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3.7. BULGULAR VE YORUM

3.7.5. Beşinci Alt Problem

A tragédia de Ésquilo Os Persas retrata o conflito Grego/Bárbaro, aquele que a tradição grega avaliou como o maior jamais ocorrido; no entanto é sob a perspectiva do vencido que as características dos dois povos se desenham. A Rainha, ao inquirir o coro sobre o estrangeiro, termina por definir sua própria identidade como „bárbara‟. Em seu lamento desesperado, a palavra aparece tanto com sentido de Persa como de povos dominados pelo poder de Xerxes: “Ah! Que imenso mar de desgraças se lançou sobre os Persas e toda a raça dos bárbaros” (Pers. 433-434). Certamente a expressão „bárbaro‟ ocorre como um elemento de contraste entre Persas (e territórios sob seu domínio) e Helenos, sem uma conotação autodepreciativa.207

A ação se desenrola em Susa, sede do Império Persa - e não há nenhum personagem nem mesmo qualquer referência individualizada a um grego na peça - composição que propicia uma visão oposta da tradicional sobre a guerra e sobre o povo que a máquina oriental de campanha defrontou. É o Corifeu quem anuncia que toda a nobreza persa havia partido para a Hélade208 comandada por Xerxes, filho de Dario, que deixou o país aos cuidados dos anciãos. Pela sua voz, se impõe a primeira diferença entre Gregos e Bárbaros, pela constatação de um sistema político diverso do vigente no mundo helênico; capaz de agrupar

207 Cf. outras ocorrências do termo como sinônimo de asiático: Rainha: “Amargo destino foi o meu filho tirar da ilustre Atenas, em vez de lhe bastar o número de bárbaros que já tinham caído em Maratona” (473-475). Coro: “Ouve ele estas palavras em língua bárbara, tão clara ao seu entendimento (…)” (633-634). Corifeu: ”Como eu sofri, ao ouvir os inumeráveis sofrimentos que o presente e o futuro têm em reserva para os Bárbaros!” (844- 845).

208A Grécia (ou o grego) aparecerá designada ora como Hélade (2 e 186), “terra dos Iónios” (179) ou “dórica” (183).

em torno dos ideais de Xerxes diversos “reis vassalos” (24), cuja submissão total levava-os a agirem como cães obedientes que saltam e ladram em torno do „dono‟209 (12); ou como “um

enxame de abelhas, atrás do seu chefe” (125). A grandiosidade e autoridade do Império Persa delineia-se a partir do catálogo210 dos chefes e exércitos aliados anunciado pelo Corifeu (9-59) e pelo mensageiro (302-330). À Rainha, em contraponto, parece estranha a idéia de os Helenos não serem escravos ou súditos de ninguém e que seu exército pudesse vencer o poderio persa sem um soberano supremo a conduzi-lo (241-244).

Rodeados de uma „aura‟ de poder quase divino, os soberanos persas eram reverenciados e temidos por seus súditos. Não é estranho, pois, que diante da Rainha, o coro se ajoelhasse com palavras de veneração (150-152). Segundo Heródoto, foi Déjoces211 quem estabeleceu as regras de protocolo adotadas posteriormente por todo Império Persa. A primeira norma referia-se ao “acesso direto ao rei e recurso obrigatório, em qualquer circunstância, a emissários; proibição de ver o soberano; (…) foi considerado inconveniente (…) rir ou cuspir na presença real” (1.99). Os súditos deveriam, ainda, prostrar-se perante o soberano.212 É plausível, neste contexto, que a mulher de Dario diga que se o filho voltasse vencedor, seria tido como herói, mas se fracassasse não haveria necessidade de prestar contas à cidade; desde que estivesse vivo, permaneceria no comando do país (211-214). Ao coro de

Os Persas abomina a idéia de que a partir da derrota frente aos Gregos, o povo asiático

poderia falar o que quiser, não se preocupar em pagar os impostos e, ainda, “ninguém receberia ordens de joelhos” (584-590), porque o poder do rei havia acabado. Em obediência a essa regra protocolar, o coro teme olhar e falar com o fantasma de Dario (694-695), demonstrando que o imenso Império Persa foi conquistado e mantido pelo jugo e força (595). Confirma essa visão o próprio espectro ao pedir que a Rainha falasse em vez do coro, já que “o medo antigo domina assim a tua alma a ponto de te impedir de falar” (702-703). A fama de

209 Vide PULQUÉRIO, 1998, p.19, nota 01.

210 Cf. análise dos catálogos em Os Persas no artigo de SOUSA E SILVA, M. F. A arte de construir o sucesso: Persas e Gregos em Salamina. SFhV, València, n. 9, 2006, p. 111-130, p. 112. Para a autora, “como processo dramático e poético, Ésquilo regressa à conhecida tradição épica do catálogo para executar o retrato de uma máquina de guerra, como imagem da natureza de um povo e do comportamento imperialista que o destino lhe atribuiu”. Cf. Também Il. 2. 494-759, 816-877.

211 Na versão de Heródoto (1.95-101), Déjoces foi o primeiro rei dos Medos. Eleito juiz de sua aldeia, Déjoces, aspirando o poder, empenhou-se na administração da justiça. Todos passaram a procurá-lo quando souberam de sua retidão. Quando percebeu que tinha todos os processos nas mãos, recusou-se a julgar, o que levou a um aumento dos crimes. Diante de tal situação, os Medos elegeram-no rei. Com a progressiva fusão das diversas etnias orientais, o protocolo estabelecido por Déjoces foi adotado pelo Império Persa.

