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A ênfase no asseio e nas atividades de caráter excretório são observadas no relato. Conforme Andrade de Lima, as emanações resultantes da atividade interna do corpo tornaram-se insuportáveis. A ideologia da higienização desenvolvida no século XIX provocou

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PROUST, A. Traité d’hygiène. Paris: Masson et Cie., 1904. p. 218. 418

PALOMBINI, Giovanni. Usos e costumes do Rio Grande do Sul e suas riquezas naturais. p. 76. 419

CARRARA, Sérgio. A geopolítica simbólica da sífilis: um ensaio de antropologia histórica. História,

Ciências, Saúde- Manguinhos, v. 3, p. 403, nov. 1996/fev. 1997. 420

PROUST, 1904, op. cit., p. 221. 421

Em 1906, Wasserman desenvolveu a reação que permitiu o diagnóstico sorológico desta infecção. Ao tratamento antigo pelo mercúrio uniu-se a administração de sais de bismuto com resultados medíocres. Em 1909, Paul Ehrlich e e Sahachiro Hate sintetizaram o Salvarsan e demonstraram sua atividade quimioterápica. Ver: GRMEK; SOURNIA, 1998, op. cit., p. 286.

mudanças consideráveis nas sensibilidades, forçando uma completa domesticação dos odores e dos produtos decorrentes dos processos metabólicos como mau hálito, suores fétidos e produtos de excreção. Estes foram submetidos a controles mais rígidos e vigiados por uma nova etiqueta corporal422.

Durante uma viagem de trem, Palombini conhece um caixeiro-viajante que vendia remédios nos armazéns. Ao abrir as suas malas mostrou latas e garrafas que eram purgantes que incluíam óleo de rícino, xarope pagliano, Pulcen, e ”outras punições de Deus”.423 O uso destes medicamentos segue as idéias ainda vigentes sobre o funcionamento do corpo humano e sobre as causas das doenças. Estes eram fundamentados sobre a idéia do equilíbrio interno dos fluidos, considerados como a chave da manutenção da saúde. Desta maneira, a teoria dos quatros humores encorajava uma terapêutica que visava à totalidade do corpo e que se justificava pelo recurso freqüente a um regime considerado como uma medida curativa e não simplesmente preventiva424.

O fluxo de idéias em circulação na Europa que difundiram as regras de higiene e as práticas curativas aqui adotadas acabaram sedimentando medidas como sangrias, purgas, vômitos, suadouros, fumigações e outras. A popularidade dos purgantes e das sangrias era decorrente da idéia profundamente enraizada de que a doença era conseqüência de uma pletora local ou generalizada de humores; esta acumulação de humores exigia que eles fossem expulsos regularmente. Os banhos intensificaram-se na segunda metade do século XIX, causando espanto aos europeus o apreço que os brasileiros tinham por esse costume425.

As curas pelas águas quentes ou minerais, estratégia terapêutica das mais correntes no início da época moderna, estava, em sua origem, associada à santidade. As estações termais européias floresceram na Europa, principalmente no século XVIII, unindo o ritual da terapêutica, a moda, a vida social, o conforto dos elegantes e a atividade comercial. A partir do início do século XIX, a noção de cura pelas águas tornou-se mais associada às estações balneárias marítimas. Alguns médicos afirmavam que era necessário beber a água do mar (o sal marinho era considerado como benéfico), a maioria recomendava o mar para banhos. Era atribuída também uma virtude curativa ao ar marítimo, útil para todos os tipos de fraqueza,

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ANDRADE LIMA, T. Humores e odores: ordem corporal e ordem social no Rio de Janeiro, século XIX.

História, Ciências, Saúde - Manguinhos, (II) (3), p. 83, nov. 1995; feb. 1996. 423

PALOMBINI, Giovanni. Usos e costumes do Rio Grande do Sul e suas riquezas naturais. p. 191. 424

PORTER, Roy. The greatest benefit to mankind. A medical history of humanity from antiquity to the present. Londres: Fontana Press, 1999. p. 201-202.

