fora tão rosa. E seu coração de jardineiro soube que nunca mais teria coragem de podá-la. Nem mesmo para mantê-la presa em seu desenho. (1982, p. 33)
1.6.3 Amor intenso de insaciável desejo
Em “Bela como uma paisagem”, Marina Colasanti cria um personagem masculino que casa com uma mulher magra, porque pressentiu em sua carne um “desejo de expansão ainda não realizado”. E, de tanto comer, o corpo da mulher foi aumentando, até que não lhe couberam mais as roupas e os sapatos. O marido, seduzido pela situação, não precisava mais procurar, na cama, pelo corpo da mulher, pois “onde quer que se virasse, onde quer que apoiasse as mãos, lá estava ela macia, enorme, acolhedora, cheia de saliências onde segurar, cheia de consistências em que afundar os dedos”. No entanto sua cama tornou-se pequena e logo a cama para a qual foi transferida também não era suficiente para seu tamanho. Tiveram, então, que transferi-la para a sala, uma vez que já estava impossibilitada de levantar-se. E o homem acompanhava aquilo, sonhando um dia em levá-la ao ar livre para que pudesse engordar sem restrições.
O enredo parece um pouco estranho, pois o homem apoia a gula da mulher e, ao mesmo tempo, mostra-se satisfeito, contemplando em êxtase o corpo que se avoluma e se deforma cada vez mais. Em princípio, temos a impressão de que ele alimentava a esposa para que ela se tornasse indesejável aos olhos dos outros, no entanto, com o desenrolar do enredo, percebemos o prazer que o esposo sente com as carnes sempre em crescimento. É uma estranha forma de violência “simbólica” contra a mulher.
O pesquisador salienta que as leitoras de Marina Colasanti sempre se referem ao peso e comenta que vivemos numa sociedade consumista que ora oferece todo tipo de guloseimas e ora requer que a mulher siga o modelo da beleza padrão, sempre cada vez mais magra. A ansiedade gerada pelo fato de estar acima do peso faz com que a mulher recorra a todos os tipos de dieta e, na frustração de não perder peso, tem sua autoestima rebaixada. Gomes salienta que muitas vezes a comida vem substituir frustrações e carências dos seres humanos, pois acaba por servir como a fonte de prazer que ameniza a dor psicológica, acabando por se transformar num sofrimento duplo, uma vez que a sociedade estigmatiza a mulher obesa. Há casos em que o fim de um casamento cheio de desentendimentos, desencontros e diferenças, chega a ser justificado pelo fato de a mulher ter engordado após o casamento.
(...) na segunda metade do século XX o culto ao corpo ganhou uma dimensão social inédita: entrou na era das massas. Industrialização e mercantilização, difusão generalizada das normas e imagens, profissionalização do ideal estético com a abertura de novas carreiras, inflação dos cuidados com o rosto e com o corpo: a combinação de todos esses fenômenos funda a ideia de um novo momento da história da beleza feminina e, em menor grau, masculina. A mídia adquiriu um
imenso poder de influência sobre os indivíduos, generalizou a paixão pela moda, expandiu o consumo de produtos de beleza e tornou a aparência uma dimensão essencial da identidade para um maior número de mulheres e homens” (NOVA, p. 179).
Salientamos que, desde a década de 80 para cá, a indústria da beleza e a ditadura da moda cresceram de forma acentuada e não é raro assistirmos a casos de morte de pessoas anônimas ou não que morrem em decorrência de anorexia ou bulimia, entre outras doenças decorrentes da angústia de se tornar cada vez mais magro. A sociedade de consumo, por meio dos recursos midiáticos, impõe de forma violenta a necessidade de adequar-se aos modelos padrão.
2 REVISITAÇÃO E TRANSGRESSÃO DO MITO NA PRODUÇÃO