ABAD’IN SPORA İLİŞKİN KARAR ÖRNEKLERİ
4. Jyri Lehtonen Davası
4.5. Uyrukluk gerekçesiyle yapılan ayrımcılığın yasaklanması ilkes
Conforme exposto na parte precedente, o nascimento do turismo ocorreu a partir da criação dos loteamentos e da viabilização de pernoites na região. O Estado teve um papel importante, mas não único ou homogêneo. Foram identificados momentos em que este estava mais presente no desenvolvimento de infraestrutura ou apoio à iniciativa privada e, em outros momentos, caracterizados pela ausência do mesmo, nos quais a falta de regulação da atividade
contribuiu para a continuidade de problemas graves que comprometem a competitividade do destino (infraestrutura precária, serviços deficientes, dentre outros) ou para o agravamento das questões sociais e ambientais.
A infraestrutura básica em Porto de Galinhas foi desenvolvida a partir das demandas geradas pela população das segundas residências instaladas nos loteamentos e dos meios de hospedagens. Entretanto, a intervenção estatal e a ação de entes privados se tornaram mais frequentes a partir dos anos de 1990. No período de 1970 a 2010 podem-se notar diferentes papéis assumidos pelo Estado frente ao desenvolvimento da atividade como os expostos no quadro 15, a seguir.
Quadro 15: Papéis e ações do Estado no turismo em Porto de Galinhas
PAPEL DO
ESTADO AÇÕES EM PORTO DE GALINHAS
Produtor/ Empresário
Construção e administração do camping de Porto de Galinhas (pela EMPETUR com recursos da EMBRATUR);
Organização de viagens em roteiros pré-definidos, dentre estes, Porto de Galinhas (pela EMPETUR);
Indutor
Criação de fundos de investimentos fiscais, como o FUNGETUR – Fundo Geral do Turismo – disponíveis à construção de hotéis (pelo governo federal);
Concessão de isenção fiscal à iniciativa privada para a construção de meios de hospedagem (pelo governo estadual);
Regulamentador/ Legislador
Autorização dos loteamentos (pelo governo municipal);
Limitação do acesso às piscinas naturais (via prefeitura municipal e Polícia Militar do Estado);
Regulamentação de parcerias com a iniciativa privada e associações locais (via governo municipal);
Delimitação das funções do território de Porto de Galinhas (pelo governo municipal e estadual);
Normatização das atividades dos jangadeiros, bugueiros, taxistas, etc. (pelo governo municipal);
Coordenador/ Político
Conscientização da importância do turismo na comunidade (via governo federal e municipal);
Coordenação dos entes públicos e privados no turismo (governo municipal);
Capacitação da mão-de-obra para o turismo (EMPETUR, prefeitura municipal);
Redistribuidor Programa Pró-lazer voltado a funcionários públicos e seus familiares (via EMPETUR).
Fonte: Dados da pesquisa (2013)
Conforme exposto em Ferraz (1992), Hall (2001) e OMT (2003), o Estado como produtor ou empresário assume atividades diretamente relacionadas com o turismo. No caso de Porto de Galinhas, pôde-se identificar que o governo estadual, com recursos do governo
federal, atuou em duas situações como empresário: Estado como hoteleiro e como agente de viagens.
Na primeira situação, o Estado se responsabilizou pela construção e administração do camping de Porto de Galinhas, localizado, de fato, em Maracaípe. Visando estimular a pernoite em diferentes territórios de Pernambuco, o governo estadual construiu empreendimentos de hospedagem em municípios fora da Região Metropolitana do Recife considerados de interesse turístico nas décadas de 1970 a 1980, como Garanhuns, Triunfo, Arcoverde, Brejo da Madre de Deus, Ipojuca, Carpina, etc.
Neste âmbito, também foi realizado um convênio entre a Petrobrás e a EMPETUR para a implantação de uma rede de postos ao longo das rodovias mais importantes dotados de motéis, restaurantes e boxes de informações turísticas. Essa ação estava inserida na campanha nacional “Visite o Nordeste” de incentivo a viagens na região (PERNAMBUCO, 1971). É válido lembrar que em nível nacional o governo federal buscava estimular, neste período, o turismo interno. Como agente de viagens, o governo estadual organizou excursões para os destinos nos quais possuía meios de hospedagens e a criação de roteiros turísticos pré- definidos para os funcionários públicos e seus familiares. Essa atividade, contudo, foi mais detalhada na parte do Estado como redistribuidor discutida ainda nesta seção.
