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3.8. SONUÇ VE ÖNERİLER

3.8.2. Öneriler

3.8.2.2. Uygulayıcılar İçin Öneriler

Em O Ciclope,223 de Eurípides, é estabelecido o antagonismo entre Bárbaro/Grego não como um contraste entre o Asiático e o Heleno, mas, em termos simbólicos e satíricos, através das oposições geradas pelo encontro, já conhecido da épica e do mito, entre Ulisses e o gigante Polifemo. Os antagonismos presentes no drama como civilização/primitivismo, ordem/caos, lei/transgressão, arquitetura/ambiente rústico traduzem uma luta antiga para distinguir natureza e civilização.224 Importa-nos a análise desse drama satírico, pois em um dos contos de Fabulário (cf. p. 67-69) há uma recriação desse gigante, que fisicamente se parece com Polifemo, mas que difere na atitude para com os visitantes.

É o Sileno, escravo de Polifemo, que ao lamentar-se das desventuras pelas quais passa indica, inicialmente, a paisagem em que a ação desenvolve-se: o Monte Etna, onde os filhos de Posídon, “os Ciclopes homicidas” vivem (Cyc. 20-22). A começar pela definição espacial/geográfica, a ilha inóspita, “na criação mítica (…) oferece ao visitante, como primeira barreira, uma costa rochosa e autodefensiva”.225 No papel de viajante em busca de

223 Tradução de SOARES, C. Eurípides. O Ciclope, 2008. 224 Cf. HALL, 1989, p. 51.

víveres, Ulisses226 aporta à terra dos Ciclopes e vem estimular o Sileno, com perguntas que lhe faz, a dar pormenores sobre esse lugar, atentando para as mesmas particularidades com as quais Heródoto distingue cada povo. O que chama a atenção do rei de Ítaca é a falta de muralhas e fortificações da cidade (115), ausência que é o símbolo de um primitivismo selvagem, da qual fazem parte as sociedades nômades (120). Extremamente incivilizados, os Ciclopes moram em grutas, em um ambiente destituído de qualquer tipo de edificação ou plano urbanístico.

O fato de não terem um governante e nem se reunirem em assembléias (119) confirma a imagem de monstros desprovidos de hábitos civilizados e sem leis, pois, segundo o Sileno, “ninguém obedece em nada a ninguém” (120).

A atenção de Ulissses desvia-se da costa inóspita e da falta de leis para o regime alimentar dos monstros. Assim como os Masságetas e os Etíopes, a alimentação dos Ciclopes é baseada em leite, queijo e carne de ovelhas (122). Não lavram a terra e nem semeiam o trigo (121); “muito menos conhecem a bebida de Brómio, o sumo das uvas” (123); por isso era uma “terra sem graça” (124), na opinião do Sileno. O desconhecimento do vinho, tido pelos Gregos como bebida refinada e usado diluído em água por pessoas com hábitos civilizados, terá aqui o mesmo papel que teve na derrota de Espargápises, o filho de Tómiris, rainha dos Masságetas (Hdt.1.207, 211). Também através da astúcia, Ulisses induz o gigante a tomar o vinho sem mistura; desconhecendo o poder embriagador da bebida, Polifemo embebeda-se e tem o olho furado por Ulisses (375-436).

Avesso a xenía grega, segundo a qual se deve receber dignamente um hóspede principalmente se estiver em dificuldades, Polifemo nem é hospitaleiro com quem quer que seja, como também tem por hábito comer carne humana: segundo o Sileno, num comentário apropriado na boca de um cozinheiro de comédia, “afirmam que os estrangeiros têm a carne particularmente deliciosa” (126). O comentário deixa o estrangeiro aterrado, pois alude ao ato mais abominável, primitivo e violento que uma sociedade pode conceber: o desprezo pela vida humana através do canibalismo. Os hábitos dos Ciclopes são os mesmos dos Andrófagos,227 povos vizinhos dos Citas. Ao narrar as suas práticas, Heródoto exprime sua aversão a um povo que “tem os hábitos mais selvagens. Não respeitam a justiça, nem fazem

226 Observe-se que o Sileno identifica Ulisses sarcasticamente como o “de mil ardis”. Cf. Cyc. 104. “Conheço um indivíduo, um charlatão de primeira, da raça de Sísifo”.

227 O Sileno usa a mesma expressão para denominar o Ciclope: “Não sabem que género de pessoa é o nosso amo Polifemo, pois vêm de visita a esta morada hostil e, desgraçadamente, estão-se a meter na boca de um Ciclope andrófago” (Cf. Cyc. 85-95).

nenhum uso de qualquer tipo de lei. São nômadas (…) e são os únicos que comem carne humana” (Hdt. 4.106).

