História dos sujeitos de pesquisa e dos sindicatos: este tema trata da história dos sujeitos de pesquisa, contemplando tanto o percurso dos entrevistados nas empresas quanto nos sindicatos. Em complemento, busquei identificar a própria história dos sindicados, sua constituição e as mudanças ocorridas ao longo dos anos.
Relação empregado-empregador: a partir das mudanças ocorridas, busquei com este tema compreender a relação entre empresa e empregados, mediada também pelo sindicato. Como esta relação tem contribuído para a aproximação ou distanciamento dos trabalhadores frente aos sindicatos.
Relação das empresas com a cultura e a cidade: o objetivo desta categoria foi permitir uma melhor compreensão de como os representantes dos sindicatos enxergavam a aproximação das empresas junto à cultura por meio de suas fundações. Da mesma forma, almejei identificar a percepção sobre as ações as ações das empresas e o desenvolvimento da cidade.
48 2.5 Análise dos Dados
A análise dos dados empregada nesta tese se baseia na concepção marxista da linguagem e do discurso desenvolvida por Mikhail Bakhtin. A potencialidade do discurso tratada por Bakhtin (2009) não é tomada necessariamente aqui como uma possível instrumentalização, de forma que o mesmo seja fragmentado e que sua essência esteja mais nas contradições existentes no aspecto ideal da superestrutura, e menos na possibilidade metodologicamente estruturante que outras vertentes da Análise do Discurso (AD) possam proporcionar. Evidentemente que se trata de uma escolha, a meu ver, alinhada com o direcionamento que me propus, por ora sem algum tipo de enquadramento operacional-metodológico.
Os fragmentos discursivos e as análises poderão ser vistos como semelhante a outras correntes da AD. Como exemplo, em diversos momentos tomo emprestado a ideia de conteúdo explícito e implícito para elucidar as contradições. Da mesma forma, a legitimação requerida em determinados argumentos que fazem uso de outros discursos ou contextos, numa alusão à ideia do interdiscurso trabalhado por Fiorin (1988), Faria (2005), Carrieri et al. (2006), dentre outros.
A ideia de ideologia operada no nível discursivo não se esgota na linguagem. Quando da contradição, esta se estabelece não só no plano ideológico, mas na sua relação direta sobre os conflitos sociais (BRAIT, 2005). Bakhtin (2009) destaca que esta operacionalização é fundamental, uma vez que as ciências que tratam da ideologia tendem a atribuir um caráter de causalidade mecanicista, ou adotam uma concepção positivista do empirismo em que o discurso aparece como fato.
A importância do discurso se faz presente em virtude do desenvolvimento da filosofia burguesa através da palavra (BAKHTIN, 2009). A ideologia no discurso deve ser encarada como parte de uma realidade, mas também como forma de refletir ou refratar essa mesma realidade. O componente ideológico traz consigo um significado que remete a algo situado fora de si mesmo, de forma que os signos presentes no discurso sejam fundamentais para a apreensão da ideologia, dado o caráter intersubjetivo do discurso (BASTOS, 2005). É preciso ressaltar que este processo ideológico que se manifesta através dos signos só se torna criação ideológica na consciência em sua conexão com o real, tanto na produção por parte da classe
49 dominante quanto na apreensão/resistência por parte da classe dominada. Segundo Bakhtin (2009, p. 35), o ideológico só pode ser explicado no “material social particular de signos”.
Esse caráter material atribuído à ideologia discursiva só pode ser compreendido na relação entre base3 e superestrutura (BAKHTIN, 2009). Para o autor, a explicação de uma relação entre a base e um fenômeno isolado qualquer só pode representar valor cognitivo se este fenômeno estiver acompanhado de seu contexto ideológico. Analogamente, o conteúdo dialético da superestrutura só permite a compreensão de uma transformação ideológica a partir de uma imediata relação com as transformações na base. Esta dinamicidade garante não o caráter determinista, mas as transformações operacionalizadas na própria ideologia, por meio de sua dialética interna, das suas próprias contradições, em consonância – mas não necessariamente sincronizada – com as relações materiais através da dialética externa.
A partir desta relação dialética, Bakhtin (2009, p.42) ressalta que a palavra presente no discurso traz consigo os “fios ideológicos que servem de trama a todas as relações sociais, mesmo aquelas que apenas despontam, que ainda não tomaram forma, que ainda não abriram caminho para sistemas ideológicos estruturados e bem formados. Essa representação da palavra passa fundamentalmente pela compreensão dos signos, uma vez que estes operam a relação dialética entre o conteúdo ideológico da palavra e as relações materiais, dado que o que é pronunciado efetivamente expressa um juízo do real (BAKHTIN, 1993).
