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2. MEVLÂNÂ’NIN ESERLERİ

1.6. NICHOLSON NEŞRİNE GÖRE I. CİLTTEKİ FAZLA VEYA EKSİK

2.1.2. Veled Çelebi’nin Eserleri

O seu olhar seu olhar melhora, Melhora o meu. (Arnaldo

Antunes, 1995).

As sociedades não são, estão sendo o que delas fazemos na História, como tempo de possibilidade. Daí a nossa responsabilidade ética por estarmos no mundo, com o mundo e com os outros (Paulo Freire, 2013b).

Após estudarmos os conceitos de senso comum; conhecimento científico; desnaturalização da realidade e problema social, os/as alunos/as dos primeiros anos foram desafiados a fazer uma escavação dos problemas sociais vivenciados por eles/as. Foi proposto que fizessem uma leitura crítica da experiência cotidiana. Após pesquisa de

campo, realizada no bairro, em dupla ou em trio, os estudantes tiraram 03 fotos de um cenário que retratava um problema social vivenciado por eles e/ou pelos moradores do local. Após tirarem as fotos, revelaram e colocaram em uma moldura feita por eles mesmos; geralmente colavam as fotos em metade de um papel collor set com um título e legenda.

Os trabalhos foram levados para a sala e expostos, inicialmente para a turma. A atividade foi realizada com todas as turmas dos primeiros anos do período da manhã. Cada sala criou um grupo de alunos que juntou todos os trabalhos produzidos e montou uma exposição com o título: “Olhares sobre os problemas sociais”. A produção foi exposta em lugares de passagem no interior da escola, como corredores e escadas ficando, assim, disponível para a observação da comunidade escolar.

A atividade propiciou que o estudante desenvolvesse uma pesquisa de campo com o tema: “Olhares sobre os problemas sociais”, mesmo título da exposição iniciando, assim, “a construção de um olhar sociológico sobre a realidade” (SÃO PAULO, 2012, p. 133), dialogando com o Currículo oficial de Ciências Humanas do Estado de São Paulo, que tem como princípio o rompimento com a dicotomia entre teoria e prática e a defesa de um currículo relacionado à vida do estudante. O documento reconhece que a Sociologia no Ensino Médio faz parte do processo de democratização do acesso ao conhecimento científico, contribuindo para participação dos indivíduos na coletividade de forma consciente, racional e bem informada.

Um dos fundamentos da Sociologia no Ensino Médio é que os alunos olhem para realidade superando o senso comum para além de uma simples apreensão dos conceitos (SÃO PAULO, 2012) princípio que se aproxima das ideias de Freire (2013b, p. 49-68), à medida que defende que é necessário que a escola seja um espaço que alimente a curiosidade epistemológica do estudante por meio de uma rigorosidade metódica amparada na teoria.

A rigorosidade metódica possibilita a superação do senso comum para tanto, a ‘leitura da palavra’ não deve estar dissociada da ‘leitura do contexto’ e da ‘leitura de mundo’, visto que essa separação pode minar a curiosidade epistemológica dos estudantes. Freire argumenta também que a ‘leitura do mundo’ e a ‘leitura da palavra’ são

práticas indispensáveis para a reinvenção do mundo evidenciando, assim, o caráter eminentemente político da educação.

Segundo Bourdieu (2004, p. 149-168) a Sociologia não deve se preocupar apenas com a realidade objetiva mas, inclusive, com a forma como os indivíduos percebem essa realidade, que também é subjetiva. A percepção é uma construção influenciada pelas estruturas sociais que atuam sobre o indivíduo, mesmo que este não perceba e, sendo assim, entendemos que a forma como os indivíduos captam o mundo deve ser considerada em uma análise sociológica e problematizada.

Em um primeiro momento cada grupo expôs para sala o problema do bairro que chamou a sua atenção. Refletimos a partir do que trouxeram como questão, considerando como cada grupo enxergou e retratou o problema. Embora todos tenham compartilhado problemas sociais, é importante problematizar as percepções que tiveram sobre a questão partilhada com a sala, algumas vistas sob uma ótica individualista, outras sob uma ótica coletiva.

