A escolha do material de análise e dos sujeitos de pesquisa foi realizada a partir dos preceitos teóricos e empíricos que dão base à tese. Apesar do já referido caráter materialista histórico- dialético, achei pertinente incorporar elementos que me orientariam no trabalho de campo, na
41 busca e seleção do material a ser analisado, principalmente por serem inesgotáveis as possibilidades.
A adesão ao método histórico preconiza dar relevância a algumas especificidades. Aróstegui (2001) ressalta que a seleção das fontes de informação é fundamental na construção da pesquisa. Sua composição pode ser formada por restos materiais, relatos escritos, relatos orais, textos de qualquer gênero, documentos administrativos etc., que se caracterizam por serem temporais. Embora todo enunciado tenha por trás seu enunciador, Aróstegui (2001) ressalta que é preciso se desvencilhar do mito fonte é tudo, por ser falaciosa a ideia de imparcialidade. Dessa forma, embora limitado pelo retroceder no tempo, cabe ao pesquisador construir suas fontes, a fim de ir além das transcrições dos discursos e expor a história de forma a tornar inteligível seu curso, a partir das múltiplas histórias encontradas nas narrativas de sujeitos e grupos diversos.
Por partir de um pressuposto no qual os discursos em si já são repletos de contradições, e que estas ganham proporções ainda maiores quando no confronto entre dois ou mais discursos, optei por tratar tanto de documentos oficiais da cidade quanto de documentos pessoais, como correspondências. Dentre os documentos oficiais, cabe destacar a análise do Jornal O
Cataguazes, que desde 1906 é o veículo oficial de informação da cidade, sob o controle da
prefeitura municipal. Do jornal analisei as edições que compreendem os anos de 1906 a 1964, de forma que a interrupção das buscas no ano de 1964 tenha sido em virtude do baixo número de matérias vinculadas sobre cultura. Em função do objetivo da pesquisa, me interessava no jornal matérias que tratassem da produção cultural relacionada às indústrias e ao poder público.
A consulta em alguns acervos se deu de maneira mais direcionada. No caso do Museu Histórico Alípio Vaz, me interessavam as leis provinciais da fundação do município, a carta de doação do terreno a Guido Marlière e os critérios por ele utilizados na definição dos lotes destinados aos habitantes da então Santa Rita do Meia Pataca. Já nos arquivos do Centro de Documentação Histórica, os documentos referentes à disputa política entre Pedro Dutra e os Peixoto. Quanto às fotos, concentrei minhas buscas no Arquivo Público Municipal.
Da mesma forma, minhas buscas pelo acervo da Fundação Casa de Rui Barbosa tiveram o propósito de coletar as correspondências dos escritores ligados à Revista Verde, bem como de
42 Francisco Inácio Peixoto quando da instauração do projeto arquitetônico modernista na cidade. Entretanto, as restrições impostas pela Fundação quanto ao registro dos conteúdos e do número de arquivos consultados a cada visita me fizeram focar nas correspondências de Francisco Inácio Peixoto, particularmente as trocadas com os arquitetos modernistas e com Marques Rebelo, seu grande mentor. Dentre as cartas enviadas por Rebelo, consta uma correspondência importantíssima na qual o jornalista deixa claro a Peixoto que, ao implementar o que seria um projeto urbanístico modernista, não haveria riscos de perder nenhuma eleição futura. Apesar de serem muitos os indícios que apontam para a localização desta carta na Casa de Rui Barbosa, não obtive êxito nas minhas buscas, uma vez que a mesma não constava na referida pasta.
Em complemento à análise dos arquivos supracitados, optei por tratar também das publicações sobre a história da cidade e também sobre o patrimônio histórico. Destaco aqui a análise da obra de Henrique de Resende, intitulada Pequena História Sentimental de
Cataguases. Esta obra é tomada por muitos como a principal biografia da cidade e contém
elementos que reluzem as contradições que mencionei, principalmente por se tratar de um autor que descende da família fundadora do município, os Vieira de Resende. Além do livro de Henrique de Resende, foram analisados o Processo de Tombamento de Cataguases, produzido pela 13ª Coordenação Regional do IPHAN (13ª CR-MG). Neste mesmo mote, compõem o material analisado o Guia da Arquitetura Modernista de Cataguases e o os quatro volumes do livro Memória e Patrimônio Cultural de Cataguases, ambos produzidos pelo Instituto Cidade de Cataguases (ICC). No caso dos quatro volumes desta última publicação, tratei particularmente dos relatos de antigos funcionários das indústrias de Cataguases.
Além dos acervos dos museus e das obras a respeito da cidade, decidi me aventurar na análise dos poemas publicados na Revista Verde, particularmente os publicados por poetas cataguasenses e os que tratavam direta ou indiretamente da cidade. Partindo da culpabilidade e ignorância imputada à população pela elite intelectual da cidade, em virtude de um desconhecimento daquela frente ao movimento Verde, pensei ser interessante fazer o percurso contrário, ou seja, entender como a cidade fora retratada pelos poetas da Verde, inspirado também no potencial deste tipo de análise já utilizada por Saraiva (2009), quando da representação de Itabira nos poemas de Drummond. Fundamentalmente, busquei, com a análise dos poemas, verificar como os poetas tratavam o estágio de desenvolvimento econômico da cidade a partir do incremento da atividade industrial, uma vez que a literatura
43 modernista requeria para si não apenas mudanças estética [estilística], mas também ideológicas (LAFETÁ, 2010).
Salvo a análise documental, a mudança no escopo da tese me levou inevitavelmente à realização de entrevistas com sujeitos diretamente ligados à produção artística na cidade, dentro ou fora das fundações culturais. Durante o ano de 2012 e nos dois primeiros meses deste ano realizei 19 entrevistas. Por se tratar de uma cidade pequena, com aproximadamente 70000 habitantes, pesou o fato de parte dos sujeitos serem meus conhecidos (cinco deles). O acesso aos demais entrevistados se deu por meio da técnica snowball, na qual o sujeito entrevistado indica um conhecido para participar (BIERNACKI e WALDORF, 1981). Dos 19 entrevistados, 4 estão ligados a manifestações culturais independentes do poder público e das fundações culturais, sendo representantes do Movimento Negro e da Folia de Reis. Somam-se a estes, 11 entrevistados que estão ou estiveram ligados às fundações. Em complemento, 2 entrevistados ligados ao poder público municipal e outros 2 ligados a sindicados da cidade. A escolha destes últimos se deve à ideia de traçar um paralelo entre o envolvimento das empresas com a produção cultural e as próprias relações de trabalho. Porém, alguns entraves que foram encontrados no trabalho de campo tornaram essa análise inviável, conforme o leitor poderá constatar nas limitações metodológicas.
Optei aqui por não identificar nenhum dos entrevistados, bem como omitir os nomes citados em trechos destacados da entrevista. A razão para esta medida está nas próprias motivações da tese, ou seja, o peso do controle exercido pelo capital. Os fragmentos extraídos das entrevistas para ilustrar as análises estão identificados como texto, e os emissores, com a numeração das entrevistas, variando de E1 a E19. A fase de coleta de dados através das entrevistas foram encerradas a partir do momento em que as categorias e elementos se tornaram recorrentes. Entretanto, além dos dezenove entrevistas houve tentativa de agendar outras seis, porém, sem sucesso.