O pronunciamento oficial de José Sarney, em rede nacional de rádio e tevê, ocorreu em outubro de 1985, meses depois de ter assumido a presidência da República. Em seu pronunciamento, o vocábulo “povo” aparece onze vezes, quer seja no singular, quer no plural; isso demonstra, em alguma medida, uma maior referência a essa parcela da população. Contudo, vamos procurar verificar a qual parcela específica da população Sarney se refere ao utilizar a palavra “povo”. Tomemos de início os recortes a seguir:
(JS1) Brasileiros.
(JS2) Eu, José Sarney, homem simples como todos do povo, não sou infalível. Sou presidente de um país democrático, presidente e cidadão, responsável pelo governo que tenho de consolidar, pelo exemplo, pelo trabalho, pela correção, pela vontade e pelo dever de acertar, pela obrigação de servir ao Brasil e ao seu grande povo.
Nesses dois recortes apresentados, podemos observar que o sentido de “povo” está relacionado ao de “brasileiros” por uma referência à questão da territorialidade, ou seja, pelo pertencimento a um território específico, ao país, pela metonímia criada entre “brasileiros” e “(...) servir ao Brasil e ao seu grande povo”. Entrementes, observamos a presença do vocábulo “povo”, na forma de aposto explicativo sobre o nome “José Sarney”, ou seja, como uma forma de pré-construído, que afirma que todos aqueles que pertencem ao povo são pessoas simples e apresentam falhas, isto é, não são alçados a deuses ou semideuses, mas a pessoas normais e esperam para ser servidos por ele, o presidente, aquele que, ambivalentemente, pertence ao povo, mas faz pelo povo, o serve. Temos, do mesmo modo, o sentido de povo sendo produzido em contrapartida à caracterização de José Sarney como o “responsável pelo governo (…) pelo trabalho, pela correção, pela
vontade e pelo dever de acertar, pela obrigação de servir ao Brasil e ao seu grande povo.”; em vista disso, o “povo” é aquele que espera para ser servido.
Nesse enunciado, cujo tema é a caracterização do sujeito presidente, os efeitos de sentido produzidos para povo são:
POVO 1: aqueles que são corretos, que servem ao país e buscam sempre acertar; são simples, falíveis, mas grandes e que devem esperar para serem servidos pelo presidente, que, embora pertença a ele, o transcende.
Na mesma esteira de seu antecessor, Sarney caracteriza o povo como solidário e simples, humilde; contudo, há ainda uma separação da população brasileira relativa a questões econômicas, por isso há uma convocação para um acordo nacional em que haverá o apoio de todas as parcelas da população, em que Sarney propõe “o grande acordo
nacional do qual o povo será a alavanca”. Assim, o povo deixará de ser a parcela da
população que só observava os acontecimentos e passará a fazer parte deles, na medida em que será beneficiado pela serventia do governo, ou seja, o povo será o promotor, a “alavanca” do progresso nacional na medida em que o governo promoverá o progresso tendo em vista os mais humildes, simples e falíveis. Esse mesmo sentido aparece no último parágrafo do pronunciamento, quando há novamente uma exaltação das qualidades do povo brasileiro, caracterizando-o como “um grande povo”, por ser solidário, simples e que lutou com dignidade e austeridade para o fim do regime militar.
Além desse, temos um outro sentido para “povo”, qual seja:
POVO 2: a alavanca para o progresso nacional; responsável, na medida em que será o alvo das transformações sociais.
É sendo o agente dessas transformações que o povo manterá sua “soberania nacional”, ou seja, essa parcela da população que é simples e luta para alavancar o país social e economicamente, por meio das mudanças produzidas, e por serem corretos e buscarem sempre servir o país, auxiliará o governo a manter os compromissos econômicos e a honrá-los. Assim, sempre que há uma temática relacionada à economia, e seu efeito sobre a dignidade e austeridade da população, há um efeito de sentido eufórico para o povo, caracterizado como a “alavanca para o progresso nacional”.
Ainda na temática da soberania nacional, um outro sentido para “povo” aparece no pronunciamento de José Sarney. Ao enunciar que
(JS3) O Brasil honrará os compromissos e acordos firmados internacionalmente. Continuará irredutível na defesa dos direitos de autodeterminação dos povos e contra as soluções dos dissídios internacionais pelo uso da força. (…) Temos consciência de sermos um traço de união entre o mundo velho e o mundo novo, que está a surgir, através da cooperação fraterna entre os povos.
José Sarney produz um efeito de sentido de “nação” para o plural “povos”; assim, temos uma substituição simétrica neste discurso, produzindo uma sinonímia entre “povos” e “nações”, uma vez que podemos ter a interpretação de que há um auxílio recíproco entre as nações; ou seja, um terceiro sentido de “povo” aparece em seu pronunciamento; assim, temos:
POVO 3: as pessoas indistintamente que habitam um território que goza de autonomia política e econômica.
Nesse sentido, o plural, presente em povo 3, produz um efeito de sentido de homogeneidade em relação às questões políticas apresentadas para os sentidos 1 e 2 de povo, deslocando seu sentido para o âmbito geográfico e político, da constituição territorial de uma nação; dessarte, os sentidos de “povo” presentes no pronunciamento de José Sarney referem-se a uma reorganização social, de modo que as pessoas, por serem simples, corretas e humildes, necessitam de alguém – o presidente – capaz de promover as
transformações que levarão o país a melhores condições sociais; assim, ter vontade de acertar e agir corretamente demonstra, também, uma caracterização moral do cidadão, ou mais especificamente, das pessoas que são falíveis, mas divide essa falibilidade até mesmo com o presidente da República. Além disso, tem-se um sentido para “povo” relacionado à autonomia político-econômica do território nacional, ou seja, como uma referência a “nação”, que promove a homogeneidade das pessoas que habitam um determinado espaço geográfico comum.
Por conseguinte, podemos observar que os sentidos de povo no pronunciamento de José Sarney se coadunam, aos presentes no de Tancredo Neves, na medida em que, em ambos, há um sentido de homogeneização da sociedade e de dignidade do povo brasileiro; num, por sua caracterização enquanto digno e austero; noutro, por ser o povo correto e
buscar sempre acertar.