2021-2022 ÖĞRETİM YILI DÖNEM IV
M. Nur KEBAPÇI 6
O princípio do devido processo legal, embora pudesse ser extraído das Constituições brasileiras anteriores, veio pela primeira vez previsto expressamente na Carta Magna de 1988, em seu artigo 5.º, inciso LIV, onde se lê: “ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal”.
Segundo Arturo Hoyos, “modernamente, el debido proceso aparece vinculado al denominado constitucionalismo, el cual, dentro de sus muchas acepciones, aparece siempre ligado a la idea de un gobierno limitado, sobre todo, a través del derecho, ya que dicho principio, a través de una evolución histórico-política a la que nos referimos más adelante, há encontrado su sitio ne las constituciones modernas y democráticas como un derecho fundamental que no sólo garantiza la actuación del derecho material sino que impone límites importantes a la acción del Estado al punto de constituir un freno a la potencial acción arbitraria de éste frente a todas las personas sujetas a dicha acción. El debido proceso es, pues, un principio de fundamental importancia tanto en el plano jurídico, como en el político y el moral”.93
Seguindo a linha de pensamento do ilustre autor, sem aprofundarmos sobre tema tão vasto e rico, é imperioso ressaltar a importância do princípio do devido processo legal como sendo um dos sustentáculos do próprio Estado Democrático de Direito, na medida em que se inspira na proteção de valores supremos, tais como a vida, a liberdade e a propriedade, além de permitir a proteção ao direito fundamental à tutela jurisdicional.
Essa concepção, que vem evoluindo desde 1215, com a Carta Magna do rei João94, denominado “Sem Terra”, encontrou seu apogeu no Direito Norte-Americano, no qual se consagrou como garantia fundamental do cidadão, capaz de proporcionar segurança no convívio social e de assegurar a proteção do trinômio vida-liberdade-propriedade. É imperioso destacar que o surgimento da cláusula, inicialmente denominada law of the land, depois identificada por due process of law, objetivou a limitação do poder real, posteriormente o poder do Estado, revelando-se, desde então, como uma garantia contra abusos do Poder Público de forma a servir de base ao Estado de Direito.
93 La garantia constitucional del debido proceso legal. Revista de Processo. São Paulo: (Revista dos Tribunais, n.º 47: 43-91, p. 45.
94 A fonte do princípio em tela são os arts. 39 e 40 da Magna Charta Libertatum do Rei João, que dispunham: “Nenhum homem livre será detido ou sujeito à prisão, ou privado dos seus bens, ou colocado fora da lei, ou exilado, ou de qualquer modo molestado, e nós não procederemos nem mandaremos proceder contra ele senão mediante um julgamento regular pelo seus pares ou de harmonia com a lei do país”; “Não venderemos, nem recusaremos, nem protelaremos o direito de qualquer pessoa a obter justiça”. (Cf. Carlos Mário da Silva Velloso, in Temas de Direito Público, 1ªed., 2ª tiragem. Belo Horizonte: Del Rey, 1997, p. 224)
Conforme antes afirmado (item 4), trata-se de um princípio constitucional geral, sendo, portanto, um desdobramento dos princípios constitucionais fundamentais, que se faz presente nas constituições liberais-democráticas de todo o mundo.95
Além do garantismo inerente ao princípio em análise, o mesmo se revela como estruturante do próprio Estado Democrático de Direito, podendo-se afirmar que foi erigido, no nosso ordenamento, à qualidade de cláusula pétrea nos termos do que dispõe o art. 60, § 4.º, inciso IV, da Lei Maior.
Assevera, nesse sentido, Maria Rosynete Oliveira Lima que, “concebido o Estado brasileiro como Estado Democrático de Direito, o princípio do devido processo legal insere-se na idéia de democracia, como veículo da justiça e dos direitos fundamentais, estando à disposição, por exemplo, de cidadãos prejudicados, e outras minorias, apto a produzir uma mudança de política, e até uma mudança de poder. Opera-se uma modificação funcional do princípio que, de instrumento de defesa frente ao Estado, passa a elemento impulsionador da democracia frente ao respectivo governo”.96
O princípio do devido processo legal pode ser visto sob seu aspecto material (substantive due process) e processual (procedural due process). “A origem do substantive due process teve lugar justamente com o exame da questão dos limites do poder governamental, submetida à apreciação da Suprema Corte norte-americana no final do século XVIII. Decorre daí a imperatividade de o legislativo produzir leis que satisfaçam o interesse público, traduzindo-se essa tarefa no princípio da razoabilidade das leis. Toda lei que não for razoável, isto é, que seja a law of the land, é contrária ao direito e deve ser controlada pelo Poder Judiciário”.97
O princípio do devido processo legal, visto sob o ponto de vista processual (procedural due process), congrega em si uma série de garantias reveladas em princípios e normas que asseguram aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, o acesso à tutela jurisdicional a ser prestada de acordo com os ditames legais, preservados o contraditório, a ampla defesa, a igualdade, a publicidade, a motivação das decisões judiciais etc.
Destaca o prof. Nelson Nery Jr. que: “bastaria a norma constitucional haver adotado o princípio do due process of law para que daí decorressem todas as conseqüências processuais que garantiriam aos litigantes o direito a um processo e a uma sentença justa. É, por assim
95 Cf. Luiz Rodrigues Wambier. Anotações sobre o princípio do devido processo legal, in Revista de Processo, nº 63, pp. 54-63, p. 54.
96 Devido processo legal. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 1999, p. 187. 97 Nelson Nery Junior, ob.cit., p. 37.
dizer, o gênero do qual todos os demais princípios constitucionais do processo são espécies”.98
Com efeito, representa o mesmo um “conjunto de garantias constitucionais que, de um lado, asseguram às partes o exercício de suas faculdades e poderes processuais e, do outro, são indispensáveis ao correto exercício da jurisdição. Garantias que não servem apenas aos interesses das partes, como direitos públicos subjetivos (ou poderes e faculdades processuais) destas, mas que configuram, antes de mais nada, a salvaguarda do próprio processo, objetivamente considerado, como fator legitimante do exercício da jurisdição”.99
Em razão da importância que o princípio do devido processo legal possui no sistema jurídico pátrio e em virtude de representar, segundo doutrina majoritária, um princípio matriz que, sob o aspecto processual, congrega em si todas as garantias exigidas para a regular prestação da tutela jurisdicional, revela-se imperiosa a referência ao mesmo, ao se iniciar o estudo dos princípios processuais constitucionais.
No Brasil, aliás, grande parte dos estudos e comentários tecidos pelos juristas sobre o princípio em tela o traduz sob o enfoque estritamente processual, com vistas a revelar o seu sentido e quais as garantias processuais dele seriam decorrentes. É a partir dessa análise que encontramos, por muitas vezes, referência ao princípio do duplo grau de jurisdição como garantia processual decorrente do devido processo, tema a ser minuciosamente abordado em 2.2.2 deste trabalho.
98 Princípios..., ob.cit., p. 30.
99 Antônio Carlos de Araújo Cintra, Ada Pellegrini Grinover, Cândido Rangel Dinamarco, Teoria geral do
Capítulo II
O PRINCÍPIO DO DUPLO GRAU DE JURISDIÇÃO
1. Introdução: 1.1.Conceito; 1.2. Aspectos históricos; 1.3. Fundamentos para