3.7. BULGULAR VE YORUM
3.7.6. Altıncı Alt Problem
Igualmentente importante, para nossa leitura da obra de Mário de Carvalho, é o substrato euripidiano do qual retiraremos inversões, mutações, repetições no tratamento entre Gregos e Bárbaros. As tragédias de Eurípides Ifigênia entre os Tauros e Helena retomam as diferenças entre Gregos e Bárbaros, focalizadas igualmente do terreno não helênico, mas construídas sobre um plano de aventura romanesca. Com enredos semelhantes, essas tragédias enfatizam como se dá a permanência forçada fora da pátria e a fuga de duas heroínas gregas, ambas da casa dos Atridas: Ifigênia presa na Taúride, e Helena no Egito.
Recorde-se, inicialmente, que Heródoto216 caracteriza os Tauros como um povo que sacrificava náufragos e Gregos, que capturava no mar, a uma deusa virgem, Ártemis;217 na versão de Heródoto essa deusa confunde-se com Ifigênia, filha de Agamémnon. O sacrifício, realizado em um templo construído sobre um promontório, consiste no degolamento da vítima, que tem o corpo lançado para um abismo; a cabeça é espetada em uma madeira (Hdt. 4.103).
O cenário em que se passa a ação na peça de Eurípides é, pois, o templo de Ártemis, em Taúride, do qual Ifigênia é sacerdotisa. Do friso do templo, pendem crânios e troféus humanos e à frente do edifício há um altar vermelho de sangue; por si só o cenário em volta do templo e o próprio mar revelam um ambiente sombrio e hostil, a que está vedado qualquer tipo de recepção amiga aos estrangeiros em perigo. Quando Orestes e Pilades chegam, já presos para serem sacrificados, ficam impressionados com os troféus humanos nas cornijas do templo (71-75). O propósito dos dois jovens é levar a estátua de Ártemis para Argos, porque só assim Orestes ficaria livre dos acessos de loucura que o tomavam depois do assassinato da própria mãe. O retirar da estátua da deusa de um terreno selvagem traz à peça uma segunda purificação: depois de livrar Orestes do sangue criminoso que lhe mancha as mãos, a peça liberta também a deusa de um culto que repugna pela sua violência.
216Cf. Hdt. 4.3, 4. 20, 4.103. A Taúride situava-se na Criméia.
217 Cf. BURKERT, W. Religião grega na época clássica e arcaica. Tradução de M. J. Loureiro. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993, p. 300. Segundo o autor, Ártemis é a deusa mais antiga e mais venerada no mundo antigo. É, na verdade, a deusa dos sacrifícios cruéis e sangrentos. “A imagem de Ártemis que Orestes e Ifigiênia levam da terra dos Tauros exige sangue humano. (..) Através da crueldade ritual, é introduzido na cultura da cidade algo da dureza primitiva da existência pré-civilizacional”. Na própria religião grega, Ártemis estava associada à idéia de derramamento de sangue e sacrifício humano, de que a mesma Ifigênia, sua sacerdotisa na Taúride, foi vítima.
O mar Negro que rodeia essa terra é chamado diversas vezes de “inóspito”, “inospitaleiro” (IT. 125, 220, 395, 438), “funesto” (253) e “hostil” aos estrangeiros (1388). Também as “Sombrias Simplégadas” representam, como duas rochas dispostas na entrada do Bósforo, uma passagem aterradora que pode matar os navegantes (241-242) e que abre sobre um mundo ameaçador. Dessa forma, Eurípides evoca o contorno da costa selvagem da terra dos Tauros num crescendo de hostilidade.218 A visão de Orestes que chega sobre essa terra também é a de um “país desconhecido e não hospitaleiro” (93-94). Essas particularidades do ambiente identificam a Taúride como um país de bárbaros ávidos por sangue. É Ifigênia quem imola os Gregos que aí chegam, a essa terra em que “um rei bárbaro reina sobre um povo bárbaro” (32). No prólogo, a filha de Agamémnon reclama porque não há nada de belo no culto que pratica; escrava de um rito já existente antes de sua chegada (35-37), a virgem sente-se saudosa de Argos, sua terra natal, que o coro de mulheres no exílio chama de “a Europa de belas árvores” (134).
