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ULUS-DEVLET FİKRİ ve ULUS-DEVLETLER

UZAMSAL DEVLET KURAM

Retomando o debate entre realismo e antirrealismo, o autor define que se uma entidade hipotética pode ser utilizada em um experimento de modo a produzir e explicar um fenômeno, tem-se que, no mínimo, ela existe. Nesse sentido, a realidade de uma entidade é definida pelo reconhecimento de sua potência causal: “(...) Com base nesses princípios trataremos como real aquilo que podemos utilizar para intervir no mundo de forma a afetar algo, ou aquilo que

o mundo utiliza para nos afetar” (Hacking, 1983/2012, p. 231). Para tanto, o autor aponta a centralidade da experimentação. Em suas palavras,

O trabalho experimental nos fornece a mais forte evidência para o realismo científico. Isso não se deve a podermos testar hipóteses a respeito de entidades, mas sim ao fato de as entidades que a princípio não podem ser “observadas” serem regularmente manipuladas para produzir novos fenômenos e investigar outros aspectos da natureza. Elas são ferramentas, instrumentos da prática, e não do pensamento. (Hacking, 1983/2012, p. 369)

Sigamos então o exemplo mais utilizado por Hacking, em relação aos elétrons. Os elétrons, enquanto entidades, tiveram sua existência contestada por muito tempo. De fato, é um problema bastante complexo pensar em modos de provar sua existência; entretanto, era possível interagir com eles. Segundo o autor, a partir da compreensão de certos efeitos que poderiam ser causados pelos elétrons, começou a ser possível a elaboração de dispositivos que permitiam tratar outros fenômenos. “Quando se torna possível utilizarmos o elétron para manipular outras partes da natureza de forma sistemática, o elétron deixou de ser algo hipotético, uma entidade inferida. É a partir desse momento que o elétron não é mais algo teórico, e sim experimental” (Hacking, 1983/2012, p. 369). Para Hacking, essa mudança de caráter de uma entidade teórica inferida para uma entidade que pode ser utilizada experimentalmente é uma prova de existência. Isso não significa que tudo que possamos pensar a partir de um experimento exista, inclusive porque se pode pensar em um experimento justamente para verificar a existência de algo. Entretanto, o autor sustenta que, uma vez que podemos manipular uma entidade para produzir outros fenômenos e efeitos, tem-se aí não uma inferência, mas um sinal da existência da entidade.

Isso não significa, contudo, que as teorias acerca do fenômeno sejam verdadeiras, construção típica do realismo científico de teorias, o qual é rejeitado pelo autor. Segundo ele, a única coisa que se pode postular é a existência da entidade enquanto causando efeitos naquele momento do experimento, a partir do que se pode construir certos modos de compreensão tanto do fenômeno quanto da entidade em si. Entretanto, deve-se notar a diferenciação que o autor faz entre as inferências construídas e sempre incompletas (ou passíveis de reelaboração) e a existência. Inclusive, este é um ponto que ele esclarece na introdução à edição brasileira do livro, aludindo a assimilações que indicam que ele teria sido motivo de compreensões erradas sobre o fato de se inferir a existência. Segundo ele, o modo de existência que se verifica no momento em que a entidade causa efeitos e é utilizada para criar novos fenômenos não se reduz a uma simples inferência:

Meu realismo experimental original vem daqui:

(α) O trabalho experimental fornece a evidência mais forte da realidade de uma entidade teórica que não pode ser observada.

Sempre tive em mente um realismo sobre esta ou aquela entidade — usando meu exemplo trivial do elétron ou, de modo mais interessante, dos elétrons polarizados. Agora, acho que não deveria ter falado em “evidência” de modo algum, porque assim parece que estamos “inferindo” a existência de uma entidade que usamos. Em resumo, isso convida a um retorno ao que John Dewey chamou de “teoria do conhecimento do espectador”. A ciência não é um esporte de espectador. É um jogo para ser jogado, e os jogadores de futebol (para usar um exemplo brasileiro) não inferem a existência da bola: eles a chutam, cabeceiam, têm um objetivo com ela, normalmente a perdem, mas às vezes marcam gols. (Hacking, 2012, p. 43)

Isso reforça, como vimos, a ideia de que se deve dar atenção ao caráter interventivo da ciência, e não somente explicativo. Desse modo, o autor não aponta dois modos distintos de se fazer ciência, mas justamente a impossibilidade de separação entre eles. Não haveria uma ciência interventiva e outra explicativa, mas sim uma relação em que representação e intervenção se influenciam em cada desenvolvimento, de modo que se pode tanto pensar em um ponto de solidariedade entre o fenômeno e sua explicação — uma vez que o fenômeno explicado não deixa de ser criado —, mas também um modo de se estabelecer a existência da verdade de uma entidade a partir do momento em que ela pode ser usada de modo causal. Nesse sentido, Hacking aponta as aplicações da ciência como um indicativo da realidade das entidades, uma vez que elas só podem causar efeitos se existirem.

Desse modo, seu realismo pode mesmo ser aproximado a um certo pragmatismo, no qual o valor da utilidade da teoria se sobreporia a discussões improdutivas: “(...) Enquanto os positivistas negam a causação e a explicação, os pragmatistas — ou pelo menos a tradição peirciana — aceitam-nas de bom grado, supondo que venham a se apresentar como úteis e duráveis às gerações futuras de pesquisadores” (Hacking, 1983/2012, p. 134). Vê-se, portanto, que o realismo científico de entidades defendido pelo autor coloca-se fora de uma discussão apontada por ele como não resolvível, entre realistas teóricos e antirrealistas, no que diz respeito à possibilidade (ou não) de correspondência inequívoca entre teoria e realidade. Desse modo, Hacking abre mão do estabelecimento de verdades conceituais, mas defende que as causas devem ser entendidas enquanto provenientes de fenômenos reais, existentes. Será então que reencontramos, no lugar mais improvável, uma ideia de verdade como causa?

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