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PSİKOLOJİK ANLAŞMA
A divisão do sujeito e a separação de verdade e saber são questões incontornáveis ao se tratar de qualquer diálogo da psicanálise com a epistemologia ou filosofia da ciência. Isso acontece porque o modo como Lacan desenvolve seu pensamento apresenta uma relação de separação e aproximação entre os dois termos, apresentada a partir da banda de Moebius: verdade e saber teriam uma certa indistinção — um ponto, no infinito, em que se tocam —; entretanto, em recortes precisos, sempre se encontrariam enquanto opostos. Indica-se, desse modo, que a verdade seria justamente aquilo que resta do saber, o saber não realizado — como indicado anteriormente, sobre a presença dessa ideia já em Koyré. Mas, para além disso, também pode-se pensar a verdade enquanto aquilo que resiste ao saber, como nos indica Iannini:
[...] não há recobrimento total do real pelo simbólico: toda formalização encontra um limite. Da tese da possibilidade de tratamento do real pelo simbólico não decorre que todo o real possa ser reduzido ao simbólico. Outra forma de dizer, agora no registro propriamente epistemológico, que a
Inicialmente, Lacan usa o termo verdade para traduzir o Wunsch freudiano, o desejo inconsciente enquanto incapturável. “Logo, a verdade é desejo, ou, mais exatamente, o desejo inconsciente é a verdade do sujeito” (Askofaré, 2013, p. 279). Consequentemente, não se observa uma possibilidade de relação direta entre verdade e saber, razão que “está, muito simplesmente, no fato de que a inscrição não se grava do mesmo lado do pergaminho quando vem da impressora da verdade ou da do saber” (Lacan, 1966/1998, p. 878).
Mais que isso, sabemos que Freud indicara, explicitamente, que a psicanálise reintroduziria a questão da verdade no campo científico. Desse modo, podemos estabelecer que — se, como vimos anteriormente, a produção do sujeito cartesiano como modo fundamental de experiência é marcada pela divisão entre saber e verdade, e se esse sujeito seria necessário à emergência da ciência moderna —a ciência, em si, teria como traço também essa separação e, frente a ela, colocaria em seu centro o saber — enquanto a verdade ficaria, de algum modo, rejeitada no discurso. Nesse sentido vê-se a dimensão de tal pretensão: reintroduzir a verdade na ciência implica, no limite, não apenas uma questão de objeto, mas um posicionamento que incide verticalmente na racionalidade e no discurso científico.
Assim, ao operar sobre o sujeito sem qualidades e sem consciência de si, correlato antinômico da ciência moderna, a psicanálise é, a um tempo, prova e efeito do corte da ciência. Lacan não pretende submeter a psicanálise a qualquer método científico preexistente, tampouco colocá-la sob a dependência de uma disciplina piloto qualquer, ou seja, de nenhuma linguagem de “tipo superior” tida como capaz de discernir os conteúdos de verdade das teses psicanalíticas. A rigor, nenhuma ciência pode funcionar em posição de metalinguagem para a psicanálise. (Iannini, 2012, p. 215)
Não somente nenhuma ciência pode funcionar como metalinguagem para a psicanálise, mas também Lacan irá apontar a inexistência da metalinguagem em si; pois, uma vez que a verdade seria justamente aquilo que resiste, que escapa ao saber, tampouco seria possível estabelecer um discurso que determine a veracidade de outro discurso. Em outras palavras, uma vez que a verdade não se coloca enquanto uma questão de adequação do saber em relação ao real — mas, ao contrário, ela estaria lá justamente para além do limite do saber —, não há sentido em se tentar estabelecer um discurso que sirva como garantia do verdadeiro:
[...] Isso quer dizer, muito simplesmente, tudo o que há por dizer da verdade — da única —, ou seja: que não existe metalinguagem (afirmação feita para situar todo lógico-positivismo); que nenhuma linguagem pode dizer o
verdadeiro sobre o verdadeiro, uma vez que a verdade se funda pelo fato de que fala, e não dispõe de outro meio para fazê-lo. (Lacan, 1966/1998, p. 882)
Essa afirmação do psicanalista nos interessa por alguns motivos. Primeiramente, vemos uma crítica ao lógico-positivismo, ao círculo de Viena, a qual será retomada e minunciosamente desenvolvida por Joël Dor, em seu (A)-cientificidade da psicanálise (1988a/b). Retomemos, rapidamente, alguns pontos apresentados na introdução. Se entendemos o positivismo lógico enquanto uma tentativa de estabelecer as condições de produção e avaliação sobre o caráter de verdade de um discurso, sendo a verdade aqui tratada enquanto única, relação biunívoca entre discurso e real, temos, de fato, na postulação da inexistência da metalinguagem, uma crítica contundente a uma das expressões historicamente mais relevantes do pensamento epistemológico.