A xenía, norma de hospitalidade grega, é completamente desconhecida dos Tauros, pois entra em choque com as leis vigentes nesse lugar: se todo estrangeiro deveria ser sacrificado em honra a Ártemis, naturalmente não teria uma acolhida respeitosa, que zelasse por seu bem estar ou lhe respeitasse a vida. “Ou seja, a obrigatoriedade de sacrificar à deusa caçadora de vidas humanas traduz uma divergência profunda, no plano religioso, entre o que se pode considerar um modelo de culto civilizado a par de um outro bárbaro”.219
A cena de reconhecimento entre os dois irmãos ocorre quando Ifigênia já está preparada para o sacrifício e descobre a identidade das vítimas (770-805). De vítima e carrasco, os dois filhos de Agamemnon passam a aliados num plano de fuga. É este o momento em que, agora num plano pessoal e familiar, a violência bárbara se confronta com a estratégia grega de salvação. Discutindo sobre a melhor forma de fugir e levar a estátua, Orestes propõe que matem Toas, mas Ifigênia repudia essa idéia em respeito à lei da hospitalidade que rege seu próprio nómos, mas que não é respeitada ali (1010-1028). Propõe um outro estratagema (1029): dizer a Toas que as vítimas estavam impuras e que necessitavam de um ritual de purificação. O soberano bárbaro, sem suspeitar, rende-se ao engodo dos fugitivos; cede um barco para os trabalhos, e Ifigênia foge com os jovens, levando também a estátua da deusa. Quando descobre o ardil, o rei planeja mandar seus homens em
218 Cf. HALL, 1989, p. 111-112. 219 SOUSA E SILVA, 2005, p. 194.
perseguição, mas a deusa Atena, aparecendo como deus ex machina, o convence do contrário, transformando o mar bravio em calmaria, o que possibilita a fuga (1444-1445). A ajuda de deusa e o êxito da fuga parecem sugerir a superioridade da civilização sobre a barbárie; da inteligência sobre a força; do Grego astuto sobre Bárbaro ingênuo.
Por sua vez, a versão de Eurípides sobre o rapto de Helena inocenta a personagem, porque a coloca exilada no Egito;220 quem havia acompanhado Páris a Tróia teria sido um fantasma, informa Helena (Hel. 43), enquanto a verdadeira rainha de Esparta é levada por Hera contra sua vontade para o país dos faraós (31). No Egito, sofria o assédio de Teoclímeno, levado ao trono após a morte de seu pai, numa espécie de repetição da aventura troiana. É grande seu sofrimento e sua lamentação, pois era difamada em toda Hélade (66-67), já que todos pensavam que havia sido a responsável pela guerra de Tróia (55).
O rio Nilo, símbolo do Egito, é evocado como um cenário de fartura (1.3) que também se afirma na descrição do palácio real por Teucro: “É um palácio que parece digno de Plutão: reais são as muralhas e bem ameados os aposentos” (69-70). A visão de prosperidade, abundância e luxo que advém do cenário não provoca, à primeira vista, aos dois estrangeiros recém chegados nenhum receio ou prenúncio de qualquer perigo.221 Para Menelau a terra a que chegou parece hospitaleira, porque “a casa opulenta incute esperança aos marinheiros” (432). Mas pouco a pouco as evidências de que esse mundo bárbaro e desconhecido oferece perigos inomináveis vêm à tona, primeiro através do aviso de Helena a Teucro: “deixa tu esta terra e foge, antes que o filho de Proteu te veja (…) Agora está ausente com seus cães, em caçadas e carnificinas de animais selvagens” (152-154). O gosto do soberano por carnificinas de animais e o hábito de matar qualquer estrangeiro grego que aporte em seu país dá os contornos de um mundo agressivo e perigoso, de um “país bárbaro” (274).
