5. Eserleri
5.1. Dil İlimlerine Ait Eserleri
Em sua estada na cidade de Porto Alegre, Palombini visitou o Mercado Público, sólida construção localizada perto do porto, às margens do Rio Guaíba, local de grande tráfego de pessoas e de importância nas comunicações para a zona rural.
Local de troca, de exposição de alimentos, é no mercado onde ocorre a sociabilidade e o contato entre os seus freqüentadores, refletindo aspectos das relações da cidade. O interesse pela variedade e pela abundância de alimentos, cenas comuns em mercados, segundo Alberto Veca, é um dos temas iconográficos mais recorrentes do imaginário europeu moderno, que figuram em representações do ciclo das estações ou nas atividades agrícolas. “A exposição de tão grande quantidade de alimentos dá a impressão de uma enorme “fotogenia”396.
Palombini, ao passear pelo Mercado, confere essa fartura, a disposição estética dos alimentos, revelando o encantamento frente à variedade e à diversidade de itens disponíveis para o consumo. Deste modo a discrição de sua visita ao Mercado mostra a variedade, a abundância dos alimentos, a origem tanto local como a presença de alimentos exóticos, que não seguem um ritmo sazonal:
394
Relatório apresentado ao Sr. Dr. A. A. Borges de Medeiros, Presidente do Estado do Rio Grande do Sul pelo Dr. João Abbott, Secretário de Estado dos Negócios do Interior e Exterior. Porto Alegre: Typographia a Vapor da Livraria do Globo, 1901. p. 9-10.
395
GILL, Lorena. Um mal de século: tuberculose, tuberculosos e políticas de saúde em Pelotas (RS) 1890-1930. Porto Alegre: PUCRS, 2004. Tese (Doutorado em História), Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2004. p. 283.
396
VECA, Alberto. Imagens da alimentação na arte moderna. In: FLANDRIN, Jean-Louis; MONTANARI, Massimo (Orgs.). História da alimentação. São Paulo: Estação Liberdade, 1998. p. 690-1.
O mercado de Porto Alegre, em qualquer estação, é a prova da abundância. Carnes salgadas, salame, conservas, laticínios, frutas, verduras são expostos, com estética, nas tendas da plataforma central ou sob os pórticos que a circundam, ou mesmo nos negócios que constituem o amplo edifício quadrangular....E os abacaxis, os ananás, as maçãs, as bananas, impregnam o ar com seu perfume. De quando em quando, porém, o europeu, chegado há pouco a estas terras, deve estacionar, à vista de artigos que nunca viu, certamente, nos mercados do Continente de onde proveio.397
Fernanda Severo constatou que a diversidade sempre foi uma das marcas centrais do Mercado, por reunir, desde meados do século XIX, diferentes grupos étnicos principalmente portugueses, africanos, italianos e alemães e visitantes de ocasião. Deste relacionamento surgiram casamentos, contratos comerciais e práticas de sociabilidade. Esta mistura étnica e a constituição de normas e valores específicos criaram “experiências sensoriais” com o outro, que chamaram a atenção dos viajantes398. O Mercado Público representava arquitetonicamente o que havia de mais moderno e era o ponto de confluência do centro da cidade: da chegada e da saída, das mercadorias e das pessoas. Para a referida autora, o Mercado foi o espaço do comércio racionalizado mas também da transgressão das regras capitalistas, da conduta moderna, do espaço higiênico, salubre e ordenado, onde construções irregulares, bancas erguida de improviso, eram locais de moradia e trabalho, junto a arapucas de animais vivos e odores diversos399.
Palombini observa que tanto os revendedores deste mercado quanto os de outro localizado nas proximidades são quase todos italianos e passam a vida alegremente. O dialeto que eles falam está entremeado de palavras em português: ” – Signore, no ghe ne vole miga de melanzie?, ou ainda: Patrizie, lu volete peru gordo?”400.
É na descrição das bancas que vendem ervas medicinais que a sua experiência de médico é evidenciada. A variedade de ervas que eram empregadas como remédios exemplifica a presença de várias culturas (indígenas, africana e européia) influenciando nas artes de curar, o que figura a adoção de práticas de saúde mais simples e alicerçadas na tradição, em um momento em que não predominavam as práticas médicas européias401.