No entanto, Sousa e Silva assegura que em um texto satírico as pilhérias são aceitas, porque enfatizam esse caráter distinto do Bárbaro, traduzidas pela experiência e habilidade de Polifemo em reconhecer uma boa carne.228 Apesar disso, pelo desconhecimento das leis, do respeito aos princípios da hospitalidade, e pelo menosprezo à vida humana, os Ciclopes representam um povo em um estágio de desenvolvimento inferior ao dos Gregos, mais próximos dos hábitos animais que humanos, em consonância com todos os outros testemunhos contemporâneos, mau grado a diferença de tom.

Tanto na tragédia como no drama satírico são contrapostas várias particularidades étnicas do Bárbaro e do Grego; mas nesse contraste, sobressai-se a superioridade helênica tradicional frente ao „outro‟; características como virtude, coragem, autocontrole e engenhosidade para se livrar do perigo, aliadas a um regime político democrático, apresentam o Grego como um povo mais evoluído que os outros com os quais se relaciona. Parece ser esse o primeiro estágio, apesar de este princípio poder ser sujeito a discussão e relativizado, de uma visão atual xenófoba, que crê na superioridade de uma cultura, grega ou ocidental, sobre outra qualquer.

Ver-se-á que, nas narrativas de Mário de Carvalho, o autor problematiza a relação dos personagens que são diferentes de seu meio (quer seja na compleição física ou porque possuem outra cultura) com aqueles que estariam dentro de uma norma pré-estabelecida.

228 SOUSA E SILVA, 2005, p. 193.

4 A „Guerra‟ na Literatura Grega

Os poemas homéricos influenciaram de forma incontestável não só a cultura e a literatura grega antiga, mas também as produções artísticas ocidentais posteriores.229 É a essa fonte literária arcaica, sobretudo à Ilíada – bem como, num pólo distante de influência, aos relatos históricos sobre os conflitos militares nos quais Portugal se envolveu -, que Mário de Carvalho recorre para compor as imagens e estratagemas de guerras fantásticas, tema recorrente em sua obra. Associada ao motivo homérico, o autor português elege Tebas como padrão de uma cidade invadida, para onde conduz o destino de alguns personagens, e a guerra ocorrida entre Tebanos e Argivos como modelo dos combates que compõe, principalmente no romance O livro grande de Tebas. Portanto, para definir e exemplificar os traços convencionais da estratégia guerreira na literatura grega, que tiveram ascendência sobre os textos de Mário de Carvalho, optamos pela análise de alguns aspectos da Ilíada, das tragédias

Sete Contra Tebas de Ésquilo e As Fenícias de Eurípides,230 sem descurar, pontualmente, o aperfeiçoamento introduzido pelos historiadores e cronistas da guerra, Heródoto e Tucídides. São os seguintes os aspectos da narrativa de guerra em que vamos incidir: o exórdio e suas componentes como introdução ao poema épico (apelo à musa, menção do poeta, razões do canto); os epítetos caracterizadores dos principais heróis; os batalhões e as hostes (as armas usadas, o tipo de contingente - cavalaria ou infantaria -, posições relativas no campo de batalha, oposição entre adversários, intervenção de reforços), num processo sugestivo do modelo „catálogo‟; imagens e ruídos caracterizadores da refrega; possíveis vencedores e vencidos e a intervenção divina nas diversas etapas e no resultado do confronto.

Para estabelecermos os componentes básicos que retratam uma guerra no mundo grego parece-nos ser imprescindível lançar um olhar sobre o texto homérico, visto que entendemos ter sido este, o poema sobre o conflito entre Gregos e Troianos, um texto inaugural sobre a guerra na literatura ocidental. Tais poemas permitiram mais tarde, uma recuperação dessa temática, isto é, a guerra, tanto no teatro clássico de Atenas como na historiografia; o que determinou uma nova organização desses motivos em relação ao padrão

229 Veja-se a importância de Homero como “Educador da Grécia” em ROCHA PEREIRA, M. H. Estudos de História da Cultura Clássica, I. 10 ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2006.

230 Para uma análise mais ampla desse tema nas peças de Eurípides, confira a dissertação de mestrado de SOARES, C. A descrição do Exército em Eurípides: processos discursivos (1996), na qual a autora analisa as tragédias Fenícias, Helena, Heraclidas, Ifigênia em Áulide, Orestes e Suplicantes.

épico.231 A Ilíada, por ser um poema que canta a guerra, tornou-se um texto básico para a compreensão das táticas bélicas utilizadas no mundo grego clássico, bem como um veículo de transmisão de valores guerreiros, encarnados em heróis de referência. Aos heróis junta-se a crença na intervenção de forças superiores sobre o destino humano, além de uma descrição detalhada das armas utilizadas em combate e do tratamento dado aos companheiros mortos em batalha, quer seja o ultraje quer o resguardo do cadáver para homenagens posteriores exigidas pelo seu mérito. A teichoscopía (ou “vista da muralha”) (cf. Il. 3.166-242) e o catálogo (cf. 2.493-759) em particular, como estratégias da descrição dos exércitos, são elementos retomados na tragédia e ecoam, também, na literatura contemporânea, como veremos.