De acordo com a convenção, outro traço acentuado por Helena é o fato de todos os bárbaros serem escravos, exceto o rei (276), o que se opõe ao ideal democrático grego. A total falta de respeito às regras de hospitalidade é exposta pela anciã egípcia, que ordena a Menelau que se afaste para não importunar seus senhores; caso contrário morrerá, pois os Egípcios não têm relações de amizades com os Gregos (437-440). Grave também para a concepção helênica de hospitalidade é a violência física que a velha impinge a Menelau na tentativa de
220 Esta versão do mito de Helena já era veiculada antes da produção euripidiana. O poeta Estersícoro (séc. VII- VII a. C.) havia composto uma Palinódia a Helena (frg. 15 Page- 32 B., II D.), na qual isentava a filha de Leda de ter ido à fortaleza de Tróia. Cf. PAGE, D. L. Poetae Melici Graeci. Oxford: Clarendon Press, 1962.
afastá-lo do palácio. Ofendido, o Atrida define e exige a xenía que lhe é devida: “Sou um estrangeiro náufrago que chega, a quem o asilo é devido” (449); mesmo assim, a velha porteira, que age como Hermes em Aves, rechaça o recém-chegado e com gravidade afirma que se ele permanecer em seu intento a morte será a hospitalidade que o espera (480). Apesar da xenofobia demonstrada pela mulher, em obediência a ordens superiores, e por Teoclímeno, lembra Sousa e Silva222 que o Egito partilhava com o mundo helênico alguns aspectos básicos como a xenía e as leis; é Proteu o símbolo da piedade egípcia e Teónoe a representante do mesmo sentido de justiça e civismo. Para dar a aparência de perigo que a trama romanesca exige, Eurípides encontra uma razão de ordem pessoal para a quebra dessa etiqueta: é por causa do amor não correspondido de Teoclímeno por Helena que os Gregos não são bem vindos ali.
Assim como em Ifigênia entre os Tauros, Helena encontra-se com quem seu coração ansiava rever, Menelau, e ambos, sob o peso de uma ameaça de morte, procuram um modo de fugir do Egito. Como Orestes, Menelau propõe assassinar o rei, mas Helena avisa-o de que isto seria impossível (808-810); a irmã de Teoclímeno, Teónoe, é uma profetisa poderosa e certamente impediria um atentado contra o irmão. A solução para a fuga consolida-se pela astúcia de Helena, que propõe um engenho para enganar o faraó (812). Primeiro foi preciso colocar-se como suplicante perante a donzela adivinha, que promete a Helena não informar ao irmão sobre o engodo. Deste modo, Helena, vestida de luto e chorando, anuncia ao egípcio que recebera a notícia da morte de seu marido por um Aqueu (1196-1207), e suplica que o rei aceite que faça um rito fúnebre em sua homenagem; após o ritual estaria livre para as novas núpcias.
Novamente são evocadas as diferenças entre Gregos e Bárbaros, mesmo que de forma falseada. Ao contrário da tradição egípcia de embalsamar o corpo, Helena diz ao rei que quando um Grego morre no mar, deve-se prestar honras fúnebres, lançando às ondas tudo o que é devido ao morto. O rei aceita dar-lhe um barco, um animal, armas, frutos e até remadores para o rito (1237-1280). O ardil dá certo e o par fugitivo consegue escapar com êxito. Como acontece no episódio dos Masságetas, a solução para o conflito encontra-se através do recurso a uma prática diversa e a um contraste civilizacional, mesmo que, neste caso, simplesmente inventado.
222 SOUSA E SILVA, 2005, p. 198-199.
As heroínas dos dramas de Eurípides (Ifigênia e Helena) escapam do domínio opressor do inimigo usando artimanhas que demonstram o predomínio intelectual grego sobre o bárbaro (Toas e Teoclímeno). Não deixa de ser, mesmo assim, interessante que o Bárbaro seja vítima de um respeito que, apesar de tudo, manifesta por princípios “civilizados”: o de permitir e patrocinar um ritual purificador, no caso de Toas; ou os ritos funerários devidos a um morto, no de Teoclímeno. Assim, Eurípides relativiza, de alguma forma, os extremos de selvajaria que tornam o mundo bárbaro num terreno de violência e falta de civismo.
Diante de um Teoclímeno encolerizado, os Dioscuroi, filhos de Zeus e irmãos de Helena, aparecem em cena com o expediente do deus ex machina; Castor exorta o rei a não punir a irmã por ter-lhe ocultado tais fatos e esquecer as núpcias com Helena, pois seu destino era outro (1641-1679).