Como conciliar os imperativos implicados pela Spaltung com a estruturação de um discurso que deve enunciar, sempre que possível, de um modo “científico” qualquer coisa ligada à própria dimensão da subjetividade? É nesse sentido que a questão da cientificidade analítica aparece estritamente indissociável da problemática do sujeito do conhecimento principalmente do
sujeito da ciência e da relação que esse sujeito estabelece com o objeto a ser
cientificizado, na construção dos enunciados científicos. (Dor, 1988a, p. 152)
Como nos indica Dor, a via aberta pela psicanálise traria um modo singular de tratamento “epistemológico” do inconsciente: a saber, não somente como aquilo que escapa ao pensamento, mas como manifestação de uma divisão constitutiva do sujeito que colocaria em uma relação de pertencimento e exclusão os termos saber e verdade.
Recolocar o problema do “estatuto” epistemológico da teoria analítica sobre a Spaltung é recolocá-lo sobre isso que ela inaugura irremissivelmente na ordem de um discurso, de uma mediação onde o sujeito se presta, involuntariamente, a um desvio inevitável da verdade do que ele enuncia. (Dor, 1988a, p. 15)
Nesse sentido, a psicanálise teria como efeito, assim, a constatação da impossibilidade de tal projeto (lógico-empirista). Segundo o autor, as tentativas de realização do estabelecimento do “verdadeiro sobre o verdadeiro” seriam, inevitavelmente, operações de sutura do sujeito, de negação de sua divisão. Indicar uma certa intencionalidade de negação da divisão subjetiva como pretendida nos projetos do círculo de Viena nos parece um tanto
exagerado, no entanto não nos ateremos à crítica desse excesso, uma vez que ela já foi feita (Beividas, 2000), de modo, digamos, não menos extremado.11
Deve-se notar, entretanto, que mesmo que a crítica à metalinguagem seja extremamente válida e contundente, de modo algum ela parece ser um elemento central do texto. Mais que isso, ao falar de positivismo lógico, Lacan não realiza qualquer tipo de generalização deste como elemento definidor do pensamento científico, o que nos indica que não se trata de sua referência epistemológica, ou de seu interlocutor no texto em questão. Esse comentário se justifica não somente pelo fato de que, apesar disso, Dor dedica uma extensa parte de sua obra sobre o tema à crítica do empirismo lógico,12 mas também por indicar que a concepção de ciência utilizada por Lacan não é assim tão simples.
Acabado essa breve consideração sobre a metalinguagem, voltemos à questão da verdade. Vemos que Lacan dá um passo a mais em “A ciência e a verdade” (1966/1998), ao indicar não somente a verdade como oposição e resistência ao saber, mas também ao invocar, especialmente, sua dimensão de causa. Esse tipo de consideração da verdade, ancorado diretamente na clínica psicanalítica, não deixa também de explicitar um posicionamento ético, ao questionar se, “[...] sim ou não, isso que vocês fazem tem o sentido de afirmar que a verdade do sofrimento neurótico é ter a verdade como causa?” (Lacan, 1966/1998, p. 885).