Tanto a tragédia Sete Contra Tebas de Ésquilo quanto Fenícias de Eurípides têm como tema central a destruição da família dos Labdácidas, que, no entanto, porque família e cidade são apenas dois núcleos de uma mesma realidade, projeta sobre o coletivo os seus efeitos. Ambas valorizam a atividade bélica que ameaça Tebas e que há-de aniquilar os dois filhos de Édipo; no entanto a maneira como os dois poetas tratam o mesmo assunto é, como adiante veremos, diversa, predominando em Ésquilo o efeito auditivo e em Eurípides a impressão visual.232 Qualquer um desses processos encontra em Homero sugestão. Eurípides, por exemplo, na cena da teichoscopía (cf. Ph. 100-194), retoma de forma inovadora o procedimento descritivo que “deixa antever o artista atraído pelos sucessos que as artes plásticas então obtinham, se não mesmo a repartição do mesmo homem pelas técnicas do pincel e da pena”,233 método que possibilita a „pintura‟ da cena guerreira de forma mais

maleável do que a proporcionada pelo modelo épico. A descrição da cidade sitiada já recebera tratamento em Ésquilo: através do Mensageiro que chega do campo inimigo, tem-se a descrição do invasor; entretanto, ao contrário das personagens de Eurípides, que são guiadas pela curiosidade, a função da descrição do servo é informar ao rei sobre a disposição do inimigo, para que Etéocles possa organizar sua defesa (cf. Sept. 375-680). Essas duas cenas aproximam as funções dramáticas do Pedagogo de Fenícias e do Mensageiro de Septem.

231 Segundo Aristóteles (1448b-1449a), os poemas homéricos já continham elementos que originariam a comédia (como Magistes, poema homérico que não chegou até nós) e da tragédia (na Ilíada e Odisseia).

232 Cf. SOUSA E SILVA, M. F. Ensaios sobre Eurípides. Lisboa: Cotovia, 2005, p. 285-395. Nesse livro, a autora dedica um capítulo aos elementos visuais em Eurípides.

233 Ibidem, 2005, p. 287 e 296-297. Segundo Sousa e Silva, ao proceder uma análise comparativa entre as duas cenas da theicoscopia, homérica e euripidiana, pode-se notar elementos novos que o tragediógrafo teria assimilado da pintura de Polignoto.

Não se pode descuidar, igualmente, aqui de forma pontual, do aperfeiçoamento introduzido pelos cronistas da guerra: Heródoto, narrador das Guerras Pérsicas; e Tucídides, narrador da Guerra do Peloponeso. Eles são paradigmáticos na medida em que foram os primeiros a retirar a „guerra‟ do plano mítico e a centrar o tema em conflitos reais que acompanharam a sua época. Com isso, dão relevo às questões do âmbito da estratégia, disposição das hostes, reforços e número de guerreiros,234 elementos neles típicos e insistentes, à maneira homérica. Segundo Immerwahr, como “a história é para Heródoto a história da ação, a descrição das batalhas se torna o centro espiritual de seu trabalho. Visto do pondo de vista do agressor, as batalhas dos Persas são um ponto de mudança fundamental no modelo trágico de ascendência e decadência”.235 Combinando o ponto de vista trágico com a

perpectiva propriamente histórica, sua narrativa demonstra os crescimentos de alguns povos como também suas quedas; assim “o ponto central em que essas duas visões se intercedem é a descrição da batalha”.236 Ainda segundo o autor, Heródoto utiliza as descrições de “táticas

para caracterizar pessoas e eventos. Então o que realmente o faz manter as descrições militares é o seu interesse nos aspectos dramáticos e simbólicos da estratégia”.237 A narrativa

da batalha mesmo quando é breve contém descrições geográficas, listas de tropas e pessoas distintas, cenas de assembléias e a duração dos seus discursos, o relato de dolos e mentiras para se ganhar uma guerra. Essa é uma idéia antiga na literatura grega; a enganação de humanos pelos deuses tem exemplo em Homero e em Hesíodo.238

Já Tucídides sugere que “no discurso antigo, o combate é um combate de qualidades técnicas contra as qualidades naturais (…) essa nova forma de guerra, mais ligada à inteligência, que suplanta a grande tradição aristocrática, tinha Esparta como modelo”239 (cf.

Tuc. 2. 87, 4-5). Mas, para além das diferenças que permeiam as obras dos dois historiadores,

importa reafirmar a importância do realce que dão à temática e aos componentes da „guerra‟ numa tradição narrativa que tem como modelo primordial a Ilíada.

234 Cf. Hdt. 1.205.1-214.1, a expedição de Ciro contra os Masságetas; e a maneira de guerrear dos Persas e dos Citas (1. 64.1-66, 125.1-142).

235 IMMERWAHR, H. R. Form and trhought in Herodotus. Atlanta, Georgia: Scholars Press, 1966, p. 238. Tradução livre.

236 IMMERWAHR, 1966, p. 238-239. 237 IMMERWAHR, 1966, p. 239. 238 IMMERWAHR, 1966, p. 240, 243.