Na sua opinião, como deve ser uma professora para dar aula para o primeiro ano?
Tabela 9 – Como deve ser a professora
Respostas Quantidade de crianças
Tem que ser muito legal para as crianças (1).
1
Não pode gritar porque a outra sala tá estudando (1); tem que falar baixinho: fica quieto! (1)
2
Tem que ser “brincador” com eles (1); fazer piadas para eles rirem (1); uma professora bem legal tem que brincar (1); deixar a gente brincar com brinquedos. (1)
4
Feliz (1); não mal (1); não brava (1); boa (1)
4
Não irritar e não bater em ninguém (1); não irritar as crianças (1).
2
Boazinha (1); muito boazinha (1); tem que ser boazinha (1).
3
Não colocar de castigo (2). 2
Dá lição (3). 3
Boazinha, ajudar as pessoas quando se machucam (1); ajudar as pessoas quando estão tristes (1).
As professoras, na perspectiva das crianças, precisam ser pessoas felizes, que as deixem brincar e que brinquem junto, calmas e boas. Ocupam também um lugar de ajuda quando as crianças estão tristes ou se machucam e têm o papel de ensiná-las a lição. Algumas crianças desaprovam gritos e castigos, apontando ambiguidades entre feliz e brava, boazinha e má, aquela que grita e aquela que fala baixinho. No trecho abaixo, resultado da entrevista com uma menina de seis anos, observa-se a leitura da criança sobre o papel da professora como alguém que cuida, brinca, mas que também cobra e ensina:
– Você está escrevendo por que quer ser professora? – perguntou-me T., uma menina falante que se sentou ao meu lado no recreio. Eu respondi que gostaria de ser professora. Ela começou a ditar uma série de requisitos necessários para quem quer ser professora:
– Educada, jovem, não falar alto com as crianças, só deve pegar no braço da criança com força quando a criança fizer bastante bagunça, tem que deixar as crianças sentadas, tem que dar tarefa, massinha, dar jogo todo dia, e divertir as crianças.
Ela perguntou se eu tinha entendido e continuou: “Tem que ajudar as crianças, cuidar das crianças muito bem, dar brinquedo, boneca para as meninas e carrinho para os meninos, e bloquinho de montar pode dar para os dois, não pode dar brinquedo todo dia, se não acostuma as crianças e elas enchem o saco da professora, não pode deixar as crianças fazerem o que quiserem, se elas derrubam as coisas, batem, dão soco, você leva para a diretora. Fala com a mãe e tira a criança da escola. Mas é a diretora que faz isso, não a professora! Entendeu?”. (Diário de campo, setembro, 2013).
Para essa criança a professora precisa ter algumas características que também aparecem na tabela anterior: calma, deixar brincar, ensinar e ajudar. No entanto, o relato apresenta a reprodução do que acontece a partir do repertório que a criança vive na escola. Professores que cobram disciplina deixam as crianças sentadas e separam o que é brinquedo de menina e de menino. Na visão da criança, se deixar brincar todo dia haverá um afrouxamento de regras e isso causa nas crianças o costume, e assim elas “enchem o saco da professora”. Ela ainda sinalizou como se deve punir as crianças que desobedecerem, pegando “no braço com força”. Demonstra conhecer a hierarquia presente na escola: falar com a mãe e tirar a criança da escola, na visão dela, é tarefa da diretora, porque a diretora tem mais poder que a professora.
Outra criança demonstra ter entendido o que precisa fazer para corresponder à expectativa da professora sobre ela:
“Para mim a professora é boazinha, para os outros não. Eles não fazem a lição e ficam virados para trás”. (Diário de campo, agosto, 2013).
As crianças também apontaram sobre suas preferências na escola, conforme tabela a seguir:
Tabela 10 – O que mais gosto na escola
Respostas Quantidade de crianças
Ter amigos (1); brincar com Natália, porque ela é legal (1); brincar com Lucas porque ele é legal (1); as melhores amigas são muito legais (1); brincar e nunca brigar (1).