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em particular para tratar e prevenir a “pitíase”, denominação dada aos distúrbios secundários da histeria426. Desta forma, os locais de viagem se desenvolveram e tornaram-se verdadeiros centros terapêuticos, na segunda metade do século XVIII e início do XIX.

Os princípios de higiene passaram paulatinamente a presidir a escolha da habitação, considerando-se a localização, o arejamento, as condições de salubridade, a natureza do solo, orientação solar, quer fosse habitação particular ou coletiva, como aquela encontrada em hospitais, escolas e estabelecimentos do Exército. A higiene da cidade e da zona rural levava em conta a localização do imóvel, salientando a situação em relação ao sol, à altitude, à constituição do solo, à distribuição de águas, predominância dos ventos, assim como o controle de estabelecimentos reservados a alimentação urbana, como matadouros, mercados, lojas de comestíveis. Também são considerados e estudados aspectos relativos a evacuação de matérias usadas, os cuidados com a destinação de cadáveres, sendo que a construção das moradias deveria observar distância mínima dos cemitérios427.

A terapêutica das infecções, no final do século XIX, corresponde à sua profilaxia e ao seu tratamento. A destruição do vírus, como era chamado o agente infeccioso, revela a higiene e notadamente a ação da higiene pública. Na profilaxia, as principais armas que ajudam o higienista a combater a difusão de germes patogênicos incluem regulamentos da polícia sanitária que procuram o saneamento dos locais que podem servir de depósito e de veículo aos vírus, a destruição de todos os objetos contaminados, o impedimento do transporte de germes patogênicos pela intermediação dos animais e do homem; esses elementos intervêm na alimentação, comunicações inter-humanas, nos encontros de diversos grupos humanos (cidades, hospitais, escolas, exército, e outras instituições sociais) A drenagem dos pântanos, purificação da água, captação de fontes, inspeção da carne, a prescrição relativa as colheitas, aos esgotos, aos cemitérios, a declaração de doenças contagiosas, o isolamento dos doentes e dos suspeitos, a desinfecção pública, estabelecimento de cordãos sanitários e de quarentena e o controle prostituição, também eram responsabilidade da higiene pública428.

No início do século XIX, começou a ser questionado o impacto das técnicas de coleta, de armazenamento e de disposição ou tratamento dos dejetos humanos e das águas urbanas. A produção do azoto era discutida como fonte de recurso industrial ou agrícola (fertilizante) ou

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PORTER, Roy. The greatest benefit to mankind. A medical history of humanity from antiquity to the present. Londres: Fontana Press, 1999. p. 209-10.

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ACHARD, CH. Notions de pathologie et indications thérapeutiques générales. In: ROBIN, Albert (Org.).

Traité de thérapeutique appliquée. Paris: J. Rueff, 1896. p. 9. 428

como fator de contaminação da água e de insalubridade urbana. Mais do que nunca, o higienismo largamente contribuiu para aumentar a pressão urbana sobre as condições dos meios exteriores. Na solução destes problemas como a produção dos dejetos urbanos, passou a se considerar não somente aqueles das residências como também os das industrias e do artesanato429.

O modo de fomentar a saúde pública consistia em construir uma rede cloacal e de tubos de fornecimento de água. As justificativas da época era que todas as enfermidades eram causadas pelos mesmos miasmas que surgiam da matéria animal e vegetal em decadência. Ao eliminar a causa do mau cheiro, seria eliminada a principal causa das enfermidades. Além disto, ao se erradicar a causa da enfermidade (miasmas), seria eliminada uma das principais causas da pobreza e assim se reduziria a dissolução familiar, o alcoolismo e a quantidade de adolescentes desnutridos que se entregavam a uma vida marginal430.

Benzer Belgeler