O conceito de diversidade associa-se, indiscutivelmente, ao de diferenciação pedagógica. O reconhecimento da existência de uma vasta diversidade de alunos, com diferentes capacidades, perfis, ritmos de aprendizagem, culturas e etnias diferentes implica a aceitação de que nem todos aprendem da mesma forma, nem ao mesmo ritmo, sendo necessário a adoção de diferentes estratégias e atividades de aprendizagem, dentro e fora de sala de aula, que conduzam ao sucesso educativo de todos os alunos.
De acordo com Santos (2008), os alunos são diferentes, têm diversas formas de aprender, sendo a aprendizagem um direito universal, de todos, o professor, enquanto principal responsável pela construção de experiências de aprendizagem, deve ter a capacidade de gerir o currículo tendo em conta essa diversidade. É, enquanto o processo de ensino e aprendizagem se desenvolve, que faz sentido procurar adequá-lo às características dos diferentes intervenientes da comunidade de aprendizagem.
Só é possível a diferenciação pedagógica através da interação entre o aluno, o professor e o saber. Przesmycki (1991) propõe o conhecido triângulo pedagógico onde considera três dispositivos de diferenciação de forma a potencializar a aprendizagem (figura 2)
Figura 2 – Articulação entre os dispositivos de diferenciação (adaptado de Przesmycki, 1991)
A forma de escolher em cada momento qual destes dispositivos utilizar pode depender de diferentes critérios, como seja as necessidades dos alunos, as dificuldades reveladas num dado momento, os seus interesses e os estilos de aprendizagem em presença.
Madureira e Leite (2003), referem um conjunto de situações que requer a definição de tipos e graus de diferenciação distintos são eles:
• a diversidade decorrente da heterogeneidade de qualquer grupo e que corresponde a diferentes interesses, capacidades, pré-disposições;
• a diversidade que a própria frequência escolar vai criando, pela acumulação de diferenças nos ritmos de aprendizagem e nos resultados dos alunos;
• a diversidade decorrente de problemáticas específicas dos alunos e que dão origem a necessidades educativas especiais. (p.97).
As mesmas autoras referem que, entre a primeira e a última situação, as respostas encontradas são muito diversas e vão desde a diversificação de estratégias de ensino ao desenvolvimento de currículos específicos individuais.
No entanto, e ainda de acordo com as autoras, é necessário ter presente:
“diferenciar não significa elaborar 25 projetos curriculares diferentes nem fornecer aulas individuais a cada um dos 25 alunos de uma turma…existe um vasto leque de alternativas intermédias mais eficazes que passam pela organização do trabalho letivo, utilização dos recursos disponíveis, gestão dos tempos e espaços de
aprendizagem.”(p.97)
Neste sentido, é de extrema importância que a escola se envolva em projetos, internos e externos, através da criação de parcerias ou protocolos com as mais diversas entidades, rentabilizando os recursos da comunidade, sempre no sentido de criar respostas eficazes e tornar as diferenças, normais (Madureira e Leite, 2003).
O processo de diferenciação deve permitir a criação de condições para um trabalho colaborativo (Madureira e Leite, 2003) favorecendo a participação e interação dos alunos com os seus pares contribuindo para a promoção da sua socialização, autonomia e responsabilização.
De acordo com toda a investigação analisada (Correia, 2003; Madureira e Leite, 2003), o trabalho colaborativo e de cooperação deve estender-se aos diversos profissionais que trabalham com as crianças: aos professores de ensino regular, aos professores de educação
especial, aos psicólogos, aos terapeutas e também aos pais que devem participar cada vez mais ativamente no processo de aprendizagem dos filhos.
Estes agentes deverão realizar atividades que promovam a individualização do ensino, que permita a aplicação de estratégias que respeitem as potencialidade e necessidades dos respetivos alunos e que permitam o combate da segregação a que alguns alunos estavam sujeitos no passado. (Madureira e Leite, 2003)
Na opinião de Madureira e Leite (2003), a diferenciação na sala de aula comporta riscos e uma grande capacidade de organização e gestão referindo alguns aspetos, tais como:
• a organização dos espaços da sala de aula e/ou da escola, em oficinas, clubes, de modo a que possam realizar tarefas diferentes num mesmo espaço e tempo;
• a organização dos objetivos específicos e conteúdos a abordar, realizada em conjunto com os alunos e planeada em linguagem que lhes seja acessível, de modo a que estes possam antecipar as matérias a bordar e verificar aquelas que já foram trabalhadas;
• a organização das atividades a realizar em grande grupo, em pequenos grupos e individualmente, não descurando qualquer destas dimensões e não fazendo prevalecer umas sobre as outras;
• a seleção ou elaboração de recursos didáticos adequados às aprendizagens pretendidas e passíveis de serem usados de forma autónoma pelos alunos, os quais vão desde os mais simples materiais para construção de algo pelos alunos, até ao “software” educativo relativo a determinado tema;
• a criação de instrumentos de autorregulação e auto verificação das atividades realizadas e das aprendizagens alcançadas, sem as quais o aluno continua dependente do professor para saber o que vai fazer a seguir, em que ponto do processo se encontra e o que lhe falta fazer (p.103).
De acordo com as mesmas autoras, os estudos realizados nesta área revelam que, os professores experientes e com capacidade de reflexão sobre a sua própria prática pedagógica, e que têm em conta as opiniões dos alunos, têm facilidade em encontrar estratégias que conduzam à diferenciação. De acordo com a investigação realizada, as boas práticas pedagógicas, são apropriadas a todos os alunos, quer aos alunos com NEE quer sem NEE, podendo os primeiros necessitar de alguma adequação a nível do tempo ou na abordagem aos assuntos, não diferindo grandemente das estratégias usadas para os outros alunos.
Tendo em conta a crescente diversidade da população escolar, os professores e a própria escola, terão de adotar processos de organização e dar respostas diferenciadas a alunos com características e necessidades distintas uns dos outros.