Cada grupo explicou para a sala porque a questão trazida pelo coletivo é social, porque escolheram esta e não outra; debateram quais os fatores sociais que propiciaram o problema apresentado e trouxeram para os colegas possibilidades de resolução da situação exposta. Experimentaram, assim, mesmo que de forma introdutória, um movimento de transformar um problema social em problema sociológico. Este exercício intelectual contribuiu para que evidenciem que a realidade vivida não é imutável, mas passível de transformação, abrindo brechas para o repensar da ideia de que mudar a realidade é impossível.

O objetivo desta atividade é que os estudantes apreendam o conteúdo de forma dinâmica, a partir da reflexão das questões que vivenciam. Não é possível por conta do tempo problematizar a forma como todos eles encaram o problema partilhado durante a exposição de fotografia.

Em um segundo momento, não em uma aula específica, mas ao longo do primeiro ano e também nos anos seguintes levantamos os exemplos apresentados anteriormente a partir da percepção dos estudantes e/ou do senso comum sobre as questões. Buscando

refletir a partir da ótica individual e coletiva por exemplo: ao abordarem a desigualdade social trazendo fotos de casas que exemplificam a desigualdade de moradia, refletimos como o problema da precarização foi apresentado; se a partir da distribuição de renda,

déficit habitacional, condições de emprego e educação da população ou a partir de uma

lógica individualista e meritocrática.

Um grupo por exemplo, fotografou a página do currículo e a carteira de trabalho da mãe de um dos integrantes que estava à procura de emprego permitindo a reflexão sobre o desemprego que para muitos, é uma responsabilidade do indivíduo, o que desconsideraria as taxas de desemprego no Brasil. Ao refletirem sobre o desemprego a partir de exemplos reais, de pessoas com quem convivem, é criada a possibilidade de empatia e solidariedade com quem está desempregado, superando-se a responsabilização do indivíduo por um problema social e econômico.

Muitos grupos abordaram os buracos na rua, outros os buracos na calçada ou a falta de acessibilidade na mesma: este fato decorreria da lógica individualista, em que as questões individuais são pensadas em primeiro lugar, em detrimento das questões coletivas? Por exemplo, ao discutirmos a mobilidade urbana, os alunos defenderam um trânsito de carros mais fluido – poucos mencionaram o transporte coletivo e a necessidade de garantir condições adequadas para o ciclista e o pedestre. Desta forma, fomos discutindo que o olhar sobre a realidade é fruto da maneira como a sociedade está organizada e de como ocorrem a educação e a socialização.

Entendemos que o ensino dos conteúdos deve estar associado a uma ‘leitura crítica’ da realidade mediada por uma relação dialógica que respeite e valorize o conhecimento que o estudante traz consigo (FREIRE, 1995). A nosso ver, só faz sentido estudar conceitos como problema social e desnaturalização da realidade – que deram a base para a exposição das fotos –, se os estudantes relacionarem à sua realidade, compreendendo que as dificuldades coletivas que vivenciam diariamente não são naturais, mas socialmente construídos:

Em face do mundo considerado familiar, governado por rotinas capazes de reconfirmar crenças, a Sociologia pode surgir como alguém estranho, irritante e intrometido por colocar em questão aquilo que é considerado

inquestionável, tido como dado, ela tem o potencial de abalar as confortáveis certezas da vida, fazendo perguntas que ninguém quer se lembrar de fazer e cuja simples menção provoca ressentimentos naqueles que detêm interesses estabelecidos (BAUMAN; MAY, 2010, p. 24).

Evidencia-se, desta forma, que o pensar sociológico não é neutro, mas essencialmente político e se fundamenta na desnaturalização da realidade, o que pode incomodar as forças que regulam e operam pela ocultação da realidade. Entendemos, desta forma, que atividades pedagógicas como a mencionada podem por diversos motivos, contribuir para a gestação de sociabilidades emancipatórias no sentido da ampliação da democracia. Um destes motivos é que para estabelecer a democracia em sua plenitude precisamos superar os vários problemas sociais que vivenciamos no cotidiano pois “não é possível democratizar cada vez mais a sociedade brasileira sem começar a superação dos problemas da fome, do desemprego, da saúde, da educação” (FREIRE, 2013b, p. 125).

