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A análise dos fundamentos do duplo grau impõe o enfrentamento de questões altamente subjetivas as quais, segundo Orestes Nestor Laspro, na grande maioria, não gozam de respaldo científico.121
Apesar da referida subjetividade e do reconhecimento acerca da falta de base científica para se sustentar os motivos que a seguir serão expostos, é indispensável que os mesmos
119 Cf. Orestes Nestor, ob.cit., p. 79. 120 Ob.cit., p. 38.
sejam analisados sob o principal e irrefutável argumento de que revelam a possibilidade de o duplo grau permitir a concessão de uma tutela jurisdicional mais segura e justa.
Embora tal assertiva não goze de unanimidade, grande parte dos juristas reconhece no duplo grau uma garantia que confere mais segurança jurídica às decisões judiciais. A efetivação da segurança seria fruto, dentre outros, da propalada possibilidade de a decisão final ser revista por um órgão colegiado, hierarquicamente superior, composto de juízes com experiência profissional mais sólida. Além disso, tomando-se por base fundamentos de ordem psicológica e de caráter histórico, a revisão se faz necessária em razão da falibilidade humana e do natural inconformismo do homem quando se depara com uma decisão que lhe é desfavorável, a fim de buscar não apenas sua reversão, mas principalmente a superação da injustiça nela contida.122
Como se disse anteriormente, não se pode ter certeza de que a decisão proferida em segundo grau venha a ser mais correta que a proferida em primeiro, mas os argumentos antes expendidos revelam-se coerentes com a estrutura do Judiciário e, muitas vezes, acertados com base na experiência forense.
Ademais, pelo simples fato de o duplo grau autorizar o reexame da causa, isso ensejará uma análise mais detida das questões postas à apreciação judicial, o que vai ao encontro do desejo de se obter uma prestação jurisdicional mais justa, oferecendo-se maior segurança aos jurisdicionados.
Com peculiar clareza, leciona Barbosa Moreira que “a garantia de mais provável acerto resulta, principalmente, de uma circunstância especial: o controle exercido pelo juízo ad quem beneficia-se da presença, nos autos, de material já trabalhado, já submetido ao crivo do primeiro julgamento, e ao da crítica formulada pelas próprias partes, ao arrazoarem, num sentido e noutro, o recurso”. 123124
122 Sustenta o Prof. Alfredo Buzaid que “o sistema de controle e reexame da sentença por um tribunal superior resulta da natural contingência da falibilidade humana, e, uma vez que não é possível estabelecer uma verificação indefinida, procura-se um ponto de equilíbrio entre o desejo de melhorar a decisão per gradus e a necessidade de concluir o processo sem delongas. É certo que os tribunais de segunda instância também erram. Mas não é menos verdade que eles reúnem maior tirocínio e experiência, além da ilustração e cultura, adquiridas ao longo dos anos no exercício da função judiciária”. (Medina, Paulo Roberto de Gouvêa. Duplo grau de jurisdição e efeito suspensivo. In: Nery Junior, Nelson; Wambier, Teresa Arruda Alvim (Coord.). Aspectos
polêmicos e atuais dos recursos cíveis de acordo com Lei 9.756/98. São Paulo: RT, 1999, p. 484). 123 Comentários..., ob.cit., p. 236.
124 Esse também foi o argumento expendido por Luiz Machado Guimarães, quando afirma que “o tribunal do segundo grau dispõe de um elemento, de um quid novi com que não podia contar o de primeiro grau; este elemento novo consiste na própria experiência do primeiro julgamento, que já desbravou o terreno, já determinou quais os fatos relevantes e quais as provas úteis. No correr da demanda, a lide vai sofrendo como que um trabalho de erosão, mediante a eliminação de certas questões que se mostraram irrelevantes, ou se tornaram incontestáveis, de forma a se apresentar quase sempre ao tribunal de recurso encerrada em seus contornos mais
Mesmo entre os juristas italianos, que se posicionam geralmente em favor da ampliação de limitações ao duplo grau, encontramos o reconhecimento de que o duplo grau propicia maior segurança ao permitir o conhecimento de matérias já apreciadas e valoradas em primeiro grau. Nesse sentido, assevera Proto Pisani, utilizando-se das lições de Calamandrei: “il secondo giudice a minori probabilità di errare in virtù della possibilità di utilizzare quello che fu’ l’insegnamento del primo grado e valutarne i risultati; infatti il giudice d’appello giudica bene non tanto benché quanto perché il primo giudice ha giudicato male: anche l’errore è infatti uma tappa verso la verità’ (Calamandrei)”.125
O principal argumento para a sustentação do princípio é, segundo Ada Pellegrini Grinover, Antônio Carlos de Araújo Cintra e Cândido Rangel Dinamarco, de natureza política, levando-se em conta que nenhum ato estatal pode ficar imune ao indispensável controle. “O Poder Judiciário, principalmente onde seus membros não são sufragados pelo povo, é, dentre todos, o de menor representatividade. Não o legitimaram as urnas, sendo o controle popular sobre o exercício da função jurisdicional ainda incipiente em muitos ordenamentos, como o nosso. É preciso, portanto, que se exerça ao menos o controle interno sobre a legalidade e a justiça das decisões judiciárias. Eis a conotação política do princípio do duplo grau de jurisdição”.126 127
Atualmente, mesmo depois da Emenda Constitucional nº 45, que prevê o controle externo do judiciário, através do Conselho Nacional de Justiça, é perfeitamente possível afirmar que o duplo grau continua atuando de forma a permitir o controle interno das decisões judiciais. Apesar da criação desse sistema de controle externo a ser em breve implementado, cremos que o princípio em tela propicia o referido controle interno, na medida em que os magistrados, cientes de que suas decisões poderão ser reapreciadas nos tribunais, terão mais rigor na qualidade de seus trabalhos, cercando-se de maiores cuidados.
