TARTIùMA, SONUÇ VE ÖNERøLER
5.1. TARTIùMA VE SONUÇ
Fonte: Diário do Rio Claro, de 23/02/1936.
Assim como ocorrido em 1935, as sociedades carnavalescas brancas disputariam uma taça diferente da que seria disputada entre as sociedades carnavalescas negras em 1936. Como se verifica no documento acima, tanto a taça dos pretos quanto a taça dos brancos foram estrategicamente exibidas na Casa Estrella, loja local que, na época, comercializava artigos carnavalescos diversos. Mas, pouco antes de exibir em suas vitrines as referidas premiações, a mesma loja havia publicado o seguinte anúncio:
Documento 17 – EMPREGADA
Fonte: Diário do Rio Claro, de 05/01/1936.
O tipo de comportamento da Casa Estrella é um reflexo do caráter ambíguo do padrão de relações raciais à brasileira. Os anúncios publicados fazem ver que, na referida casa comercial, o negro seria “bem-vindo” em uma situação circunstancial, passageira, qual seja, a da premiação carnavalesca (e
possivelmente como consumidor, do que cabe desconfiar). Em contrapartida a loja repelia a mão-de-obra negra, ou seja, a presença negra regular no local, primando assim pela conhecida regra tácita da “boa aparência” no mercado de trabalho, tão comumente aplicada no contexto brasileiro.
Terminado o carnaval de 1936, tanto o Diário quanto o Cidade noticiaram várias vezes o quão brilhante e singular havia sido o tríduo carnavalesco em Rio Claro – chegando o primeiro a declarar que, naquele ano, “Rio Claro assistiu e viveu o seu melhor e mais bello carnaval!” (Diário do Rio Claro, de 27/02/1936). No geral, os elogios que a imprensa rioclarense direcionou às organizações negras que participaram do carnaval local de 1936 podem ser sintetizados por meio do seguinte trecho:
Os Cordões
Os cordões apresentados pelas nossas enthusiasticas sociedades de côr foram muito apreciados, não só pela correcção com que se apresentaram, todos muito bem vestidos, com finas phantazias, sobresahindo-se em elegantes trajes as suas respectivas rainhas que se faziam acompanhar das damas de honra como em relação ás dansas que executavam durante o desfile. Os balisas estiveram estupendos ... (Diário do Rio Claro, de 25/02/1936).
Entre as “sociedades de cor” teve destaque a Progresso da Mocidade, ganhadora da taça Tenentes do Diabo. Após o fim do tríduo carnavalesco, a campeã negra Progresso da Mocidade realizou um baile no qual batizou suas duas taças de carnaval (obtidas, respectivamente, nos carnavais de 1935 e 1936), em cerimonial que contou com a presença das madrinhas negras Sebastiana Pedro e Lourdes Calixto. Para prestigiar a solenidade, chegou a Rio Claro, de trem, uma caravana de congêneres oriunda da cidade de São Carlos-SP (Cidade de
Rio Claro, exemplares de abril de 1936).
Em maio de 1936, uma comissão composta por “Isidoro Joaquim Mariano, Saturnino Gabriel Gouvêa, José de Mello, Benedicto Botão, Lazaro Miguel e João Gabriel” organizava os festejos locais do 13 de maio, que ocorreriam no largo de São Benedito, como nos anos anteriores. Tanto para a missa “em homenagem a excelça Princeza Izabel, redemptora da abolição”,
quanto para “o grande Samba”, eram convidados “todos os homens de cor”, o “povo em geral” e “as dignas familias e autoridades” de Rio Claro. “Como todos os annos”, também em 1936 o “samba do 13” atravessou a madrugada
(Diário do Rio Claro, de 10 e 13/05/1936).
Cabe centrar a atenção na matéria intitulada “Samba”, publicada pelo
Cidade de Rio Claro na ocasião de 13 de maio de 1936:
Samba
13 de maio, mesmo não sendo [mais] dia feriado, continua a ser o dia do negro brasileiro.
É o dia que assignala a redempção de uma raça opprimida: os escravos.
Por isso é festejada, com “modas” typicas, um tanto alegres e tristes, o complexo sentimental afro-brasileiro.
O samba è bem a explosão da alma do negro, quando ainda das senzalas.
É uma explosão que ficou, resistindo até os nossos dias, mas que vai perdendo terreno.
Dia virá em que elle desappareçá, por completo, porque no Brasil, ao contrario, da Norte America, não ha o “problema negro”.
É da escravidão que nasce a revolta. E o negro brasileiro não ganhou a liberdade physica para perder a moral.
Não vive em bairros, afastado do branco, como acontece no Tio Sam.
Si o samba, de todo anno, por occasião do 13 de maio, ainda é quasi o mesmo do tempo da escravidão, é, tão sómente, por tradição.
Commemorando essa grande data, o negro de hoje [é] fiel aos ancestraes [e] ao sangue que lhe corre nas veias.
(Cidade de Rio Claro, de 13/05/1936).
A matéria mostra que o esforço do populismo dos anos 1930 para transformar os símbolos de matriz africana em patrimônio da identidade nacional não liquidou as atitudes racistas e preconceituosas que eram dirigidas, por exemplo, à musicalidade negra. A afirmação de que, no futuro, o samba desapareceria, traduz um ideal de branqueamento cultural da nação, e não uma previsão despretensiosa e neutra por parte de quem escreveu. Em outras palavras, o autor está dizendo: “calma, população rioclarense! A barbárie africana, personificada no maldito samba, se arrastou da escravidão até aqui, mas está com os dias contados. Nós, aqui, estamos livres do problema negro
que assombra os Estados Unidos. Portanto, a assimilação total dos negros pelos brancos se consumará, não se preocupem”. Esse raciocínio deve ser entendido dentro de um contexto que ultrapassa o plano local: no Brasil como um todo, à medida que se tentava completar a transição dos símbolos culturais marcadamente negros da marginalidade para a aceitação nacional, recrudesciam ideologias “progressistas” embasadas no apagamento de tudo aquilo que remetesse ao “atraso africano”.
Depois do tríduo carnavalesco e dos festejos do “13”, em 1936, os negros de Rio Claro continuaram a desenvolver um calendário repleto de atividades. Dentre estas tiveram destaque as partidas dançantes, que freqüentemente envolviam caravanas de associações negras de outras cidades do interior paulista. Boa parte desses bailes era animada pelo requisitado jazz
band Batutas Rioclarenses, grupo musical composto exclusivamente por