2021-2022 ÖĞRETİM YILI DÖNEM III
KILIÇ YILDIRIM
M. Nur KEBAPÇI
As classificações construídas pelos constitucionalistas para explicar e sistematizar os princípios constitucionais têm se revelado distintas. Como o objetivo do primeiro capítulo é justamente traçar as diretrizes básicas para a compreensão do tema central que será oportunamente desenvolvido, não aprofundaremos o estudo em tela, restringindo-nos a mencionar as tipologias que, a nosso ver, melhor explicam os princípios.
Inicialmente, antes de passarmos a analisar algumas das classificações materiais dos princípios constitucionais, mister se faz destacar que os mesmos podem ser explícitos ou
58 A eficacia jurídica dos principios constitucionais. Rio de Janeiro: Renovar, 2002, p. 77. 59 Ob.cit., p. 69.
implícitos, conforme estejam ou não expressamente previstos na Constituição Federal. Sustenta Carlos Ari Sunfeld que “os princípios implícitos são tão importantes quanto os explícitos; constituem, como estes, verdadeiras normas jurídicas. Por isso, desconhecê-los é tão grave quanto desconsiderar quaisquer outros princípios”.60
A esse respeito, merecem também ser citadas as preciosas lições de Eros Roberto Grau que, ao fazer referência aos princípios que integram o sistema jurídico, afirma a existência de princípios explícitos, recolhidos no texto da Constituição ou da lei, e de princípios implícitos, “inferidos como resultado da análise de um ou mais preceitos constitucionais ou de uma lei ou conjunto de textos normativos da legislação infraconstitucional. Aí teremos, por exemplo, o princípio da motivação do ato administrativo (art. 93, X, da Constituição) e o princípio da imparcialidade do juiz (arts. 95, parágrafo único, e 5º, XXXVII, da Constituição)”.61 Para o autor, os princípios implícitos são descobertos em textos normativos do direito posto ou no direito pressuposto de uma determinada sociedade. Não são positivados, mas descobertos no interior do ordenamento, razão pela qual o “ato” de descoberta de um princípio latente em determinado ordenamento é simplesmente declaratório.62
O mestre português J. J. Canotilho divide e organiza os princípios em: (i) princípios jurídicos fundamentais; (ii) princípios políticos constitucionalmente conformadores; (iii) princípios constitucionais impositivos; (iv) princípios-garantia.63
Os princípios jurídicos fundamentais, também denominados gerais, são aqueles “historicamente objetivados e progressivamente introduzidos na consciência jurídica e que encontram uma recepção expressa ou implícita no texto constitucional. Pertencem à ordem jurídica positiva e constituem um importante fundamento para a interpretação, integração, conhecimento e aplicação do direito positivo”.64
Para exemplificá-los, faz referência ao princípio da publicidade dos atos jurídicos, ao princípio da proibição do excesso ou da proporcionalidade, princípio do acesso ao direito e aos tribunais – que seria o nosso princípio da inafastabilidade do controle jurisdicional ou princípio do acesso à justiça -, e também ao princípio da imparcialidade da administração, por nós denominado princípio da impessoalidade da administração pública.
“Os princípios politicamente conformadores são aqueles que explicitam as valorações políticas fundamentais do legislador constituinte. Nestes princípios se condensam as opções
60 Sundfeld, Carlos Ari. Fundamentos de direito público. 4ª ed. São Paulo: Malheiros Ed., 2000, p. 150. 61 Ob. cit., p.139.
62 Idem, p. 166.
63 Ob.cit., pp.1090-1093. 64 Ob.cit., p. 1090.
políticas nucleares e se reflete a ideologia inspiradora da constituição. Expressando as concepções políticas triunfantes ou dominantes numa assembléia constituinte, os princípios político-constitucionais são o cerne político de uma constituição política, não admirando que: (1) sejam reconhecidos como limites do poder de revisão; (2) se revelem os princípios mais diretamente visados no caso de alteração profunda do regime político”.65
A partir dos exemplos mencionados pelo autor, chega-se aos seguintes princípios constitucionais estruturantes, previstos na Carta Magna de 1988: princípio federativo, princípio republicano, princípio da separação de poderes, princípio do Estado de Direito, entre outros.
Nos princípios constitucionais impositivos “subsumem-se todos os princípios que, impõem aos órgãos do Estado, sobretudo ao legislador, a realização de fins e a execução de tarefas. São, portanto, princípios dinâmicos, prospectivamente orientados”. 66
São também denominados de “preceitos definidores dos fins do Estado”, “princípios diretivos fundamentais ou “normas programáticas, definidoras de fins ou tarefas”.
