• Sonuç bulunamadı

Após toda uma explanação sobre seu retorno ao Palácio do Planalto, por vias do voto popular, “povo” aparecerá no seu pronunciamento de posse do segundo mandato apenas no oitavo parágrafo, ao falar sobre as mudanças por que o Brasil passou, mostrando que o país encontrava-se em uma situação diferente daquela que lhe foi deixada ao assumir seu primeiro mandato, em 2003; nesse sentido, Lula exalta seu compromisso para com o povo.

(L1) É igual e diferente o Brasil; é igual e diferente o mundo; e, eu, sou também igual e diferente. Sou igual naquilo que mais prezo: no profundo compromisso com o povo e com meu país. Sou diferente na consciência madura do que posso e do que não posso, no pleno conhecimento dos limites. Sou igual no ímpeto e na coragem de fazer. Sou diferente na experiência acumulada na difícil arte de governar.

Aqui, “povo” e “país” aparecem como complemento exigido para a completude do sentido de “compromisso”, caracterizando uma espécie de aliança entre o presidente, o povo e o país. Esse compromisso rememora algumas das características apresentadas em seu primeiro mandato, quais sejam, a mensagem de mudança dada pela população brasileira; as provas de grandeza e generosidade dadas pelo povo; a erradicação da fome por que passam “o irmão e a irmã” brasileira. Logo, nessa primeira ocorrência de “povo”, seus sentidos estão ancorados interdiscursivamente àqueles estabelecidos durante seu primeiro pronunciamento de posse, por ocasião de seu primeiro mandato. Esses sentidos são corroborados em sua argumentação ao asseverar o “aumento do consumo popular e do

crédito; e ampliação do emprego e da renda dos trabalhadores (...)”(LULA, 2007),

produzindo outro efeito de sentido para povo, qual seja,

POVO 1: a parcela trabalhadora da população que não possuía poder de compra, e agora possui renda e crédito que favorecem o consumo.

Nota-se que a parcela dos mais necessitados, que sofria devido à economia, doravante, passa a ter renda digna e poder de compra. Devido a todas essas mudanças ocorridas em seu primeiro mandato, o trabalhador agora possui um maior poder aquisitivo,

uma vez que houve a promoção do aumento das vagas no mercado de trabalho, juntamente com o aumento no valor do salário mínimo; assim, é o “trabalhador” o que caracteriza mais firmemente o povo brasileiro, ou seja, aqueles que eram considerados “mais pobres” e, devido às mudanças produzidas pelo governo, tornou-se soberana. Vejam-se as substituições semânticas produzidas ao longo do pronunciamento de Lula (2007):

(…) expansão do mercado interno, com aumento do consumo popular e do crédito; e ampliação do emprego e da renda dos trabalhadores (…)

O trabalhador brasileiro ainda não ganha o que realmente merece, mas temos hoje um dos mais altos salários mínimos das últimas décadas, e os trabalhadores obtiveram ganhos reais em 90% das negociações salariais nestes últimos quatro anos.

(…) Governar para todos é meu caminho, mas defender os interesses dos mais pobres é o que nos guia nesta caminhada. Se alguns quiseram ver na minha primeira eleição apenas um parêntesis histórico, a reeleição mostrou que um governo que cumpre os seus compromissos obtém a confiança do povo.

Em outubro, nossa população afirmou de modo inequívoco que não precisa nem admite tutela de nenhuma espécie para fazer a sua escolha. Ela foi livre e soberana, como deve ser a força do povo.

Analisando os recortes acima, primeiramente, observamos as substituições entre “trabalhadores”, “trabalhador brasileiro”, “mais pobres”, “povo”, “população” e “povo”, novamente. É interessante observarmos que os sentidos deslizam de “trabalhadores” até “povo”, construindo o efeito de sustentação para o sentido de POVO 1, apresentado acima. Dessarte, embora esteja presente na constituição de um “feixe de sentidos” para povo, o que o caracteriza como pertencente a um determinado grupo da “população” – “mais pobres” - é substituído, logo em seguida, por palavras que produzem um efeito de sentido de homogeneização, de generalização, mostrando sua grandeza e sua unidade com palavras como “população”, e o reforço na característica da “força do povo”, já ressaltada no sentido POVO 2, em seu pronunciamento de 2003.

Ademais, ao voltarmos nosso olhar para os seguintes sintagmas: “ampliação do

realmente merece”, “os trabalhadores obtiveram ganhos reais em 90% das negociações salariais”, “defender os interesses dos mais pobres é o que nos guia nesta caminhada”, “nossa população afirmou de modo inequívoco que não precisa nem admite tutela de nenhuma espécie para fazer a sua escolha. Ela foi livre e soberana como deve ser a força do povo”, podemos depreender os seguinte sentidos para povo: aquele que merece ganhar

bem, mas ainda não ganha o suficiente, embora tenha tido aumento significativo em seu salário; os que ainda estão na linha da pobreza; os que não necessitam de auxílio para guiar suas decisões, pois é livre e soberano, tem força.

