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ULUSLARARASI ÇALIġMA ÖRGÜTÜ (ÜÇO)

H. ĠĢçi Lehine Düzenleme Serbestisi

II. ULUSLARARASI ÇALIġMA ÖRGÜTÜ (ÜÇO)

4.6 Propor desfazer infraestrutura

Uma possibilidade levantada na atual pesquisa, quanto ao futuro da infraestrutura autoconstruída e de todo o loteamento, é a remoção, ou seja, o desfazimento do que existe. Tal opção foi defendida pelo MPMG após ter sido procurado por um morador do Jardim Getsêmani. A situação irregular do loteamento apresentada pelo morador fez com que, em 2007, a promotora Marta Larcher da Promotoria de Justiça de Defesa da Habitação e Urbanismo ajuizasse uma Ação Civil Pública em face da Habiter e de sua presidente, da Hanovi e de seu presidente, advogado e arquiteto e do Município de Belo Horizonte (MINAS GERAIS, 2015). A razão para a elaboração da ACP foi a falta de aprovação do projeto urbanístico e de licenciamento ambiental que estava causando danos ao meio ambiente e aos compradores, os quais haviam adquirido os lotes de boa-fé. Além disso, as construções que estavam sendo feitas não obedeciam aos critérios técnicos exigidos pela legislação. As Associações, tidas como as principais culpadas pelas irregularidades existentes, deveriam ser responsabilizadas civilmente. Além de não terem aprovado o loteamento, as Associações Habiter e Hanovi o tinham abandonado. A PBH, segundo Larcher, estava tolerando a ocupação ‘anormal’ da área e havia contribuído para a implantação do empreendimento ao fornecer consultoria técnica e ao colocar órgãos municipais à disposição dos loteadores. Tal postura teria dado uma aparência de legalidade ao loteamento e incentivado a compra dos lotes.

Diante desse quadro, os pedidos apresentados pela ACP incluíram a paralisação das propagandas e da venda dos lotes, a recuperação ambiental das áreas afetadas pelas intervenções e, por fim, o desfazimento do loteamento no prazo de um ano com a remoção das ‘construções clandestinas’ e a indenização dos moradores pelos danos materiais e morais sofridos (MINAS GERAIS, 2015).

Em sua defesa, a PBH alegou que não houve omissão do município e que tentou coibir a implantação do empreendimento. Diante da interrupção do processo de aprovação por parte dos loteadores, a PBH efetuou uma série de ações fiscais como medidas coercitivas e todas as demais providências legais cabíveis. Logo, ela não poderia ser responsabilizada pelos danos causados por terceiros ao meio ambiente (MINAS GERAIS, 2015).

Hanovi, por sua vez, salientou que o loteamento, mesmo com suas eventuais deficiências, abrigava centenas de famílias. Sua defesa foi sustentada no direito social à moradia, evocando o artigo 6º da Constituição Federal. Hanovi defendeu que, tanto a regularização habitacional e urbanística, quanto a proteção ao meio ambiente são direitos que

não deveriam ser tratados como superiores ao direito social da habitação e que o loteamento em questão é de ampla função social por garantir moradia. Sendo assim, o pedido do MPMG pelo desfazimento do empreendimento erradicaria um direito fundamental, indo contra a Constituição Federal. Para a Associação, o caso do loteamento Jardim Getsêmani poderia ser resolvido pelo município sem a expulsão dos moradores e sem a demolição das casas, o que iria apenas agravar a situação (MINAS GERAIS, 2015).

A sentença dada, em 2014, pela juíza Luzia Divina de Paula Peixôto da 6ª Vara da Fazenda Pública Municipal julgou procedente parte dos pedidos feitos na ACP. A juíza reconheceu que o loteamento descumpre a legislação municipal e federal aplicável e que os lotes foram comercializados sem a devida autorização da PBH e sem o registro do loteamento no cartório. Para a juíza, a ordem urbanística, o meio ambiente e também os compradores sofreram prejuízos, pois estes não sabiam que se tratava de um loteamento irregular. Contudo, Peixôto julgou improcedentes os pedidos em relação à PBH, que teria adotado todas as medidas possíveis e necessárias para impedir a implantação do empreendimento. Quanto ao pedido feito pelo MPMG de desfazimento do loteamento, a sentença afirmou que isso causaria maior prejuízo e, como alternativa, a juíza defendeu a regularização do loteamento, garantindo a permanência dos moradores. As Associações Habiter e Hanovi, seus presidentes e advogado deveriam promover a regularização e parcelamento de acordo com a legislação no prazo de 180 dias e a recuperação ambiental da área; publicar a decisão em jornais de grande circulação e pagar os honorários periciais (MINAS GERAIS, 2015).

A remoção do loteamento foi defendida pelo MPMG a fim de cessar os danos causados ao meio ambiente e possibilitar a recuperação da área, ou seja, não ocupar para preservar. Contudo, a remoção implicaria a ocupação de outro lugar pelos moradores, podendo ser outra área de proteção ambiental ou então um lugar que, supostamente, não precisasse de proteção. Para Carvalho (2001), todo o território nacional deveria ser uma área de proteção, pois

partes aparentemente imprestáveis do território urbano têm funções nobres a cumprir, e se tais partes são relegadas, nelas se instalam os processos de degradação que determinam o mau desempenho do aparelho urbano (CARVALHO, 2001, p. 135).

Desse modo, transferir os impactos de uma área protegida para outra qualquer não seria uma solução coerente numa análise ambiental sistêmica. A relação utilitária com o meio ambiente deveria ser evitada em toda a cidade, e não apenas em alguns pontos. O desafio seria investigar outras formas de produção do espaço que fossem respeitosas com a cidade e seus

atributos naturais, incorporando-os ao cotidiano urbano, e não os isolando em áreas delimitadas e desarticuladas com a vida urbana (SILVA, 2013). Em seu estudo sobre favelas, Silva (2013, p. 36) afirma que, “frente às evidências da crise ambiental, esses territórios [favelas] são, justamente, aqueles que exibem hoje qualidades que, crescentemente, são apercebidas pela sociedade como imprescindíveis à melhoria do ambiente urbano”. Segundo a autora, isso acontece porque os traços originais do lugar não são totalmente alterados e desfigurados.Cursos d’água em leito natural (mesmo que poluídos) e não trânsito de veículos em áreas de maiores declividades são exemplos de aspectos importantes para o meio ambiente que se fazem presentes em favelas e também no Jardim Getsêmani.