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Fonte: Elaborado pela autora 4.5 Manter infraestrutura

A infraestrutura autoconstruída na rua Jasmin está em permanente transformação. Há ações de manutenção realizadas e outras somente planejadas. A pavimentação, antes feita de concreto, foi substituída por uma de asfalto e ampliada para outras partes da rua. Com as chuvas e o trânsito de veículos, a pavimentação se desgasta e os buracos e a lama voltam a aparecer. Por isso, os moradores continuam se mobilizando para refazer o asfalto.

Atualmente, por conta da chamada ‘crise hídrica’, Daniel cogita a hipótese de fazer uma cisterna em seu lote e Sílvio planeja reutilizar a água da chuva para lavar o carro e regar o jardim. Quanto à rede elétrica, o plano dos moradores entrevistados é substituir os postes e

fios existentes por outros mais grossos. O intuito é reduzir a quantidade de fios no trecho inicial da rua Jasmin e garantir que os postes fiquem mais firmes no solo. Alguns postes novos já foram instalados e outros estão reservados para isso (FOT. 9).

Fotografia 9: Poste a ser instalado na rua Jasmin

Fonte: Arquivo Pessoal

A manutenção da rede elétrica, quando envolve a rede de alta tensão, não é feita pelos próprios moradores, pois exige uma mão de obra especializada. A rede de energia elétrica de André, por exemplo, incendiou no ponto em que conectava com o poste da Cemig. Para resolver o problema, André chamou um colega que trabalhava na concessionária e tinha todos os equipamentos necessários para realizar a manutenção, inclusive a escada de acesso. O rapaz refez a conexão. André descreveu a situação dizendo:

Achei o problema no poste. Um fogaréu. “O quê que eu vou arrumar? Não sei mexer com isso”. Lembrei de um chegado [colega] que trabalha na Cemig. Tava com caminhão da Cemig e tudo. Falei o problema. “Você pode cobrar. Não cobra caro, mas uma taxinha do seu agrado. Tem como você me ajudar? Se for pra te dar problema, não precisa nem mexer”. O pessoal que paga [conta da Cemig] começa a ripar “eles nem pagam e a Cemig já chegou?”. Ele [o colega] falou “O que eu estou fazendo demais? A Cemig sabe do problema”. Emendou tudo direitinho, fez a conexão, travou com a presilha. Aí não ia dar problema. Se fosse dar problema seria lá pra baixo. Aí “vamos tirar pelo menos 50 reais cada um. Nós não sabemos fazer. E o cara ajudou a gente em pleno sábado”. Todo mundo ficou satisfeito. (André)26.

O problema foi causado por um pássaro que encostou um pedaço de ferro no fio da rede elétrica enquanto fazia seu ninho. O rapaz da Cemig não via problema em atuar naquela

situação. As três casas que utilizam a rede contribuíram financeiramente para remunerar o trabalho.

A tensão entre as concessionárias, os moradores do loteamento e os moradores da parte regularizada do bairro se manifestou nesse e em outros momentos. Em um episódio ocorrido em 2010, a Cemig desfez as ligações clandestinas do Jardim Getsêmani em um poste que alimentava o bairro Jardim Vitória. Segundo Carla, os fios eram muito finos e, por isso, os ‘gatos’ incendiavam recorrentemente. Isso prejudicava não somente o loteamento, mas também a parte regularizada do Jardim Vitória. A ação da Cemig deixou parte do loteamento sem energia elétrica por alguns dias, levando os moradores a protestarem. Para amenizar o problema, André relatou que a Cemig instalou um transformador nesse poste e os ‘gatos’ começaram a ser feitos com fios mais grossos. Além disso, para não sobrecarregar esse ponto, os moradores começaram a usar outros postes como fonte de energia.

Em outro momento, durante uma visita de campo ao bairro, evidenciou-se o conflito em torno do abastecimento de água clandestino. Um ‘gato’ de água limpa feito na rua Augusta Sacchetto Scalzo estava vazando. Enquanto um morador do Jardim Getsêmani tentava concertar, funcionários da Copasa o advertiram para que não houvesse desperdício e, ao mesmo tempo, doaram um tubo de, aproximadamente, dois metros de comprimento. Transeuntes que estavam observando a situação diziam frases como “tinham que proibir os gatos”, “acho uma pouca vergonha roubar água assim”, “tinham que regularizar tudo”. No dia seguinte, o vazamento já havia sido reparado pelo morador.

As redes de esgoto autoconstruídas também são constantemente reformadas. A rede de Sílvio (rede 3) precisou de manutenção após ter sido quebrada por um trator que transitou pela rua e deixou os tubos aparentes. A solução encontrada foi aumentar a profundidade da rede. Sílvio arcou sozinho com os custos disso, sendo a mão de obra remunerada. Desde então, o morador não teve mais problemas.

A rede de esgoto feita de manilhas de concreto (rede 1), como já foi apresentado, é alvo de ampliação e manutenção. Recentemente, no início de 2015, houve um problema na rede que, segundo Carla, foi causado por um caminhão que, ao passar na rua, forçou um pedaço de entulho e perfurou uma manilha. Cláudio atribui o incidente à água limpa que estava vazando no lote adjacente à rede de esgoto. Para ele, o vazamento da água amoleceu o solo embaixo da rede de esgoto e, quando o caminhão passou, a manilha quebrou por não ter uma base firme. A manutenção foi feita pelos próprios moradores. O intenso fluxo de águas residuais da rede não permitia que André e Cláudio vissem a manilha. Com a ajuda do irmão de André, eles conseguiram desviar o fluxo do esgoto desde a caixa de passagem, limpar a

área e ver onde estava quebrado. Eles compraram um tubo de PVC de 200 milímetros para substituir a manilha. Então surgiu o questionamento de como deveria ser feita a junção entre as manilhas e o tubo de PVC. Na parte à jusante, colocaram o tubo dentro da manilha. O mesmo não poderia ser feito à montante para que o esgoto não vazasse entre o tubo e a manilha. Novamente o irmão de André ajudou sugerindo que eles usassem um cone de sinalização. Eles conseguiram a doação de um cone de borracha, que se adaptou bem ao tubo e à manilha: o bico do cone ficou dentro do PVC e a parte mais larga abraçou a manilha à montante. Em seguida fizeram a vedação com argamassa. Para que a argamassa secasse bem, não cobriram a rede com terra, mas colocaram uma grande pedra tampando o buraco e impedindo que os veículos passassem por cima da rede e a danificassem (FOT. 10). No fim, Cláudio recolheu dinheiro de todos os moradores que utilizam essa rede para arcar com as despesas.

Fotografia 10: Pedra que protege a rede de esgoto 1