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Essa flexibilidade conceitual em relação à referência utilizada na definição de ciência ganha força, inclusive, considerando-se os desenvolvimentos posteriores. Do mesmo modo como o texto que acabamos de comentar parece retomar uma problemática colocada em “A questão de uma Weltanschauung” (Freud, 1933/1980), mas a partir de outra abordagem, a mesma problemática trabalhada no texto aqui em questão parece habitar fortemente a proposição da teoria dos discursos.

Consideramos a teoria dos discursos como uma proposição de formalização dos modos de organização do laço social e da regulação do gozo, apresentada de maneira definitiva no seminário sobre O avesso da psicanálise (1970/1992), sob a forma de quatro discursos. É importante ressaltar que não se trata de discurso no sentido tradicional, mas de um esforço de formalização de diferentes posições enunciativas a partir da organização de termos dentro de um esquema composto por quatro funções (Lacan, 1970). Os termos em questão são S1 (significante mestre), S2 (saber), $ (sujeito dividido) e objeto a (causa do

desejo ou mais-gozar). Os termos circulam nas posições de agente, outro, verdade e produção, produzindo os discursos do mestre, universitário, da histérica e do analista. Limitaremos-nos a explicar, em relação a essa teoria, os pontos centrais para nossa discussão, especificamente aqueles relacionados à ciência e ao discurso da ciência.

Embora Lacan apresente, de partida, somente quatro discursos, o sintagma ‘discurso da ciência’ é utilizado em diversos momentos — pelo próprio autor e por outros psicanalistas — para fazer referência a mudanças significativas da produção do saber e seus efeitos. Todavia, é interessante o fato de que no seminário sobre o avesso, Lacan evita essa expressão.

Ao contrário, existe uma oscilação entre o estabelecimento de uma relação entre a ciência e o discurso da histérica, o do mestre e o universitário.

No começo do seminário, Lacan realiza uma diferenciação entre a ciência e um saber teórico (Lacan, 1970/1992, p. 22). Ele prossegue afirmando que existe uma distância entre o saber e o desejo de saber, de modo que, se podemos ligar o saber ao discurso do mestre (que consistia em outro momento na apropriação pelo mestre do saber do escravo), o mesmo não poderia ser dito em relação ao desejo de saber, ligado ao discurso da histérica: “[…]O que conduz ao saber — permitam-me justificar num tempo mais ou menos longo — é o discurso da histérica” (Lacan, 1970/1992, p. 23). Tudo isso está colocado na primeira sessão do seminário, ao longo do qual ele aproxima, sobretudo, a filosofia do discurso do mestre, mas não necessariamente a ciência.

Em alguns momentos, Lacan situa a ciência como ligada ao discurso da histérica, cujo agente é o sujeito dividido. O discurso da histérica é aquele que leva ao saber, que faz o mestre produzir um saber, mas com o intuito de indicar a insuficiência deste. Nele estaria localizada a fala do analisante, histericizada, demandando um saber ao Outro. Além disso, Lacan aponta uma estrutura próxima à da ciência:

Ordenado em torno da impossibilidade de “fazer desejar”, esse discurso se sustenta pelo mandamento da histérica ao Mestre, de produzir um saber sobre a causa da sua dilaceração sintomática; saber sempre insuficiente e vão, por não poder alcançar e assimilar o objeto como causa do desejo da histérica em posição de verdade.

[...]

O laço estreito e orgânico, para não dizer a identidade estrutural entre o discurso da histérica e o discurso da ciência, explica — pelo menos em parte — que o laço social que determina e que possibilitou o discurso da histérica seja o discurso do analista.

(Askofaré, 2013, p. 36; tradução nossa)

O autor indica, desse modo, um funcionamento no qual o agente coloca uma questão a partir de uma incompletude estrutural, e tem um saber como produto. Essa aproximação entre ciência e discurso da histérica está presente também, além de em outras lições do mesmo seminário, no seminário posterior sobre o Saber do psicanalista (1972) e em sua conferência

Televisão (1973/2001). É nesse sentido que Askofaré afirma que a ciência se liga ao discurso

da histérica enquanto pesquisa (Askofaré, 2013). Tal concepção de ciência, estruturada de modo menos normativo em relação às particularidades de cada disciplina, é deveras mais compatível com os desenvolvimentos atuais da filosofia da ciência, como veremos no próximo capítulo.

Entretanto, como dissemos, existe uma oscilação, e Lacan também aproxima a ciência à filosofia e ao discurso do mestre. Essa aproximação deve ser entendida considerando que o discurso do mestre é formulado como a entrada do sujeito na linguagem, mas essa estrutura é extrapolada para situações nas quais o agente do discurso (significante mestre) baseia sua dominação em um saber produzido por outro. Nesse sentido, a filosofia seria colocada nessa posição por ser entendida como um saber que se propõe dominador, ao estabelecer aquilo que é ou deixa de ser verdadeiro.

Trata-se, portanto, do discurso da ordem, do discurso que faz as coisas funcionarem. “Mas esse discurso do mestre, em sua forma pura, original, não existiria mais segundo Lacan. Ele seria reencontrado somente em formas modificadas: discurso do capitalismo, colonização (“forma exótica do discurso do mestre”), ou sob a forma do discurso universitário” (Askofaré, 2013, p. 35; tradução nossa). Veremos essas variações, em específico o discurso da ciência, mais à frente.