Como indutor, o Estado orientou o comportamento dos agentes do mercado, especialmente pela concessão de incentivos (FERRAZ, 1992; HALL, 2001). Em Pernambuco, isso ocorreu especialmente pela possibilidade de redução de até setenta por cento do imposto de renda por períodos anuais até dez anos após a conclusão das obras do empreendimento hoteleiro por meio do FUNGETUR. Não se teve acesso aos dados de utilização do referido fundo em Ipojuca, contudo, pôde-se verificar que, conforme Pernambuco (1986), o primeiro empreendimento hoteleiro contou com essa concessão.
Em nível estadual, não restrito, portanto, à Ipojuca, os incentivos fiscais foram intensamente utilizados em 1960 e em 1970, com isenção de até cinco anos de todos os impostos estaduais para todos os hotéis que viessem a se instalar no território pernambucano (PERNAMBUCO, 1960), em 1965, com a renovação do prazo de isenção em mais cinco anos (PERNAMBUCO, 1965) e em 1977 com a isenção do Imposto de Transmissão de Bens Móveis (ITBI) e do Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICM) para além dos hotéis construídos ou ampliados, os motéis, pousadas e restaurantes da classe turística (PERNAMBUCO, 1977).
Como indutor destaca-se também a importância do Estado, por meio da EMPETUR, na constituição do setor de turismo em Pernambuco. Decerto não é uma ação específica à Porto de Galinhas, mas que pela sua importância não poderia ser negligenciada neste estudo. Conforme pode ser visto na citação de E1 a seguir, o turismo no início da década de 1970 era desconhecido em nível local e a entidade foi relevante para a valorização dos atrativos regionais:
“Essa palavra turismo naquela época era tão pouco conhecida que quando eu passei a trabalhar na EMPETUR e me perguntavam com o que, eu dizia com o turismo. E eles diziam O que é isso? [Além disso], a gente começava a valorizar as coisas daqui... eu diria com toda tranquilidade que a EMPETUR contribuiu para a tomada de consciência da sociedade no sentido da importância dos atrativos e de sua cultura e de coisas que não se valorizava naquela época e que a EMPETUR mostrou a necessidade de valorizar”.
O papel de regulamentador do Estado está diretamente relacionado com a dimensão normativa das políticas públicas. Conforme Durand, Gouirand; Spindler (1994) e Keller (2005), o Estado pode também atuar normatizando a atividade. Em Porto de Galinhas, diversas normas foram criadas ao longo das décadas, contudo, destacam-se ações no sentido de evitar a proliferação do vírus do cólera (1992 pelo governo estadual); controle do acesso à praia (1997, pelo governo municipal); regulamentação de parcerias da prefeitura municipal com a iniciativa privada e organizações não-governamentais (American Express, AHPG, SEBRAE, SENAC); elaboração de planos públicos (Projeto turístico para a Região Metropolitana do Recife; Plano Diretor do Município de Ipojuca, Agenda 21); normatização das atividades oferecidas aos turistas e das funções do território.
O Estado como coordenador ou político, de acordo com Hall (2001) e OMT (2003), coordena a área turística, ou seja, as ações dos diversos entes, sejam públicos, privados ou pertencentes ao terceiro setor diante da atividade. Neste papel está incluída a elaboração de planos públicos (como por exemplo, o Projeto turístico para a Região Metropolitana do Recife; o Plano Diretor do Município de Ipojuca, a Agenda 21, dentre outros). Em Porto, também foram desenvolvidas algumas tentativas de organização das diversas associações locais por meio da conscientização da importância do turismo na comunidade (especialmente no PNMT e Programa de Regionalização, pelo governo estadual e federal) e da necessidade de fortalecimento das discussões em nível municipal.
Uma atividade importante desenvolvida pelo governo por meio da EMPETUR durante décadas e em seguida, viabilizada pela Secretaria de Turismo foi a capacitação. A capacitação
para o turismo visava mudar atitudes em prol da atividade. O governo estadual buscou capacitar os seus funcionários e os das prefeituras locais para o desenvolvimento do turismo no Estado. Por meio da atuação isolada da EMPETUR ou de convênios com escolas especializadas, foram promovidos cursos de a) formação de garçons, maîtres d’hotel, camareiras, cozinheiros, guia turístico, profissionais para a hotelaria e b) de conscientização do turismo e atendimento ao turista para taxistas, guardas de trânsito, policiais militares, entre os anos de 1970 a 2000, conforme os dados da pesquisa encontrados no Diário Oficial do Estado. Por fim, é importante destacar a autorização de funcionamento do primeiro curso de turismo em nível superior, pela Universidade Católica de Pernambuco, em 1970 e a criação do segundo curso pela Universidade Federal de Pernambuco, em 1994.