A partir desta relação entre signo e ideologia, Bakhtin (2009) estabelece algumas regras indispensáveis à compreensão das formas de dominação através do signo, como i) não
separação entre a ideologia da realidade material e o signo; ii) a não dissociação entre o signo e as formas concretas da comunicação social (uma vez que o signo faz parte de um
sistema de comunicação social organizada); iii) a não dissociação entre a comunicação e as
suas formas de base material. A partir desse sistema de relações, Bakhtin (2009) ressalta que
o aparato ideológico só surtirá efeito caso esteja diretamente ligado a condições socioeconômicas essenciais à forma que se apresenta.
A forma do signo ideológico está intimamente ligada ao tema sobre o qual se presta função. Para Bakhtin (2009), são mesmas as forças e as condições que dão vida a ambos, uma vez que
50 as condições econômicas que relacionam um novo elemento da realidade ao campo social, que o tornam socialmente pertinente, são as mesmas condições que criam as formas da comunicação ideológica, as quais determinam, por sua vez, as formas da expressão através dos signos. Estes signos, então, são totalmente dependentes das contradições sociais, por consequência, o funcionamento ideológico que visa manter ou superar as contradições. A sobrevivência dos signos, portanto da ideologia, só faz sentido mediante a manutenção dos conflitos sociais, diante da luta de classes (BAKHTIN, 2009).
De acordo com Bakhtin (2009, p. 48), a operacionalização ideológica do signo, mediante a ideologia dominante estabelecida, é sempre reacionária, de forma que tenha por objetivo “estabilizar o estágio anterior da corrente dialética da evolução social e valorizar a verdade de ontem como sendo válida hoje em dia”. É justamente a partir deste caráter dialético que o signo opera ideologicamente, ao passo que mantém uma relação de dominação conjugada com as condições sociais existentes, e por sua dialética interna, a partir desta mesma carga ideológica, permite a reação frente a estas contradições quando apreendido na consciência.
2.6 Limitações Metodológicas
As limitações metodológicas desta tese têm origem em vários pontos. O primeiro deles trata das próprias escolhas que fiz, resultando em renúncias que considero importantes para a compreensão do tema que esta tese trata. A não incorporação da leitura dos citadinos acerca dos espaços e da produção cultural estabelecida pelo capital não me permitiu identificar mais a fundo as ressignificações destes lugares, e a partir destas ressignificações, algumas possíveis resistências. Da mesma forma, acredito que seria interessante entender as mudanças provocadas pelos projetos culturais na vida dos participantes, tanto no período em que os projetos abarcavam um grande número de pessoas, quanto no período de seu enxugamento.
Outra limitação decorre tanto das escolhas quanto das restrições impostas pelo campo. Num primeiro momento, minha ida a campo tinha o propósito de estabelecer um paralelo entre o caráter histórico da aproximação do capital junto à cultura, com as relações entre capital e trabalho também historicamente estabelecidas. Porém, com o início da pesquisa, percebi que este esforço demandaria uma investigação muito extensa a ser realizada e muito abrangente para ser tratada na tese. A extensão se daria principalmente no acesso às informações, uma
51 vez que nos sindicatos inexiste um acervo de documentação histórica. Além disso, numa das entrevistas, pude perceber que ainda perdura o caráter subserviente dos sindicatos, gerando a indisposição dos entrevistados em tratar de questões concernentes às relações de trabalho, quase sempre acompanhadas de respostas evasivas e da plena convergência de objetivos entre a empresa e os trabalhadores.
Quando do tratamento dos recursos que as fundações culturais dispõem para execução dos projetos, entendo que seria fundamental investigar o direcionamento que é dado, mesmo sabendo que este tipo de trabalho encontraria restrição das fundações por razões diversas. Outra limitação metodológica que se faz presente neste trabalho é a não contemplação de entrevistas dos representantes das empresas mantenedoras das fundações, de forma que a relação entre capital e cultura pudesse ser mais explorada na análise das mudanças ocorridas nos últimos vinte anos. Da mesma forma, entendo que seria necessário explorar ainda mais as manifestações culturais independentes, a fim de que novas nuances fossem reveladas, tanto da dominação imposta pelo círculo privilegiado da cultura quanto do potencial de transformação da arte.
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