Dario permanece além da vida, pois, quando chamado pelo coro, o espectro afirma ser difícil sair dos infernos e que foi preciso usar do seu prestígio para sair.

A forma como os dois povos guerreiam e as armas que utilizam também são importantes para a caracterização de um e de outro. No conto A Inaudita Guerra da Avenida

Gago Coutinho, Mário de Carvalho, com a mesma estratégia literária, recupera a descrição

das armas dos exércitos que se vêem frente a frente propiciam uma caracterização de ambos os lados.

Em Ésquilo, o fato de os Persas usarem o arco, estabelecendo uma luta à distância, engrandece a escolha dos Gregos; o recurso à lança os obriga a lutar frente a frente com o inimigo, sendo, portanto, uma escolha mais heróica.213 Na peça grega é sem dúvida pertinente que o coro se questione se quem está ganhando seja o arco ou a lança (146-147). À Rainha que exprime curiosidade semelhante, o Corifeu explica que os Gregos preferem a lança e o escudo para lutar corpo a corpo (238-239). Mas, para além da coragem grega, a inteligência e a astúcia são instrumento para se ganhar a guerra e bloquear a vantagem numérica que assistia largamente aos Persas. Um logro foi usado pelos Helenos para encurralarem as naus da frota asiática constituída de milhares de embarcações. Os Gregos possuíam um número menor de naus (339), mas seu poder encontrava-se não em termos numéricos e sim na superioridade de raciocínio. É o que afirma o Mensageiro: “Se o problema fosse o número de naus, podes estar certa que o bárbaro teria vencido” (337).

A sede de poder do comandante supremo do exército persa é atribuída, dentro de um conceito grego, à ação da Áte, que, ao atrair um homem para suas redes, a fuga torna-se impossível (99-100). Sua decadência decorre da “inveja” da divindade (362), mas sua covardia é patente nas últimas ordens dadas ao exército e sua fuga desordenada (469-470). A conseqüência da guerra é tão funesta, que o coro afirma ter sido toda a Ásia despovoada (549), porque Xerxes agiu como louco (551) ao contrário de seu pai que nunca havia causado mal ao próprio povo (554). É a voz lúcida de Dario quem afirma: ele “foi capaz de fechar o grande Bósforo!” (723). A hýbris de Xerxes o levou a deter o curso do Helesponto: “mortal, ele pensou, na sua insensatez poder triunfar sobre todos os deuses (…) Não foi uma verdadeira loucura que se apoderou do meu filho?” (749-751). Tanto Dario214 quanto o Coro

213 PULQUÉRIO, 1998, p. 22, nota 11.

214 A postura lúcida e sensata de Dario nos Persas contrasta com a imagem arrogante que dele faz Heródoto na campanha contra a Cítia (4.83-84). Na verdade, também Dario agiu como o filho, construíndo uma ponte de

atribuem a insolência/cegueira de Xerxes (821-822) ao “brilho terrível do olhar de Áte!” (1005-1006).

A vestimenta é um elemento importante na definição dos modos de vida dos dois povos. O sonho da Rainha que prenuncia a divisão do mundo conhecido em duas grandes potências tem como símbolo da Ásia e da Europa duas mulheres vestidas de forma distinta, “uma trajando à moda persa, a outra à moda dórica” (181-182). À moda persa significa ostentação e excesso, em oposição à sobriedade dos trajes gregos. É a Rainha porta voz da importância das vestes para os soberanos, ao mostrar-se atormentada por saber “a ignomínia das vestes que actualmente cobrem o corpo do meu filho” (846-847); pensamento igualmente expresso por Xerxes sobre o estado de suas vestes reduzidas a farrapos (1017-1020). A imagem de um soberano andrajoso é paradigmática da derrota do guerreiro, mas, sobretudo, da ruína que afeta o rei e o seu povo.

O palácio real “rico de opulência e de ouro” (1-5) e também o exército “reluzente em ouro” (19) são emblemas de um povo que considera a riqueza e o aparato como sinônimo de poder e prosperidade. Os vários termos para designar a forma de vida utilizados em Os

Persas, especialmente “luxo” (544), “pompa” (609), “opulência” (03) e o conceito de

habrosyne, termo intraduzível que combina os sentidos de “suavidade, moleza”, “delicadeza”, e “falta de comedimento”, associam-se ao ethos bárbaro.215 Essa falta de “comedimento” e

“delicadeza” revelam-se, igualmente, nos lamentos exagerados do coro e do próprio Xerxes (910 sqq.), que exorta os seus súbditos a acompanhar com gemidos e soluços a “marcha solene e delicada” (1073).

Ainda que sob o anonimato e à distância, que só os presságios e sucessivos relatos tornam sensível, a imagem de uma Grécia que, pela sobriedade de costumes, coragem, ideal e estratégia, venceu um enorme inimigo é um contraponto permanente em Ésquilo. Agora, por sua vez, no papel do “bom selvagem”, a Hélade desfechava sobre os Persas um golpe que Ésquilo traçava como definitivo.

barcos sobre o Bósforo da Trácia. Assim como o filho, Dario subestimou o povo contra quem lutava e isso o levou à derrota.