Para além da filosofia, há também passagens no próprio seminário sobre o avesso em que Lacan faz referência à ciência como ligada ao discurso do mestre. Nesse sentido, a ciência funcionaria como uma espécie de argumento de autoridade, portando o poder de decidir entre o verdadeiro e o falso, ou mesmo entre o bem e o mal. Ora, se considerarmos o que dizem os autores da filosofia da ciência, essa possibilidade seria justamente o avesso da própria ciência — uma vez que, mesmo que ela tenha um projeto de conhecer e dominar o universo e o homem, ela sempre deve tomar distância da verdade e de julgamentos. Nesse sentido, podemos compreender a afirmação de Lacan como uma assimilação da ciência pela ideologia, numa situação em que essa autoridade teria ganhado uma força tão grande que a separação entre saber e verdade ficaria esquecida.

Esse funcionamento seria, por sua vez, amplificado pelo discurso universitário. Esse discurso pode ser considerado como um dialeto do discurso do mestre, nisso que ele tem como característica manter o funcionamento das coisas, mas de um modo mais suave, tendo o saber como agente. Ele é ligado, assim, à burocracia. Nesse sentido ele teria, enquanto verdade, um mestre, que se “disfarçaria” enquanto saber:

O S2 ocupa o lugar dominante na medida em que é no lugar da ordem, do mandamento, no lugar primeiramente ocupado pelo mestre que surgiu o saber. Por que será que nada mais se encontra no nível da sua verdade senão o significante mestre, na medida em que este opera para portar a ordem do mestre? (Lacan, 1970/1992, p. 109)

Podemos, assim, considerar o discurso universitário como a instituição que faz funcionar esse motor. Desse modo, o discurso universitário ocuparia o lugar do supereu, um supereu cuja injunção é: Saiba! (Askofaré, 2013). Como vimos, a ciência é articulada a três discursos: ao discurso da histérica (do qual mais se aproxima), enquanto pesquisa; do discurso do mestre, enquanto projeto; e do discurso do universitário, como instituição. Entretanto, não é somente pela soma dessas três dimensões da ciência que seria possível pensar um discurso próprio; o discurso da ciência inclui um excesso:

Entre esses últimos, parece evidente hoje em dia que a ciência ocupa um lugar e uma posição específicos. Por um lado, porque, de todos os saberes disponíveis, ela é aquele ao qual a psicanálise está o mais organicamente ligada (a ciência como condição da psicanálise é uma tese permanente no ensino de Lacan); por outro, porque a ciência não é só saber, porque ela está em excesso em relação aos conhecimentos que produz, por ser igualmente provedora de objetos técnicos — latusas — e de capacidades de intervenção prática sobre o mundo. Daí o sintagma lacaniano: discurso da ciência. (Askofaré, 2005, p. 2 ; tradução nossa)

Desse modo vemos que, se o sintagma discurso da ciência é utilizado por Lacan em diversos momentos, é necessário ter cuidado com seu emprego. De saída, não é à toa que a ciência não será colocada como um dos quatro discursos fundamentais, justamente porque o psicanalista já trabalhava com a ideia de sua circulação entre eles. Como vimos, é possível pensar a ciência enquanto um projeto de dominação da natureza e dos corpos (ligada ao discurso do mestre), enquanto instituição (ligada ao discurso universitário), e como pesquisa (discurso da histérica). Nesse sentido, temos inclusive outra luz sobre a oscilação entre a ciência como forcluindo a verdade como causa, e como tratando a verdade enquanto causa formal: a primeira estaria mais próxima ao discurso do mestre e ao “projeto”; e a segunda, a um modo de interrogação do real com o intuito de produção de saber. Mas e o discurso da ciência?

É numa conferência, aquela pronunciada em 10 de novembro de 1967, no Círculo Psiquiátrico Henri Ey do Hospital Sainte-Anne — texto conhecido com o título de Pequeno discurso de Jacques Lacan aos psiquiatras —, que se pode isolar a primeira articulação clara do que Lacan chamará, na sequência, de “discurso da ciência”. Seguindo Lacan e se orientando a partir desse texto, pareceria que o discurso da ciência, no sentido estrito, não seja equivalente nem ao saber científico, nem à prática científica, nem ao espírito e ao método científicos, nem à “filosofia espontânea dos sábios”. É muito evidentemente tudo isso ao mesmo tempo, mas não só. (Askofaré, 2013, p. 56; tradução nossa)

Vemos, portanto, que, em relação ao discurso da ciência, trata-se antes da assimilação dessas três modalidades em um todo que os excede; algo que funciona mais como reprodução de um modo de organização social (a partir da produção e disponibilização de gadgets, como diz Lacan), do que de qualquer modulação do pensamento científico enquanto produção de saber: “Por ‘discurso da Ciência’ devemos entender apenas a ideologia que domina, determina e regra a relação do sujeito com o saber tecnocientífico, aos objetos produzidos pelo dito saber e os modos de gozo que ele autoriza, fixa e promove.” (Askofaré, 2013, p. 76; tradução nossa).

Desse modo, vemos que — inclusive a partir da teoria lacaniana dos discursos — é um equívoco tomar o discurso da ciência e a linguagem científica, ou a ciência enquanto pesquisa e instituição, como sendo a mesma coisa. No discurso da ciência, trata-se de um modo específico de presença da ciência na cultura, na qual ela parece colaborar com a reprodução da ideologia, encobrindo contradições e silenciando formas de mal-estar que colocam em xeque o modo de organização social. Por outro lado, a ciência enquanto modo de produção do saber, por mais que seja em diversos momentos atravessada pela ideologia (e, como vimos, também forneça material para sua constituição), não pode ser reduzida a isso: ela pode partir de diferentes posições enunciativas (enquanto pesquisa, projeto ou instituição), inclusive de modo a fazer, ela mesma, a crítica à ideologia — ou furos no discurso do mestre. Ressaltamos, portanto, que, embora possamos reconhecer atravessamentos, não se deve, de modo algum, tomar uma pela outra.

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