Segundo Jefferson Carús Guedes, trata-se do “fundamento político, representado pela segurança jurídica oferecida pelo reexame dos fatos e do direito aplicado, pela confiabilidade
restritos e reduzida aos seus elementos essenciais”. (in Estudos de direito processual civil. RJ-SP: Ed. Jurídica e Universitária, 1969, p. 217).
125 Lezioni di Diritto Processuale Civile, quarta edizione. Napoli: Jovene Editore, 2002, p.480. 126 Ob. cit., p. 74.
127 O argumento exposto, segundo Orestes Nestor Laspro, é, aliás, o único que não se baseia em critérios subjetivos, embora sustente que a função de promover o controle interno das decisões não deva ser perseguida pelo duplo grau.
dos novos julgadores e, ainda, pela possibilidade de um novo exame configurar-se como uma instância de controle hierárquico”.128
Quanto às desvantagens apontadas pelos doutrinadores para justificar a possível retirada do princípio de nosso sistema jurídico, podem ser citadas: a demora na prestação jurisdicional gerada pela utilização freqüente e indiscriminada de recursos, o que dificulta o acesso à justiça; o enfraquecimento da primeira instância, em razão de o recurso, sobretudo de apelação, ser comumente interposto, provocando, regra geral, a substituição da decisão do órgão a quo; insegurança jurídica, pela possibilidade de se obter decisões discrepantes emanadas do próprio Poder Judiciário, gerando dúvidas quanto à correta aplicação do direito.
Aqui no Brasil, não se costuma encontrar doutrinadores que defendam a extirpação total de tal garantia de nosso sistema jurídico, no entanto há quem defenda a criação de limitações ao duplo grau que permitam uma maior eficiência na prestação da tutela jurisdicional, tendo por base um procedimento mais célere.
Nesse sentido, sustenta Orestes Nestor de Souza Laspro que as inúmeras vantagens e desvantagens existentes na consecução do duplo grau são prova inconteste da necessidade de sua modificação. “Trata-se de mecanismo adotado sem maior reflexão, com base mais em aspectos históricos-políticos que jurídicos, no mais das vezes com base em uma alegada tradição. Representa obstáculo à eficiência da organização judiciária, na medida em que não se pode demonstrar, cientificamente, que atinja de modo eficaz a única meta para ser mantido, qual seja, a de que a decisão de segundo grau é “melhor” que a de primeiro”.129
Na Itália, onde a discussão em torno da manutenção ou não do princípio é ardorosa, Cappelletti mostrou-se radical ao defender a abolição do recurso de apelação daquele ordenamento jurídico, ao argumento de que o duplo grau violaria o princípio do acesso à justiça e seus consectários. Para o mestre italiano, a garantia constitucional do acesso à justiça deverá assegurar um procedimento célere, com observância dos princípios fundamentais da imediatidade, oralidade e concentração, o que não seria possível diante de dois juízos de mérito decorrentes da análise do pedido em primeiro grau e em segundo grau de jurisdição, o que se daria pela interposição de apelação, viabilizada pelo duplo grau.130
128 Duplo grau ou duplo exame e a atenuação do reexame necessário nas leis brasileiras. In: Nery Junior, Nelson; Wambier, Teresa Arruda Alvim (Coord.). Aspectos polêmicos e atuais dos recursos e outros meios de
impugnação às decisões judiciais – 6ª série. São Paulo: RT, 2002, p. 292. 129 Ob.cit., p. 117.
Apesar das calorosas discussões travadas sobre o tema em análise, entre renomados juristas pátrios e estrangeiros, é certo que o mesmo vem sendo assegurado expressa ou implicitamente na maioria dos ordenamentos jurídicos dos mais diversos países.131
Entendemos, pois, na esteira de Barbosa Moreira, que, “se no plano da lógica pura talvez se tornasse difícil demonstrar more geometrico a superioridade do sistema do duplo grau, é certo que na prática, até por motivos de ordem psicológica, se têm considerado positivos os resultados de sua adoção, como revela a consagração generalizada do princípio nos ordenamentos dos povos cultos, principalmente depois que a Revolução Francesa, apesar de forte resistência, o encampou”.132133
Feitas as considerações necessárias, somos pela manutenção do princípio até porque, além dos fundamentos expostos e das vantagens verificadas na sua adoção, cremos ter o mesmo sustentação constitucional, revelando-se como verdadeira garantia constitucional processual, conforme será adiante investigado. Nesse sentido, demonstraremos que o fundamento legal-constitucional é, sem dúvida, o mais importante para fundamentar o sistema do duplo grau.
2. Fundamento constitucional do princípio do duplo grau de jurisdição