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Esta pesquisa objetivou analisar as possibilidades de empoderamento das mulheres que participavam do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), por se considerar que as práticas mercantis instituídas por este Programa do governo federal, bem como o reconhecimento por parte deste da condição da mulher produtora rural cadastrada possibilitariam a implementação de novos habitus de gênero, oportunizando

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O quadro de análise 3 foi adaptado do modelo utilizado por Zorzi (2008) quando a autora analisou o empoderamento das mulheres agricultoras de Ijuí-RS via acesso à política pública do Pronaf Mulher.

o empoderamento da mulher nos âmbitos público e privado. Duas hipóteses foram elaboradas para responder a questão desta pesquisa, que envolve o empoderamento da mulher agricultora promovido pela sua inserção econômica advinda da participação no PAA. A primeira hipótese se alicerçou na perspectiva de que a participação da mulher socializada em uma sociedade rural, marcada por uma cultura política com poder de mando centralizado, traria como consequência a lenta transformação da sua postura de submissão e passividade, mesmo mediante a sua participação em atividades de negociação e reconhecimento público da sua condição de produtora. Já a segunda hipótese afirmava que as possibilidades de empoderamento da mulher agricultora estariam relacionadas às oportunidades sociais, como serviços de educação, saúde, e participação econômica. Assim, o PAA se constituiria em uma forma de empoderamento público e privado para as mulheres que dele participavam, em virtude da ampliação da sua autonomia econômica e do maior domínio da sua condição de cidadã.

A perspectiva teórica do empoderamento individual vincula as dimensões do poder do indivíduo à expansão das suas liberdades substantivas, considerando que as mesmas, ao atuarem na capacidade do indivíduo, o tornam capaz de desenvolver a sua condição de agente. Já a concepção coletivista compreende o empoderamento como o processo pelo qual indivíduos, organizações e comunidades angariam recursos que lhes permitam ter voz, visibilidade, influência e capacidade de ação e decisão, tendo os sujeitos poder de agenda nos temas que afetam suas vidas.

Ao considerar estas duas perspectivas de empoderamento, a individualista e a coletivista, percebemos que as agricultoras barbacenenses, apresentavam características de empoderamento em sua dimensão privada, relacionado a essas possibilidades: a) controle contraceptivo; tomadas de decisões familiares compartilhadas, tanto na questão da renda, quanto na educação dos filhos; b) baixo índice de violência doméstica; aspectos relacionados às políticas públicas de distribuição de renda e acesso ao recebimento dos benefícios previdenciários. No que diz respeito às variáveis: renda familiar, bens móveis e bens imóveis, estes foram sempre percebidos a partir da centralidade da família e não como algo do indivíduo. Assim, no que diz respeito ao empoderamento privado, o Estado se constituiu no maior promotor das condições de individualidade e independência da mulher, confrontando-se com as práticas patriarcais arraigadas nos costumes comungados por homens e mulheres das comunidades rurais de Barbacena.

Observou-se que a participação na política pública do PAA vem orientando mudanças no seio das famílias das comunidades rurais estudadas. À luz de algumas questões, ficou evidente que, no âmbito privado, esta política pública vem promovendo melhorias no modo de vida das mulheres e de toda a família, uma vez que a pesquisa empírica sinalizou que o PAA aumentou o poder econômico das famílias, dinamizando o escoamento e a venda dos produtos rurais. O fato de 75% da renda da família estar sendo utilizada para aquisição de bens para a casa e a família sugere a existência de decisões compartilhadas, oriundas do consenso cooperativo, conceito apresentado por Sen (2004), como expressão de um ganho expressivo de poder por parte das agricultoras, que opinam e participam do direcionamento da renda familiar. Os dados da pesquisa evidenciaram que as famílias rurais estudadas estavam adquirindo eletrodomésticos, equipamentos diversos, automóveis, motocicletas, tendo acesso à rede mundial de computadores, acesso à telefonia móvel, enfim estavam buscando novas formas de aquisição de bens voltados para a ampliação do conforto e do bem-estar da família.

Dos dados analisados referentes à variável escolaridade das agricultoras pesquisadas, evidenciou-se que 58% delas realizaram seus estudos até a antiga 4ª série primária e 39% delas estudaram para além desta série. Com isto elas possuem capacidade de compreensão e uso social da leitura e da escrita, que as permitem ler, escrever, compreender e interpretar documentos. Tal condição é uma importante ferramenta na obtenção da condição de agente da mulher, conforme apontou Sen (2004). Ressaltou-se ainda, nesta abordagem da análise, que algumas agricultoras manifestaram interesse em alcançar melhoras nas perspectivas educacionais, participando das políticas públicas de retomada dos estudos e ampliação da escolaridade.