397
PALOMBINI, Giovanni. Usos e costumes do Rio Grande do Sul e suas riquezas naturais. p. 248-9. 398
SEVERO, Fernanda. O Mercado Público Central de Porto Alegre e os múltiplos tempos de uma cidade. In: GAUER, Ruth M. C. (Coord.). Tempo/História. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1998. p. 89-90.
399
Ibid., p. 88. 400
PALOMBINI, op. cit., p. 249. 401
COMPANY, Zeli T. Os salvadores das garras da morte: medicamentos populares, medicina humoral em Bom Jesus/RS (1898-1928). Porto Alegre: PUCRS, 2006. Dissertação (Mestrado em História), Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2006. p. 230-2.
Mais para lá, vê-se uma barraca com uma inscrição desbotada: “Ervas Medicinais” e no interior, amontoados no chão, sobre uma mesa, pendurados em varas e aos suportes da tenda, pequenos envoltórios, saquinhos, feixes, potes, rolos de raízes, de raminhos, de ervas, de sementes, de folhas e de flores secas. E nos rótulos, grudados ou costurados, de cada volume, o respectivo nome: salsa-moura, salsa-parrilha, cipó- milho, marcela, caroba, cambará, sabugueiro, nogueira, salsa-branca, angico, guaco e cem outros...402.
Conforme Flávio Edler, as desigualdades sociais e culturais no Brasil refletem-se no uso dos remédios. O acesso aos produtos de farmácia, de óticas e de drogarias era quase sempre uma prerrogativa dos brancos ricos. Os setores menos favorecidos da população contavam com remédios caseiros, fórmulas feitas com ervas nacionais e produtos recomendados ou administrados por curandeiros, por mezinheiros e por outros403.
Palombini identifica os consumidores dos remédios que são vendidos no Mercado.
...a esses remédios recorre quem não tem meios para pagar o médico e não quer ir para o hospital (especialmente o povaréu) e, muitas vezes, aqueles que da ciência médica não conseguiram tirar nenhum resultado e que, desenganados pelos médicos, se fazem tratar por práticos, os quais experimentam, então, uma quantidade de tais fármacos, um atrás do outro.
Esta observação foi confirmada por Lorena Gill ao identificar a presença de médicos licenciados e curandeiros em Pelotas, que competiam com os médicos formados, através de anúncios de curas e tratamentos nos jornais. A grande oferta de alternativas de cura, que incluíam “ervas de chás, infusões, rezas e benzeduras”; era utilizada pela população mais carente e desprovida de recursos econômicos404.
As atividades dos farmacêuticos estavam diretamente associadas à prática médica. No início do século XX, as farmácias preparavam receitas solicitadas pelos médicos, fabricavam elixires, vinhos e licores reconstituintes, pomadas e produtos de beleza. Comercializavam águas provenientes de cidades de fontes tradicionais, fabricavam estratos de plantas, analgésicos à base de cocaína e outros componentes químicos, sais de quinino, morfina e produtos injetáveis. A clientela das farmácias era eclética, composta por clientes dos médicos
402
PALOMBINI, Giovanni. Usos e costumes do Rio Grande do Sul e suas riquezas naturais. p. 249. 403
EDLER, Flávio C. Boticas & pharmacias. Uma história ilustrada da farmácia no Brasil. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2006. p. 80.
404
GILL, Lorena. Um mal de século: tuberculose, tuberculosos e políticas de saúde em Pelotas (RS) 1890-1930. Porto Alegre: PUCRS, 2004. Tese (Doutorado em História), Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2004. p. 225.
com receitas a serem aviadas, clientes dos diversos agentes de saúde externos à Medicina oficial, pacientes que se automedicavam ou que seguiam orientação terapêutica do farmacêutico405.
Palombini identifica um período da farmácia em transformação que antecede à produção de medicamentos por outros farmacêuticos ou companhias farmacêuticas, e às conseqüentes modificações nas suas formas de distribuição e comercialização que ocorrem no final do século XIX. A produção destes novos compostos requeria conhecimentos específicos, demandava laboratórios e instrumentos mais sofisticados. Até então a Medicina englobava um número pequeno de medicamentos eficazes contra um número reduzido de doenças e uma grande quantidade de misturas de efeito duvidoso. Palombini constata que:
Entre os assíduos freqüentadores de tais barracas são também, os farmacêuticos, os quais sabem cientificamente escolher as plantas medicinais e extrair-lhes os princípios ativos que possam, consciensiosamente, aliviar os sofrimentos da humanidade406.