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Neste tópico, explanaremos brevemente de que modo a forma linguística “nós”

produz alguns efeitos de sentido. Para tentar guiar nosso percurso, tomamos como questão a ser respondida a seguinte: qual o efeito de sentido produzido por “nós” nos discursos

14The special character of presidential inaugural addresses is defined by these general epideictic features and by the nature of the inauguration ceremony. Inauguration is a rite of passage, a ritual of transition in which a newly elected president is invested with the office of the presidency. As a celebration of democratic change and continuity, the inauguration is a singular moment at which the president has a platform from which to demonstrate a capacity for leadership, an appreciation of the nation's values, a sensitivity to key issues facing the nation, and an ability to mobilize and unify the citizenry in support of a new administration. Campbell & Jamieson (2008, p. 30)

presidenciais de posse e sua articulação com os sentidos de povo, apresentados no capítulo precedente. Benveniste (1966) afirmava que não podíamos atribuir a “nós” um mero sentido de plural de “eu”; segundo o autor, ele deveria ser tratado como a possibilidade de o enunciador trazer para seu dizer outros enunciadores. A fim de corroborar nossa linha de raciocínio, indicamos novamente a distinção feita por Benveniste (op. cit.):

O “não-eu” implícito e necessário em “nós” é notoriamente susceptível de receber, em línguas muito diversas, dois conteúdos precisos e distintos. “Nós” se diz de u’a maneira para “eu+vós” e de outra para “eu+eles”. São as formas inclusiva e exclusiva que diferenciam o plural pronominal e verbal da primeira pessoa numa grande parte das línguas ameríndias, australianas, no papua, malaio-polinésico, dravídico, tibetano, mandchu e tunguze, nama, etc.

Dessa feita, entram em jogo os procedimentos enunciativos, basilares à relação estabelecida ente o enunciador e sua plateia, que é significada pelo sentido produzido pelo “nós”, quer ele signifique “eu+vós”, sendo considerado inclusivo; quer signifique “eu+eles”, considerado exclusivo. Não obstante, Charaudeau (2008, p. 174) lembra-nos de que são os procedimentos enunciativos que permitem ao enunciador significar-se em seu discurso, colocar-se em cena, implicar seu interlocutor no mesmo ato linguageiro e apresentar o que é dito como não sendo sustentado por um sujeito específico, mas por uma voz desconhecida. Assim, ele denomina esses modos de dizer, respectivamente, de

enunciação elocutiva; enunciação alocutiva e enunciação delocutiva. Fazendo um breve

comentário a respeito da divisão realizada por Charaudeau (op. cit.) sobre os tipos de enunciação, temos que o autor entende por enunciação elocutiva aquela expressa com a ajuda dos pronomes pessoais de primeira pessoa, acompanhados de verbos modais, de advérbios e de qualificativos, revelando a implicação do orador e revelando seu ponto de vista pessoal. Em nosso corpus, pudemos notar que a presença desse tipo de enunciação dá-se sempre que o enunciador produz um efeito de sentido de promessa, isto é, quando em seu pronunciamento, o sujeito passa a elencar suas promessas sociais. Entretanto, é importante notarmos que, embora apareça frequentemente o uso da primeira pessoa do singular, maior frequência é encontrada do uso da primeira pessoa do plural, o “nós”. Mais

adiante, voltaremos a discutir mais pormenorizadamente o comportamento elocutivo do “nós”.

Por enunciação alocutiva, o autor diz ser aquela expressa com a ajuda dos pronomes pessoais de segunda pessoa, igualmente acompanhados de verbos modais, de qualificativos e de diversas denominações que revelam, ao mesmo tempo, a implicação do interlocutor, o lugar que lhe designa o locutor e a relação que se estabelece entre eles.

Por fim, temos a enunciação delocutiva, que também aparece muito nos pronunciamentos por nós analisados. Segundo Charaudeau (2008, p.178), é por meio da enunciação delocutiva que se apresenta o que é dito deslocando-se a responsabilidade do dizer tanto do locutor quanto do interlocutor, dependendo, assim, do ponto de vista de uma terceira voz, a “voz da verdade”. Cria-se, assim, um efeito de evidência dos sentidos, apagando-se os traços dos interlocutores, dando ao discurso um efeito de sentido de objetividade. Segundo o autor (CHARAUDEAU, 2008, p. 179),

A enunciação delocutiva faz o auditório entrar em um mundo de evidência e, empregada no discurso político, paramenta o orador como se fosse um soberano, por ele é colocado acima da massa e se faz portador de uma verdade estabelecida.

Dessarte, é por meio da enunciação delocutiva que poderemos verificar a imagem que cada presidente constrói de si, em relação àquela que ele tem do povo, de modo que possamos compreender se ele se coloca como estando acima da massa, como sendo o

“portador de uma verdade estabelecida”, ou se coloca como fazendo parte dela,

compartilhando de suas ideias e perspectivas, ficando para esta parte a caracterização desse sujeito político em seu próprio discurso. Como nos diz Courtine (2006, p. 137),

(…) compreendemos melhor porque hoje ainda as carreiras políticas se constróem e se destroem ao sabor dos acidentes biográficos, mesmo dos mais distantes; porque eles tornam retroativamente suspeita toda a existência. Desse modo, o candidato Bill Clinton teve de reconhecer que consumiu maconha há vários anos atrás, quando outrora ainda era moço. (...)

Na continuidade do trabalho, apresentaremos as análises dos recortes retirados dos pronunciamentos que nos dão uma ideia de como os enunciadores se apresentam para seu auditório, criando, assim, uma imagem de si em seus discursos tendo como ponto de partida a temática abordada ao se referir ao povo; aos modos em que cada presidente fala de si, sua auto-designação; os modos de enunciação, em que será analisado o uso do “nós” e os registros linguísticos. Passemos, portanto, à análise da construção imaginária de Tancredo Neves.