Nesse sentido, ao possibilitar a reflexão sobre os fatores que podem ter causado os problemas apresentados e ao fomentar a reflexão acerca das possibilidades de resolução contribuímos, mesmo que indiretamente para a sua superação portanto, a escola pública que desejamos é aquela que fomenta os valores democráticos, é

[...] a escola onde tem lugar de destaque a apreensão crítica do conhecimento significativo através da relação dialógica. É a escola que estimula o aluno [e a aluna] a perguntar, a criticar, a criar; onde se propõe a construção do conhecimento coletivo, articulando o saber popular e o saber científico, mediados pelas experiências no mundo (FREIRE, 1995, p. 83).

Os educadores e os estudantes são sujeitos que, de forma dialógica podem construir o conhecimento coletivamente, objetivando que este tenha sentido na vida do estudante e da educadora e contribua para a democracia: se o conhecimento for pensado desta forma potencializará a construção e o fortalecimento de relações democráticas.

O movimento de trazer a percepção dos alunos sobre o que vivenciam no cotidiano, além de fomentar o senso crítico e a sensibilidade pode contribuir para o desenvolvimento da alteridade diante do problema vivenciado pelo outro. A exposição de fotografias a partir da visão de cada grupo permitiu também a partilha dos problemas sociais vivenciados pela sala, a partilha das diferentes visões sobre a realidade e a possibilidade que o olhar de um grupo complete o olhar do outro pois, após a exposição abrimos espaço para um breve debate. Entendemos que a compreensão dos estudantes sobre os fatores que desencadearam os problemas trazidos pode contribuir para que ampliem a leitura crítica da sociedade.

Segundo Freire (2013b), a compreensão política da realidade é tão essencial para o estudante como cidadão, quanto o conhecimento técnico científico. À medida que os jovens deparam com a realidade concreta, se torna possível a articulação dos seus sonhos de recriação da sociedade. A superação dos problemas sociais vivenciados por eles implica, além de decisão política e mobilização, a compreensão dos fatores causais.

Os problemas sociais não são imutáveis pois foram construídos socialmente, coletivamente por meio de ação política podem ser superados. A realidade é construída por nós diariamente e a forma como tecemos o presente influenciará no nosso amanhã. Conforme Freire, “o futuro existe como necessidade da História e implica sua continuidade e a História não morreu nem se metamorfoseou em algo novo que apenas faça de conta que é” (2013b p. 48). Entendemos a História como possibilidade e não determinismo.

Contrapomos, assim, a lógica fatalista que nos educa de forma a matar os nossos sonhos por um mundo melhor, nos negando a possibilidade de pensar que a construção de um futuro diferente é possível. Compartilhamos com Freire que somos sujeitos e objetos da História por isso somos “seres da decisão, da ruptura, da opção. Seres éticos” (2013b p. 68). A escola é um espaço em que os estudantes podem aprender a experienciar a democracia e a se ver enquanto sujeitos permitindo o desenvolvimento da autonomia do estudante e sua responsabilidade ética e política perante o mundo.

De acordo com Dias, “a consciência de nossa fragilidade nos empurra para o encontro com o outro na busca da complementação para alcançarmos um modo de viver juntos, com um pouco mais de qualidade” (2012, p. 158).

Nessa busca, sempre que possível, trabalho em conjunto com outras professoras. Uma das vertentes da exposição de fotografias se deu em conjunto com a professora de Arte; na ocasião, os alunos foram desafiados a olhar para a realidade com o olhar da Arte e da Sociologia. Eles fizeram uso da estética – com um maior rigor conceitual – para expressarem os problemas vivenciados.

Nesse sentido, a professora de Arte orientou sobre as formas de expressão da realidade, a montagem dos cartazes e a exposição, o que contribuiu para que a atividade fosse desenvolvida a partir das dimensões ética, estética e política, conforme Rolnik (1993). Se consideramos que “este esforço de desocultar verdades e sublinhar bonitezas une, em lugar de afastar, como antagônicas, a formação científica com a artística, o estético, o ético, o político não podem estar ausentes nem da formação nem da prática científica” (FREIRE, 2001, p.57).

No entanto, considerando as dificuldades para se desenvolver uma atividade em conjunto com outros profissionais, devido à falta de espaço e de tempo para se pensar coletivamente, entendemos como um desafio para a escola a criação de condições para romper com a fragmentação do trabalho docente e garantir que experiências pedagógicas como esta não ocorram de forma isolada ou esporádica.