Podemos aventar a hipótese de uma maior participação popular nos vários setores econômicos, políticos e sociais brasileiros, motivados, em grande parte, por sua melhor qualidade de vida e sua maior renda, o que o possibilita ser livre e soberano em suas escolhas, não permanecendo tão dependente dos desejos governamentais. Todas essas mudanças promovidas em seu governo fizeram com que seu primeiro mandato recebesse a alcunha de “populista” por seus algozes; isso será tema de seu discurso, quando, por meio do jogo de palavras, marcadas pelos sufixos “-ar” e “-ista”, produz-se um jogo de significações que rememoram dizeres sobre o governo de Getúlio Vargas, conhecido pelo epíteto de “Pai dos pobres”, cujo governo era tido como “populista”; assim, Lula (2007) assevera que seu governo “nunca foi, nem é 'populista'. Este governo foi, é e será

popular.”; enquanto o sufixo “-ista” adquiriu, ao longo do tempo, um sentido pejorativo,

quase demagógico, o sufixo “-ar”, formador de adjetivo, mantém-se neutro, sem carga negativa que possa caracterizar negativamente seu uso. Dessa sorte, esse jogo de palavras serve para sustentar a posição do governo de auxiliador dos mais necessitados, corroborando com o sentido de POVO 1, de seu pronunciamento de 2003.

Por ser um mandato de continuidade, podemos verificar neste pronunciamento a presença de sentidos ainda latentes de seu primeiro pronunciamento, mas sendo usados como uma forma de sustentação das benesses promovidas para auxiliar os mais necessitados, o povo. É nesse sentido que sua argumentação vai ao caracterizar suas políticas como a solução dos problemas do povo. E é esse povo, que foi auxiliado durante os quatro anos anteriores, o responsável por seu segundo mandato; por isso Lula afirma ter sido “reconduzido à Presidência da República pela vontade majoritária do povo

brasileiro.(...)”, povo este que por ser livre e soberano “fez uma escolha consciente”. Isso

POVO 2: aquele que merece ganhar bem, mas ainda não ganha o suficiente, embora tenha tido aumento significativo em seu salário;

POVO 3: os que ainda estão na linha da pobreza;

POVO 4: os que não necessitam de auxílio para guiar suas decisões, pois são livres e soberanos, têm força.

Dessa feita, como presente em POVO 4, o povo também é caracterizado como capaz de se expressar livremente, sem a necessidade de feitores que lhe digam o que devem e podem fazer ou dizer, em troca de alguns favores políticos e econômicos; assim, em seu pronunciamento, esse povo sem feitores, capaz de se expressar livremente é o que

“constitui a verdadeira opinião púbica do país”. Podemos observar que “opinião” é

predicada pelo adjetivo “verdadeira”, criando um efeito de sentido de que há opiniões públicas que não o são, ou seja, que são manipuladas a favor dos interesses de alguns. As opiniões que são, então, “verdadeiras” são as do povo, que é livre e soberano para realizar suas decisões.

Ao finalizar seu pronunciamento de posse, Lula o faz com o seguinte pedido:

Quero pedir-lhes, apenas, que olhemos mais para o que nos une do que para o que nos separa. Que concentremos o debate nos grandes desafios colocados para o nosso país e para o mundo. Que estejamos à altura do que necessita e deseja o nosso povo.

Lula termina seu pronunciamento com um pedido de união entre a população e o governo, deixando as divergências de lado, na busca de vencer os desafios que ainda existem. Há uma conclamação geral para que as necessidades do povo sejam sanadas com a ajuda de uma coletividade, não apenas com as feitorias do presidente.

Podemos perceber que, neste pronunciamento de posse do segundo mandato, os sentidos para “povo” são totalmente diferentes daqueles que encontramos no do primeiro mandato. Enquanto em Lula (2003), “povo” é caracterizado como “os mais necessitados,

que sofrem devido à economia e pela falta de segurança, saúde e outras necessidades básicas”, embora também se constituam “aqueles que são alegres, que confiam e si mesmos porque conhecem sua força”, neste segundo mandato, após quatro anos de seu

governo, e das possíveis mudanças ocorridas no cenário político-econômico-social do país, o “povo” aparece agora como “a parcela trabalhadora da população que não possuía

poder de compra, e agora possui renda e crédito que favorecem o consumo.” e “econômico, social e politicamente livre para a escolha de seus governantes”, uma

metamorfose discursiva que indica a metamorfose social por que passou o país durante o período de 2003 a 2007.

No final de 2010, novas eleições presidenciais ocorreram; contudo, desta vez, Lula não pôde concorrer uma vez que já havia sido reeleito. Em seu lugar, o Partido dos Trabalhadores escolheu como candidata a, então, Ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Vana Rousseff. Após quatro meses de corrida presidencial, o país elege a primeira mulher para o mais elevado cargo no país: a presidência da República. Após um ex-metalúrgico, sindicalista, trabalhador chegar ao posto mais alto que uma pessoa pode ocupar no serviço público, agora era a vez de uma mulher. Dilma Rousseff era filiada ao Partido dos Trabalhadores; sua vida política iniciou-se ainda cedo, quando, durante os anos de chumbo, lutou contra as espúrias do regime militar, sendo presa e torturada. Tendo como objetivo de dar continuidade à já estabilizada política governamental iniciada por Lula, em 2003, Dilma Rousseff sobe a rampa do Palácio do Planalto, no dia 1º de janeiro de 2011, para receber a faixa presidencial e realizar seu pronunciamento de posse. Passemos à análise do pronunciamento realizado por Dilma Rousseff, na busca pela constituição dos sentidos de “povo”.