Seguindo o modelo português, exemplifica o autor com a referência aos princípios da “independência nacional” e “da correção das desigualdades na distribuição da riqueza e do rendimento”.67
Aqui se poderia fazer menção aos princípios previstos no art. 3º da Constituição Federal, quais sejam, princípio da livre organização social, princípio de convivência justa e princípio da solidariedade (inciso I), princípio da erradicação da pobreza e princípio da correção das desigualdades (inciso III).68
Por fim, destaca o ilustre jurista português que “há outros princípios que visam instituir direta e imediatamente uma garantia dos cidadãos. É lhes atribuída uma densidade de autêntica norma jurídica e uma força determinante, positiva e negativa. (...) Estes princípios traduzem-se no estabelecimento direto de garantias para os cidadãos e daí que os autores lhes chamem princípios em forma de norma jurídica (Larenz) e considerem o legislador estreitamente vinculado na sua aplicação”.69
Exemplifica, utilizando-se dos princípios da nullum crimen sine lege e de nulla poena sine lege e princípio do juiz natural.
65 Idem, p. 1092.
66 Idem. 67 Idem.
68 Cf. Ruy Samuel Espíndola, ob.cit., p. 221. 69 J.J. Gomes Canotilho, ob.cit., p. 1093.
No direito brasileiro, faz-se necessário destacar a doutrina de Luís Roberto Barroso, para quem os princípios constitucionais materiais devem ser classificados de acordo com o seu destaque no âmbito do sistema e a sua abrangência, em princípios fundamentais, gerais e setoriais ou especiais.70
Para o autor, “os princípios fundamentais expressam as principais decisões políticas no âmbito do Estado, aquelas que vão determinar sua estrutura essencial. Veiculam, assim, a forma, o regime e o sistema de governo, bem como a forma de Estado. De tais opções resultará a configuração básica da organização do poder político. Também se incluem nessa categoria os objetivos indicados pela Constituição como fundamentais à República e os princípios que a regem em suas relações internacionais. Por fim, merece destaque em todas as relações públicas e privadas o princípio da dignidade da pessoa humana (art. 1º, III), que se tornou o centro axiológico da concepção de Estado democrático de direito e de uma ordem mundial idealmente pautada pelos direitos fundamentais”.71
Seriam princípios fundamentais, portanto, aqueles previstos no art. 1º, da Constituição Federal: princípio republicano, princípio federativo, princípio de Estado democrático de direito e princípio da livre iniciativa, assim como o princípio da separação de poderes, previsto no art. 2º, do mesmo diploma.
Os princípios constitucionais gerais, apesar de não integrarem o núcleo das decisões políticas que conformam o Estado, na visão do autor, revelam-se como importantes especificações dos princípios fundamentais. São considerados desdobramentos dos princípios fundamentais, irradiando-se por toda a ordem jurídica. Possuem menor grau de abstração, motivo pelo qual tutelam direta e imediatamente as situações jurídicas que contemplam.72
Os exemplos podem ser encontrados, sobretudo, no art. 5º da Carta Magna, merecendo destaque os seguintes princípios: legalidade, liberdade, isonomia, juiz natural e devido processo legal.
Por fim, cabe destacar os princípios setoriais ou especiais que “são aqueles que presidem um específico conjunto de normas afetas a determinado tema, capítulo ou título da Constituição. Eles se irradiam limitadamente, mas no seu âmbito de atuação são supremos”.73 Por vezes, são considerados mero detalhamento dos princípios gerais, outras vezes são tidos por autônomos.
70 Cf. O direito constitucional e aa efetividade de suas normas, 7ª ed., p. 316-317. 71 Ob.cit., p. 317.
72 Ob.cit., p. 318. 73 Idem, p. 318.
Partindo dessa classificação, merecerão destaque no estudo a seguir desenvolvido, o princípio geral do devido processo legal e os princípios constitucionais especiais de Direito Processual, dentre os quais se posiciona o princípio do duplo grau de jurisdição. Esse princípio, como se verá adiante, é considerado por boa parte da doutrina pátria como sendo um princípio implícito setorial ou especial, derivado do princípio fundamental do Estado de Direito, do princípio geral do devido processo legal e/ou da inafastabilidade do controle jurisdicional.
5. Princípios constitucionais e o Direito Processual Civil