No que diz respeito ao controle contraceptivo e ao planejamento familiar, estas foram variáveis que se destacaram em termos de indicadores de empoderamento privado das agricultoras barbacenenses, visto que 73% destas utilizaram técnicas de planejamento familiar, 81% usavam métodos contraceptivos, além da média de filhos por família ser de 1,6%. Quanto aos dados sobre a violência doméstica, estes apontaram que 90% delas denunciariam se vissem uma mulher sofrendo violência doméstica. Estes são fatores que evidenciam facetas de empoderamento das agricultoras segundo as concepções teóricas defendidas por Sen (2004). O controle contraceptivo, o planejamento familiar e o baixo nível de violência são ganhos de poder por parte das mulheres, obtidos por vias psicológicas, alicerçados no fortalecimento da autoestima e

da autoconfiança. Os dados apontaram que somente 6% (opinião masculina) e 16% (opinião feminina) das agricultoras pesquisadas atuam nas atividades de venda. Com isto, a autonomia destas agricultoras ficou comprometida, devido à não inserção delas nas atividades de cunho econômico. Para que as agricultoras avançassem nas questões econômicas seria necessário a implementação de uma cota específica, para as mulheres nas políticas públicas direcionadas para o campo, como o PAA e uma certidão de aptidão (DAP jurídica) em separado para a agricultora e outra para seu esposo. Sendo assim, em termos de empoderamento econômico, o recebimento dos benefícios previdenciários e sociais continuam se constituindo como as melhores oportunidades de renda individual das mulheres, embora não o seja quanto ao empoderamento público, analisado através das variáveis: participação em sindicatos, participação em organizações religiosas e políticas públicas.

Conforme os dados da pesquisa, as agricultoras barbacenenses opinaram que participam das organizações sindicais e associativas, mas tal participação mereceu ressalvas dos extensionistas rurais, que caracterizaram essa participação feminina das agricultoras como mais instrumental do que orgânica, ou seja, advindas de um sentimento de obrigatoriedade. Tal fator elencado, adicionado do fenômeno da masculinização das reuniões das associações e as agricultoras sem voz pública são fatores que evidenciam uma participação feminina denominada por Pretty (1996) de participação passiva, uma das modalidades de não participação, uma vez que esta não promove o desenvolvimento pessoal e nem grupal das agricultoras, elas participam pelo direito de participar, mas não possuem a liberdade substantiva, nesta participação.

As agricultoras perceberam que a participação nas associações favoreceu o acesso feminino às políticas públicas voltadas para o campo, além do acesso aos benefícios previdenciários. A participação das agricultoras nas organizações sindicais se deu em um percentual de 75% e expressam um ganho de poder por parte das mulheres das comunidades rurais barbacenenses, uma vez que, por meio desta participação, elas podem acessar e obter direitos previdenciários. As organizações religiosas se destacaram como sendo as de maior participação e a participação preferencial das agricultoras pesquisadas no espaço público próximo. Esta perspectiva de participação fortalece o capital social dos indivíduos que dela participam, mas ainda se mantém em nível de proximidade e com vínculos muito orgânicos, com base na vizinhança e no parentesco.

A hipótese I desta dissertação foi comprovada, uma vez que identificamos a resistência da cultura patriarcal, no trabalho das agricultoras pesquisadas vistos como

ajuda e não trabalho, sendo que as citadas agricultoras não possuem nenhum controle, ou mesmo acesso aos recursos financeiros, oriundos da comercialização dos seus produtos.

A hipótese II foi refutada uma vez que as análises das perspectivas do empoderamento público apontaram que este não foi alcançado, pelas agricultoras barbacenenses pesquisadas.

Concluindo este trabalho destacamos que a política pública do PAA tem alcançado seus objetivos no que tange à melhoria da vida de mulheres e homens das comunidades rurais, dinamizando o escoamento e venda dos produtos, bem como valorizando com preços de mercado estes produtos. Nas perspectivas do gênero, o PAA contribui para a melhoria da vida das agricultoras por meio do acesso à renda e a sua inserção dos produtos produzidos pelas mulheres em suas modalidades, especialmente na Modalidade de Doação Simultânea. Nas comunidades rurais de Barbacena, a participação no PAA dinamizou a vida social nas comunidades rurais, com reuniões, troca de informações, desenvolveu os vínculos e sentimentos de cooperação entre agricultores e agricultoras na organização e entrega de seus produtos, para atender à demanda de venda para PAA, aproximando os extensionistas das localidades rurais e seus habitantes na execução da citada política pública. Contudo, o PAA pode melhorar e avançar mais, ampliando as cotas de participação das mulheres, reduzindo os prazos de pagamento dos produtos fornecidos pelos agricultores, atentando para as peculiaridades das localidades e, principalmente, incentivando uma maior participação feminina nas suas diversas modalidades, concedendo a elas uma cota específica e independente da cota concedida ao esposo. Com isto, o PAA pode fortalecer a busca pela equidade de gênero, oportunizando a igualdade de participação, entre homens e mulheres e, assim, valorizar e reconhecer o real potencial das mulheres rurais dentro da agricultura familiar.