De acordo com Durand, Gouirand e Spindler (1994), o papel de redistribuidor é exercido quando o Estado busca reduzir as desigualdades existentes, no caso do turismo, possibilitar às camadas menos desfavorecidas economicamente a oportunidade de realizar viagens. Em Porto, isso pôde ser realizado por meio do Programa Pró-lazer gerenciado pela EMPETUR o qual, conforme já exposto, facilitava o deslocamento dos servidores públicos estaduais e seus familiares a destinos pré-determinados nos quais o Estado possuía meios de hospedagens.
Destacam-se, ainda, as ações do Estado de Pernambuco na implementação da infraestrutura de acesso ao território de Porto de Galinhas, como a construção de estradas no programa Estradas do Turismo, com o estabelecimento de vias de acesso às principais praias da região, ao longo do litoral. Na figura 15 a seguir é possível identificar como ocorreu a construção das estradas da região de 1980 a 2000, com recursos do Departamento de Estradas e Rodagens, para a construção da PE-38 e PE-09, e com recursos do PRODETUR NE/II para as estradas que dão acesso à Maracaípe e à Muro Alto.
Figura 15: Acesso viário à Porto de Galinhas – período de construção R io Massa nga n a Rodovia F red Loyo Est rada de Maracaípe SIRINHAÉM CAME LA PE-0 60 PE-038 NOSSA SENHORA DO Ó SUAPE IPOJUCA PE-09 CABO Década de 1980 Década de 1990 Década de 2000
Fonte: Dados da pesquisa (2013)
Foram bastante homogêneas as críticas dos entrevistados representantes dos empresários e das associações em relação à participação do Estado na condução do destino turístico de Porto de Galinhas. As principais críticas estão concentradas no ordenamento do território. E3, por exemplo, expôs: “a gente tem sofrido muito com a falta de ordenamento público. [...] Ipojuca tem leis para todos os segmentos, porém não existe fiscalização. Algumas áreas têm limites de construção, mas não existe respeito, o poder público não faz nada”. Percebe-se que instrumentos legais existem, como o Plano diretor, mas não foram implementados ou fiscalizados. E7, presidente da associação dos condutores e proprietários de buggys, ressaltou que a Prefeitura Municipal de Ipojuca “tem que fazer a parte dela de fiscalização”. Em relação à infraestrutura, as críticas foram generalizadas, especialmente junto a AHPG. Conforme E2, “o crescimento do destino não é acompanhado pelo poder público. A gente vive cobrando uma maior velocidade do poder público para que ele consiga colocar mais infraestrutura na região, melhorar os serviços, estradas, água, luz, telefone, saneamento, segurança, coleta de lixo”.
A resistência dos grupos de mediadores com o poder público decorrente, sobretudo, de promessas não efetivadas como ficou evidente na citação de E11, responsável pela gestão do
Programa de Regionalização do Turismo no Estado, exposta a seguir. Ela, enquanto representante da EMPETUR e interlocutora do Ministério de Turismo na tentativa de implantar o programa de regionalização em Porto de Galinhas, encontrou sérias dificuldades para que o mesmo fosse aceito pelas organizações locais. Conforme a entrevistada, o empresariado “não acreditava mais no poder público municipal, nem no estadual. Houve uma resistência muito grande, foram dois anos tentando criar esse grupo gestor e não se conseguia. Eles não acreditavam em nada. Eu deixei todos desabafarem e pedi um crédito de confiança”.
O sentimento de descrença com mudanças lideradas pelos governos municipal e estadual parece, portanto, permear o discurso dos mediadores das organizações locais nos últimos anos, ou seja, relativo à década de 2000-2010. Na década precedente, mesmo com o descaso inicial com a região uma vez que o foco das atenções governamentais estava no Projeto Costa Dourada, após a crise do cólera percebe-se uma articulação entre agentes públicos e privados mais intensa, além da criação de associações representativas. Especialmente nos últimos anos, contudo, o crescimento acelerado do destino não foi acompanhado de obras importantes no tocante ao fornecimento de serviços básicos, ao controle e uso do solo, ao ordenamento do turismo e ao estabelecimento de espaços formais participativos de discussão sobre a condução do destino.