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Fonte: Diário do Rio Claro, de 23/02/1932.

Antes de publicar o convite acima, a redação do Diário do Rio Claro havia veiculado, na mesma edição, duas notas paralelas sobre a ramificação da FNB em Rio Claro. Destas, a primeira chamava a atenção para a existência de negros frentenegrinos paulistanos “intelligentes e de preparo”. Já a segunda recomendava, explicitamente, que os negros “imitassem os brancos”, para que então pudessem alcançar êxito no desenvolvimento de sua nova organização na cidade (Diário do Rio Claro, de 23/02/1932).

O convite de que se trata possibilita visualizar, nitidamente, que a FNB foi um elo de conexão entre negros rioclarenses e negros paulistanos, já no início dos anos 1930. Esse mesmo documento também permite constatar que havia, na cidade, uma organização negra que precedia a potencial FNB rioclarense, de nome 28 de Setembro – à qual nos referiremos mais adiante.

De acordo com nota do Diário, a reunião dos “homens de cor”, pautada na organização da Delegação da FNB em Rio Claro, “realisou-se bastante concorrida (...) na séde da Sociedade Dansante 28 de Setembro”, a 23 de fevereiro de 1932. Na ocasião, Aristides dos Santos, apontado pelo jornal como “uma das personalidades negras de mais destaque” de Rio Claro, falou da

“necessidade de se congregarem todos os seus irmãos de raça em torno da Frente Negra Brasileira”, instituição que aparece descrita como a “bandeira redemptora” que garantiria e pleitearia “os direitos dos negros no Brasil”. A nota destaca, ainda, que os senhores Hygino de Arruda, Aristides de Assis Negreiros e José Ignacio do Rosário se pronunciaram na reunião, no geral chamando a atenção para o valor que o trabalho do negro conferiu ao Brasil, para a importância de personalidades negras abolicionistas tais como José do Patrocínio e Luiz Gama, e também para a necessidade de instruir “moral e intellectualmente” os negros da nação (Diário do Rio Claro, de 25/02/1932).

Instruir em moral e em intelecto o negro brasileiro, para o “alevantamento” da raça: eis a tônica da Frente Negra Brasileira. Mais especificamente após a revolução de 1930 é que se pôde assistir o surgimento de um “novo” negro, porta-voz de um protesto racial moderno, sintonizado com as transformações que o novo momento político estabelecia no país. Assim, no contexto brasileiro, os anos 1930 representam um divisor de águas no tocante ao formato da atuação e do pronunciamento negros. Há, então, um posicionamento incisivo desses atores contra o tradicionalismo que há séculos moldara as relações entre brancos e negros no país, e uma ânsia para resgatar o negro do estado social de “desumanidade” em que se encontrava. Esse negro moderno via rompidas as algemas e o modus operandi da escravidão, assumindo a roupagem de uma modernidade urbana e chamando para si a responsabilidade tanto da denúncia do mito da democracia racial brasileira, quanto da organização coletiva negra em favor da mudança5. Ademais, como

pontua Andrews,

a suposição de que a política era exclusivamente uma atribuição da elite – e da qual o povo estava rigorosamente excluído – foi seriamente questionada durante as décadas de 1910 e 1920 e agora parecia ter sido derrubada pela Revolução de 1930. Juntamente com os trabalhadores brancos e com a classe média branca, os negros clamaram para ser incluídos na participação política mais ampla que aquela revolução parecia pressagiar

(Andrews, 1988, p.230).

No início de março de 1932, a ramificação da Frente Negra Brasileira em Rio Claro publicou nota informando que José Ignacio do Rosario acabava de ser nomeado Delegado Especial da Frente Negra Brasileira de Rio Claro-SP, “com poderes amplos para formar o Conselho Auxiliar da mesma associação”. De acordo com a publicação, José Ignacio, na época soldado oficial da Força Pública Estadual e ex-comandante de destacamento da polícia em Rio Claro, havia sido nomeado delegado pelo “Grande Conselho da Frente Negra Brasileira” de São Paulo. Ainda em consonância com a nota, essa nomeação trazia “poderes especiaes para o mais prompto incremento da raça” (Diário do Rio

Claro, de 03/03/1932).

Em informe assinado pelo secretário geral da Frente Negra Brasileira em Rio Claro, Aristides Assis Negreiros, consta que a sede da associação havia sido instalada à rua 4, número 94 (atualmente centro da cidade). Nesse endereço seria oferecido expediente entre 11h e 20h, diariamente (Diário do Rio

Claro, de 05/03/1932).

No dia 15 de março de 1932, a Delegação da Frente em Rio Claro receberia o “sr. dr. Benedicto Gomes Pinto, um dos membros do Grande Conselho da Frente Negra Brasilera” de São Paulo. Eram convidados dessa reunião, que se realizaria na sede do Guarany Futebol Clube de Rio Claro (região central da cidade), “todos os associados e os elementos da raça em geral” (Diário do Rio Claro, de 15/03/1932). Esse convite aponta, uma vez mais, para a existência de um elo identitário entre negros interioranos e negros metropolitanos – ressalte-se, numa época na qual os meios de comunicação estavam longe de oferecer possibilidade de comunicação em tempo real, como nos dias atuais.

De acordo com informe de 9 de abril de 1932, a diretoria da Frente Negra em Rio Claro estava assim constituída:

Delegado Especial: ... José Ignacio do Rosario

Presidente: ... Telesforo J. Alcantara Moreira

Secretário Geral: ... Aristides Assis Negreiros

Secretário Geral: ... Aristides Silva Moreira

Tesoureiro: ... Salvador José Silva

Tesoureiro: ... Saturnino Gabriel Corrêa

Cabo Distrital e 1º Procurador: ... Benedicto Campos Pires

Procurador: ... Messias Franco Arruda

Oradores: ... diversos [não aparecem nomes]

Conselho: Mario Damaso, Agenor Rosa, Amaro Faria, Leoncio Victor de Jesus, Jesuino Negreiros, Feliciano Adolpho, José Silva, Lazaro Alves, Francisco Eloy, Urbano Henrique, Agenor Sant’Anna, Manoel Domingues, José Sirino Silva, Benedicto Pires; Orador e Mesário: V. Dumas de Assis (Diário do Rio Claro, de 09/04/1932).

Iniciando suas atividades, a Delegação da Frente Negra em Rio Claro tornava público, em abril de 1932, o seguinte comunicado:

Documento 5 – APPELO ÁS DISTINCTAS

Benzer Belgeler