5
Aprender a ler (3). 3
Brincar de pega-pega (5); jogar bola no recreio (1); brincar de fugir e pegar (1); jogar bola (1); brincar de pega-pega e nunca brigar (1); de pega-pega, brinco, me escondo (1); de pega-pega (1); brincar de mãe pega (1); brincar de tudo. Brincar de pega-pega (2); brincar com minhas amigas de correr (1); gosto de brincar de esconde-esconde (algumas respostas se repetiram).
15
De fato, as crianças vão à escola para brincar e interagir com os amigos. 65% delas respondeu ser o brincar o que elas mais gostam na escola, seguido de 22% que gostam de brincar com seus amigos e de 13%, que responderam que gostam de aprender a ler.
Ao responder sobre o que não gostam na escola, obteve-se o seguinte resultado:
Tabela 11 – O que não gosto na escola
Respostas Quantidade de crianças
De brigar (10); Ficar triste quando alguém briga com o outro (algumas respostas repetiram) (4).
14
Mudar de carteira (1). 1
De fazer muita lição (3). 3
De brincar no parquinho (1); brincar na areia (1); eu não gosto de brinquedo estragado (1); brincar na quadra (1).
4
De levar bronca (2). 2
Na tabela anterior, percebe-se a repetição de algumas temáticas, como a amizade e o brincar. As questões voltadas para aspectos da aprendizagem aparecem em 3º e 4º lugar. 13% dizem respeito ao excesso de tarefas e 8% às broncas. A importância que os amigos ocupam na vida das crianças aparece com força, já que 61% sinalizam não gostar das brigas. O brincar também ocupa papel de destaque em 17% das respostas.
Outro aspecto levantado com as crianças foi a lembrança que tinham da educação infantil:
Tabela 12 – O que lembro da educação infantil.
Respostas Quantidade de crianças
Da professora Regina, ela era legal (1); a
professora era legal (1). 2
Tinha aqueles negócios gigantes de brincar (1); bonecas (3); tenho saudade do parquinho, da areia que tinha escorregador, trepa-trepa, gangorra (1); eu gostava de brincar (2); lá tinha futebol, só tinha brincadeiras (1); gostava de brincar, de massinha (1); eu gostava de brincar lá fora (2); brincava muito (2). (Algumas respostas se repetiram).
13
Tinha muitos amigos (2); meus amigos (2); nunca batia em ninguém, a
professora mandava eu não bater e eu não batia (1).
5
Lá tinha um monte de sala, lá eu brincava e estudava (1); desenhar (1); a gente fazia chamada, sentava no tapete (1).
3
Nas lembranças das crianças sobre a educação infantil, o brincar aparece em 56% das respostas, 21% relacionam a lembrança às amizades, 13% se recordam de atividades pedagógicas como desenhar e estudar e 8% lembram-se da professora.
Uma menina, quando entrevistada, apontou seu entendimento sobre a diferença das duas etapas, educação infantil e ensino fundamental:
M.: “Na creche eu gostava de brincar de massinha, escorregador, mas gosto mais dessa escola porque aprende a ler, escrever e desenhar”. (Diário de campo, agosto, 2013).
Para ela, a formalidade do aprender a ler, escrever e desenhar está no ensino fundamental, o que, a seu ver, não acontecia na educação infantil. A criança pode estar sinalizando aqui a ruptura das duas etapas da educação, ao contrário do que seria uma relação de vislumbre de uma possível convergência entre as duas etapas, um lugar de um encontro pedagógico (MOSS, 2011).
Sobre o que deveria ter numa escola legal, as respostas foram extraídas da história contada a eles cujo texto apresenta uma cidade em que tinha tudo, menos uma escola legal para as crianças. O prefeito resolveu consultar as crianças da
escola pesquisada para saber o que deveria ter na escola de sua cidade, para que ela fosse bem legal Cruz (2008, p. 83).
Tabela 13 – O que precisa ter numa escola legal:
Respostas Quantidade de crianças
Motocas (2); escorregador (1); bateria para tocar música (1); parquinho (3); videogame (aqui não tem mais eu construí um com pedra, madeira e carrinho) (1); brinquedos (2); recreio (3); futebol; massinha (1); bicicletas;
brincadeira (1).
15
Papel para desenhar e escrever (1); sala para ler e desenhar (1); armário com livros (1); bastante pintura (1).
4
Lanche (1); balas, chiclete (1). 2
Ninguém ficar batendo (2). 2
Para 65% das crianças, em uma escola legal não pode faltar brinquedos e brincadeiras. Uma delas aponta uma solução para fabricação própria no caso de não ter alguns à disposição (aqui não tem, mas eu construí um com pedra, madeira e carrinho). 17% delas sinalizam a importância de ter estrutura para aprender, com salas de aula, armários e livros. 9% apontaram a importância da merenda e 9% repetiram o incômodo com as brigas, já sinalizadas nas tabelas anteriores.
Em síntese, respondendo à questão sobre a opinião das crianças sobre a escola, elas apontam que o brincar está em tudo o que pensam e fazem. Por mais que os adultos tentem arrancar delas, o brincar aparece com força na relação com a professora, nas lembranças da educação infantil, nas preferências sobre a escola e no modelo de escola legal. Podemos pensar que é um aspecto a se considerar com muita relevância nos planejamentos, nas relações interpessoais, nas concessões que precisam ser dadas para as crianças do primeiro ano do ensino fundamental de nove anos, conforme trecho do diário de campo:
Na sala de aula, é muito difícil identificar as brincadeiras infantis, porque as crianças brincam raramente nesse espaço. O dia do brinquedo é sexta-feira, apesar de que todos os dias nos quais visitei a sala de aula alguém
perguntava para a professora: “Hoje é dia do brinquedo?”. E os demais respondiam em coro: “Não, o dia do brinquedo é sexta-feira”. Não seria essa uma forma de dizer que estavam com vontade de brincar todos os dias? Por que reservar ao brinquedo apenas um pequeno espaço da semana? Há poder dos adultos sobre os desejos infantis, principalmente sobre o desejo de brincar entre pares. (Diário de campo, abril, 2013).
Para as crianças, essa escola é legal, mas apontam que gostariam de mais brincadeiras. Demonstraram atribuir grande importância ao brincar e isso reforça a importância das professoras aproximarem o brincar com a aprendizagem.
Na concepção das crianças sobre as professoras, alguns aspectos se sobressaem: elas valorizam adultos felizes e calmos. As crianças mencionam que sabem que o papel do adulto/professor é cuidar delas e ensiná-las. Dão importância a eles e ao que pensam delas, provavelmente por isso não gostam de levar broncas dos professores.
Sinalizam também que a amizade é muito preciosa em sua vida na escola, e a intensidade com que valorizam os amigos é colocada em relevo ao dizerem sobre suas insatisfações em relação às brigas que acontecem com frequência. Esta preocupação está relacionada à fragilidade da interação de pares e às várias possibilidades de interrupção da brincadeira e ao desejo infantil de preservar o controle sobre atividades compartilhadas (CORSARO, 2011, p. 161). As crianças fazem referências à afiliação, querem continuar a parceria com quem já estão compartilhando (2011, p. 161) e desenvolvem relações estáveis “como uma forma de maximizar a probabilidade de ingresso bem sucedido e a interação satisfatória com os demais” (CORSARO, 2011, p. 164).
Reconhecem que no ensino fundamental estão numa escola para aprender a ler e escrever, já que há uma diferença no que faziam antes na educação infantil. Estar no primeiro ano, em certa medida, dá a elas a sensação que já são grandes. Nas observações, pode se constatar esse fato na importância que dão para os cadernos e mochilas.
6.3.2 A opinião das crianças sobre o brincar e a amizade